Uma Luz na Escurido  

Catherine Anderson

Ttulo original: Baby Love.



 Sem um cntimo, desesperada mas apesar de tudo decidida, Maggie Stanley apressa-se atravs de uma desabrigada noite de Inverno, com o seu beb muito chegado a si,
tentando fugir a um passado perigoso, que tanto a magoou. Mas nessa hora de extrema solido, na fase mais sombria que jamais viveu, a compaixo de um desconhecido, 
muito atraente mas pobre como ela, surge como uma luz na escurido e proporciona-lhe o conforto e o carinho que sempre desejou e nunca teve.
E contudo, apesar de toda a ternura que jaz encoberta no corao de Rafe Kendrick, Maggie consegue adivinhar nos olhos dele uma alma to magoada como a sua, assim 
sendo ela tem a absoluta certeza de que no deve voltar a confiar em nenhum outro homem.
Rafe, porm,  bem mais do que aquilo que parece.  um homem enigmtico e secreto, que poderia dar a Maggie o cu e a terra, no fora a circunstncia de ter jurado 
a si prprio viver sozinho o resto da sua vida.
Mas s vezes, sem aviso prvio, o amor consegue transformar o mundo mais frio e implacvel num verdadeiro paraso.

Uma Luz na Escurido
Traduo de Jos Freitas e Silva
ULISSEIA
Ttulo original: Baby Love
Copyright (c) 1999 by Adeline Catherine Anderson
Fotografia da capa: (c) Super Stock Casa da Imagem
Todos os direitos reservados para a lngua portuguesa excepto Brasil por
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Composio: Fotocompogrfica, Lda.
Impresso em Fevereiro de 2008 por
Tilgrfica - Sociedade Grfica, S
Dep. legal n.? 271 174 08






A meu pai, George S. Son, que me revelou dois dos mais doces segredos da
vida: que o corao humano tem uma capacidade ilimitada de amar e que os
laos entre pai e filha nada tm a ver com gentica. Voc  uma prova viva de que as
maiores e melhores coisas so verdadeiramente do Texas.




Prlogo
Numa noite gelada do Idaho, o vento soprava pelo passeio escuro e deserto, trazendo consigo odores a pinheiro bravo e abeto, puros como neve. As rajadas empurravam 
Maggie Stanley por trs, atirando-lhe os longos cabelos pretos para os olhos e atravessando o fino casaco de nylon. A tremer de frio, abraava contra ela o beb 
bem agasalhado e obrigava-se a continuar a andar. Parecia-lhe que os ps pesavam uma tonelada e estava com medo de escorregar no gelo negro e traioeiro que revestia 
o cimento partido.
Um claro de faris de automvel vindo de algures atrs dela provocou-lhe um sobressalto. Encostou-se o mais que pde a um prdio, a rezar para que as sombras projectadas 
pelos beirais a encobrissem. O carro atravessou o cruzamento. No  o Lonnie. A coxear encostada  parede, Maggie engoliu um soluo, to possuda pelo medo que j 
nem sentia as pernas. Meu Deus, tenho que sair da rua. Tenho que sair da rua!
Esgueirou-se num passo arrastado, sempre estreitando Jaimie contra si, para o proteger. A cada passo que dava, o pesado saco das fraldas batia-lhe na perna magoada. 
Quando o medo passou e voltou a sentir as pernas, a dor dos golpes tornou-se to atroz que lhe subiu um vmito  garganta a arder.
 L em cima,  sua frente, viu na sombria escurido um letreiro apagado.
As letras pintadas com nitidez atraam-na como um radiofarol. Pacific Northern. Conseguira. Estava quase l. J s faltavam uns passos. Sem poder respirar, vacilou 
e parou quando chegou ao letreiro e olhou incredulamente para as correntes que formavam a cancela. Do lado de l da forte rede de arame ficava o parque de manobras 
dos caminhos-de-ferro, onde esperava arranjar uma boleia.

Captulo Um
Levado pelo vago irrealismo dos sonhos, Rafe Kendrick rendeu-se s imagens que lhe passavam devagar pela mente. Quanto mais mergulhava no sono, mais nitidez adquiriam 
os pormenores, mais reais se tornavam. Sorria de maneira sonolenta. Estava na margem do lago, pensava ele, no muito longe da primeira casa do rancho. Por entre 
os troncos de rvores de folha persistente, conseguia ver a vastido descontrolada de tijolo revestido de hera que era a casa da famlia, com trs das chamins recortadas 
no cu azul de Vero. A brisa suave trouxe-lhe o relincho de um garanho, vindo do pasto a norte, por trs dos estbulos. Lar. At certo ponto, sabia que era apenas 
um sonho, mas parecia maravilhosamente real, uma recordao viva de tudo o que tinha perdido. Pedrinhas desgastadas pela gua escapavam-se-lhe por baixo dos ps 
 medida que seguia a curva da margem. O agitar da gua acalmava-o. Inspirou fundo, identificando os odores outrora to vulgares que mal dava por eles. Abeto e pinheiro. 
Relva aquecida pelo sol e terra frtil. Um arrepio provocado pela brisa, mesmo num dia de Vero, aquela lagoa de grande altitude estava cercada de picos cobertos 
de neve.
O passo abrandou  medida que avanava numa ligeira subida.  sua frente, num pequeno bosque com sombras, viu uma gua castanho-avermelhada e um cavalo castrado 
amarelo acinzentado. Pastavam, satisfeitos, com as rdeas presas descuidadamente em ramos de carvalhos jovens. Ali perto, jaziam na relva duas selas adornadas com 
mantas.
Uma sensao de "dj vu" invadiu Rafe. Recordou esse dia. Ele e Susan tinham levado os filhos a dar um pequeno passeio a cavalo pela floresta. E, depois, tinham 
voltado para ali, para um piquenique junto ao lago. Tinham-se divertido a cantar canes estpidas que compunham quando andavam juntos, para entreter o filho de 
trs anos, Keefer. Tinha sido um passeio quase perfeito e tinham-no terminado ali porque gostavam muito de estar perto da gua.
Perscrutou avidamente a clareira, to ansioso de vislumbrar a famlia que prendeu a respirao. Atrado por uma toalha de ch vermelha axadrezada que ondulava ao 
vento, o seu olhar acabou por pousar primeiro no cesto de verga de piquenique. A tampa articulada estava parcialmente levantada por causa do gargalo de uma garrafa 
de vinho que saa do cesto onde a sua ama e governanta, Becca, a tinha metido para acompanhar a refeio...
Ah, sim... lembrava-se to claramente de tudo - a Susan, de jeans justos desbotados e blusa de algodo cor-de-rosa, o cabelo loiro apanhado em cima com uma mola 
a cair-lhe sobre os ombros numa chuva de seda. Quase conseguia ouvir o som das suas gargalhadas  volta dele - e sentir o cheiro de rapazinho do filho, a montar 
o cavalo amarelo - acinzentado  sua frente. Depois de virem ali comer, tinha estado a embalar a filha beb para a adormecer, enquanto Susan levantava a toalha, 
e lembrava-se perfeitamente da sensao de ter o corpo rolio da menina nos braos.
Rafe tinha o sobrolho um pouco franzido. Aquilo era demasiado real para ser um sonho. Conseguia mesmo ouvir o agitar da gua e sentir a brisa a acariciar-lhe a pele. 
A cada passo que dava, os seixos da praia enterravam-se na sola das suas botas de montar. Os sonhos no eram to ntidos assim.
Oh, meu Deus. Poderia arriscar-se a ter esperana? Talvez tivesse ocorrido um milagre e, de algum modo, tivesse sido arremessado para trs no tempo. Talvez aps 
todo aquele tempo as suas oraes tivessem, finalmente, tido resposta e Deus estivesse a dar-lhe uma segunda oportunidade.
Sim, por favor... Apenas precisava de mais uma oportunidade. Desta vez, no a desperdiaria. Poria a famlia em primeiro lugar. Nunca nada tinha sido to importante 
para ele como a mulher e os filhos. Nada. Apenas se tinha visto to enredado nas responsabilidades e obrigaes quotidianas de marido e pai que, por um momento, 
tinha perdido de vista o que era importante.
Nunca voltaria a cometer esse erro.
 Querendo, precisando acreditar que tudo aquilo era mesmo real, cruzou os braos com as mos agarradas aos pulsos palpitantes e perscrutou a clareira. Susan e os 
midos esto deitados a curta distncia do cesto de piquenique. Estavam os trs a dormir a sesta numa manta "navajo" que ele lhes tinha estendido na relva. As suas 
formas aninhadas estavam salpicadas de sol filtrado pelos ramos dos abetos que tinham por cima.
Susan estava deitada de costas, com um filho de cada lado, o rosto doce relaxado no sono, a boca sensual curvada num leve sorriso de satisfao. O filho, Keefer, 
tinha adormecido com os braos  volta do pescoo dela e continuava agarrado a ela, com a bochecha macia de beb encostada ao seu peito. Chastity, de seis meses, 
estava aninhada no outro brao de Susan, com os caracis dourados a cintilarem como pequenas gotas de mel.
Rafe encaminhou-se para eles, com uma dor aguda a magoar-lhe o peito. Meu Deus, como ele os amava e h tanto tempo - tanto tempo - que no os via. Obrigado, meu 
Deus! Queria gritar e correr para percorrer mais depressa a distncia. Mas no. 
No conseguia sacudir a ideia de que aquela cena sada do passado talvez s existisse na sua imaginao. Um som alto ou um movimento sbito podiam estilha-la como 
se fosse vidro frgil.
 medida que se aproximava da manta, o rosto de Susan tornava-se menos ntido. Semicerrou os olhos, procurando v-la com mais nitidez. Mas por mais que tentasse, 
as feies dela continuavam a ser uma mancha indistinta, enquadrada por uma aurola de cabelo dourado. Parou, olhando com tanta intensidade que os olhos ardiam-lhe. 
Era como tentar v-la atravs de um vidro embaciado.
- Susan? - chamou suavemente. - Acorda, querida. Sou eu, o Rafe.
Ela no reagiu ao som da sua voz. Estendeu a mo para ela, sem poder negar o desejo ansioso que tinha de lhe tocar. Quando as pontas dos dedos estavam quase a tocar-lhe 
na face, o cho fugiu-lhe debaixo dos ps e pareceu dar um abano. Num instante, a mulher e os filhos desapareceram e viu-se cercado por uma interminvel e horrivelmente 
vazia escurido.
- Susan? No te vs embora outra vez! Susan?
Sentiu um ligeiro toque no brao e, quando se virou, apoderou-se dele uma sensao de vertigem. Quando essa sensao passou, percebeu que o que o rodeava tinha mudado. 
Ainda estava  beira do lago, mas j era noite.
Susan estava sentada ao lado dele na relva e, mais uma vez, no conseguia v-la nitidamente. Era apenas uma presena sombria, e sabia que voltaria a desaparecer 
se tentasse tocar-lhe. Saber isso enchia-o de uma sensao de desespero e dor to profunda que lhe doam os ossos.
O seu rosto era uma oval indistinta e plida na escurido, quando ela se voltou para olhar para ele. 
- Que ests a fazer, Rafe? - perguntou-lhe com suavidade. - Prometeste-me que encontrarias outra pessoa para amar, que no passarias o resto da vida sozinho se alguma 
vez me acontecesse alguma coisa. Agora, olha para ti!
Ps os braos  volta dos joelhos para resistir ao impulso de lhe tocar.
- No consigo, Susan. Eu sei que prometi, mas no consigo. Nunca amarei ningum que no sejas tu. Nunca.
A voz dela soou triste.
- Oh, Rafe, no podes continuar assim, A vida  uma ddiva to preciosa, e tu ests a desperdi-la.
Fechou os olhos. 
- No tenho vida - sussurrou roucamente. - Sem ti e as crianas, apenas estou a ver passar os dias. Porque  que no me entendes?
Estabeleceu-se o silncio entre eles, apenas quebrado pelo som suave do agitar da gua e pelo vento da noite a soprar nas rvores de folha persistente. Outrora, 
esses sons eram como msica, para ele. Agora, ouvi-los s o feria e queria fugir. No entanto, ir-se embora naquele momento era impossvel. Enquanto Susan ali estivesse, 
mesmo daquele modo ilusrio e desolador, no podia deix-la.
- So horas, Rafe - sussurrou ela suavemente, com uma voz que parecia ir e vir - Agora tens que me deixar, a mim e aos midos, e seguir.
Seguir para onde? Ele queria gritar a pergunta, mas dera-se-lhe um n na garganta que lhe tornara difcil falar.
- Continuas a rezar por mais uma oportunidade - murmurou ela. Bem, meu querido, a a tens. No a desperdices nem a estragues porque ainda ests agarrado a fantasmas.
- Estragar o qu?
- Vais ver - Ouviu um sorriso na voz dela: - Abre o teu corao, Rafe. Vais ver.
Rafe estremeceu e acordou no meio de um ressono. Por um instante, pensou que tinha sido o pesadelo que o tinha sobressaltado, mas quando lhe passou aquele estado 
de embriaguez, decidiu que tinha sido outra coisa qualquer. Aps dois anos a vaguear sem destino, tinha aprendido a ter o sono leve, mesmo quando estava bbedo. 
Alguma coisa no estava bem.
No ouvia nada, a no ser o constante rudo seco e metlico produzido pelas rodas dos comboios e o estrpito do vago de mercadorias. Empurrou o seu Stetson para 
trs, para ver os quatro companheiros de viagem, que estavam sentados, encolhidos ao longo da parede traseira do vago, tal como anteriormente, mas agora pareciam 
estar todos a olhar para uma coisa qualquer  esquerda.
Afastando o ltimo vestgio de sono e, ao mesmo tempo, do sonho impressionante que tivera, dirigiu um olhar naquela direco e teve uma surpresa. Uma rapariga? Mal 
podia acreditar nos seus olhos. Apoiando-se no taco de uma das botas, sentou-se mais direito e concentrou nela o olhar.
Um feixe de luar abateu-se sobre ela. Viu que era uma beleza, de constituio fraca, com farta cabeleira morena e aquela invulgar pele branca como leite que se v 
em fotografias mas que raramente se encontra na vida real.
Uma florzinha frgil.
No era provvel. As florzinhas frgeis no apanhavam boleias nos vages. Provavelmente, tinha uma navalha de ponta e mola no bolso e s estava  espera que algum 
filho da me se metesse com ela. Bem, a avaliar pelo interesse que estava a despertar nos seus companheiros de viagem, no teria de esperar muito. Como se sentisse 
o olhar de Rafe a incidir nela, virou-se para olhar para ele e ele viu-se a olhar para os maiores, mais vulnerveis e mais assustados olhos que jamais vira. Teve 
a sensao mais estranha - uma sensao de angstia, dolorosa, exactamente no meio do peito.
Ela baixou to depressa a cabea que pouco tempo teve para analisar a reaco dele. No que fosse preciso um QI de gnio para perceber. Estava bbedo, para comear, 
e h muito tempo que no via olhos que no parecessem fechados e manhosos. "Parecer" era a palavra-chave naquela observao, tinha a certeza. Muitas vezes, as primeiras 
impresses eram decepcionantes, e as mulheres conseguiam ser actrizes consumadas, especialmente o tipo de "duronas" que vagueavam pelos caminhos-de-ferro. A suave 
carcia do luar fazia, sem dvida, com que parecesse mais bonita e mais frgil do que realmente era.
Provavelmente, era to vulnervel como um ourio-cacheiro e duas vezes mais irritante.
Enquanto ela olhava fixamente para baixo, para o casaco que segurava contra o peito, Rafe estudava-a. Uma expresso angelical com feies delicadas. Longas e grossas 
pestanas que projectavam sombras nas faces plidas quela luz fantasmagrica. Um lindo narizinho empinado e um queixo que indiciava sinais de teimosia.
Quem  que, no seu perfeito juzo, se abraava ao casaco em vez de o vestir quando se registava uma temperatura prxima de zero? A porta do vago de mercadorias 
estava encravada e no se fechava, tornando o ambiente l dentro muito mais frio e com mais correntes de ar do que era costume. Sem proteco contra o frio, estaria 
morta quando raiasse o dia.
J para no dizer que nenhuma mulher no seu perfeito juzo subiria para um vago de mercadorias com cinco homens esfomeados de sexo. Correco: quatro homens esfomeados 
de sexo e um ex-rancheiro desinteressado. Mesmo assim, ela sujeitava-se a coisas complicadas. Rafe desdenhou o involuntrio jogo de palavras e abraou com a mo 
o gargalo da sua garrafa de whisky. Graas a Deus, no era problema dele.
Estava demasiado bbedo para a ajudar se as coisas ficassem feias e tencionava embebedar-se ainda mais antes de acabar a noite. Se havia cdigo segundo o qual um 
homem aprendia a viver quando vagueava pelos caminhos-de-ferro, era o de se meter na sua vida. A senhorita estava por conta dela.
Olhando para os outros homens, que ainda estavam a observ-la como se nunca tivessem visto uma fmea, Rafe decidiu que as coisas iam, decididamente, ficar feias. 
No tardava cinco minutos - dez, no mximo.
Pegando na garrafa, encolheu mentalmente os ombros. Ela parecia ter uns vinte e um anos. J tinha idade para ter juzo. No ? Maldita verticalidade. Quem se mete 
nelas, sujeita-se.
Bem, o melhor era ela conseguir resolver o problema. Aqueles imbecis no eram rufies de esquina; eram lixo do pior que andava nos caminhos-de-ferro, eram do tipo 
de s permanecerem numa cidade enquanto fosse novidade e depois iam parasitar a pequena comunidade mais prxima at serem presos e atirados para a cadeia. Dormiam 
debaixo das pontes e dos viadutos rodovirios, arranjando uns dlares aqui e ali para vinho barato a pedir nos semforos perto dos centros comerciais. Levavam todos 
os seus bens materiais de um stio para o outro nas mochilas, vivendo da sua esperteza e dos caprichos da sorte. Quando a sorte os abandonava, jogavam duro e a srio, 
sobrevivendo como pudessem.
Para homens como eles, uma fmea bonita e indefesa era uma rara guloseima.
Rafe desenroscou a tampa da garrafa, para tomar uma bebida. Mas ardia de curiosidade, apesar de tudo. Que diabo estava ela a fazer ali? Tinha demasiada idade para 
estar fugida de casa. Admitiu que pudesse andar a fugir do marido mas, se fosse esse o caso, porqu num comboio? Devia ter-se posto a andar e comprado um bilhete 
de autocarro ou de avio. Rafe tinha a certeza de que no quereria que nenhuma mulher de que gostasse se arriscasse daquela maneira.
 As recordaes de Susan assaltavam-lhe a mente. Tentava evocar uma imagem do rosto dela mas, tal como no sonho, os seus traos fisionmicos continuavam indefinidos. 
O sentimento de culpa apossou-se dele. Ela fora a sua vida. Agora, em pouco mais de dois anos, tinha deixado de conseguir recordar-se do seu sorriso. As suas recordaes 
da famlia eram como fotografias a cores que fossem desaparecendo rapidamente com o tempo.
A ideia magoava tanto que ele sentia como que uma faca a cort-lo at s entranhas.
Inclinou a cabea para trs para beber um trago de whisky. Aquele abenoado ardor prometia o esquecimento e fechou os olhos enquanto o calor se espalhava dentro 
dele, precisando disso - ansiando por isso -, agarrando-se a isso. Amanh arranjaria um biscate e compraria outra garrafa antes de aquela secar. 
No fundo de uma garrafa, encontrava sobriedade e, para ele, isso era abominvel. Quando estava bbedo, pelo menos no conseguia pensar.
De repente, chegaram a Rafe, por cima do rtmico rudo seco e metlico das rodas do vago, vagidos de recm-nascido. Esse som espantou-o tanto que se engasgou.
Um beb? Um remoinho de lcool subiu-lhe ao nariz. Fazia por respirar e sentia os olhos como se fossem saltar-lhe das rbitas. Jesus Cristo!
Dirigiu outra vez um olhar espantado para a rapariga. O corta-vento que ela abraava contra o peito estava a mexer-se. A avaliar pelo tamanho, o beb no podia ter 
mais de um ms. Ela tinha trazido um beb para um comboio de mercadorias?
Dirigiu um olhar preocupado aos outros quatro homens. Um beb lanava uma luz completamente nova sobre as coisas. Poderia ver as coisas de outra maneira quando uma 
mulher se punha a jeito e arranjava sarilhos. Mas como podia ele no fazer nada quando estava envolvida uma criana?
Cortou imediatamente aquele pensamento pela raiz. Ela e a criana no eram problema dele.
No! No queria ter nada a ver com ela, ponto. E, na realidade, na realidade, o que ele queria era que ela calasse a criana. O som pattico dos vagidos do beb 
trouxe de volta recordaes dolorosas de Keefer e de Chastity.
Rafe meteu-se na vida dele. No deixou de reparar no modo como a rapariga se encolheu, como se estivesse  espera que ele lhe saltasse para cima.
Lamento, mana. No estou no mercado.
Cambaleando com cada balano do vago, foi para o extremo oposto, apropriando-se do canto esquerdo da frente, onde podia deitar-se e tratar da garrafa de bebida 
em paz. Parcialmente abafado pelo barulho do comboio, o choro do beb era um pouco menos incomodativo ali. Bebeu um grande gole da garrafa, determinado a consumir 
lcool suficiente para adormecer.
- Cale essa criana, minha senhora! - gritou um dos marginais - Esse choro est a dar-me cabo dos nervos!
 men a isso. Rafe bebeu outro gole de lcool e virou para cima a gola do casaco. Chastity. S chegou aos seis meses com nitidez fotogrfica, relampejou-lhe na mente 
uma imagem do pequeno caixo dela, decorado com flores. Afastou-a com outro gole de whisky, perguntando a si mesmo por que razo conseguia lembrar-se to claramente 
do caixo e no da sua preciosa carinha. Essa ideia f-lo querer atirar a cabea para trs e berrar como o beb.
Tinha assassinado a mulher e os filhos - assassinado to seguramente como se lhes tivesse encostado uma pistola  cabea e puxado o gatilho - e em menos tempo do 
que os trs anos que o filho tinha vivido, j estava a esquec-los. S havia um nome para um homem capaz disso - um filho da me de um intil, de um imprestvel.
- Ou cala o mido, ou ele vai pela porta fora, minha senhora! - gritou outro homem - Mando-o pela porta fora e no pense que no o fao! De qualquer modo, isto no 
 lugar para um fedelho.
Rafe parou com a garrafa de whisky a meio caminho dos lbios. Mesmo com pouca luz, o rosto da rapariga parecia branco como o leite e os olhos, enormes gotas de escurido 
e de medo. Olhando para o homem que acabara de ameaar pr o beb fora do vago, ela puxou o corta-vento para cima do ombro e comeou a procurar algo s escuras 
debaixo dele. Rafe cerrou os dentes para travar uma praga. De todas as coisas que ela podia fazer para resolver o problema, aquela ficava muito mal classificada 
na tabela da esperteza. Embora, para ser justo, achasse que ela no tinha escolha. Se um beb tinha fome, tinha que se lhe dar de comer.
 Os outros homens ficaram atentos como perdigueiros que tivessem avistado um rechonchudo ganso, com os olhares concentrados no que se passava debaixo do casaco da 
rapariga. Os movimentos firmes dela falavam por si.
Rafe deu com ele pasmado como os outros, enquanto ela desabotoava a blusa. Mesmo com o nylon a cortar-lhe a vista, sabia exactamente em que momento o seio dela saltava, 
livre, do soutien. Como se lhe tivessem posto uma rolha, o mido parou repentinamente de gritar.
- Agora, diz l, querida. O que  que tens debaixo desse casaco? - Perguntou um homem.
A rapariga levantou mais os joelhos e inclinou a cabea, com os longos cabelos cados para a frente para esconder melhor a sua tarefa maternal. Rafe viu que ela 
estava a tremer, mas no tinha a certeza se era de terror ou de frio. Ela tinha um ar to pattico que o corao dele contorceu-se.
O beb comeou a gritar outra vez com movimentos frenticos, ela abanou levemente a criana e aconchegou-a mais.
Um dos marginais riu-se: 
- Olha l, coisa doce, se o fedelho no quiser, podes ter a certeza de que eu no recuso.
Merda. Realmente, Rafe no queria misturar-se com aqueles marginais, mas havia algumas coisas a que um homem no podia fugir. 
Quatro montes de esterco a violarem uma rapariga indefesa era uma delas. O mais alarmante  que Rafe duvidava que tivesse passado tanto tempo como isso desde que 
ela dera  luz.
Voltou a enroscar a rolha da garrafa de whisky. Os outros homens tinham, com certeza, navalhas de ponta e mola. Exactamente nessa manh, tinha posto a dele no prego 
para comprar a bebida.
Conhecia modos melhores de morrer do que com as entranhas espalhadas pelo cho sujo de um vago de mercadorias. Mas antes ele do que uma rapariga.
Ela podia esvair-se em sangue at  morte se aqueles malandros se apoderassem dela. Alm do mais, no  que se importasse tanto como isso de morrer - nem com o modo 
como ia desta para melhor. Depressa e sem dor, seria bom, mas um homem nem sempre pode escolher.
Um dos marginais ps ps ao caminho e foi para ao p dela. Os outros trs levantaram-se para o acompanhar.
Isto, na realidade, no  problema meu, tentou Rafe dizer a si mesmo uma ltima vez.
O homem que foi  frente agarrou-a  bruta pelo brao. Ela perdeu o controlo do beb e a criana rolou do seu colo para o cho de madeira encrostado de lixo. Isso 
foi decisivo. Rafe podia ignorar muita coisa, mas um beb ser vtima de brutalidade no fazia parte da lista.
J estava em p antes mesmo de perceber que se tinha mexido. Deitou a mo ao gargalo do garrafo de dois litros e inclinou-se para o pousar no cho, grato por, por 
uma vez, o seu gosto ir para o Early Times e no para uma das marcas mais baratas, engarrafada em plstico. Ir para uma luta  navalha sem nada a no ser os punhos 
nunca fora uma das suas aspiraes. Primeiro, no entanto, tinha de tirar a criana do caminho do perigo.
Depois de envolver o beb no seu casaco e de o levar para o extremo oposto do vago de mercadorias, Rafe pegou na garrafa de whisky e voltou para ajudar a me da 
criana. 
Com o barulhento pouca-terra-pouca-terra do comboio a abafar o som, sentiu-se como se estivesse a assistir a uma cena arrepiante de um filme mudo enquanto percorria 
a passos largos o comprimento do vago. O luar pintava de sombras brancas, cinzentas e pretas os homens que estavam no outro extremo e o estremecimento do comboio 
emprestava aos seus movimentos a rapidez irregular vulgar em filmes datados.
Mas aquilo no era uma cena de um filme projectada num ecr. Era real. A menos que ele interviesse, aquela rapariga nem a uma orao tinha direito. 
Com uma vaga surpresa, Rafe percebeu que j no estava a cambalear. A fria podia ser ptima para fazer passar a bebedeira.
No se incomodou a anunciar a sua chegada antes de comear a dar cabo da festa. Pegou na garrafa de vidro como se fosse um cacete e foi-se a eles.
Maggie arrastava-se pelo cho para se afastar dos ps dos homens, respirando com arquejos pouco profundos. Quando tentava pr-se em p, as pernas estavam to fracas 
que escorregava pela parede abaixo como uma gota de tinta fresca. Comprimindo-se de costas num canto, desviava-se para trs e para a frente para evitar ser pisada, 
com uma mo encostada aos dentes para abafar os gritos.
Ao ver o vaqueiro lutar, recordou-se da primeira impresso que tinha tido dele quando apanhara o comboio, de que talvez fosse perigoso. Tinha razo. O homem desarranjado 
em repouso tinha voltado  vida a bambolear-se, as feies cinzeladas tensas de uma ira selvagem. Para bbedo, movia-se com uma velocidade e uma preciso impressionantes, 
a juba de cabelos pretos em desalinho pelos ombros a dar chicotadas no ar a cada movimento brusco da cabea. A sua figura grande era estranhamente graciosa, msculos 
e ossos a trabalharem numa harmonia de movimento, os tendes das coxas agrupados debaixo das pernas largas dos seus jeans desbotados quando fazia uma finta para 
se defender de um ataque mal-intencionado.
Pareceu a Maggie que a luta tinha acabado quase antes de comear. Botas afastadas, joelhos ligeiramente flectidos, o vaqueiro estava ali de p, a olhar para aquela 
amlgama humana  sua volta ao mesmo tempo que tirava vidros da camisa e das calas. Depois, dirigiu-se a ela, os olhos azul - metlicos a brilharem ao luar.
Aos seus olhos assustados, ele parecia ter quase um metro de largura de ombros e o dobro de comprimento de pernas. Andava com aquele passo grande gingo, ligeiramente 
curvado, como  vulgar nos homens que passaram anos em cima de uma sela. Horrivelmente consciente de que tinha a blusa parcialmente desabotoada, tentou cruzar os 
braos sobre o peito, mas, pela sua vida, no conseguiu fazer funcionar adequadamente os msculos vacilantes dos braos.
Agachou-se  frente dela, a largura dos seus ombros a eclipsar o luar.
Maggie encolheu-se contra a parede. Mesmo na sombra, conseguia ver a dureza das suas feies. Em contraste com a pele morena, os olhos azul - metlicos brilhavam 
e pareciam no perder nada quando a perscrutava.
Por um momento horrvel, pensou que ele queria fazer-lhe mal. No  que ela se considerasse boa prenda, mas duvidava de que ele tambm fosse alguma coisa de especial.
Ouviu um estranho som de choraminga. Demorou um momento a perceber que o som vinha dela. Tentou parar, engoli-lo, mas o som continuou a irromper de dentro dela - 
horrvel e animalesco.
- Est bem? - As grandes mos dele pousaram delicadamente nos ombros dela, as respectivas palmas a irradiarem calor atravs do fino algodo da sua blusa. - No tenha 
medo, querida. No vou fazer-lhe mal.
Maggie j conhecia aquele filme. Estava  espera que os dedos longos lhe apertassem brutalmente a carne mas, em vez disso, ele acariciou-lhe ao de leve os braos, 
com um toque leve como uma pena e to tranquilizador que lhe escapou um soluo de alvio.
- Bem, que diabo!
Ps-lhe um brao duro como ferro  volta da cintura e a nica coisa que ela soube, a seguir, foi que tinha sido posta no colo dele e cingida no seu abrao, uma das 
mos dele a apoiar-lhe firmemente a cabea. Quando lhe empurrou o rosto contra o ombro, o odor masculino a almscar encheu-lhe os sentidos. Para sua surpresa, no 
era um cheiro inteiramente desagradvel, como se poderia esperar de um marginal. Era evidente que, pelo menos, tomava banho de vez em quando.
Ele andava um pouco para c e para l com o balano do vago, uma mo grande a deslizar pelas costas dela. Mesmo uma presso suave na carne magoada doa-lhe e ela 
estremecia quando ele lhe tocava num ponto particularmente dorido do ombro.
Subitamente, ficou quieto e ela sentiu-o hirto. Tirou-lhe a mo da cabea e abriu-lhe cuidadosamente a manga. Aps um momento de espera sem respirar, Maggie pensou 
que o tinha ouvido praguejar, mas o barulho do comboio era to grande que no podia ter a certeza.
- Agora est bem - assegurou ele numa voz mais alta. - E o seu beb tambm. J fui ver. Aqueles filhos da me no lhe fizeram mal nem vo fazer. Prometo-lhe.
A vibrao rude da voz dele enroscava-se  sua volta como gavinhas quentes de fumo, e as carcias delicadas das suas mos aliviavam-lhe o medo. Quando lhe passou 
o pnico, o pensamento de Maggie foi instantaneamente para Jaimie. Virou-se para olhar por cima do ombro para onde estava o beb, no extremo oposto do vago. 
Continuava a lembrar-se de que Jaimie tinha rolado do seu colo para o cho e, a despeito da confiana que o vaqueiro lhe transmitia, no podia deixar de se preocupar.
Oh, meu Deus! Se o beb estivesse ferido, nunca perdoaria a si mesma.
Para sua surpresa, o vaqueiro parecia entender como estava preocupada e afrouxou a fora com que a segurava. Maggie recuou, remexendo desajeitadamente na blusa. 
Sobressaltou-se quando ele, ignorando as suas mos, lhe voltou a abotoar rapidamente os botes.
Ele sorriu levemente, a boca a revirar-se num dos cantos. Mesmo nas sombras, ela conseguiu ver o brilho divertido dos seus olhos.
- Melhor?
Embora no conseguisse imaginar porqu, sentia-se melhor. E se no fosse pura loucura... Ele era o tipo de homem que ningum esperava encontrar num beco escuro.
Afastou o cabelo do rosto. 
- V ver do seu beb enquanto eu me vejo livre destes filhos da me antes que eles voltem a si.
Enquanto se via livre deles? Maggie tinha-se esquecido completamente dos homens que estavam estendidos  volta deles. Agora, deitava-lhes um olhar preocupado, com 
certeza que o vaqueiro no queria dizer simplesmente que ia deit-los para fora do vago. Deu-lhe uma necessidade histrica de rir. Claro que no queria dizer isso.
- Vai correr tudo bem - disse ele, pegando no casaco e na camisola dela e enfiando-lhos nos braos - V ver do seu beb. Eu trato disto.
Tratar? Maggie no ia perguntar-lhe o que queria dizer. Naquela altura, j tinha preocupaes suficientes a olhar por ela e pelo Jaimie. Alm disso, depois do que 
aqueles homens tinham tentado fazer-lhe, mereciam fosse o que fosse.
Tremendo numa reaco desfasada no tempo, pegou em Jaimie, fez uma verificao rpida para se certificar de que estava bem e, depois, foi sentar-se no canto dianteiro 
direito do vago. Segundos depois, ouviu atrs de si o rudo surdo das botas do vaqueiro a sobrepor-se ao som do comboio. Ele parou para pegar no chapu e no casaco 
e, depois, virou-se ligeiramente e olhou fixamente para ela.
- Tome - disse ao estender-lhe o casaco. Como ela hesitasse, deixou-lho cair no colo. 
- Esse corta-vento e essa blusa no chegam para agasalhar o beb. Vista-o - ordenou rudemente, pondo o Stetson na cabea. -  suficientemente grande para dois homens 
e um rapaz. Cobri-los- a ambos e ainda sobra espao.
O calor da pele de ovelha em cima das pernas de Maggie soube-lhe divinalmente.
Estava a ficar gelada; no havia dvidas a esse respeito. A ideia da grossa l a envolv-la era tentadora. Mas achava mal ficar quentinha enquanto ele suportava 
o frio sem nada.
Ele voltou para o seu lugar no canto oposto, resmungando com impacincia e encostando os largos ombros  parede. 
- Tenho que ir a met-la l dentro?
Maggie abanou a cabea e deitou Jaimie ao comprido sobre as coxas erguidas enquanto vestia o casaco. Quando enfiou o beb l dentro e fechou a pele forrada de l, 
o calor rodeou-lhe imediatamente o corpo gelado.
- Obrigada, senhor.
Ele ajeitou-se para ficar mais confortvel e puxou o chapu mais para cima da cara. Com a voz spera e abafada, disse: 
- No h problema. Mas no se afeioe muito a ele. Quero-o de volta quando nos separarmos, na prxima paragem.
Maggie mordeu a parte de dentro da bochecha. 
- No  s pelo casaco. Obrigado por... - A voz desapareceu-lhe como a de um boneco falante que fica sem corda. Engoliu em seco e voltou a tentar - Obrigado por... 
por me ajudar. Arriscou-se a ficar maltratado.
- Sim, bem... - Mexeu-se outra vez - Mas no fiquei; portanto, vamos esquecer o que aconteceu.
Os pensamentos de Maggie voltaram aos quatro homens que ele atirara para fora do comboio. 
- Acha que aqueles marginais ficam bem?
Ele soltou um suspiro enfastiado. 
- No sei - confessou. - Por vezes, as circunstncias no nos permitem quaisquer opes.
Fechou os olhos, a pensar em como aquilo era verdade. Falta de opes. Se no fosse isso, desde logo nunca teria subido para aquele comboio. Tinha sido uma iniciativa 
desesperada e perigosa. Mas, no fundo, tinha corrido, daquele modo, menos riscos de ser apanhada do que se tivesse apanhado uma boleia na estrada. Logo que Lonnie 
desse o alarme, os polcias talvez comeassem  procura dela. A p, ao longo da interestadual, seria presa fcil. Com esse pensamento, deu por ela a perguntar a 
si mesma o que teria levado o vaqueiro a dar aquele passo. Ter-lhe-iam as circunstncias roubado igualmente as opes, ou estava ali simplesmente porque queria estar?
Um leve cheiro a estrume de vaca chegou-lhe s narinas, fazendo-a suspeitar de que aquele vago de mercadorias j tinha servido para transportar fertilizante. Oh, 
meu Deus. Apenas a possibilidade de que isso tivesse acontecido enervou-a e apertou mais Jaimie contra ela.
Quem  que, no seu juzo perfeito, escolheria este modo de transporte?
Era loucura. Todavia, tinha visto recentemente um programa televisivo acerca de indivduos perfeitamente respeitveis de todo o pas que procuravam a aventura andando 
nos comboios com marginais. Uma nova moda, evidentemente, cujo atractivo lhe escapava totalmente. Tinha morrido um jovem durante as frias universitrias da Pscoa 
do ano anterior quando grades de mercadorias pesadas se deslocaram e o esmagaram. Outro tinha acabado por morrer em consequncia de mltiplas facadas dadas pela 
navalha de um passageiro desconhecido.
Os pais enlutados de ambos os jovens tinham participado no programa para avisar os espectadores do perigo de andar  boleia nos comboios. Mas, segundo a reportagem 
televisiva, havia quem andasse  procura de emoes e ignorasse as estatsticas, no s arriscando a deteno e condenao por infraco da lei, mas tambm pondo 
a vida em perigo. Um dos entrevistados, surpreendentemente, era cirurgio cardaco. Afirmou que a excitao e o perigo proporcionavam uma forma de libertao da 
tenso que no conseguia encontrar de mais nenhum modo.
Libertao de tenso? Achou que os problemas do dia-a-dia da maioria das pessoas pareceriam menos assustadores depois de experimentarem algo como aquilo. Uma espcie 
de gostar de curar a ferida com o plo do mesmo co, quanto a ela, mas cada um  sua maneira.
Abriu os olhos e descobriu que o vaqueiro tinha empurrado o chapu para cima para a estudar. Mesmo com as sombras a encobri-la, achava-se to fcil de ler como um 
livro aberto.
- No se torture com sentimentos de culpa por causa daqueles homens, se  isso que lhe est a moer o juzo. Se eu no os tivesse travado, t-la-iam violado e ter-lhe-iam 
cortado a garganta. J para no falar no que teriam feito a seguir ao beb. - Encolheu os ombros. - Eu podia ter-me posto a andar antes que eles acordassem, mas 
o que  que lhe aconteceria a si? Voc no podia saltar do comboio. Pelo menos, com um beb. Deix-la aqui sozinha a lidar com aquelas bestas no era opo para 
mim. Entende? Eram eles ou voc.
Maggie no suportava sequer pensar nisso.

Ps-se mais direito. Depois de a estudar durante um momento interminavelmente longo, perguntou delicadamente: 
- Afinal, o que  que est a fazer aqui? De algum modo, no estou a v-la como o tipo de pessoa que anda  boleia nos comboios.
- Que tipo de pessoas  que anda? - perguntou ela, obrigando-se a enfrentar o seu olhar.
A boca dele endureceu e, mesmo ao luar, viu entrar-lhe nos olhos um ar grave e pensativo. 
- Muitos tipos - respondeu finalmente - mas a maioria integra-se em duas categorias, malucos ou desesperados.
Esperando manter a conversa centrada nele, retorquiu: 
- E de que tipo  voc?
- Do tipo dos que sabem tomar conta deles.
Maggie concedeu o ponto, desviando o olhar. Mesmo estando em dvida para com ele por lhe ter salvo a vida, no ousava contar-lhe as suas razes para estar ali. A 
julgar pelo seu aspecto, provavelmente tinha muito pouco dinheiro e Lonnie podia muito bem oferecer uma recompensa por informaes acerca do paradeiro dela. Afinal, 
a menos que conseguisse encontr-la e deitar a mo a Jaimie, teria de devolver aquele dinheiro todo.
O vaqueiro suspirou. 
- Como  que se chama? Consegue dizer-me uma coisa to importante?
Ela pesou as possveis consequncias e decidiu que partilhar com ele o primeiro nome no podia fazer mal. 
- Maggie. Afinal, a que distncia estamos da prxima cidade?
- No tenho a certeza. Acho que a prxima paragem ser, provavelmente, em Squire, e, para isso, faltam umas horas - Endireitou os ombros, o que queria dizer que 
o frio j estava a comear a incomod-lo. -  para l que vai?
Maggie no fazia ideia de para onde ia. Apenas... ia. 
- No sei. Dependo do tamanho de um local como Squire, acho eu.
Longo silncio. 
- Quer dizer que no sabe para onde vai?
- Claro que sei. Vou para onde o comboio for.
- Santo Deus - disse ele, muito baixinho. E, depois, ela podia jurar que o tinha ouvido resmungar: - Porqu eu, meu Deus?
- Squire  uma localidade razoavelmente grande?
- No  to pequena que a perca se pestanejar.  do lado de c do limite do estado de Washington.
Maggie precisava de encontrar uma cidade de bom tamanho - algures onde pudesse arranjar facilmente emprego, misturar-se com a populao e no ser localizada.
- Quem  que a maltratou? - Perguntou ele sem prembulos. 
Olhou para ele:
- Desculpe!?
- Eu no sou cego. Sei muito bem que no arranjou essas ndoas negras do brao na rixa de ontem  noite. Quem  que lhe bateu? Deu-lhe uma lenta vista de olhos, 
precisamente como se conseguisse ver atravs da pele de ovelha. -  bvio que algum lhe bateu. E, por favor, no insulte a minha inteligncia contando-me aquela 
velha histria de ter batido num puxador de porta, a menos, claro, que tenho batido nele vrias dzias de vezes.
Se no a tivesse estado a interrogar sobre uma coisa to pessoal, talvez Maggie tivesse sorrido com o sentido seco de humor dele. Mas estava pouco para sorrisos 
e h coisas que no se contam a estranhos. 
- No nosso stio temos muitos puxadores de portas.
- Quem  ns?
Ela experimentou uma expresso vaga enquanto cingia mais o casaco.
- Est muito maltratada?
- Estou ptima.
- Parece-me que essas suas costelas esto muito sensveis e talvez outras partes do corpo tambm. 
Sensveis era favor.
 - Estou ptima - repetiu ela.
Irritou-se e soou a mal-humorado. 
- J amamentou a criana desde que essa legio de puxadores de porta lhe deu a tareia? Quando tentou, h uns minutos, pareceu-me que estava a ter alguns problemas.
Ela olhou pasmada para ele. Nunca nenhum homem lhe tinha perguntado uma coisa to pessoal e o facto de a ter salvo no lhe dava o direito de ser o primeiro. Virou-lhe 
a cara.
O pouca-terra-pouca-terra do comboio pareceu tornar-se mais alto. Sentia que ele estava a estud-la. Desejava que baixasse aquele chapu sujo e voltasse a adormecer.
- Parece-me que voc est em mar de pouca sorte. Se est assim to presa, como  que pensa aliment-lo? Com os seus bonitos olhos?
Atravs das pestanas semicerradas, Maggie olhou para o corpo magro do vaqueiro, com o medo a subir-lhe  garganta at quase a sufocar. A pergunta dele retiniu nos 
seus ouvidos. Como  que pensa aliment-lo? Com os seus bonitos olhos?
Talvez, caro senhor, pensou ela, como que paralisada. Talvez.


Captulo Dois
Descongelar o rabo era uma ptima maneira de recuperar a sobriedade.
Muito melhor do que beber caf, em qualquer caso. Rafe cruzou os braos  frente do peito e levantou mais os joelhos, o corpo a balanar ao ritmo do vago de mercadorias. 
Por baixo da aba do chapu, conseguia ver a luz rsea do alvorecer. A temperatura no subiria durante as trs horas seguintes mas, pelo menos, havia um fim  vista.
Olhava para o negro vazio da copa do chapu. Contra a escurido, continuava a ver o rosto plido da rapariga e aqueles gigantescos e expressivos olhos. Tinha sido 
um pouco duro com ela. Havia nela algo indefinvel que fizera despertar o seu instinto protector e isso assustava-o terrivelmente.
Durante dois anos, tinha-se concentrado exclusivamente na sua prpria desgraa. Agora, no espao de apenas umas horas, uma rapariguita tinha-o virado do avesso e 
tinha-lhe dado ns nas entranhas. No era coisa dele.
Normalmente, no tinha qualquer problema em ignorar o resto do mundo e todas as suas injustias. De facto, dava-se to bem no se importando que, praticamente, tinha 
transformado isso numa arte. Ento, porque  que Maggie estava a mexer assim com ele?
Lembrou-se do sonho e das splicas de Susan. Vais ver. Seria esta a segunda oportunidade de que ela falara?
Afastou a ideia, zombando dele prprio. A bebida devia ter-lhe cozido os miolos para ter ideias daquelas. Maggie - sem apelido -  no significava nada para ele. 
Da a pouco, dir-lhe-ia adeus e nunca mais lhe poria a vista em cima.
Apesar da sua deciso, no entanto, no conseguia deixar de pensar naquelas ndoas negras que ela tinha no brao. Teria sido espancada no corpo todo? L donde vinha, 
um homem no batia numa mulher, ponto; nem sequer uma bofetada lhe dava.
Caiu em cima das pernas de Rafe qualquer coisa pesada. Empurrou o chapu para cima e viu Maggie de p, junto dele. Embalava a criana adormecida no gancho do brao. 
Levantando a voz para ser ouvida por cima do barulho do comboio, disse: 
- Voc est a ficar gelado. Tome o casaco por um bocado - Aconchegou mais o beb, com o olhar a reflectir uma mistura de gratido e cautela. - Estava a pensar que 
talvez pudssemos us-lo  vez. S depois de voc se aquecer, claro.
Compondo o Stetson na cabea, Rafe sentou-se. O medo que lia na expresso dela no augurava nada de bom para a proposta que ia fazer:
- Porque  que no o partilhamos, simplesmente?
Um olhar carrancudo franziu-lhe a pele entre as sobrancelhas delicadamente arqueadas: 
- Partilh-lo?
Parecia to escandalizada como se ele tivesse sugerido que fizessem sexo louco no passeio, em plena cidade. Rafe sentiu um sorriso aflorar-lhe ao canto da boca. 
Isso surpreendeu-o. Por aqueles dias, sorrir era, para ele, uma rara ocorrncia.
Levantou o pesado casaco de carneira com o dedo em gancho. Eu visto o casaco e voc e o beb podem meter-se c dentro comigo. Assim, ficamos todos quentes.
Ela abanou a cabea, fazendo com esse movimento com que o olhar dele fosse atrado pela madeixa de cabelo moreno que lhe caa sobre os ombros.
Contra a blusa branca, aquelas cortinas sedosas faziam-lhe lembrar chocolate forte. Vestida com blue jeans e tnnis, talvez passasse por uma jovem adolescente, a 
no ser pela ligeira opulncia das ancas e dos seios. 
- No me parece muito boa ideia.
- Por causa do seu beb - acrescentou ele rapidamente. - Por mais voltas que d, andar com o casaco para trs e para a frente no era bom. O beb arrefecia, depois 
aquecia. Sempre ouvi dizer que isso provoca constipaes. Quer que ele adoea?
Ela dirigiu um olhar preocupado para a trouxinha em que pegava. Sentiu um n no estmago. Ele tinha tanto frio que os dentes estavam quase a comear a bater, mas 
no vestiria o casaco enquanto ela e a criana estivessem sem ele.
Quase voltou a sorrir ao ver a luta dela para tomar uma deciso.
Partilhar o casaco? Deus nos defenda.
- Tenho-o embrulhado no meu casaco e na minha camisola. Acha mesmo que pode adoecer?
Na realidade, Rafe estava mais preocupado com ela do que com o beb.
Ergueu uma sobrancelha e levantou mais o casaco.
 - Acho que  um risco que no precisa de correr.
- Suponho que  mais prtico partilh-lo do que andar com ele para trs e para a frente.
men. Viu-a dar um passo hesitante em direco a ele. No era que criticasse a precauo dela. Depois do que aqueles quatro marginais tinham tentado fazer-lhe, qualquer 
mulher preferiria correr no sentido contrrio.
Inclinou-se para a frente para enfiar os braos nas mangas do casaco. 
- Venha - convidou ele. - Voc, no sei, mas eu estou quase com o rabo congelado.
Ela deu mais um passo hesitante. Depois, parou a olhar para ele, assemelhando-se muito a uma gil lebre assustada, com o corpo tenso, pronto para a fuga.
Repentinamente, tambm ele tenso, Rafe afastou os ps para abrir espao entre os joelhos flectidos. Mantendo o casaco convidativamente aberto, voltou a ter aquela 
estranha e dolorosa sensao no peito. Era aquela teimosa bochechinha dela e aqueles grandes olhos assustados, achou. Essa combinao foi como que um soco no estmago. 
- V - repetiu roucamente. - Juro que no tento coisa nenhuma.
Quando assentou um joelho no cho entre as botas afastadas dele, perscrutou-lhe o rosto com uma expresso to dbia que ele quase soltou um riso abafado. Em vez 
disso, fingiu um arrepio de frio. 
- Depressa, querida. Estou a deixar entrar ar frio.
Ela virou-se e sentou-se de costas para ele. O alto da sua cabea morena tocava-lhe imediatamente abaixo do queixo. Enquanto aninhava o beb nos braos, os bigodes 
dele misturavam-se com o seu cabelo moreno. Esperou, na expectativa de que ela se relaxasse e se encostasse a ele, mas, em vez disso, ela manteve a espinha to direita 
que parecia uma rgua.
Engolindo outro sorriso, fechou a frente do pesado casaco com ela e o beb l dentro, formando um crculo lasso com os braos  volta deles. O frio do corpo dela 
f-lo desejar estreit-la mais nos braos para que partilhasse o seu calor, mas no quis assust-la.
- Disse que se chama Maggie? - Perguntou-lhe baixinho, ao ouvido.
- Sim.
Maggie. De algum modo, ajustava-se-lhe perfeitamente. Rafe inspirou o odor doce da me e da criana. 
- O seu beb  rapaz?
Ela inclinou a cabea e encaracolou os dedos na borda de nylon azul para mostrar a carinha da criana. 
- Sim - respondeu, com a voz a palpitar de amor. - Chama-se Jaimie... com dois ii. Dei-lhe o nome do meu pai.
- Isso  ortografia celta, no ?
- Talvez. O meu pai era escocs.
No deixou de reparar que se referia ao pai no passado. Fosse quem fosse que lhe tivesse batido, no tinha sido o pai.
No usava aliana. Ele achou que, provavelmente, andava a fugir de um namorado. 
- O meu nome  Rafe Kendrick.
Ela virou-se e encontrou o olhar dele, com uma expresso to recatada que lhe fez doer o corao. No podia deixar de ser muito deprimente estar ali presa dentro 
de um casaco com um homem em quem no confiava. Embora estivesse a tentar manter uma distncia segura entre os dois corpos, ele sentia-a tremer e duvidava de que, 
agora, fosse do frio.
Baixou as pestanas e aqueles longos clios negros projectavam-lhe,  luz rsea do alvorecer, leves sombras nas faces como se fossem penugem. Teve um impulso de sentir 
com os dedos a forma da sua boca. Ficou aliviado quando ela desviou a cara.
Continuou sentada direita como um fuso, coisa que ele sabia que no podia ser muito confortvel, especialmente com costelas a doer. Com a mo espalmada em cima da 
parte do casaco onde adivinhava que estivesse o beb, aplicou uma ligeira presso. 
- Eu no mordo, Maggie. Pelo menos, no mordo o suficiente para lhe romper a pele. V l, encoste-se para trs.
- Estou ptima - insistiu ela.
Parecia exausta. Suspeitava de que ela estava a esgotar as ltimas reservas de energia. Forou a situao, pressionando mais. Tal como previra, ela cedeu instantaneamente, 
coisa que ele duvidava que tivesse feito se tivesse pressionado com a mo espalmada em cima dela e no em cima da criana.
O corpo dela dava uma sensao de delicadeza e de uma maravilhosa suavidade no local onde se aninhava encostada a ele. Sentia no peito a respirao gelada dela. 
H tanto tempo que no pegava numa mulher que quase se tinha esquecido de como isso era bom. Quis enterrar o rosto no seu belo cabelo e inalar o seu odor. E, meu 
Deus, como ansiava por libertar os braos das mangas do casaco de modo a poder meter as mos por dentro e explorar a sua suavidade - a curva da cintura, a elevao 
das ancas, a delicada opulncia do rabo.
J no tomava uma bebida h muito, achou. Sem a infuso constante de lcool no sistema, o torpor estava a desaparecer gradualmente.
Normalmente, varria parques de estacionamento para arranjar uma garrafa nova antes de a antiga ficar seca. 
Agora que a garrafa que comprara mais recentemente se tinha estilhaado, no tinha outro remdio que no fosse passar o dia inteiro sem uma bebida at ganhar dinheiro 
para comprar mais. E se ficasse com tremuras e no conseguisse pegar na vassoura? Essa ideia f-lo ficar nervoso.
Rafe sentiu a rapariga tremer. Percebeu que, na sua agitao, tinha aumentado a presso da mo sobre ela e o beb. A preocupao com ela afastou o seu sbito desejo 
de lcool. Contorcendo-se para lhe observar o rosto, viu que ela estava a morder o lbio inferior.
- O que ? - Perguntou.
- A fivela do seu cinto. Est a picar-me as costas.
Afrouxou o modo como a segurava. Quando meteu uma mo dentro do casaco para desviar a fivela de prata para o lado, ela teve um sobressalto, admirada, quando ele 
lhe roou com os ns dos dedos na parte inferior da espinha.
- No estou a atirar-me a si, querida. Estou s a afastar a fivela para no a picar.
- No  preciso. Posso endireitar-me.
Quando o comboio descreveu uma curva nos carris, ela quase tombou com o balano. Ele impediu-a de cair, com o brao. Um plido raio rseo de sol atravessou a porta 
aberta e veio iluminar-lhe o rosto. Pela primeira vez, Rafe conseguiu ver-lhe as feies em pormenor. O que viu assustou-o muito. No era apenas plida. A pele tinha 
um tom branco, sem sangue, e, alm disso, manchas escuras a sublinhar-lhe os olhos.
Perturbado pelo movimento sbito do comboio, o beb escolheu aquele momento para acordar e emitir um som fraco de lamria. Ela murmurou suaves carinhos, abrindo 
outra vez o corta-vento. O beb abriu os olhos azuis e uns pequenos punhos agitaram-se no ar, com as mangas de veludo frisado do pijama a relampejar amarelo contra 
o nylon azul-marinho.
Um cheiro desagradvel chegou ao nariz de Rafe. Quase resmungou. Qualquer homem que j tivesse sido pai conhecia aquele cheiro. Porque seria que o odor do coco de 
beb parecia vir sempre para cima e nunca para os lados?
Mas, oh, no. Era daqueles cheiros que vo direitos ao nariz de um homem.
Rafe percorreu com os olhos o enorme vago,  espera de ver um saco de fraldas. No aparecendo nenhum, voltou a percorrer o compartimento com os olhos, convencido 
de que havia de se materializar um. A nvel racional, percebia que as crianas no traziam um saco de fraldas com elas quando nasciam. Mas do seu ponto de vista, 
isso era uma grande falha de Deus.
Quando h um beb, a ausncia de fraldas descartveis equivale a um grande desastre.
- Onde est o saco das fraldas?
Ela no levantou os olhos quando respondeu: - Deixei-o cair.
- Fez o qu? - Certamente, no tinha ouvido bem. No havia saco de fraldas? - Est a brincar, no est?
Ela abanou a cabea.
Vises de toda a parafernlia absolutamente vital do beb que existe num saco de fraldas atravessaram em ziguezague a cabea de Rafe. As fraldas e os toalhetes eram 
apenas metade. Levantando a voz de modo a fazer-se ouvir, agora que o beb estava a gritar e a espernear, espalhando o odor, Rafe disse: 
- Deixou-o cair? Onde?
- L em Prior. Foi por acidente. Estava a tentar subir para o comboio e no conseguia correr suficientemente depressa. Deixei cair o saco e a manta do Jaimie. Por 
isso  que o embrulhei na minha camisola e no meu casaco.
Rafe encostou a cabea  parede, puxando pelo crebro,  procura de uma soluo. Independentemente do cheiro, era preciso mudar as fraldas do mido. Se o deixassem 
assim, Jaimie ficaria com o rabo queimado.
- Eu arranjo maneira.
Rafe no imaginava como. Depois, sentiu-a mexer-se. Os movimentos do seu traseiro macio contra a braguilha dos jeans provocaram uma reaco que lhe fez abrir os 
olhos. A respirao ficou presa e manteve-se ali sentado cinco segundos a olhar para a parte de trs da cabea dela.
Que maravilha. Uma masturbao fantstica. No sentia um arrepio naquela zona h mais de dois anos. Ainda pior do que a inoportunidade era o facto de Maggie poder 
dar por isso.
Meteu uma mo entre o rabo dela e os seus jeans, esperando escapar  deteco e tambm proteger-se contra mais estimulao. Ao sentir os ns dos dedos tocarem-lhe 
no traseiro, ela voltou a dar um salto e virou a cabea para o pr na ordem, com um olhar acusador.
- No estou a provoc-la - apressou-se a garantir-lhe. - Estou apenas...
A voz sumiu-se. Estava s o qu? Os gritos do beb pareciam atingir decibis de superbeb. Estava a ficar com uma dor de cabea danada. Meu Deus, precisava de uma 
bebida.
Ela contorceu-se para criar alguma distncia entre a mo dele e o seu rabo e, depois, retomou a actividade. Visto de trs, pareceu-lhe que ela estava a desapertar 
o top. Alerta vermelho.
- O que  que est a fazer?
- Tenho que me servir da blusa e vestir o corta-vento.
Seria mesmo possvel o corao de um homem saltar-lhe da cavidade do peito para a boca? 
- Servir-se da sua blusa para qu?
- Fralda.
- O qu?
- Tenho que o mudar - disse ela com voz estridente -, e a nica coisa que tenho  a minha blusa. Mais tarde, vou precisar da camisola para o manter quente e o casaco 
de nylon no  absorvente.
Tirou rapidamente o casaco dos ombros. 
- Tome, empresto-lhe a minha T-shirt. - Empresto? Como se alguma vez quisesse que a devolvesse. - Sem a blusa, ficar exposta ao frio. O nylon desse casaco parecer 
gelo encostado  sua pele nua sempre que o vento lhe bater.
Despiu a camisa em tempo recorde, depois tirou a T-shirt e entregou-lha.
Ela pegou-lhe com o polegar e o indicador, levantando-a  luz fraca da aurora. Em choque por causa do ar frio no dorso nu, Rafe voltou a vestir rapidamente a camisa. 
Comeou a aboto-la mas fez uma pausa para olhar para a pea de roupa interior que ela segurava com delicadeza mas aparente nojo.
Parecia... cinzenta. Rafe inclinou-se para ver melhor, convencido de que os olhos deviam estar a tra-lo. Da ltima vez que tinha olhado, era branca. Claro que no 
conseguia lembrar-se exactamente de quando tinha sido - nem se estava bbedo nessa altura.
- Para fralda de beb, serve.  da luz. - Pelo menos, esperava que fosse apenas a luz -No est mesmo suja.
- H quanto tempo a lavou?
- No h muito. - Tentou lembrar-se. - No Dakota do Sul, acho eu.
- Dakota do Sul?
- Aquela velhota grande que dirigia a misso de l lavou-me a roupa enquanto eu curava uma bebedeira. Isso foi apenas... vejamos... - Rafe voltou a olhar para a 
camisa. - Merda. Que dia  hoje?
- Vinte e seis de Outubro. Ou sero vinte e sete?
- Quer dizer que estamos muito perto do Halloween? - Ela dirigiu-lhe um olhar ligeiramente admirado.
Como o tempo voava quando nunca se estava sbrio. 
- Verdade? No posso acreditar que estejamos quase em Novembro.
Deixou a T-shirt no cho junto  perna dele e foi buscar de novo a blusa.
- Lamento, Senhor Kendrick, mas no posso pr uma coisa to suja ao meu filho.  melhor servir-me da minha blusa e vestir eu a sua T-shirt. Feche os olhos, por favor 
- disse ela com voz trmula, o que lhe mostrou que no se sentia nada segura de que ele no a atacasse no instante em que vislumbrasse pele nua. - Primeiro, visto 
a sua T-shirt. Depois, mudo o Jaimie. Est bem?
- Est bem.
Inclinou a cabea para trs e comeou a fechar os olhos. Mal as plpebras comearam a fechar-se, sentiu-a inclinar-se para a frente para tirar os braos da blusa 
e, por alguma razo, as suas pestanas superiores e inferiores nunca se encontraram totalmente.
Aps uma abstinncia de dois anos, parecia a Rafe que lhe devia saber bem dar uma espreitadela furtiva a uma mulher parcialmente despida. Em vez disso, sentiu-se 
como se uma mula lhe tivesse dado um coice nas entranhas. As costas dela estavam cobertas de ndoas negras, todas ainda de um vermelho assanhado que ele sabia por 
experincia prpria que, com mais um dia, escureceriam e se transformariam em manchas negras e azuis.
Espalhados por entre as ndoas negras, havia vrios golpes. No se podiam confundir, eram marcas de um anel de homem, pois estavam rodeados de marcas dos ns dos 
dedos.
Rafe acabou por fechar os olhos, sim, mas no foi para defender o seu pudor, foi de indignao. O doido daquele filho da me! As imagens que lhe explodiram na mente 
mostravam-no hirto de fria. Para magoar uma mulher daquela maneira, um homem tinha de lhe atingir repetidamente o corpo com os punhos, usando toda a sua fora.
Parecia que tinha passado uma eternidade quando ela acabou de mudar a fralda. Quando voltou a cingi-la dentro do casaco, no pde deixar de reparar como o beb, 
rabugento, procurava ansiosamente com a boca debaixo da orelha dela.
- Acho que ele est com fome - assinalou desnecessariamente. - No acha que era melhor tentar aliment-lo outra vez?
Ela olhou por cima do ombro. 
- No se importa de fechar outra vez os olhos, por favor?
Em resposta a essa pergunta, Rafe afrouxou o modo como apertava o casaco a fim de lhe dar espao de manobra e deixou os olhos fecharem-se. 
De repente, Jaimie comeou a sugar, com a boquinha vida a produzir os sons prprios da mamada mas que pareciam desmesuradamente altos, considerando o barulho do 
comboio.
No passou mais de um segundo at ele comear a gritar outra vez. Rafe podia dizer, pelos movimentos de Maggie, que ela estava a ficar agitada.
Ouviu-a produzir um ligeiro som de angstia. O beb acalmou-se por um momento e, depois, recomeou a chorar.
A preocupao apoderou-se dele. No tomou conscientemente a deciso de abrir os olhos. Ora se portava como um perfeito cavalheiro, ora deitava um prolongado olhar. 
Para pr as coisas no seu devido lugar.  verdade que ele no tinha pensamentos lascivos quando olhava por cima do ombro de Maggie para o seu seio. Estava to inchado 
e magoado que se retraiu. Como todos os bebs com fome, Jaimie agarrava-se avidamente ao mamilo sempre que lhe tocava nos lbios, mamando no muito suavemente no 
bico intumescido e descorado. Rafe sabia que aquilo tinha de doer imenso.
Inclinando-se ligeiramente para um lado para ver o rosto de Maggie, surpreendeu uma lgrima a escorrer-lhe pela face. O seu corao ficou rendido  expresso decidida 
que apresentava. Era claro que ela queria alimentar o beb, independentemente da dor que lhe causasse. Ele quase conseguia sentir cada puxo da boca do beb. Uma 
flor frgil? De maneira nenhuma. Era uma mulher de constituio delicada, mas, escondida sob toda aquela fragilidade, havia uma espinha entrelaada de ao.
No fim, as suas tentativas de alimentar o filho foram um fracasso. O leite recusou-se a sair de um e do outro seio. Cada gemido de Jaimie arrepiava Rafe. Um homem 
nunca esquecia o que era ser pai, achava ele.
Apoderou-se dele uma sensao quase esmagadora de impotncia. Quando um beb tem fome, d-se-lhe de comer, acabou-se.
Rafe calculava que chegassem  paragem seguinte dentro de cerca de quarenta minutos. Cada segundo pareceria uma eternidade. Tinha de se afastar daqueles dois. Estavam 
a desenterrar dentro dele sentimentos que tinha trabalhado duramente para enterrar. No estava para aborrecimentos nem para dores do corao.
Jaimie chorou um pouco antes de cair num sono exausto, coisa que Rafe considerou uma bno at Maggie manifestar uma preocupao em que ele no tinha pensado.



Numa voz trmula, disse: 
- Penso que ele j est a perder as foras.
- H quanto tempo  que no come?
- Comecei a ter alguns problemas em cuidar dele ontem ao fim da tarde. Comeu um pouco, acho eu, mas no tanto como isso. Eu estava mesmo transtornada e... - A voz 
sumiu-se. - Bem, sabe, as coisas no correram propriamente bem. Pensei que era por estar muito tensa. No livro que tenho, diz que o nervoso pode provocar isso.
O nervoso podia ser uma causa. Mas as graves contuses e o inchao tambm. Depois de ver o que tinha visto, percebeu que, mais do que provavelmente, eram estas as 
causas.
- Ento, perdeu apenas umas mamadas?
Ela acenou que sim com a cabea, mostrando-se preocupada e infeliz. 
- No entanto, ele come com bastante frequncia. Praticamente, de duas em duas horas, porque ainda  muito pequeno. Acha que est a perder as foras?
Os filhos dele nunca tinham perdido uma refeio, a menos que estivessem doentes, pelo que no era, certamente, um perito na matria, mas parecia-lhe que seria preciso 
mais tempo do que aquele para uma criana ficar fraca de fome. Por outro lado, todavia, Jaimie era pequeno, como ela dizia. Os recm-nascidos no tinham as reservas 
de gordura que os bebs mais velhos tinham.
- No - garantiu-lhe, com mais confiana do que ele prprio tinha. - Os bebs so umas pequeninas nozes resistentes.
- So? - Perguntou ela, esperanada.
- Claro que so. Em breve chegaremos  prxima paragem. Teremos meia hora. Tem que haver uma loja onde possa comprar-lhe um bibero e leite.
Ela abanou a cabea.
Rafe nem queria ouvir. Porqu eu, meu Deus?
- No tenho dinheiro que chegue. Tudo o que tenho no bolso  18 cntimos.
Tinha mesmo, mesmo, era que se afastar dela. Porque  que ela lhe estava a contar os seus problemas?
Se estava a alimentar a ideia de que talvez ele a ajudasse, ia ter um choque. Quando chegasse  cidade seguinte, ele varreria uns parques de estacionamento para 
comprar uma garrafa, sim, mas uma garrafa de lcool.
- Voc tem? - Perguntou ela.
- Tenho o qu?
- Tem algum dinheiro? - Voltou a virar para ele aqueles grandes olhos castanhos. -Normalmente, nem pensaria em perguntar. Tenho a certeza de que consigo arranjar 
um trabalho qualquer em... Repita l o nome daquela cidade?!
- Squire.
- Em Squire. - Lanou a ponta da lngua como uma seta sobre o lbio superior. - Mesmo que seja uma localidade pequena, consigo encontrar algo para fazer e ganhar 
algum dinheiro. A nica coisa  que demoraria horas. O Jaimie j est com fome e no deve esperar tanto tempo para comer. - Fechou os olhos com fora, como se estivesse 
a invocar todas as reservas de fora. Quando levantou as pestanas, disse: - No posso faz-lo esperar e correr o risco de adoecer.
Ficou com um n na garganta. Jesus Cristo! Perto daquela rapariga, passava metade do tempo a ficar sem respirao.
A boca dela comeava a tremer mesmo quando levantava o queixo de um modo desnecessariamente arrogante. Oh, meu Deus! Sabia o que ela ia dizer e estava tentado a 
pr a mo em cima daqueles doces lbios antes que ela conseguisse deitar tudo c para fora.
- No lhe vou mentir dizendo que o reembolsarei porque provavelmente no voltaremos a ver-nos. - Os olhos dela ficaram escuros de vergonha, mas no baixou o olhar. 
Rafe percebeu que aquilo fora a coisa mais difcil que ela jamais fizera. - Mas compenso-o se me der o dinheiro para um bibero e papa de beb.
- Compensa-me? - Por que razo disse isto interrogativamente, no fazia ideia. Era perfeitamente bvio o que ela queria dizer.
- O meu beb tem fome, Senhor Kendrick. Farei seja o que for para o alimentar. - As faces brancas ficaram, de repente, coradas. - Seja o que for.
Rafe queria dizer-lhe que no tinha dinheiro nem maneira de deitar a mo a algum, mas no era inteiramente verdade. Portanto, em vez disso, olhou pasmado para ela, 
com o anel de casamento de ouro que usava num fio sob a camisa a queim-lo no peito.
As faces dela ficaram mais coradas. Depois, desviou o rosto, a prpria imagem da humilhao.
- Estou a ver - disse ela, com voz tensa.
Mas, claro, no estava a ver nada. Era uma jovem bela e nenhum homem livre no seu juzo perfeito podia deixar de a desejar.
- Maggie, no  o que est a pensar.
Mantendo a cabea inclinada, de modo que o cabelo lhe escondesse o rosto, levantou uma mo em sinal de desistncia. 
- No - disse, de modo sumido.
- Por favor.
Rafe tentou imaginar como ela se sentiria. Foi precisa muita imaginao.
Nunca tinha tentado vender o corpo, sendo rejeitado. J tinha, claro, sido solicitado vrias vezes, mas no por uma jovem que nunca tinha descido to baixo e estava 
a achar aquilo a experincia mais humilhante da sua vida.
Embora tivesse um filho, havia uma doura e uma inocncia nos seus olhos que sabia perfeitamente que no eram fingidas. Apostaria at ao ltimo dlar que tivesse 
no banco que nenhum homem, com excepo do pai do beb, lhe tinha alguma vez posto as mos em cima.
- Querida, escute.
Abanou a cabea, ainda com a mo levantada para o calar. 
- Por favor, esquea simplesmente o que lhe disse.
Rafe sentiu uma necessidade horrvel de se rir. No era o que ela pensava e, assim Deus o ajudasse, no tinha a certeza de como a esclarecer sem a assustar quase 
de morte. Mas tambm no queria que ela continuasse a achar que no a desejava. Esse pensamento podia feri-la de tal modo que levaria anos a passar.
- Minha querida, voc  lindssima. Bonita de me fazer doer quando olho para si.
Ela dirigiu-lhe um olhar admirado.
- Acredite em mim. Se tivesse uns dlares no bolso, seria um homem feliz.
Ps os braos  volta dela e do beb, sabendo, mesmo antes de a sua voz se sumir, como estava a ser sincero. Queria mesmo fazer amor com ela.
Perceber isso bloqueou-o. Que diabo estava a acontecer-lhe? Recordou-se outra vez do sonho e um frio de gelo resvalou-lhe pela barriga. Parecia no conseguir impedir-se 
a si mesmo de gostar mais desta rapariga do que seria inteligente - ou mesmo racional. Seria isso que Susan tinha tentado dizer-lhe, que estava para conhecer algum 
muito especial e... No! Engoliu em seco e disse a si mesmo que no fosse idiota. No acreditava em premonies nem em encontros predestinados, e seguramente no 
acreditava que tivesse tido uma apario fantasmagrica da sua falecida mulher. Tinha sido apenas um sonho. Um sonho estpido, encharcado em whisky, que no significara 
absolutamente nada.
Ordenando as ideias, Rafe obrigou a mente a regressar ao momento presente. 

A sua voz soou spera e um pouco trmula quando disse: 
- Por favor, Maggie, no pense nem por um segundo que no estou interessado na sua proposta. Aceitava-a to depressa, que lhe punha a cabea a andar  roda se tivesse 
um cntimo que fosse para lhe dar. Mas no tenho.
- No tem dinheiro nenhum consigo?
- Nem um cntimo. Lamento.
- Ah.
Por alguma razo, o modo como ela disse aquilo f-lo voltar a sorrir.
- Pode sempre obter ajuda da misso. A maioria das cidades tem uma e uma mulher com um beb ter tratamento de passadeira vermelha.
Ela abanou a cabea. 
- No posso ir assim para um stio qualquer.
- Porqu? Se se sente embaraada, no se sinta. Toda a gente precisa de ajuda nalgum momento.
- No  isso. Estou apenas... - Fez uma pausa e abanou novamente a cabea. - Podem andar  minha procura.
Ele apertou os braos, desejando abra-la e ao beb para os proteger.
Quem poderia andar  procura dela? Jesus Cristo. Seria a polcia? Estava morto por perguntar, mas dois anos daquele tipo de vida tinham-no ensinado a no fazer demasiadas 
perguntas. E uma vez que, de qualquer maneira, duvidava de que ela respondesse, porqu incomodar-se? Mesmo que fosse procurada pela polcia, no podia acreditar 
que fosse por alguma coisa grave.
Puxou-a delicadamente para ele. 
- Vou dizer-lhe uma coisa. Porque no descansa um pouco? Enquanto dorme, eu penso num modo de obter ajuda.
- No posso andar com muita gente - afirmou ela.
- Eu entendo isso. Vou pensar nalguma coisa. Confie em mim. Fez um leve sorriso. - No se esquea de que j sou velho neste estilo de vida. Sei tudo.
Para sua surpresa, ela cedeu  ligeira presso dos seus braos, virando - se de lado para lhe encostar a face ao peito, enquanto os pezinhos do beb lhe empurravam 
suavemente o abdmen. Rafe queria pensar que ela tinha seguido o seu conselho porque comeava a confiar nele, mas suspeitava que era a exausto a tomar conta dela.
Da a segundos, sentiu a tenso abandonar-lhe o corpo. Espreitou-a, pensando como parecia doce com a boca relaxada ligeiramente descentrada.
Tocou-lhe com a ponta de um dedo na face plida, experimentando a frgil curva do osso sob a carne macia e sedosa.
Quando teve a certeza de que estava profundamente adormecida, meteu a mo por dentro da camisa e tirou o anel. O engaste de grandes e cintilantes diamantes brilhou 
para ele  luz fina da manh, lembrando-lhe a razo pela qual o usava escondido num fio, sob a camisa. Diamantes a brilhar num vago era um bom modo de ficar com 
a garganta cortada.
Susan. Contra todas as suas objeces, ela tinha trabalhado numa loja de hambrgueres para pagar aquele anel, insistindo em que tinha de lhe comprar uma coisa to 
bonita como a que ele lhe tinha trazido a ela, e que tinha de ser ela a pagar com o seu dinheiro. O preo de compra tinha sido um pouco mais de quatro mil dlares.
Ningum sabia quanto valia hoje. As casas de penhores eram conhecidas por pagarem uma fraco do valor do objecto. Mesmo assim, imaginou que poderia obter vrias 
centenas de dlares por ele.
Fechou o anel na mo e cerrou os olhos. No podia p-lo no prego. O anel de casamento era o seu ltimo elo de ligao a Susan e ao seu passado, a nica coisa que 
lhe restava e que ele estimava. Nos dois anos que j levava de vagabundagem nos comboios, tinha passado por tempos de grandes privaes, mas nem uma nica vez tinha 
pensado em pr o anel no prego.
Maggie e o beb no eram problema dele. Quando chegassem  cidade seguinte, dar-lhe-ia o seu casaco. Era o mximo que podia fazer por ela.
Cerrando os dentes, Rafe voltou a meter o anel para dentro da camisa, onde podia ficar perto do corao. Quando voltou a compor o peito, imaginou que estava a ouvir 
Susan a censur-lo. Oh, Rafe,  apenas um anel! Consegues mesmo virar as costas a um beb?
 medida que o imaginado sussurro se tornava mais claro na sua mente, Rafe conseguia finalmente invocar uma imagem do rosto da mulher. H tanto tempo que no conseguia 
recordar-se exactamente de como ela era que deixou a cabea encostar-se  parede e fechou os olhos, sorrindo ao mesmo tempo que reparava nas suas feies. Meu Deus, 
como a tinha amado tanto.
Susan. Sabia que se ela ali estivesse poria aquele anel no prego num abrir e fechar de olhos para alimentar um beb com fome. De certo modo, Maggie fazia-lhe lembrar 
um pouco Susan. No pelo aspecto nem pelos gestos, claro, mas pelo modo como amava. 
Mesmo que chegasse aos cem anos, nunca esqueceria o olhar dela quando lhe ofereceu o corpo em troca de um bibero e papa para o beb. Quase conseguira sentir o sabor 
da vergonha dela; todavia, tinha feito a proposta sem pensar nela prpria.
Suspirou e ps a mo no peito, cravando-se-lhe as arestas vivas do anel na carne. Se queria conseguir viver de bem com ele mesmo, sabia o que tinha de fazer.
Mas no ia ser fcil.

Captulo Trs
Agora que o comboio tinha parado, o vago de mercadorias estava estranhamente silencioso. Maggie no tinha uma ideia exacta das horas que eram, mas a julgar pelo 
brilho da luz do Sol, achava que eram pelo menos oito e meia ou nove. As cantigas dos pssaros espalhavam-se no ar glacial da manh, sons leves e incongruentemente 
alegres num local to aborrecido e sujo. Tentando afastar o vago cheiro a gado, concentrou-se nos odores que captava na brisa, uma mistura invernosa de humidade 
gelada e de folha persistente que era sublinhada pelo odor acre de fumaa de mquinas.
Aconchegada no casaco quente do vaqueiro com as costas encostadas  parede, observava a porta aberta, aterrorizada com a possibilidade de algum marginal poder espreitar 
para o vago vazio e saltar l para dentro. Depois da experincia da noite anterior, no tinha iluses. Na sua maioria, os homens eram ratos.
Oh, meu Deus, estava cansada. Tinha uma dor de cabea, uma sensao geral de mal-estar, e as costas estavam a mat-la. Tudo o que queria era fechar os olhos e dormir 
um bocado. Mas Jaimie acordaria em breve e, quando acordasse, estaria com fome. Apenas podia rezar para que o vaqueiro cumprisse a sua parte do negcio e voltasse 
com um bibero e papa.
Fechou os olhos, imaginando o seu corpo alto e esguio. Emanava dele uma poderosa fora como a carga elctrica numa rea de alta voltagem. No interessava. Simplesmente, 
no ia pensar nisso, era tudo. Deix-lo-ia fazer aquilo, ignorando o melhor que pudesse e, depois, fingiria que nada tinha jamais acontecido.
Subiu-lhe um vmito  garganta. Conteve-o. Continuava a lembrar-se de como ele lhe tinha tocado na face antes de se ir embora, acariciando-lhe levemente a pele com 
a ponta dos dedos. 
- Pensei numa maneira de arranjar algum dinheiro. Fique aqui. Estar segura durante o pouco tempo que estarei fora. - Maggie ansiara acrescentar: At voltar? Mas 
no tinha sido capaz de arranjar coragem.
Estava tudo bem. Ela tinha-lhe feito uma proposta, no tinha? Ningum a tinha obrigado. E devia estar contente por ele a ter aceite. O que lhe acontecesse a ela 
no tinha importncia. A nica coisa importante era o beb. Mais nada.
Rafe estava no passeio,  porta da casa de penhores, de cabea cada, com os ombros encolhidos para se proteger do frio enquanto olhava para o anel que tinha na 
palma da mo. Queria muito p-lo outra vez no fio e continuar a andar. Quem  que o tinha eleito salvador do mundo?
Porm, embora tentasse, no conseguia obrigar-se a continuar pelo passeio fora. Continuava a ouvir o choro de fome de Jaimie. Levantou na cabea e inspirou fundo 
uma lufada de ar to gelado que quase o sufocou. O exaustor da cozinha de um restaurante emitia para a brisa fresca um cheiro a carne grelhada, um odor quase acre. 
Os olhos ardiam-lhe quando olhou atravs das montras matizadas da fachada da loja de penhores para as jias, as guitarras elctricas e as bugigangas em exposio. 
Sonhos desfeitos.  vida tinha um modo de se ocupar de quem era reles e as histrias tristes eram to variadas como as pessoas que as protagonizavam. Agora, mais 
um sonho desfeito ficaria naquele veludo vermelho barato.
O traseiro da Maggie quase saltou do cho quando ela ouviu passos perto do vago. No instante seguinte, Kendrick apareceu  porta, o sol de Inverno a fazer ricochete 
no seu Stetson preto e no cabelo em desalinho.
Deitou um olhar cauteloso para um e outro lado da linha, certificando-se de que ningum o tinha visto, o que fazia lembrar que podiam ser ambos detidos se fossem 
apanhados naquele comboio.
Instalou-se-lhe uma sensao desagradvel no estmago. At ali, tinha tentado ser uma cidad exemplar, trabalhando muito, pagando as suas contas e nunca violando 
a lei, nem sequer para fazer batota nos impostos.
Agora, ali estava, a quilmetros de casa, na companhia de um vagabundo e a caminho de tambm ela parecer o mesmo.
Quando ele assentou a palma da mo no cho para saltar l para dentro, no pde deixar de reparar no desempenho do msculo sob o corte folgado da sua camisa de cambraia. 
Aterrou sobre os dois ps e endireitou-se com uma fora fluida. 
Maggie conseguia facilmente imagin-lo a escalar a cerca de um pasto com a mesma facilidade, pondo as mos em cima de um pilar e saltando como se no existisse nenhuma 
barreira. Era um homem alto e, se as protuberncias endurecidas que lhe enchiam a estrutura alongada significavam alguma coisa, o seu corpo tinha sido moldado por 
anos de trabalho braal. Embora tivesse, evidentemente, perdido muito peso, as espessas camadas de msculo magro ainda lhe davam uma corpulncia impressionante.
Pela segunda vez desde que o encontrara, perguntou a si mesmo que diabo teria acontecido para o fazer optar por aquele modo de vida. Seria procurado pelas autoridades? 
Por razes que a ultrapassavam, no lhe parecia um criminoso. Mas afinal o mesmo dissera muita gente acerca do famoso Ted Bundy. Apertou-se-lhe a garganta enquanto 
ele caminhava em direco a ela. Cada uma das suas passadas fazia abanar o vago e criava um rufo pesado que ecoava dentro dela. O seu olhar frio de gelo sustentou 
o dela, num contacto visual que a fez sentir-se nua apesar da manta que a envolvia. Com aquela pesada barba preta por fazer, parecia cruel e determinado; a posio 
do queixo saliente fazia pensar que achava aquela situao quase to desagradvel como ela. Isso no fazia sentido nenhum.
Se achasse nojenta a combinao que tinham feito, no estaria ali com as coisas que ela tinha pedido.
Debaixo do brao, trazia um saco de papel dobrado em cima de modo que o contedo no saltasse. A avaliar pelas grandes dimenses do pacote, tinha comprado mais do 
que um bibero e papa.
Um estremecimento de grande temor percorreu-a, pois sabia que pagaria caro cada cntimo que ele gastara. Queria aninhar-se com Jaimie junto ao seu corpo, deixar 
cair a cabea e chorar baixinho. Mas no. Tinha feito aquela combinao com ele e no se poria a chorar e a queixar-se agora, que era a altura de pagar.
- Acha que consegue caminhar uns quarteires?
- Porqu?
Arqueou uma sobrancelha preta. Ela sempre invejara as pessoas que conseguiam fazer isso. 
- Vou lev-la para um motel onde voc e o Jaimie ficaro quentes e podero descansar. Talvez lhe arranje algo para comer. Quando  que teve a ltima refeio decente?
Maggie tinha pegado numa torrada na manh anterior, antes de sair de casa com Jaimie. 
Da para c, tudo se tinha tornado um pesadelo. Agora estava com alguma fome - de um modo vazio, enjoado. Mas, por Deus, no queria que aquele homem lhe comprasse 
nada para comer.
- Comprar-me comida e alugar-me um quarto no fazia parte do acordo - recordou-lhe ela. - Tudo o que me interessa  alimentar o Jaimie.
Momentaneamente, ele pareceu ficar desorientado. Depois, os olhos ficaram lmpidos e adquiriram um brilho divertido, enquanto a boca se abria num sorriso rasgado 
que parecia depravado.
- Talvez eu ache que merece mais do que um bibero e uma lata de papa. - Enquanto falava, inclinou-se e ps-lhe a mo no ombro. - Vamos. Quando um homem quer pagar 
mais do que o preo pedido, uma mulher inteligente no discute.
Oh, sim, ela discutia. J tinha ido demasiado baixo. No se obtm nada de graa, especialmente de um homem. 
- No quero entrar em nada importante nem prolongado - protestava ela, mesmo quando ele j a levava para a porta. - S quero a garrafa e a papa para o meu beb, 
mais nada. Se est  espera de uma coisa para a noite inteira, esquea.
Libertou-lhe o brao e saltou do vago com a mesma fora elegante que tinha exibido anteriormente, coisa que pouco contribuiu para lhe sossegar a mente. Um motel? 
O que  que ele estava a planear? Uma maratona sexual?
Oh, meus Deus. Sentia as pernas como se pudessem ceder e agora, que estava em p, tinha uma necessidade horrvel, ardente, de ir  casa de banho. Tambm era importante 
para ela pr-se de p e endireitar-se. A dor na parte inferior das costas foi atroz quando tentou.
- Ouviu? - insistiu. - No quero ir para um motel.
Ele virou-se, ps o pacote no cho junto dos ps dela e pegou em Jaimie.
- Ouvi, sim, santinha - disse ele, ainda a sorrir ligeiramente. - E prometo-lhe que uma noite inteira de sexo seria de longe demasiado penosa para um velhote como 
eu.
Estava morta por lhe dizer onde podia met-lo. Mas tinha estado do lado do receptor da ira de um homem vezes suficientes para no o provocar.
Alm disso, ainda no tinha o bibero nem a papa em seu poder. Ele podia deitar aquele saco no prximo caixote de lixo que visse se ela se recusasse a colaborar.
Por um momento, ficou ali de p, agarrada ao Jaimie e a olhar para ele, mas a sua condio fsica acabou por a obrigar a largar o filho. 
Se ele estava absolutamente decidido a ir para um motel, tinha poucas opes que no fossem aceitar a ideia. Ele  que tinha o dinheiro, ele  que mandava.
Depois de pegar no Jaimie, Rafe aconchegou-o no gancho do brao e pegou na mo dela. Com a outra mo assente nas costelas, Maggie preparou-se para saltar. No instante 
seguinte, ele deu um forte puxo, desequilibrando-a. Quando caiu para a frente, largou-lhe a mo e segurou-a com o brao disponvel, apertando-a firmemente contra 
o seu peito largo e colocando-a suavemente no cho. O impacto do corpo dela contra o dele f-la vibrar da cabea aos ps e, durante um minuto horrvel, teve medo 
de que pudesse desmaiar.
- Desculpe. Eu sei que doeu, mas est to fraca que tive medo de que pudesse cair e ainda era uma queda grande, at ao cho.
Segurou-a contra si at ela se apoiar nos ps, tornando-a terrivelmente consciente da fora superior dele. Depois, tirou o saco do vago, sempre a olhar para ela 
enquanto acomodava a criana e o pacote para poder pegar bem em ambos.
Olhando de relance para o parque de manobras, perguntou-lhe: 
- Aguenta dois quarteires sem ajuda?
Maggie tiritava dentro do casaco, com a ateno concentrada no beb que ele levava nos braos. 
- Sim - disse ela com mais confiana do que a que sentia. - Mas deixe-me levar o Jaimie. Ou isso, ou veste o casaco para ele no apanhar frio.
Olhou para o beb adormecido. 
- Ele est ptimo com o casaco e a camisola a embrulh-lo. Daqui a cinco minutos estaremos no quarto.
Foi-se embora, deixando Maggie para trs. Dado o facto de ter o beb dela, talvez tambm pudesse t-la trazido  trela. Ps uma mo em cima das costelas e caminhou 
o mais depressa que pde para o acompanhar.
Imps um ritmo rpido at sarem do parque de manobras do caminho-de-ferro. Uma vez no passeio, parou  espera dela com uma expresso incompreensvel. 
- Desculpe a correria. No d para andar para trs e para diante num ptio de manobras do caminho-de-ferro.
Maggie entendeu a necessidade de ter cuidado. Com uma respirao arquejante e a percorrer o resto da distncia entre eles sobre umas pernas que ameaavam dobrar-se, 
disse: 
- No h problema. No quero mais do que voc ir parar  cadeia.
- Duvido que fssemos presos. A maioria das vezes, a lei olha para o outro lado, amenos que algum cause problemas. Os empregados dos caminhos-de-ferro so, no entanto, 
uma coisa ligeiramente diferente e  muito menos complicado se conseguirmos evit-los! - O seu olhar procurou o dela. Maggie tentava respirar mais devagar, mas os 
pulmes no pareciam estar a encher-se completamente de ar. 
- Est bem? - perguntou ele.
Em jeito de resposta, a nica coisa que conseguiu arranjar foi um aceno com a cabea.
- Desculpe, querida. Se pudesse, carregava consigo.
Parando, desejou encostar-se a ele e descansar por um momento. Depois, lembrou-se de aonde iam e pensou melhor. Um motel? 
- Eu... eu realmente no tenho tempo para isto! - tentou outra vez, esperando que ele pudesse ter um rebate de corao. - Tenho que chegar ao local para onde vou 
e arranjar um emprego.
Meteu-lhe o saco nas mos. Era surpreendentemente pesado e, no estando  espera daquele peso, Maggie quase o deixou cair. Enquanto ela tentava agarrar melhor, passou-lhe 
um brao por trs das costas e a puxou contra ele. 
- Encoste-se a mim. Talvez isso ajude. So s dois quarteires. Se formos devagar, talvez consiga l chegar. - Inclinou a cabea e esticou o pescoo para lhe ver 
o rosto. - O meu brao est a mago-la? - com o grosso casaco a servir de almofada, a presso nas ndoas negras era dolorosa mas no insuportvel. O apoio dele tambm 
ajudava a aliviar a dor que tinha no fundo das costas. Abanando a cabea, disse:
- Ouviu? Tenho que arranjar um emprego para mandar vir a minha irmzinha.
Parte daqui outro comboio esta manh?
Sem responder, arrancou, mantendo, desta vez, um ritmo mais lento e apoiando o peso dela contra si. Finalmente, disse: 
- Pode partir amanh de manh. Enquanto falava, arrastava-a inexoravelmente pelo passeio.
Maggie sentia-se como um prisioneiro condenado a ser arrastado para a cmara de execuo. 
- No motel, pode comer qualquer coisa e dormir. Neste momento, no conseguia fazer nada, como sabe. De qualquer modo, o que  que faz?
Piscou os olhos, desejando que o ar no estivesse to frio. Respirar fazia doer. Deitou novo olhar preocupado ao beb. 

- A cara do Jaimie est tapada?
- Ele est embrulhado como uma encomenda de correio expresso.
Parou no rebordo do passeio, expelindo baforadas de vapor provocado pela respirao enquanto olhava para ambos os lados da rua vazia. Para Maggie, as fachadas dos 
edifcios eram uma mancha indistinta mas, mesmo assim, notou a ausncia de automveis junto aos parqumetros que ladeavam os passeios. 
- Onde esto as pessoas?
- Quando c vim, h bocado, vi um letreiro que diz que a populao que vive dentro dos limites da cidade  de pouco mais de quatro mil pessoas e, se aquele relgio 
dentro do banco estiver certo, so apenas nove e quarenta, o que  bastante cedo. Isto , em grande medida, uma comunidade rancheira e, normalmente, os rancheiros 
s vm para a cidade depois de terminadas as tarefas matinais.
Que banco? Maggie voltou a piscar os olhos, sentindo-se estranhamente separada da realidade. 
- O seu trabalho  de secretariado ou de linha de montagem? - perguntou ele enquanto a guiava a atravessar o asfalto coberto de gelo at ao passeio do outro lado. 
- Prior no  uma grande cidade. No consigo imagin-la como um fulcro de oportunidades.
- Criada de mesa - conseguiu responder.
- Ah. - No pareceu muito impressionado.
Maggie tentou desencostar-se dele mas o crculo que o seu brao formava  volta dela era inflexvel como ao. 
- Eu sei que  um trabalho sem futuro, mas fao gorjetas realmente boas. O que levo mensalmente para casa  mais do que o que qualquer secretria leva, no h dvida. 
O prestgio fica para trs quando se tem famlia para sustentar e contas para pagar.
Olhou para ela, com a sombra projectada pela aba do chapu a esconder-lhe a expresso dos olhos. 
- Uma famlia para alimentar, hein? Quer isso dizer que  casada e tem mais filhos, alm do Jaimie?
- No, eu... - Maggie travou antes que dissesse de mais. Olhou para ele de soslaio: -  pesca de informao, Senhor Kendrick?
Ele sorriu. 
- E a no chegar depressa a parte nenhuma. Infelizmente para si, mulheres misteriosas sempre me fascinaram. Ento... faz boas gorjetas? - Acenou com a cabea: - 
Acredito.
Perguntou a si mesma o que ele quereria dizer com aquilo, mas estava demasiado cansada para pensar. O passeio que tinha  frente parecia estender-se por milhares 
de quilmetros. Sentia as pernas pesadas e moles como se fossem de borracha. 
- Ainda  longe?
- No  muito longe. - Parou, segurando-a contra ele. - Descansamos aqui um minuto. No h fogo, pois no?
Ali estava o peito largo dele, oferecendo um stio perfeito para ela apoiar a face. Maggie tentou resistir, mas no conseguiu. Com os braos tolhidos, abraou o 
pacote e aninhou-se ao lado de Jaimie, encostando-se a ele. Como se entendesse que ela se sentia fraca e atordoada, suportava-lhe quase todo o peso. 
- Desculpe - chiou ela -, receio que tenha feito um mau negcio. Sinto-me como que doente.
- Doente? - repetiu ele bruscamente. - Onde?
- Em toda a parte. Como se tivesse sido atropelada por um camio, e estou como que enjoada.
Sentiu o hlito quente da respirao dele no cimo da cabea. 
- Se as dores dessas costelas no abrandarem, levo-a ao hospital.
- No! - Maggie tentou afastar-se dele, mas foi vencida pelo modo como a segurava. - J lhe disse que no posso andar  volta de muita gente.
Alm disso, no tenho dinheiro para hospitais. Sabe quanto pode custar um tratamento na sala de emergncias?
- Calma. Era s uma ideia.
- Magoada como eu estou, tenho que estar dorida. No preciso de mdico nenhum.
- Est bem, est bem - disse ele num tom tranquilizador. - Esquea que sugeri isso. Talvez se sinta melhor depois de comer e descansar um pouco, com ele a pagar 
a conta da comida e do quarto? No se sentiria melhor enquanto no o visse pelas costas. Oh, como gostaria de recusar a generosidade dele, mas o beb necessitava 
de ser alimentado e ela no conseguia arrumar as ideias para pensar numa alternativa. Apenas queria encostar-se a ele e manter os olhos fechados para sempre.
Ele incentivava-a a endireitar-se. 
- No falta muito. Aguenta? Ou quer que v instalar o Jaimie no quarto e venha busc-la depois? Sem nada para carregar, posso lev-la ao colo o resto do caminho, 
se for muito difcil ir pelo seu p.
Maggie no estava disposta a perder o beb de vista. 
- Eu consigo andar - insistiu e, de algum modo, conseguia, pondo um p  frente do outro at que, finalmente, ele disse: - C estamos. Espere aqui por mim, est 
bem? Demoro um minuto.
Maggie ficou grata pelo suporte saliente a que a encostou. Cingindo o saco contra o peito, apoiou a face na madeira e seguia-o com o olhar.
Entrou num pequeno escritrio de motel, com fachada de vidro. Donde estava, Maggie conseguiu ver que uma senhora rolia, de cabelo grisalho, atendia na recepo, 
que era pouco mais do que um balco esmurrado com um feto envasado com mau aspecto e um expositor de brochuras. Com o Jaimie num brao, Rafe foi ao bolso das calas 
tirar dinheiro enquanto a mulher lhe fazia perguntas e preenchia um formulrio qualquer. Minutos depois, apareceu com um porta-chaves de plstico preto com o nmero 
catorze impresso a branco desmaiado na superfcie oval.
- Tentei arranjar duas camas! - explicou enquanto a ajudava a atravessar o parque de estacionamento vazio em direco a uma das casas. - Mas s tem camas de casal. 
No entanto,  grande. Isso  uma vantagem, no ?
Maggie concentrou-se na fachada do compartimento enquanto ele abria a porta. O revestimento branco com rebordo vermelho feria a vista  luz matinal e os painis 
horizontais inferiores estavam salpicados de lama por causa da gua que pingava das goteiras. Floreiras vermelhas vazias, tristemente necessitadas de pintura, sublinhavam 
as janelas. A porta rangeu quando ele a abriu. Ao lev-la para dentro do quarto, ela tropeou na soleira da porta e talvez tivesse cado se no fosse ele t-la agarrado 
pelo cotovelo.
O leve cheiro concentrado a mofo explodiu-lhe na cara. Maggie estava  entrada, como que paralisada, a perceber-se do que a rodeava, que consistia num toucador antiquado, 
com um espelho velado, numa cama com uma colcha branca, e num horrvel tapete de plo castanho que estava to gasto que a superfcie estava lisa. Um aquecedor de 
parede enferrujado estava frio debaixo de uma janela coberta com cortinados curtos que outrora tinham sido brancos mas agora estavam amarelos da idade, um deles, 
manchado por uma infiltrao da janela.
- Bem, numa emergncia, serve. Pelo menos, parece relativamente asseado.
Aliviando Maggie do saco de papel, ligou o aquecedor e dirigiu-se ao lado oposto da larga cama para deitar Jaimie. Enquanto o libertava do casaco e da camisola, 
o beb agitou violentamente as pernas e soltou um queixume. 
- Pronto para o pequeno-almoo, no , scio? -
Olhou para Maggie.
- Largue o casaco, querida, e deite-se. Eu trato da papa e num minuto trago um bibero aqui a sua senhoria.
Maggie tentou despir o casaco, mas era pesado e os braos pendiam-lhe como se fossem metros de rgida mangueira de jardinagem. O aquecedor de parede fazia um ligeiro 
zumbido que parecia estar em harmonia com o barulho que sentia nos ouvidos. Viu Rafe desaparecer no extremo oposto do quarto e entrar no que presumia que fosse uma 
casa de banho.
A voz profunda dele soou, vinda do compartimento. 
- Estamos a brincar, ou qu? At temos uma mquina de caf.
Ouviu correr gua e depois uma chiadeira quando ele fechou a torneira.
Quando ele abriu o saco e tirou as compras - compras que ainda tinha de lhe pagar -, sentiu o barulho tpico de papel amachucado. Durante o silncio que se seguiu, 
pensou em pegar em Jaimie e fugir dali. Duas coisas impediram-na. O vaqueiro tinha com ele, na casa de banho, o bibero e a papa, e ela mal conseguia caminhar, quanto 
mais correr.
Foi aos toimbos em direco  cama, conseguindo de algum modo levantar os ps o suficiente para no cair redonda. Quando os joelhos chegaram ao colcho, afundou-se 
consolada na superfcie macia e enterrou o rosto na almofada.
Num minuto, ele voltaria e viria entusiasmado para fazer a coisa. Pensa, Maggie. A menos que arranjasse rapidamente uma soluo, ele esperaria que lhe pagasse de 
acordo com as condies combinadas. Passou com as pontas dos dedos pelo pulso esquerdo desnudo, desejando poder oferecer-lhe o relgio em troca, mas tinha partido 
o vidro no trabalho, na semana anterior, e tinha-lhe entrado gua no mecanismo.
Lgrimas formigavam-lhe por baixo das plpebras. Isso deixava-a exactamente sem nada para negociar - excepto o seu corpo.
Oh, como desejava que ele a deixasse mesmo dormir a seguir. Depois, talvez se sentisse melhor e fosse capaz de se ir embora. No pensaria no que lhe estava reservado. 
Era esse o truque. De facto, estava to cansada que talvez fosse capaz de dormir durante o suplcio. Ele podia acord-la quando estivesse despachado - ou, ainda 
melhor, deix-la continuar a dormir.
A uma grande distncia, Maggie ouviu Jaimie chorar. Pestanejou para acordar, aliviada por a sua necessidade de ir  casa de banho parecer um pouco menos urgente 
agora que estava numa posio horizontal. Soerguendo-se sobre um cotovelo, viu Rafe de p ao lado da cama. Com o ar de um homem que tinha feito aquilo muitas vezes, 
deixava cair umas gotas de papa do bibero na parte anterior do pulso.
Ele olhou e sorriu. 
- Lavei tudo o melhor que pude e aqueci a papa pondo o bibero dentro de gua a ferver que tirei da cafeteira. Isto j vem misturado, pelo que no temos que andar 
a medir tudo.
Os punhos pudos da camisa pareciam molhados, sinal de que, pelo menos, tinha lavado as mos. Mas, mesmo assim, continuava a no parecer muito asseado. Apenas podia 
rezar para que Jaimie no entrasse em contacto com algum micrbio terrvel e adoecesse.
Rafe ps, com um movimento rpido, o beb no brao e ofereceu-lhe o bibero. Jaimie agarrou a tetina com as gengivas e, depois, fez uma cara horrvel. Rafe riu-se 
e comeou a andar, encostando a tetina de borracha  boca do beb e abanando-o delicadamente.
- Eu sei que no  bem como a que a tua me tem - ouviu-o ela dizer com a voz presa -mas eu no venho com o mesmo equipamento. Ah, aqui. Vs?
No sabe to mal como isso. - Deu outra gargalhada, baixinho. - Eia, filho. To depressa, no, ou ficas com dor de barriga. - A tetina deixou entrar ar quando Rafe 
a tirou da boca de Jaimie e fez borbulhar a papa que estava dentro do bibero. Olhou para Maggie. - Est a engolir como um sifo.
Maggie ansiava por se levantar e alimentar ela mesma o beb, mas o peso de chumbo do corpo determinava que assim no fosse. Observava nostalgicamente o modo como 
Rafe punha Jaimie deitado sobre o ombro e lhe batia nas costas para arrotar.
- Voc  bom nisso - observou com voz rouca. - Conviveu com muitos bebs?
Um olhar inexpressivo cruzou-lhe o rosto moreno quando voltou a pr Jaimie na curva do brao e comeou outra vez a aliment-lo. 
- Sim, convivi com alguns - respondeu, a voz parecendo estranhamente cavernosa. - Tratar deles  como andar a cavalo. Nunca se esquece.
Maggie baixou o olhar, sentindo que tinha entrado em terreno proibido.
Olhando para cima, disse: 
- No queria bisbilhotar, apenas...
- No faz mal. - A laringe dilatou-se-lhe como se estivesse a engolir uma bola de golfe. Quando voltou a falar, ficou pesadamente no ar a tristeza do seu tom de 
voz. - Eu tive dois filhos, um rapaz e uma rapariga.
Maggie no pde deixar de notar que ele se referiu a ambos os filhos no passado. 
-  divorciado?
Manteve o olhar fixo no beb e o seu silncio estendeu-se por tanto tempo que ela pensou que ia deixar a pergunta sem resposta. Mas finalmente disse: 
- No - a voz spera de emoo. - Eu... perdi-os num acidente de automvel.
O estmago de Maggie deu uma volta e ela desejou do fundo do corao nunca ter feito a pergunta. Comeou a dizer que lamentava, mas as palavras pareciam to banais 
que optou por no dizer nada. O olhar voou para Jaimie. Achava que no aguentaria se lhe acontecesse alguma coisa.
- Foi h mais de dois anos - disse-lhe ele. - Durante muito tempo, soube exactamente h quanto tempo,  hora e ao minuto. Mas depois pus o relgio no prego. - Riu-se, 
baixo e amargamente. - Foi bom, acho eu. Contar os minutos que passara sem eles era algo mrbido. E no servia para nada.
Maggie sentia a boca seca como p. Ainda no sabia o que dizer.
- Mas a vida continua - disse ele com maior vivacidade, o olhar ainda fixo no beb. A boca curvou-se-lhe num ligeiro sorriso. - No , companheiro? - Tirou a tetina 
da boca do beb e segurou o bibero quase vazio. Acabaste com isto em menos de nada. Da prxima vez,  melhor arranjar-te mais.
Ps o bibero na mesa-de-cabeceira e puxou outra vez o beb para o ombro.
Quando Jaimie emitiu um sonoro arroto, Rafe fez uma careta.
- Meu Deus! Foi mesmo no meu colarinho! - Sorriu e piscou o olho a Maggie. - Acho que j no me lembro de tudo em relao aos bebs. Regra nmero um quando se pe 
um beb a arrotar: usar sempre uma proteco.
Deitou o beb na cama e desapareceu outra vez na casa de banho. Da a um momento, voltou com uma fralda descartvel e um toalhete hmido.
- Eu mudo-o - disse Maggie, esforando-se por se levantar. Olhou para ela. 
- Eu trato disto sem problemas. Veja bem. Pode despir esse casaco, para comear, antes que derreta. Est a ficar calor aqui dentro.
Ps-se de p, sem foras, a lutar com a pele de ovelha, que parecia pesar toneladas. Quando conseguiu libertar um ombro, o casaco caiu-lhe pesadamente aos ps. Com 
o corpo coberto de transpirao, olhou para ele, demasiado exausta para o apanhar.
- Depois eu apanho o casaco - assegurou-lhe ele. - O Jaimie j est a adormecer e, portanto, no deve precisar de si para nada. Concentre-se apenas em tirar a roupa, 
est bem?
A roupa? Maggie desviou o olhar do casaco para a T-shirt desbotada que trazia. Claro que ele estava  espera que a despisse. Porque  que no tinha pensado nisso? 
Imaginou-se a despir-se e a ficar nua  frente dele.
S a ideia era to humilhante que desejou morrer. Oh, Deus. Que estava ela a fazer ali?
No penses - disse firmemente para consigo. Ignora tudo. Concentra-te no Jaimie. Tem comida na barriga e est quentinho e seco. Independentemente do que te custar, 
as necessidades dele esto a ser satisfeitas e s isso  que importa.
Fixou o olhar no extremo oposto do quarto, onde se localizava a casa de banho. Um p  frente do outro. Tu consegues. As paredes pareciam inclinar-se para dentro 
quando contornou o fim da cama. Vislumbrou a sua imagem no espelho velado e achou que tinha visto duas.
- Calma, querida. J a agarrei - murmurou-lhe uma voz profunda junto ao ouvido.
No eram duas. Rafe estava ao lado dela. Sentiu as grandes mos dele segurarem-lhe os cotovelos e, embora desejasse afastar-se, acabou por deix-lo suportar o seu 
peso. Oh, meu Deus. Aquilo era to embaraoso.
- Desculpe - disse ele numa voz que no parecia a sua. Soou pattica.
- No se preocupe.
Uma vez na casa de banho, conduziu-a  sanita e depois chegou ao p dela e desapertou-lhe os jeans. O som do fecho de correr fez-lhe soar campainhas de alarme na 
mente.
 - No, eu consigo. Por favor.
- Eu sei - garantiu-lhe ele. - Estou s a arranj-la aqui. Depois, vou-me embora. Consegue agarrar-se ao toucador para no cair?
Maggie agarrou-se com as duas mos ao rebordo de frmica do armrio. 
- Sim - disse com voz fraca. - J est. ptimo, agora. Estou ptima.
Ouviu-o praguejar baixinho e, por um momento terrvel, receou que ele insistisse em ficar ali para a ajudar. 
- Por favor, Senhor Kendrick. Agora v-se embora, se faz favor.
- Tem a certeza de que est bem?
Maggie no conseguiu responder, pelo que se limitou a acenar afirmativamente com a cabea. Para seu incomensurvel alvio, ele foi-se embora e fechou a porta da 
casa de banho. O pequeno compartimento parecia girar  sua volta, mas, de algum modo, conseguiu manobrar. Quando acabou, apertou o boto dos jeans, mas o fecho de 
correr desafiava-lhe os dedos, que pareciam de borracha.
- Maggie? Querida, j est despachada?
Desistiu do fecho de correr e deixou cair os braos ao longo do corpo.


Que se passava com ela? Nunca se tinha sentido to mal. Tinha ido  casa de banho mas continuava com aquela dor ardente. Estaria com uma infeco da bexiga? Nunca 
tinha tido nenhuma, pelo que no tinha a certeza do que sentia. A patroa, Terry, tinha, por vezes, e dizia-lhe que beber muito sumo de mirtilo ajudava sempre.
A porta da casa de banho abriu-se. No instante seguinte, o seu vaqueiro do vago de mercadorias tinha um brao forte  volta da sua cintura. 
- Jesus Cristo, querida. H um momento e um local para o pudor, mas no  este. - Ajudou-a a chegar ao lavatrio e lavou-lhe as mos como se fosse uma criana. Pareceu 
muito estranho a Maggie que um vagabundo pudesse incomodar-se. Tirou uma toalhinha da prateleira e limpou-lhe os dedos. 
- A est.
No instante seguinte, o compartimento virou-se de pernas para o ar.
Maggie deu um pequeno grito e agarrou-se ao pescoo, mal percebendo que ele lhe tinha pegado. 
- O que  que est... Oh, meu Deus, no me deixe cair!
Achou que tinha detectado riso na voz dele quando respondeu: 
- Duvido que pese mais de cinquenta quilos, vestida e encharcada. Acho que consigo. Precisa de se alimentar. H quanto tempo no come?
- Desde ontem.
- O que  que comeu?
- Uma torrada.
- Bem, que diabo! No admira que esteja magra.
Levou-a de volta para a cama, depositando-a delicadamente de p ao lado dela. Maggie tentou afundar-se no colcho ao lado de Jaimie, mas Rafe agarrou-a pelos cotovelos 
e p-la de novo em p. Os seus olhos azuis-escuros ficaram presos aos dela por um longo momento e depois agarrou a bainha da T-shirt.
 - Vou ajud-la a tirar a roupa. Est bem?
Pelo tom da voz dele, podia dizer-se que no estava a pedir autorizao.
Era mais um aviso do que a vinha. Quando ele comeou a levantar a camisola, encaracolou os dedos  volta dos seus punhos largos, tentando afastar-lhe as mos. Mas 
no tinha fora. Em vez disso, apenas apoiou as palmas das mos nos seus punhos esfarrapados, incapaz de apertar com fora. Lgrimas voltaram a encher-lhe os olhos. 
Zangada consigo mesma, tentou afast-las pestanejando, mas elas continuaram a cair.
Foi rpido a tirar-lhe a T-shirt pela cabea. Depois, atirando-a para o lado, ps-lhe o dedo em gancho debaixo do queixo. Levantando-lhe o rosto cheio de lgrimas, 
disse: 
- O que  isto?
- Des... desculpe. No sou muito boa para encontros casuais.
- Encontros casuais, hein?  o que isto ?
Lembrou-se de todos os anncios sobre conscincia do perigo que via na televiso e uma nova preocupao extremamente arreliadora ziguezagueou-lhe pela cabea. - 
Senhor Kendrick? Espero que tenha pensado em arranjar um... - Engoliu em seco e pestanejou, merc de uma onda de tontura. - Voc sabe o qu.
Ele soltou um riso abafado. 
- No precisamos.
- Precisamos, sim. - A cabea desanuviou-se-lhe um pouco e conseguiu ver-lhe nitidamente a cara. Cabelo emaranhado, suas mal arranjadas e uma camisa que parecia 
que tinha sido usada para esfregar um bacio... Ele era um factor de risco andante e falante. - Por favor. Vai buscar um? No estou habituada e tenho medo de no 
estar preparada!
- Sim, bem... tambm achei. - Umas pontas de dedos que pareciam lixa limparam-lhe as lgrimas das faces. - Alm disso,  uma pssima avaliadora de carcter. Acha 
mesmo que a trouxe aqui para dar uma cambalhota?
Maggie olhou para ele com os olhos turvos de lgrimas. 
- Foi essa a nossa combinao. Estou em dvida para consigo pelo que comprou. 
Fez-lhe de novo uma festa na face. 
- Ora bolas, rapariga. - Deu uma gargalhada gutural. - Quer parar de olhar para mim dessa maneira? No estou  espera de pagamentos. Est bem? Se insistir em que 
fiquemos quites, ter que me conceder um adiamento. No sendo o vermelho e o roxo as minhas cores preferidas, no me consigo entusiasmar para cobrar a dvida enquanto 
essas ndoas negras no tiverem passado.
- No posso ficar aqui at l. Eu disse-lhe que tenho que chegar ao meu destino e arranjar emprego. A minha irmzinha est  espera que a mande buscar, e eu... -
Interrompeu-a, obrigando-a a sentar-se na beira da cama. 
- E no est interessada numa coisa em grande, prolongada - concluiu por ela. - Entendi perfeitamente. Por isso, acho que ter que ficar em dvida para comigo.
- Mas no conseguirei pagar-lhe. Eu disse-lhe, lembra-se?
Agachando-se  frente dela, ps um p em cima do joelho e comeou a desatar os tnnis. 
- Lembro. - Tirou o sapato e a meia, e o aperto dos dedos quentes provocou-lhe choques pela barriga da perna acima. Depois de pr o p descalo no tapete, levantou 
a outra perna. - Gosto da ideia de uma mulher bonita ficar em dvida para comigo para sempre. No Dia do Juzo Final, talvez isso conte como um ponto a meu favor. 
O que  que acha?
Maggie olhou-lhe para o cimo da cabea morena, s naquela altura reparando que ele tinha largado o chapu. 
- Quer dizer que, realmente, no quer... bem, sabe o qu... como tnhamos combinado?
- Como voc combinou - corrigiu ele. Atirou para o lado o segundo sapato e a segunda meia, agarrando-a cuidadosamente pelos ombros para a pr direita. - Sabe qual 
 o seu problema? Presume que todos os homens que encontra so canalhas do mais baixo que h, que se aproveitaro de si se tiverem uma oportunidade.
Demasiado tarde, Maggie percebeu que ele tinha desapertado o fecho de correr dos jeans enquanto falava. Teve um sobressalto de espanto quando ele se dobrou para 
lhe tirar as calas de ganga das ancas. As calcinhas que trazia eram grandes mas o nylon branco era semitransparente. Fez uma jura, baixinho, quando lhe viu as ndoas 
negras nas coxas. 
- Aquele filho da me. Se alguma vez me cruzar com ele,  um homem morto.
A tentativa de Maggie de tapar a parte de cima das pernas com as mos abertas foi abruptamente abortada quando ele a empurrou para trs e para baixo, para se sentar 
no colcho. Baixou-lhe delicadamente os jeans at aos tornozelos, com o cuidado de no lhe tocar nas pernas.
- Credo - sussurrou ele. - Voc  uma ndoa negra pegada, querida. -Tirou-lhe os jeans e deixou cair as calas no cho. - Estou admirado por conseguires andar.
Foi puxar a coberta para trs e depois ps-se a olhar para ela. Um rubor de embarao aqueceu a pele de Maggie.
- Senhor Kendrick, se no tem inteno de... porque  que est a tirar-me a roupa toda? - perguntou, a sua desconfiana emprestando uma aspereza cortante  pergunta.
- Porque, posso desinfectar esses golpes. Algum tem que o fazer. Mesmo que estivesse suficientemente forte para tratar disso sozinha, no conseguia chegar a dois 
teros deles. No quer que a infeco se instale, pois no?
Maggie ficara apavorada com a ideia de cumprir a sua parte da combinao, mas este ltimo desenvolvimento parecia ainda pior. Tinha golpes por toda a parte, alguns 
em locais que morreria de humilhao se ele l tocasse.
Imaginou-se deitada nua enquanto ele examinava cada centmetro do seu corpo e a perspectiva era to alarmante que ficou com dificuldade em respirar.
- Mas eu estou quase nua - observou ela, com a voz a tremer.
- Farei o que puder para tornar isto fcil para si. Controlo os meus modos. Serei um perfeito cavalheiro. Prometo no a destapar toda imediatamente. O que  que 
acha?
Maggie s conseguia pensar nas partes que ele descobriria.
- Estaria mais exposta em biquni - salientou ele, como se isso a fizesse sentir-se melhor. - Na realidade, no consigo ver muita coisa.
Estava a agarrar-se a essa ideia e a tentar convencer-se que, na realidade, no estava indecentemente vestida quando ele lhe ps as mos atrs das costas para desapertar 
o soutien. Depois de puxar vrias vezes por ele, disse: 
- Merda - e inclinou-se de modo a ver o que estava a fazer. - Foi uma mulher que inventou estas coisas danadas. Apostava que foi. Nunca consegui tirar rapidamente 
um malandro de um soutien em toda a minha vida. - Finalmente, conseguiu vencer o fecho com um puxo desastrado e brusco. - Quando tinha dezassete anos, at roubei 
um dos soutiens da minha me para treinar a minha tcnica.
Dirigiu-lhe um olhar espantado a que ele respondeu com um sorriso e uma piscadela de olho. Tinha a sensao de que ele estava a inventar aquela histria para a manter 
distrada, de modo a no se sentir inibida.
- Coisas de rapazes. Se no passarmos nas 1001 Maneiras de Desapertar Soutiens, no temos sorte nenhuma com as raparigas. Eu treinava todas as noites, a srio, e 
mesmo assim no lhe apanhei o jeito. Um dia, a minha me encontrou o soutien debaixo do colcho e disse ao meu pai. Mais tarde, ele confessou-me que durante um ano 
andou preocupadssimo com medo de que eu fosse um travesti.
- Um qu?
Deu uma gargalhada. 
- No interessa.
Para seu imenso alvio, ele no lhe tirou as copas do soutien dos peitos, o que, pelo menos, lhe proporcionava algum recato. Em vez disso, deu-lhe um delicado empurro 
e ela viu-se deitada de costas. Antes que tivesse tempo de protestar ou de se sentir alarmada, ele puxou-lhe a roupa da cama para cima e prendeu-lha  volta dos 
ombros.
- A est. Outra vez completamente tapada. No foi to mau como isso, pois no?
O tom dele fazia-lhe lembrar o que usara para convencer o Jaimie a mamar do bibero, voz baixa, um timbre vibrante que parecia rode-la de calor.
Mas ela no era to confiante como o filho. O soutien estava desapertado, o que tinha de significar que ele planeava tirar-lho rapidamente.
Deixou-a a remoer essa preocupao enquanto voltava para a casa de banho.
Ela ouviu-o mexer no saco de papel e fazer vrios rudos, e fechou os olhos, apavorada. Da a um momento, chegou-lhe aos ouvidos o som surdo das solas das botas 
dele, que se aproximava. No precisou de abrir as plpebras para saber quando se debruou sobre ela. Sentiu a proximidade dele com todos os poros da sua pele. Uma 
garrafa de vidro fez um tilintar na mesa-de-cabeceira. Depois, o rebordo do colcho afundou-se acentuadamente quando ele se sentou.
Ela apenas podia adivinhar o que poderia vir a seguir, tendo como nica certeza que no seria agradvel. Irrompeu o pnico. Fechou as mos com fora, p-las ao lado 
do corpo e obrigou-se a ficar calma. Orgulho.
Talvez para algumas pessoas fosse apenas uma palavra, mas para alm do filho, era tudo o que lhe restava. Depois de tudo o que tinha passado para chegar ali, maldita 
fosse se deixasse que uma pequena dose de humilhao lhe tirasse o melhor que tinha. At ali, pelo menos, Rafe Kendrick no se lhe revelara um homem cruel. No  
que se pudesse dizer muito acerca da natureza de uma pessoa que se conhecia h to pouco tempo.
Ah, sim, ela tinha aprendido da pior maneira at que ponto os homens podem ser traioeiros, sendo num momento amveis para logo a seguir agirem como brbaros. Recordando 
agora essas experincias, os seus instintos avisavam-na para no confiar nele.
A menos que quisesse o mal dela, de que  que estava  espera? Estavam sozinhos, num quarto de motel com mau aspecto, atrs de uma porta fechada  chave. No havia 
ningum que interviesse. Em suma, nada o impediria de ser um patife.
- Posso pr-lhe almofadas atrs das costas para no ter que se manter sentada sem apoio - props ele. - Acha bem?
Maggie limitou-se a acenar afirmativamente com a cabea. Falar era demais para ela. 
Com medo de que as alas do soutien pudessem cair-lhe dos ombros, agarrou-se  roupa e apertou-a contra o peito quando ele lhe passou o brao por trs. No precisava 
de se ter incomodado. Quando ficou sentada e ele a largou para ir buscar as almofadas, viu que ele lhe tinha estado a segurar a colcha por cima da testa.
Ele apercebeu-se do seu olhar surpreendido e deu uma gargalhada seca.
- Isto no  exactamente aquilo de que estava  espera, j percebi. -Encolheu os ombros. - Pense nisso. H algum ponto em que eu lhe possa tocar sem a aleijar?
Alguns homens no se importariam. Maggie sabia disso. Oh, meu Deus, ia gritar e fazer de si mesma uma completa parva. Ele era obrigado a pensar que era louca e no 
podia critic-lo.
Tinha sido... to inesperado. Um bbedo porco com um traje esfarrapado de vaqueiro acabava por ser o homem mais amvel que jamais tinha encontrado desde que o pai 
morrera? No fazia sentido. Toda a gente sabia que praticamente todos os vadios dos caminhos-de-ferro eram marginais que at um cego roubariam se surgisse a oportunidade. 
Como  que tinha tido tanta sorte que conhecera um dos poucos bons? Talvez, na realidade, Deus tivesse ouvido as suas preces, afinal, e tivesse respondido enviando-lhe 
aquele homem.
Deu-lhe o frasco de medicamento e uma bola de algodo. Chegou-lhe ao nariz um forte cheiro a anti-sptico. 
- Eu seguro-lhe a colcha junto ao corpo, portanto, no se preocupe que no olho por cima. Tire o soutien e concentre-se no tratamento do peito, - com as mos a tremer, 
Maggie baixou as alas para os braos, ps o soutien para o lado e inclinou o frasco para molhar o algodo. Quando comeou a tocar levemente nos golpes, o lcool 
do anti-sptico ardeu tanto que ela inspirava e soprava para aliviar a dor.
- Meu Deus! Acho que devia ter lido o rtulo. Podia ter comprado alguma coisa que no queimasse.
- Est -ptimo. Agradeo-lhe ter-se preocupado com isto. No fazia parte da nossa combinao comprar coisas para mim.
- A nossa combinao. Voc parece um daqueles discos riscados do meu pai. Gostava que tirasse da cabea essa combinao que fez comigo.
Sentindo-se estranhamente indecisa e desligada da realidade, olhou para cima. 
- Voc teve mesmo um pai?
Semicerrou um dos olhos. 
- No, foi uma cegonha que me deixou na soleira da porta da minha me.
- Bem, claro que tem pai. O que eu queria dizer era... - Parou, no inteiramente segura do que queria dizer. A mente no parecia estar a acompanhar bem, o que deixava 
a boca a funcionar por conta prpria. -  que... bem, olhando para si, no se imagina que tenha famlia. Pais, irmos e irms e isso tudo.
- Garanto-lhe que, nesse aspecto, sou normal, tenho me, pai e um irmo.
- Tirou uma das mos que seguravam a colcha para a passar pela cara e pelo bigode. - Meu Deus, pareo assim to mal?
O pensamento de Maggie era to impreciso que levou algum tempo a perceber que ele tinha largado um dos lados da colcha. Agarrou ela a parte que tinha cado.
- Ups! Desculpe! - Puxou outra vez a colcha para cima. - No vi nada. Juro.
Acima da barba macilenta, a pele que lhe cobria as mas do rosto ficou vermelha. Ela sabia que estava a mentir com quantos dentes tinha na boca.
Pelo menos, tinha tido o bom gosto de corar.
- Pronto? - Ao aceno afirmativo dela, deixou ao seu cuidado a colcha, enquanto a ajudava a deitar-se. - Di como o diabo, no di? Uma vez, fiquei ensanduichado 
entre a vedao do curral e um touro. Parti duas costelas, pelo que consigo compreender.
- Ento o traje de vaqueiro no  s para dar nas vistas? - perguntou ela, prendendo a respirao por causa de uma dor de lado.
Puxou-lhe as cobertas para cima. 
- Dar nas vistas? Est a brincar, no est? Mesmo quando era rancheiro, nunca me vesti por razes de moda, e desde ento vim por a abaixo a toda a velocidade.
Maggie estudou as suas feies cinzeladas, tentando imaginar o aspecto dele limpo. Os seus olhos azuis eram do tipo de fazer palpitar o corao de uma mulher e o 
nariz grande, bem vincado, era atraente, mas pouco conseguia ver da parte inferior do rosto, com as suas a cobrirem grande parte. Tinha um queixo forte e anguloso. 
Conseguia perceber isso. E uma boca carnuda e sensual quando no estava com os lbios carrancudos e o sobrolho carregado.
Distraiu-a a anlise que estava a fazer dele atirando-lhe uma das toalhas. 
- Tape a fruta. Agora  a minha vez.
Metendo a toalha por baixo da roupa da cama, procurou estend-la em cima do peito. Quando ficou quieta, ele puxou-lhe as cobertas para baixo at  cintura. Maggie 
cruzou os braos por cima da toalha turca para que no se deslocasse.
Molhou uma bola de algodo esterilizado no medicamento e depois comeou a aplicar no ombro e no brao mais prximos. Ela sentia-se to pouco  vontade que fechou 
os olhos. Um instante depois, quando o sentiu a soprar-lhe na pele nua, as plpebras abriram-se. Dirigiu-lhe um daqueles olhares de whisky e fumo que tanto a perturbavam, 
mas no parou de soprar.
- Desculpe, mas eu sei como isto deve arder. - Voltou a fixar o olhar no ombro. - O estpido usa aliana, no usa?
Uma imagem do diamante de Lonnie relampejou na mente de Maggie. Oh, como ela detestava aquele anel, sabendo que ele o comprara com parte do seguro de vida do pai.
- Sabe, mudei de opinio em relao a no lhe pedir nada em troca do dinheiro que gastei - disse-lhe Rafe, de repente.
O corao dela deu um salto e sentiu-se desanimada, com um desapontamento esmagador.
- Como recompensa, responda-me a isto. Est coberta de ndoas negras do pescoo para baixo. Como se explica que no tenha marca nenhuma na cara?
Maggie engoliu em seco, sentindo as paredes da garganta como se fossem revestidas de cola de secagem rpida. 
-  tudo? Tudo o que quer  a resposta a uma pergunta?
- Talvez duas ou trs. - Os olhos riram-lhe de riso. - V l, trs.
Assim, fico com campo de manobra para voltar a ser intrometido, se for preciso.
Maggie quase sorriu. 
- Est a vender barato.
- Sim, bem, estou a deix-la safar-se sem dificuldade. Normalmente, sou mais manhoso a negociar. - Tocou-lhe com a bola de algodo num arranho acima do cotovelo 
e soprou suavemente sobre aquele pedao humedecido de carne viva, fazendo-lhe o estmago dar uma volta.
- Ento? Paga? Ou tenho que aumentar o valor do meu dinheiro, em troca? - Quando encontrou o olhar dela, o brilho de riso dos seus olhos tinha-se tornado inequivocamente 
prfido. - No abuse muito da sua sorte, menina Maggie. Voc  bem-parecida, embora esteja demasiado colorida de vermelho e azul para o meu gosto.
- Ndoas negras na cara seriam uma intil revelao involuntria de que ele me tinha batido - apressou-se a revelar.
- Ah! - Assentiu com a cabea. - Faz sentido. Posso tomar isso como significando que h mais algum na sua vida que no aceitasse que ele lhe tivesse dado uma sova?
- Essa  a segunda pergunta?
- Sempre alerta, no ? - Acenou afirmativamente com a cabea.
- Podemos cont-la como a minha segunda pergunta se der as respostas correctas. No s quem  essa pessoa, mas tambm por que diabo ele no tirou as peneiras a esse 
filho da me.
- "Ele"  uma ela. A minha me. E tem um corao adorvel, nunca sonharia que ele pudesse magoar-me a no ser que visse provas disso. Poupei-a a isso. Est com a 
sade frgil e no deve aborrecer-se.
- No deve ser grande me se nunca reparou que andava a coxear.
-  uma me to boa quanto pode ser, e esta  toda a informao que vai obter a menos que queira gastar as trs perguntas. - Rafe inclinou-se mais para ela para 
lhe tratar do brao, com o cuidado de no deixar que o seu peito roasse no dela. Ela estava hirta, o queixo um pouco erguido, como se precisasse de todo o seu autocontrolo 
para no lhe afastar as mos. O corao partia-se-lhe por ela. J era horror suficiente terem abusado dela daquela maneira. Mas ser colocada naquela posio, depois 
de todo o resto, tendo de suportar a indignidade de um estranho lhe tocar... Por vezes, no havia justia no mundo.
Ansiava por se chegar a ela e prometer-lhe que ningum no mundo voltaria a pr-lhe a mo em cima. Mas ainda a ideia estava a fermentar, j ele a afastara. Estivera 
com aquela rapariga uma noite e parte de uma manh.
No tinha razo para gostar dela daquela maneira. A erupo de sentimentos que estava a experimentar nem sequer fazia sentido.
Quando acabou de lhe limpar os golpes, puxou-lhe o lenol para cima das costas, colocando-lhe o debrum bem acima das omoplatas quando se ps em p. Observando a 
parte de trs da sua cabea morena, disse: 
- Tenho que sair por um bocado. O Jaimie est a dormir ao seu lado. Se ele chorar, acha que acorda?
Agarrando o lenol, soltou-o penosamente um pouco de lado, o rosto to plido que estava quase to branco como a fronha da almofada. As longas pestanas morenas bateram 
e fixou-o com um olhar confuso que lhe disse que ela estava quase a apagar-se como a chama de uma vela.
- Ele no pode rolar para fora do colcho?
- Enrolei uma toalha para servir de almofada. Ele est bem. - Rafe meteu os dedos pelo cabelo dentro, encolhendo-se quando sentiu um puxo, ao encontrar um emaranhado. 
- J volto.
- Aonde vai? - perguntou ela, muito baixo.
- Buscar comida, por exemplo.
Olhou-lhe para a cara, com uma expresso de desespero resignado.
- No vai voltar, pois no?
Essa ideia tinha-lhe passado algumas vezes pela cabea. No podia neg-lo. Mas no podia chegar to baixo. A intensidade do medo que ouviu na voz dela f-lo perguntar 
a si mesmo que diabo lhe teria acontecido na sua jovem vida para a fazer confiar to pouco. Pensaria mesmo que se iria assim embora e a deixava ficar? Estava demasiado 
fraca para tomar conta dela, quanto mais do beb.
- Eu volto.
- Eu sei que no tem nada com isso, mas se no voltar, tenho medo de no ouvir o Jaimie se ele chorar. - Fez um gesto mole com a mo. - Se conseguir descansar um 
bocadinho fico melhor e... - A voz sumiu-se-lhe e piscou os olhos.
Por um lado, Rafe sentiu-se satisfeito por, pelo menos, ela ter acabado por confiar nele o suficiente para querer que ele voltasse, mas, por outro lado, pressentiu 
a armadilha e desejou fugir. Dobrou-se para apanhar o casaco do cho onde ela o tinha deixado cair. 
- Eu volto, Maggie, prometo - disse ele com voz rouca.
Como se no precisasse de ouvir mais nada, deixou os olhos fecharem-se.
Ele pegou no casaco e ficou ali um momento, de p, a observar-lhe o desenho do rosto. No se lembrava de alguma vez ter visto uma expresso mais doce. At nisso 
viu motivo para alarme, pois at a nunca tinha tido pensamentos desses acerca de nenhuma mulher,  excepo de Susan.
Depois de se certificar de que tinha a chave do quarto, Rafe pegou no chapu e saiu em silncio. Uma vez no alpendre, verificou a fechadura para ter a certeza de 
que ningum podia entrar. Depois, endireitou-se e respirou fundo, a ponto de lhe doerem os pulmes com a entrada de ar gelado.
Enquanto atravessava o parque de estacionamento vazio, continuou a ouvir o eco da voz dela. Deu-se-lhe um n nas entranhas e cerrou os dentes de trs. Nunca na vida 
tinha faltado  sua palavra. Envergonhou-se de pensar que desejava faz-lo naquela altura.

Captulo Quatro
O vento fustigou Rafe enquanto percorria o passeio a caminho do restaurante  esquina do quarteiro. Meteu as mos bem dentro dos bolsos forrados do sobretudo e 
encolheu os ombros. Quando passou numa drogaria com objectos coloridos alusivos ao Halloween nas montras, ver a tpica careta esculpida numa abbora a servir de 
lanterna tocou-lhe o corao.
Parou a olhar,  espera que a dor se manifestasse como sempre acontecia quando algo lhe recordava inesperadamente a famlia. Mas j no havia dor. Uma triste aceitao 
tinha-a substitudo. Fechou os olhos, procurando quase freneticamente dentro de si o pesar que tinha feito parte dele durante tanto tempo. O seu gradual abrandamento 
era uma das razes por que tinha andado a beber tanto nos ltimos meses. 
Comeava a ultrapassar a perda da famlia. Como podia isso acontecer? Que homem era ele para os esquecer to depressa?
Obrigando-se a avanar, fez quase cegamente o seu caminho ao longo do passeio. Que diabo. Precisava de um trago de whisky. A estava. Precisava de uma garrafa inteira. 
Esquecimento. Era isso que queria. Assim, no teria de lidar com o facto de j no querer enrolar-se num local qualquer e morrer quando se lembrava da famlia.
Como que em resposta a uma prece, saltou-lhe  vista desfocada um letreiro pendurado. Bebidas Alcolicas. O passo de Rafe vacilou e o dinheiro que estava no bolso 
da frente das calas parecia queimar-lhe a coxa esquerda. Tinha obtido setecentos dlares pela aliana. Porque  que no havia de comprar uma coisa para ele com 
parte do dinheiro?
Tocou uma sineta quando abriu a porta. As mos comearam a tremer.
Vagamente consciente de que estava uma mulher alta e magra a observ-lo de detrs da caixa registadora, foi direito s prateleiras de bebidas que chegavam ao tecto 
e forravam a parede do lado direito, encaminhando-o a sua familiaridade com os rtulos infalivelmente para a seco dos whiskys Early Times. Rafe agarrou na garrafa 
de dois litros pelo gargalo, a boca a parecer algodo, com uma sede terrvel.
- So vinte e trs e cinquenta - disse a mulher quando Rafe se aproximou do balco. - Plstico ou papel?
Por um momento, no teve a certeza do que ela queria dizer. Depois, percebeu que estava a perguntar-lhe que tipo de saco preferia. Papel.
Pousou a garrafa no balco, levantou a parte de trs do casaco e puxou a manga para cima para mergulhar a mo no bolso dos jeans. Quando tirou o mao de notas e 
comeou a escolh-las, o olhar ficou preso na parte interna do pulso esquerdo. Um tom mais claro do que o do resto do corpo, com pequenas linhas sinuosas a darem-lhe 
um aspecto marmreo  pele. Era como se tivesse deixado cair-lhe lixvia em cima.
Recordando-se do quarto do motel, Rafe lembrou-se de que estivera a deixar gotejar papa de beb na parte interior do pulso. Olhou para as linhas irregulares, percebendo 
que aquela cor castanha mais plida era a sua pele a aparecer por baixo da camada de fuligem. Jesus Cristo. Estava assim to sujo? No havia tanto tempo como isso 
que tinha tomado duche pela ltima vez. Desviou o olhar para o punho da camisa. No s estava muito pudo na dobra, mas tambm estava quase preto da sujidade entranhada. 
Lembrou-se do tempo em que tomava duche e mudava de roupa da cabea aos ps duas vezes por dia.
Sem ter a certeza do tempo que tinha ali estado a olhar para o pulso, Rafe voltou a olhar de repente para a empregada. Esta a espreit-lo por detrs de um par de 
culos de vidro, com o cabelo castanho bem arranjado a enquadrar um rosto que comeava a envelhecer. Parecia daquele tipo que usava uma lupa para arranjar as sobrancelhas. 
Um calor escaldante subiu-lhe pelo pescoo.
- So vinte e trs e cinquenta - repetiu ela, claramente pouco -vontade.
Ele olhou para a garrafa de whisky. Durante bem mais de um ano, tivera conscincia de que estava agarrado ao lcool, mas tinha dito a si mesmo, a rir, que no podia 
ser classificado como um bebedor problemtico at decidir deixar de beber e no conseguir. Uma vez que no tinha a inteno de deixar de beber, onde estava o problema?
Agora que estava sbrio, no conseguia ver humor naquela maneira de pensar. Era um marginal - um marginal sujo. Passava a vida a pensar, momento a momento, como 
 que havia de deitar a mo  garrafa seguinte.
Menos de uma hora antes, tinha preparado leite de beb e tratado da tetina do bibero do Jaimie. Primeiro, tinha lavado as mos, mas ao olhar agora para elas via 
o preto debaixo das unhas e nos ns dos dedos. Limpo?
Muito longe disso. E era claro como gua que no podia afirmar estar desinfectado.
- Senhor, vai comprar este whisky ou ficar a em p  espera que envelhea?
Rafe fechou o punho sobre o dinheiro. 
- Estava... - Afastou-se um passo do balco, com o olhar fixo na garrafa. - Mudei de ideias.
- J o registei.
Rafe continuou a recuar. O simples olhar para o whisky fazia-o tremer.
Mas o desejo teria de continuar por satisfazer at se separar de Maggie e Jaimie. Tinha de pensar naquele beb, que diabo! Neste momento, Maggie no podia tratar 
dele sozinha e se Rafe queria assumir as suas responsabilidades enquanto ela descansava umas horas, seria pssimo se o fizesse bbedo.
Maggie acordou de um sono profundo com o som de gua a correr. Esforou-se por abrir os olhos. O tecto no lhe pareceu familiar, com os olhos congestionados, perscrutou 
o que a rodeava e virou a cabea para ver de Jaimie. O beb j no estava deitado a seu lado. O alarme instalou-se na sua mente toldada. Desaparecera? Oh, meu Deus!
A dor explodiu-lhe ao longo do corpo quando comeou a sentar-se.
Sobressaltou-se e apalpou ao lado, quase sem poder respirar. Ento, ouviu uma voz profunda e sonora que vinha da casa de banho.
- Tu s difcil! Olha para essas mos e esses ps, v. Vais gostar de um banho, tenho a certeza. - A gua esparrinhou. - Bem, no ests s, mido.
Eu tambm gostei do meu duche. Sabe bem estar limpo, no sabe?
Rafe. Est a dar banho ao Jaimie? Maggie afundou-se outra vez nas almofadas e puxou os cobertores at ao queixo, incomensuravelmente aliviada por no ter de se levantar. 
Tudo lhe doa, incluindo o rabo. Deixou os olhos fecharem-se, ouvindo o belo timbre da voz dele e perguntando mais uma vez a si mesma se o homem seria enviado dos 
cus. Que estranho que o seu salvador fosse um bbedo andrajoso de casaco de ovelha e Stetson descado. Talvez fosse, pensou ela, ensonada, o seu anjo-da-guarda, 
disfarado. Ou um sapo que fosse, na realidade, um belo prncipe que tivesse vindo busc-los ao pr-do-sol no seu elegante corcel.
A ideia fez Maggie sorrir um pouco, pois h muito que deixara de acreditar em contos de fadas. Isso era para meninas da idade da sua irm Heidi, e, infelizmente, 
mesmo para ela, os finais felizes eram poucos e muito espaados no tempo.
Completamente exausta, Maggie deixou-se cair na apatia, ensonada.
Sentia-se como se tivesse sido enrolada numa pesada carpete. No tinha a certeza de quanto tempo tinha passado. Podia ter sido um minuto ou uma hora. Quando ouviu 
abrir a porta da casa de banho, fez um esforo para levantar as pestanas.
Quando o homem que estava aos ps da cama ficou focado, Maggie piscou os olhos, convencida de que devia estar a ter uma alucinao. Era parecido com Rafe Kendrick. 
O cabelo era preto azeviche e tinha a mesma pele morena que ele, os mesmos olhos azuis e o nariz adunco, mas a acabavam as semelhanas. No s este homem tinha 
menos barba, mas tambm tinha o cabelo mais curto, parecia bem asseado e vestia roupas to novas que ainda traziam vincos da embalagem. Tambm era um dos homens 
mais bonitos em que Maggie alguma vez tinha posto os olhos, o prottipo do homem alto, moreno e perigoso. A sua nova camisa azul de cambraia tinha o colarinho aberto, 
revelando um V de um peito de bronze, musculoso, ligeiramente polvilhado de plos pretos.
No havia dvidas: estava a sonhar, com Jaimie num brao, olhou para baixo. 
- No posso parecer to diferente como isso. Exceptuando a roupa, tudo o que fiz foi cortar o cabelo, tomar banho e fazer a barba.
Para onde teria ido o marginal bbedo? Um instante atrs, estivera a comparar este homem a um sapo e agora, como se o tivesse conjurado, tinha-se materializado o 
belo prncipe.
Esfregou um vinco horizontal dos novos jeans que, ao contrrio dos velhos, lhe ficavam bem, revelando os contornos fortes das pernas. 
- Achei que devia lavar-me e arranjar-me. - Quando voltou a encontrar o olhar dela, ela vislumbrou nele um rubor que lhe subia da garganta queimada. - A tratar do 
beb, e isso tudo, no queria... - Encolheu os ombros e meteu os dedos no cabelo, que lhe caa sobre a testa em ondas cintilantes e desordenadas logo que o soltava. 
- Achei que me devia lavar e arranjar, pronto.
"Arranjar-se" no descrevia bem a transformao. E desde quando  que os prncipes de sonho coram? Apareceu-lhe um profundo vinco na face magra quando os lbios 
firmes se curvaram num sorriso contrafeito. Oh, meu Deus! Ele era lindo de morrer.
Maggie fechou os olhos, demasiado exausta para lidar com aquilo naquele momento, com todo aquele cabelo e aquelas roupas andrajosas, parecia mais velho. Agora no 
parecia ter mais de trinta. Ao lembrar-se de que o tinha deixado tratar-lhe das feridas, o corao teve um sobressalto. Tinha-a visto nua - ou perto, de qualquer 
modo. E tinha-lhe tocado praticamente em toda a parte. Antes, j era embaraoso; agora, era mortificante.
- Maggie - disse ele com suavidade.
Ela manteve os olhos fechados, fingindo estar a dormir. No era coisa difcil. Naquele momento, o corpo a latejar pedia-lhe descanso, necessidade que se sobrepunha 
a tudo o resto. Mais tarde. Mais tarde, preocupar-se-ia com o tudo o resto.
Enquanto esse pensamento lhe passava pela cabea, Maggie deixou a vaga e quente escurido apoderar-se de novo dela. Ouvia como que  distncia o barulho que Rafe 
fazia a tratar de Jaimie - a sua voz profunda a murmurar frases sem sentido, rudos de sacos de papel amachucados, o rudo seco de uma coisa metlica na casa de 
banho e, depois, gua a correr. No olho ensonado da sua mente, imaginou-o outra vez como o vaqueiro andrajoso, sentindo-se muito mais -vontade com essa imagem do 
que com o homem alto, de cabelo preto que tinha tomado o seu lugar.
Algum tempo depois, sentiu a mo dele agarrar-lhe o ombro.
- Eia, minha linda, acha que consegue acordar o suficiente para engolir?
Precisa de comer.
O cheiro tentador da comida chegou-lhe ao nariz e o estmago roncou ruidosamente, em resposta. 
- Acho que isso responde  minha pergunta. V, deixe-me ajud-la a virar-se.
Maggie rendeu-se  fora delicada das mos dele. O seu rosto moreno flutuava  frente dela. Quando o sentiu puxar-lhe os cobertores para cima do peito, quis agradecer-lhe, 
mas mesmo enquanto procurava as palavras, esquecia-se exactamente do que queria dizer.
- No tente falar. Deixe-me s enfiar-lhe alguma sopa pela boca abaixo.
Depois, pode voltar a dormir.
Uma colher tocou-lhe na boca. O gosto maravilhoso da sopa de legumes espalhou-se pela lngua. Engoliu sem sequer tentar mastigar. O calor do lquido provocou-lhe 
um aperto no estmago, de tanta fome que tinha.
- No sabia de que tipo de sopa gosta. Optei por sopa de carne vegetal. -Um guardanapo de papel roou-lhe ao de leve na face. - Desculpe.  difcil no entornar, 
estando deitada.
Maggie esforou-se por se sentar, mas ele empurrou-a imediatamente para trs. 
- No se mexa. Assim, conseguimos. - Outra colher cheia de sopa encheu-lhe a boca. - Dei banho a Sua Excelncia. Depois, dei-lhe meio decilitro de papa para desenrascar.
Tentou dar sentido ao que ele estava a dizer mas, por mais que tentasse, as palavras dele batiam-lhe na mente e faziam ricochete. Estranhamente, no tinha importncia. 
No seu estado actual, no conseguia arranjar energia para se preocupar muito. Relaxou, encostando-se s almofadas. A voz dele tranquilizou-a e voltou a mergulhar 
na escurido, confiando que ele trataria dela.
Rafe tocou delicadamente com a mo na testa de Maggie. No detectou sinais de febre mas, mesmo assim, no podia deixar de estar preocupado.
Nunca tinha visto ningum dormir to profundamente.
- Maggie? Agora, tem que acordar e tentar dar de comer ao Jaimie.
As suas longas pestanas pretas bateram irregularmente. No instante seguinte, Rafe viu-se a olhar para uns olhos castanhos confusos. Nunca tinha sido do tipo inexperiente, 
mas naquele momento, se lhe tivessem pedido que descrevesse o sentimento que o varria, teria dito que se sentia como se estivesse a afogar-se.
- Jaimie? - repetiu ela num sussurro ensonado. - Ele est bem?
Rafe passou-lhe um brao por detrs das costas para arranjar as almofadas e pux-la para cima. Sorriu levemente pois, mesmo meia acordada, ela cingiu preventivamente 
as cobertas ao peito. 
- Est ptimo. Mas tem fome.
Foi buscar o beb. Quando voltava para junto da cama, viu que Maggie j estava a cabecear. Deu-lhe um ligeiro abano para a acordar.
- Querida, talvez devssemos lev-la para a sala de emergncia.
- No! - resmungou, abrindo muito os olhos. No estou doente, nem nada. Apenas cansada. S preciso de dormir mais um bocado. Mais nada.
Estremeceu ao tentar sentar-se mais direita. Rafe no conseguia determinar se eram os seios ou as costelas que lhe doam mais, ou se era outra coisa qualquer. A 
avaliar pelas marcas cruis que lhe vira nas canelas, estava bastante certo de que tinha sido pontapeada com botas pesadas. E se tivesse ferimentos internos?
Pelo menos, no tinha febre. Isso era bom sinal. E no tinha vomitado a sopa. 
- Est bem - concordou relutantemente. - Espero at de manh. Mas se nessa altura no estiver melhor, levo-a ao mdico. De acordo?
Piscou os olhos, fazendo um manifesto esforo para acordar. 
- De acordo - respondeu, articulando ligeiramente mal as palavras. Estendeu os braos para o beb. - Ol, fofinho - disse delicadamente quando ele lhe entregou a 
criana. - Como  que vai o meu menino?
Rafe deu-lhe uma toalha de banho para pr por cima do ombro enquanto tratava do filho. Depois de pegar no rectngulo de tecido turco, olhou, desnorteada, para ele.
-  para se tapar. - Corou. 
- Ah! - Rafe virou-se e afastou-se. Viu-se a olhar para uma parede nua. Que diabo! Sentia-se apanhado. Estar fechado naquele pequeno quarto com ela era um verdadeiro 
inferno. O que  que havia de fazer? Contar os plos dos braos? Foi para a janela e afastou um dos cortinados pendentes.
Encostando o ombro  ombreira da janela, olhou atravs do vidro embaciado para o escuro parque de estacionamento, quase vazio.
Ouvia o rudo de suco que Jaimie fazia quando se agarrava a um mamilo.
Dava-se-lhe um n no estmago. Esperava por tudo que Maggie se sentisse melhor de manh. Se estivesse com ela muito mais tempo, no podia garantir que fosse capaz 
de continuar a reprimir os sentimentos que ela estava a despertar nele.
Suspirou e esfregou a parte de trs do pescoo, ficando animado por no ouvir Jaimie fazer barulho. Isso tinha de significar que o leite dela estava a sair e s 
podia ser bom sinal.
Fechou os olhos, tentando afastar aqueles pensamentos. Enquanto tomava conta dela, tinha-lhe lanado vrias vezes olhares demorados. Tinha um sentimento de culpa 
por isso, mas, com toda a sinceridade para com ele prprio, no tinha sido capaz de evitar. 
Tinha tentado no olhar, mas no ver o que estava mesmo  frente do nariz era quase impossvel.
Durante toda a tarde e noite, uma pergunta tinha-lhe andado sempre na mente. Quem? Quando ela tinha a defesa em baixo, tinha estado muito tentado a fazer-lhe perguntas, 
nomeadamente quem lhe tinha batido. O seu sentido de lealdade tinha-o obrigado a morder a lngua. Rafe beliscou a cana do nariz. Porque  que havia de se meter na 
vida pessoal dela se no tinha inteno de ficar com ela? Mal chegasse a manh, estava dali para fora. Tiraria vinte e cinco dlares do dinheiro que tinha conseguido 
pelo anel, dava o resto a Maggie e metia ps ao caminho, sendo a primeira paragem na loja de bebidas. No queria a companhia de uma mulher e um beb. No queria 
ter de se preocupar com eles e de certeza que no ia preocupar-se.
Os suaves rudos da suco continuavam. Antes tivesse ligado o rdio.
Qualquer coisa que os abafasse. Sabia que cada puxo da boca do beb tinha de causar dor a Maggie e que, se se voltasse e olhasse, veria lgrimas a escorrerem-lhe 
pelas faces plidas.
Passou a mo pela cara e piscou os olhos, tentando no pensar no que lhe devia estar a doer. Respirou fundo. 
- Dada a ausncia de queixas do sector das fraldas, presumo que o seu leite esteja a correr!?
Aps um momento de silncio, ela respondeu com voz fina: 
- Est.
Rafe engoliu em seco, fechando-se a garganta em torno de uma bolsa de ar como um punho fechado. 
- Eu sei que deve doer como o diabo aliment-lo. Logo que ele esteja despachado, trago-lhe uma sopa instantnea. Tenho gua a aquecer na chapa.
- Na chapa? Havia no quarto?
- No, comprei umas coisas quando sa. Precisava de uma maneira de aquecer gua e cozinhar qualquer coisa. Nada de complicado. Sopa e coisas assim.
- Voc comprou uma chapa elctrica? - Havia um tom de pnico na voz dela.
- Oh, Senhor Kendrick, j gastou o suficiente connosco. J lhe disse e redisse que no tenho como o reembolsar.


Evidentemente que a experincia da vida lhe ensinara que no se podia confiar nos homens e que estes no se sentissem proprietrios de uma mulher que aceitasse ajuda. 
De facto, a avaliar pelo limiar do pnico que o seu tom denotava, suspeitava de que algum homem se tivesse portado mal com ela nessa matria.
- No espero que me reembolse, Maggie.
- Uma chapa elctrica deve ter sido cara.
Por alguma razo, aquilo deu-me vontade de rir. Lembrava-se do tempo em que uma conta de cinquenta dlares era trocos, para ele. 
- Era barata e precisvamos dela. No tinha outra soluo.
- Quanto  que custou, exactamente?
Rafe preparou a garganta para voltar a engolir em seco. 
- Quarenta e qualquer coisa. No se preocupe com isso. Ainda tenho muito dinheiro.
- Onde  que foi buscar esse dinheiro todo? No o roubou, pois no?
Rafe sorriu, apesar de tudo. Percebia que ela pudesse pensar aquilo.
- No, no roubei. Pus um anel no prego.
- Um anel? Devia ser um belo anel!
- Sim - respondeu ele roucamente - era um belo anel.
 - O Jaimie est despachado - disse ela em voz baixa.
Quando se aproximou, viu-se empalado por aqueles belos olhos castanhos. O corao apertado pelo brilho de lgrimas que viu neles.
A boca tremia-lhe enquanto procurava o rosto dele. 
- Alguma vez esteve to endividado para com uma pessoa a quem nem soubesse como agradecer? - perguntou com voz trmula. - Sei que isso o irrita. Mas no posso deixar 
de me preocupar. Tenho o hbito de me governar por mim e nunca serei capaz de o reembolsar de tudo isto.
O n estava de volta  garganta de Rafe. Governar-se por si? Ela mal podia andar.
- No h reembolsos. Lembra-se? Saber que ajudei um pouco  tudo de que preciso como agradecimento.
Aproximou-se da cama com a inteno de lhe retirar o beb e o pr de novo na sua cama improvisada. Mas uma vez ali, sentou-se ao lado dela, com o olhar preso no 
seu rosto doce. Manchas escuras sublinhavam-lhe os olhos e a boca delicada estava quase sem cor. Fez-lhe uma festa na cara percorrendo-lhe com o polegar a ma do 
rosto, que achou assustadoramente frgil.
Reparando no modo orgulhoso como punha a cabea e no impulso inflexvel do queixo, tentou controlar as suas emoes. Em baixo, completamente sem dinheiro e em mar 
de azar - a estava a Maggie. Mesmo assim, mantinha o seu orgulho. No podia deixar de admirar isso nela. Por outro lado, porm, tornava as coisas difceis quando 
um homem estava a tentar ajud-la.
- Maggie, eu sei que no se sente -vontade para me dizer muita coisa, mas tenho que perguntar. Quem  que lhe bateu? E porqu?
Baixou o olhar, sinal, para Rafe, de que no tencionava responder-lhe.
- Foi o pai do Jaimie? - Tocou-lhe ao de leve no cabelo em desalinho.
Aqueles cabelos negros eram macios como seda, contraste incongruente com a sua expresso rebelde que, por razes que o ultrapassavam, lhe dava vontade de sorrir. 
- com certeza que pode dizer-me isso.
Levantou mais o queixo. 
- O Jaimie no tem pai.
O corao de Rafe apertou-se porque havia imensa dor naquelas palavras. -
- Toda a gente tem pai, querida.
- No.
Apenas aquela palavra: no. O modo como a disse, a sua voz marcada por uma recusa obstinada, fez com que lhe apetecesse abra-la. Embora soubesse que tinha de ter 
vinte e poucos anos, parecia, naquele momento, muito jovem e horrivelmente s.
- O Jaimie  o meu beb - sussurrou ela. - S meu, de mais ningum. No registo de nascimento, dei o pai como "incgnito" e  assim que vai ficar.
Rafe suspirou. 
- Um dia, ele h-de perguntar pelo pai, como sabe.  isso que lhe vai dizer, que o pai  incgnito?
- .
- Isso no enquadra muito bem consigo - salientou ele.
-  prefervel que ele pense que a me era promscua do que saber a verdade... - Engoliu em seco e fechou os olhos. - Ele no tem pai, ponto final. Por favor, no 
volte a fazer-me essa pergunta.
De todas as mulheres que j conhecera, era ela a que tinha menos probabilidades de ser promscua. Rafe tinha uma quantidade de defeitos, mas ser mau avaliador de 
carcter no se contava entre eles. 
Na primeira vez que olhou para os olhos de Maggie sentiu a sua inocncia e descobrir que ela tinha dado  luz um filho ilegtimo no tinha alterado essa impresso. 
No sabia como tinha ficado grvida nem por que razo negava to veementemente a existncia do pai de Jaimie. Mas apostaria a prpria vida em que no andara a dormir 
com uns e com outros.
Percebendo que no fazia grande sentido insistir no assunto, Rafe pegou no beb e ps-se de p. Enquanto ali esteve a olhar para ela, voltou a reparar em como parecia 
muito jovem e indefesa. Os ombros estreitos mal ocupavam metade da almofada que tinha atrs das costas e por cima dos cobertores que cingia o peito nu, conseguia 
aperceber-se da estrutura delicada do peito e da clavcula. Por um instante, o seu olhar fixou-se nas feias ndoas negras que lhe desfiguravam a pele de marfim.
Quisesse ela admiti-lo ou no, precisava desesperadamente de algum que tomasse conta dela. A caminho da gaveta da cmoda que tinha transformado em cama para o beb, 
viu-se a pensar em desempenhar ele prprio esse papel. E se isso no era uma ideia completamente louca, no sabia o que era.
Quando deitou Jaimie no casulo de macios e acolhedores cobertores que tinha comprado, Rafe deu a si mesmo um forte abano mental. Como se estivesse em posio de 
ajudar algum! S realista. A vida dele era uma confuso. Mesmo agora, tinha as mos a tremer por falta de uma bebida.
Estava fora de questo; ela precisava de ajuda. Mas no de um vagabundo desgraado cujo nico objectivo na vida era comprar a garrafa seguinte.
Logo que chegasse a manh, faria um favor a ambos saindo dali. Ela no ficaria sozinha por muito tempo, tranquilizou-se ele a si mesmo. Com aqueles olhos e aquele 
rosto doce que tinha, outro homem qualquer havia de olhar para ela e grudar-se-lhe s mos.

Captulo Cinco
Por volta da meia-noite, algum alugou o quarto ao lado do deles e a confuso de portas a bater, vozes altas e bagagens a arrastar acordou Maggie em sobressalto. 
Arquejando por causa das dores nas costelas, endireitou-se na cama e agarrou na primeira coisa que tinha  mo para se defender, uma das almofadas.
Rafe, que estava a cuidar de Jaimie, levantou os olhos e viu-a cingir o lenol ao peito, o olhar aterrorizado fixo na porta, a almofada levantada como se se preparasse 
para bater na primeira coisa que se mexesse.
Dado o facto de, no seu estado de confuso, ter escolhido uma coisa que s podia considerar-se uma arma lamentavelmente ineficaz, quase sorriu.
- Est  espera de companhia? - perguntou ele.
- Talvez.
No momento em que falou, estremeceu, quase lamentando a sua candura.
- Estou a ver. E qual  o plano, asfixi-lo ou agredi-lo mortalmente?
Esfregou os olhos. 
- Muito engraado.
Enquanto se aplicava na tarefa de dobrar o pijama de Jaimie, disse:
- No precisa de se preocupar, Maggie. Se algum tentar entrar, ter que passar por mim para chegar a si e eu no vou deixar que isso acontea.
- Eu sei - disse ela baixinho.
A resposta apanhou-o de surpresa e significou mais para ele do que podia pensar.
Ela dirigiu-lhe um olhar envergonhado e ps a almofada de lado. 
- Reaco reflexa. Estava a sonhar e o barulho sobressaltou-me. 
Rafe percebeu pelo aspecto da boca dela que ainda estava presa ao sonho.
Ainda agachado junto  gaveta da cmoda que tinha mobilizado para servir de cama a Jaimie, atirou um toalhete sujo para o caixote do lixo e depois apoiou os braos 
cruzados num joelho erguido. 
- Um pesadelo, no foi?
Ela acenou afirmativamente com a cabea.
- Quer falar acerca disso?
 A resposta a essa pergunta foi um aceno negativo com a cabea.
Vendo como estava perturbada, o desejo de Rafe era poder confort-la. Mas como? Ainda que parecesse que comeava a confiar um pouco nele, continuava sem ter encontrado 
ningum que resistisse to determinadamente a aceitar ajuda. Quando no tinha escolha, aquiesceu, mas tinha a sensao de que, mesmo assim, no teria aceitado, a 
no ser por causa do beb.
- Eu tenho mais maus sonhos do que merecia - confessou ele -, pelo que, se se sente embaraada com isso, no sinta.
- J teve maus sonhos? - Fixou-o com aquele olhar adorvel de olhos castanhos, a sua expresso a manifestar alvio por a conversa se ter desviado dela para ele. 
- Sonha com qu?
A garganta de Rafe apertou-se-lhe. 
- Com a minha famlia, principalmente. 
Ela inclinou a cabea e puxou o canto da fronha da almofada. 
- No desastre de automvel?
Nunca tinha falado com ningum acerca daquela noite, mas havia algo em Maggie uma coisa indefinvel - que o obrigou a pensar em faz-lo naquela altura. Almas gmeas. 
Superficialmente, podia parecer que as feridas dela eram principalmente fsicas, mas um olhar para os seus belos olhos disse-lhe que tambm tinha sido emocionalmente 
espancada.
Escondiam-se ali sombras. Sombras escuras irisadas - e uma cautela em relao a ele que lhe apertava o corao. No era preciso saber ler a mente para determinar 
que ela tinha sofrido, a seu modo, quase tanto como ele.
Ela precisava de um amigo, talvez desesperadamente, e, supunha ele, tambm ele precisava. Mas antes que algum deles chegasse a esse ponto, tinham de baixar as respectivas 
defesas. Como havia ele de esperar que ela confiasse nele o suficiente para lhe revelar os seus segredos se ele no tivesse a coragem de partilhar alguns dos dele?
- Sim - disse ele, a voz a fazer-lhe lembrar a lmina de uma navalha a ser afiada numa pedra de amolador. - Sonho com o desastre. Foi culpa minha e, desde ento, 
tenho tido que viver com essa verdade. Durante o dia, consigo manter os pensamentos  distncia, mas quando estou a dormir, as recordaes perseguem-me.
  luz mbar do candeeiro da mesa-de-cabeceira, os olhos dela estavam iluminados e uma aurola dourada brilhava-lhe  volta dos caracis pretos desgrenhados, fazendo-a 
parecer, indiscutivelmente, um anjo ali pousado.
- Bebia quando isso aconteceu? - perguntou com voz trmula.
Rafe teve um acesso de riso sem humor. Compreendia como  que ela pensava aquilo. 
- S comecei a beber muito depois do acidente. lcool, a minha panaceia. - De repente, sentiu-se embaraado e passou uma mo pela cara. - No, no bebia. Quase preferia 
que bebesse. Talvez ento conseguisse viver com as decises que tomei nessa noite. - Piscando os olhos para voltar a focar a vista, disse: - Aconteceu na primeira 
quinzena de Outubro, h pouco mais de dois anos.
 Cruzou as pernas debaixo de si, encostou-se mais  cabeceira e puxou o lenol mais para cima. O baixar das grossas pestanas era um sinal evidente de fadiga, mas 
ele ainda conseguiu detectar uma certa tenso na sua postura que lhe dizia que ela ainda no estava pronta para adormecer.
- Foi por isso que pareceu to triste, na noite passada, quando percebeu que era quase Halloween?
- Foi - disse ele bruscamente. - Pouco antes de morrer, o meu filho Keefer recebeu a sua primeira abbora. A Susan ajudou-o a esculpi-la. Esta poca do ano...  
dura.
Bateu na tampa aberta da caixa de fraldas descartveis que estava em cima do tapete, junto da cama de Jaimie. Quando percebeu o que estava a fazer, fechou as abas.
- Era voc que ia a conduzir? - perguntou ela.
- No, meu Deus, tomara que fosse eu. - Passou com a mo por cima do plo do tapete, vendo os tufos macios de fio de l levantar-se e depois cair. - Na minha outra 
vida, era rancheiro no Leste do Oregon. - Fez um sorriso forado. - Barbeava-me e tomava banho todos os dias. Ia s reunies do conselho, restaurantes de cinco estrelas 
e igreja ao domingo. Olhando para mim agora, acho que provavelmente lhe  difcil acreditar que j fui respeitvel.
O fantasma de um sorriso aflorou  boca dela. Quando desapareceu, esfregou a tmpora como se lhe doesse a cabea. 
- No  to difcil como isso. Era um rancho de gado que tinha?
Disse que sim com a cabea. 
- Tambm crivamos cavalos de corrida, mas o gado era o nosso principal negcio. Naquele Outono, o meu irmo e eu tnhamos combinado comprar outro reprodutor e uma 
gua parideira e tnhamos programado uma viagem ao norte para os ir buscar. Tnhamos estado fora muito tempo na Primavera e no Vero, a fazer o circuito de rodeios, 
e eu no pudera estar muito tempo com a Susan e os midos, pelo que decidi lev-los connosco.
- Susan... - repetiu ela baixinho. - Quando diz o nome dela... bem, posso dizer que realmente a amava muito.
- Era uma pessoa extraordinria. Inteligente, espirituosa, divertida para se estar com ela, e to bonita que me fazia parar a respirao. - Rafe encolheu os ombros. 
- Nunca vi melhor me e, meu Deus, adorava quando ela se ria. Era uma incurvel optimista e punha sempre as outras pessoas em primeiro lugar. Ela entendia-me... 
por vezes, melhor do que eu me entendia a mim mesmo. Quando morreu, foi como se me tivessem arrancado o corao. Apaixonmo-nos no liceu. Fazia de tal maneira parte 
de mim que no sabia continuar sem ela.
Rafe ficou em silncio, deixando a mente vaguear at quela fatdica noite de Outono.
 - Passmos um ptimo fim-de-semana. Um tempo perfeito, tudo perfeito. Mas quando nos dirigamos a casa, apanhmos uma grande tempestade. Uma chuva de enregelar 
que se transformou em granizo do tamanho de berlindes.
- O Leste do Oregon deve ser um pouco como o Norte do Idaho, imprevisvel no que respeita ao tempo.
- Tem razo. No estvamos  espera de granizo, sem dvida, ou teramos esperado pela manh. Eu vinha na carrinha com a Susan e os midos. O meu irmo e um contratado 
vinham num camio  nossa frente, a puxar o reboque do cavalo. O som do granizo a bater no tejadilho do reboque assustou o garanho e eu vi-o empinar-se. Receei 
que ferisse uma perna.
Enfiou-se mais na cama para apoiar a face na pilha dupla de almofadas.
Olhando para ela, Rafe no pde deixar de notar a sua palidez.
- Est exausta. Devia deix-la ir dormir outra vez.
- No, por favor. Quero ouvir isto. - Voltou a esfregar os olhos. - De qualquer forma, duvido de que voltasse j a conseguir dormir. Ouvi-lo falar ajuda-me a relaxar.
Rafe no se lembrava do que ia dizer. 
- Onde  que eu ia?
- O garanho estava a empinar-se e voc estava preocupado com a possibilidade de ele se aleijar. Era um cavalo muito caro?
- Sim, mas no era essa a minha principal preocupao. Com toda a franqueza, eu adorava cavalos. Nessa altura, eram uma paixo minha, sempre foram. No suportava 
a ideia de o garanho poder partir uma perna e possivelmente ter que ser abatido. Por isso, peguei no rdio e sugeri ao meu irmo Ryan que fssemos ao reboque acalmar 
os animais. A Susan era uma excelente condutora e tinha sido criada no Leste do Oregon, pelo que estava habituada  neve e ao gelo. Nunca me ocorreu que ela... - 
Parou e engoliu em seco. - Uns trs quilmetros ainda, perdeu o controlo do carro numa curva. O carro despenhou-se num talude de 30 metros de altura. Ela e os midos 
morreram instantaneamente. - As palavras seguintes saram-lhe com esforo. - Dei mais importncia  segurana de um cavalo do que  da minha prpria famlia. Desde 
ento, tenho tido que viver com isso.
- Oh! Senhor Kendrick, lamento muito.
A voz dela soou a sinceridade. Isso ajudou, de algum modo. Por uma vez, ele no se sentiu to horrivelmente s com a dor da recordao.
- De qualquer modo,  com isso que sonho - disse em surdina. Vi tudo acontecer da parte de trs do atrelado. De repente, o carro deu de rabo, depois derrapou no 
gelo. Por um momento esteve ali pendurado na borda do penhasco antes de se despenhar. - Uma sensao de queimadura percorreu-lhe os olhos. - Juro por Deus que ainda 
hoje penso que a Susan se virou para olhar para mim. Numa fraco de segundo, sabe? Mas nos meus pesadelos, essa fraco de segundo dura uma eternidade. Tudo o que 
consigo ver  o terror no rosto dela e aquele olhar suplicante nos olhos dela. E em todos os sonhos tento alcan-los, mas sinto-me como se estivesse a correr por 
melao da altura das minhas ancas e nunca l chego a tempo.
- Que horror. E depois ainda revive isso tudo continuamente nos seus sonhos.
Rafe percorreu o rebordo da gaveta com as pontas dos dedos. Quando tocou no canto de um novo cobertor que estava a sair de lado, sentiu a sua macieza e fechou os 
olhos. 
- Sabe o que  o pior? Nos ltimos meses, mesmo nos meus sonhos, acontece que j no consigo ver o rosto dela com tanta clareza, nem os dos midos. Tento ao mximo 
lembrar-me de como era cada um deles e no consigo. As minhas recordaes deles...  tudo o que me resta... e agora at isso estou a perder.
- J lhe ocorreu que, finalmente, talvez esteja a sarar a ferida? Eu sei que talvez no queira acreditar nisso. Mas a dor passa, ao fim de algum tempo e temos que 
continuar com a viver. Uma vez que o faa, acho que conseguir voltar a lembrar-se do rosto deles. J no em pesadelos. As suas recordaes sero de todos os momentos 
maravilhosos que passaram juntos.
Rafe recordou-se do seu recente sonho com Susan. De certo modo, tinha sido um bom sonho. Recordando como se divertiam junto ao lago.
Acreditando, ainda que por pouco tempo, que estava, realmente, outra vez ali com eles.
- L no fundo, ainda se sente to culpado como se sentiu logo aps o acidente? - perguntou ela.
Levou um momento a pensar na pergunta. 
- Quer a verdade? Por vezes, aparecem ideias traioeiras. - At confessar isso lhe despertava um sentimento de culpa. - Nem sequer sei ao certo donde vm. Ponho-me 
a pensar que nunca quis que isso acontecesse. Que os amava mais do que a prpria vida e que  uma estupidez continuar a culpar-me a mim quando sei perfeitamente 
que a Susan tambm no quereria que o fizesse.
- E pensar desse modo f-lo sentir-se pessimamente - interrompeu ela.

Concentrou-se na cara dela. 
- At parece que passou por isto.
Ela acenou afirmativamente com a cabea. Por um segundo, Rafe pensou que no ia dizer mais nada, mas depois fez um gesto claro com a mo e disse:
- O meu pai. Foi... foi morto num acidente florestal.
- E voc sente-se culpada disso?
- Agora, no, mas senti durante muito tempo. E quando finalmente comecei a sentir menos culpa, sentia-me um verme.
A descrio apanhou-o de surpresa e, com uma pequena gargalhada, acenou afirmativamente com a cabea. 
-  a definio perfeita, um verme. Mas eu sinto-me um verme que est a ser atacado e dilacerado por dois pssaros.
Ela tambm disse que sim com a cabea, indicando que compreendia exactamente o que ele queria dizer. 
- Com o tempo, a sensao de dilacerao desaparece e sentimo-nos mais rasos do que a lama. E pouco depois at essa sensao passa. Perder um dos pais no se compara 
ao que lhe aconteceu. Eu sei. Mas acho que as fases da dor devem ser bastante idnticas para toda a gente, independentemente da sua origem. De qualquer modo, assim 
parece. ramos especialmente ntimos. Eu fiquei devastada quando ele foi morto e nos dez anos seguintes a minha vida no voltou a ser a mesma. Mas nada o far voltar. 
- Olhou para o tecto por um momento. Agora, penso em todos os bons momentos que passmos juntos e estou grata por ter tantas recordaes maravilhosas.
- Que idade tinha quando ele morreu?
- Catorze.
- Ento, agora, tem o qu, vinte e quatro?
Ela dirigiu-lhe um olhar espantado. Ele piscou o olho e sorriu. 
- Acertei. Sou incansvel. Corro atrs da informao at a minha curiosidade ser satisfeita.
- Ah, bem. No  que a minha idade seja informao crtica. - Informao crtica? O simples facto de ela ter usado aquela expresso indicou a Rafe que no se tinha 
enganado em relao quela situao. Dada a determinao dela em revelar to pouco a seu respeito, tinha de aceitar o facto de ela poder andar fugida  polcia.
Normalmente, Rafe ter-se-ia desligado de qualquer pessoa que achasse que estava com problemas com as autoridades, mas ao olhar para a doce expresso de Maggie no 
conseguia imagin-la a ter cometido um crime.
No, se estivesse com esse tipo de problemas, tinha de haver algum engano ou circunstncias fora do controlo dela.
Deu consigo, por instantes, a perguntar a si mesmo se ela no teria matado acidentalmente o homem que a espancara. Esteve tentado a perguntar. Nenhum tribunal do 
mundo a responsabilizaria por isso, se fosse esse o caso. Que diabo, tendo em conta o que aquele filho da me lhe fizera, provavelmente deixavam-na sair mesmo que 
tivesse sido homicdio premeditado, com delicadeza, levou outra vez o tema da conversa para ela, dizendo:
- Disse que o seu pai morreu num acidente florestal? Parece um tanto forado uma jovem sentir-se culpada por isso.
- Hum... - reagiu ela, baixinho. - Suponho que sim. Mas ento tambm a mim me parece um bocado forado que voc se sinta culpado do acidente de automvel. Quando 
estamos a fazer o luto, jogamos jogos mentais indecentes connosco prprios. - Passou uma mo por cima dos olhos e depois deixou cair outra vez o brao em cima da 
almofada. - Houve circunstncias atenuantes. A minha me tinha estado muito doente. O meu pai estava exausto com todo o trabalho adicional em casa e no estava a 
prestar ateno suficiente  madeira. Um toro rolou e esmagou-o. No pude deixar de pensar que talvez no tivesse acontecido se eu tivesse trabalhado mais na lida 
domstica para o aliviar... Por um momento, ficou a olhar para o vazio. Quando voltou a olhar para ele, os olhos brilhavam de curiosidade. - Ento...  essa a histria 
de como veio vaguear para os caminhos-de-ferro?
- Em grande medida, sim. Depois de eles morrerem, desprezei o rancho e tudo o que ele representava. Uma manh, quando no aguentei mais estar ali com todas as recordaes, 
deixei um recado ao meu irmo na mesa da cozinha e vim-me embora.
- E nunca voltou?
- No! Nem sequer telefonei para casa a dizer  minha me que estou bem.  mau da minha parte, eu sei, tentei algumas vezes, mas desliguei sempre antes que algum 
atendesse. No conseguia enfrentar a voz dela, nem ouvi-la implorar que voltasse para casa. Cortei todos os laos na manh em que me vim embora. Suponho que isso 
me faz parecer fraco, confessar que fugi e tentei afogar a minha tristeza numa garrafa, mas foi isso que fiz. Desde ento que no estou sbrio.
- Agora est sbrio - recordou-lhe ela.
Rafe olhou para o beb. Aps um longo momento, meteu um dedo debaixo dos dedos meios dobrados do beb e passando-lhe com o polegar por cima dos nozinhos. 
- Sim, agora estou sbrio. Desde que a conheci, a si e ao Jaimie, tenho uma razo para estar sbrio. Quer saber uma coisa estranha? Nunca pensei chegar a tocar outra 
vez num beb, quanto mais tratar de um. Mas no instante em que lhe peguei, comecei a sentir-me... no sei... protector, acho eu.  um lindo diabrete.
Olhou para cima e viu que os olhos dela estavam marejados de lgrimas. Os cantos da boca tremiam-lhe um pouco quando disse: 
- Obrigada por nos ajudar, Senhor Kendrick. At agora, no imaginava como isto deve ser doloroso para si. - Apertou o lenol contra o peito com um brao ao mesmo 
tempo que dava uma pancada forte nas faces.
- De manh, pomo-nos a caminho. Acabam-se as lembranas desagradveis.
- Lembranas desagradveis? - Sorriu e abanou a cabea. - J tive alguns momentos difceis. Confesso que sim, mas, acima de tudo, dar com vocs os dois foi uma bno 
do cu.
- Uma bno do cu? - repetiu ela incredulamente.
- Sim, que diabo. - Bateu no queixo recm barbeado. - Pela primeira vez desde h meses, no estou bbedo. E sabe porqu? Porque, nesse estado, no podia tomar conta 
do Jaimie. Faz alguma ideia do tempo que passou desde que algum precisou de mim pela ltima vez? - Ps a mo na cabea morena do beb. - Se h algum que deva agradecer, 
querida, sou eu. S quero...
Fez uma pausa e ficou em silncio. Olhando para ele, Maggie adivinhou o que ele tinha deixado de dizer, que desejava que aquele tempo com eles no tivesse de acabar. 
O corao apertou-se-lhe perante o ar de pura ternura do rosto dele quando olhou para o seu filho. Pior ainda, ela compreendia. Ele tinha perdido os filhos e, desde 
ento, havia um vazio na sua vida. Agora, num abrir e fechar de olhos, esse vazio tinha sido preenchido e, l no fundo, onde a razo no domina, ele no podia deixar 
de desejar que Jaimie fosse seu filho. Que no precisasse mais de voltar  sua existncia solitria de vagabundo dos comboios,  sua vida de bilhete s de ida para 
parte nenhuma.
Ah, sim, ela compreendia. Mas por mais pena que sentisse dele, aquilo tambm a assustara de morte. A ltima coisa que queria naquele momento era complicaes com 
outro homem.
Mais uma razo para se pr a andar de manh, disse para consigo. Quanto mais depressa ela e Jaimie se separassem dele, melhor para todos.
Quando chegou a manh, Maggie no estava muito mais forte e a determinao de Rafe de se ir embora estava bastante mais fraca. Ela era uma tal mistura de esprito 
indmito e de vulnerabilidade que ele achava-a quase irresistvel.
Bocejando acordado, enrolou-se na cadeira de vinil verde em que tinha passado o resto da noite a tentar endireitar a espinha enquanto prestava ateno ao anjo adormecido 
na gaveta a seus ps. O colarinho amarrotado da camisa nova roava-lhe no queixo. Cheirava vagamente a arroto de beb. Sempre era melhor do que a whisky azedo, desse 
por onde desse. Um homem podia prender-se bastante depressa a um beb quando tomava conta dele durante uma noite inteira. Tambm era difcil manter a distncia emocional 
em relao a uma jovem que amava to dedicadamente o filho. De cada vez que Rafe levara Jaimie a Maggie, durante a noite, ela tinha-lhe dado o peito sem se queixar. 
Rafe sabia que cada puxo da boca do beb tinha de magoar como o prprio demnio. Mas ela tinha resistido  dor num silncio estico, as lgrimas a escorrerem-lhe 
pelas faces sendo o nico sinal que dava de que estava a sofrer, e tinha feito o possvel para as esconder.
Ao observar a gentileza e o amor na expresso dela quando tinha Jaimie nos braos, tinha sentido invariavelmente uma onda de forte capacidade de proteco e ideias 
loucas rodopiavam-lhe em espiral pela mente. De que talvez devesse ficar ali e cuidar dela por uns tempos.
Ela tinha voltado a sonhar durante a noite, falando durante o sono. Rafe tinha conseguido prestar pouco sentido a quase tudo o que tinha dito, mas uma coisa fora 
absolutamente clara. Ela estava aterrorizada com algum chamado Lonnie.
Seria esse o homem que lhe batera? Se era, e o filho da me a encontrasse, precisaria de algum que a defendesse. Certamente, ele teria uma desagradvel surpresa 
se Rafe ainda l estivesse. Qualquer homem que maltratasse uma mulher daquela maneira merecia um belo pontap no rabo. Meu Deus, estava totalmente envolvido e a 
afundar-se cada vez mais.
Aqueles sentimentos de proteco que estava a desenvolver em relao a Maggie eram uma loucura, uma perfeita loucura. O problema  que ele no parecia travar-se 
a si mesmo.
Onde tinha a cabea? Metida no rabo? Como se estivesse em posio de tomar conta dela. Tinha prometido amar Susan at ao seu ltimo alento e no podia arranjar lugar 
no seu corao para mais ningum. No seria capaz de viver consigo mesmo se o fizesse.
Quando ligou para o restaurante local a encomendar o pequeno-almoo que havia de l ir buscar, as mos tremiam-lhe tanto que tinha dificuldade em carregar nos nmeros 
certos. Precisava de uma bebida. A sua nsia da vspera tinha-se tornado um ardor, uma necessidade desesperada.
Enquanto caminhava para o restaurante para ir buscar a comida que tinha encomendado, o sol matinal de Inverno, afiado como uma lmina de barbear, golpeava-lhe os 
olhos. Rafe tentava respirar fundo para aliviar a sua necessidade de lcool. O ar tonificante que inspirava s lhe fazia arder o peito. Quase resolveu o problema 
parando na loja de bebidas. Apenas a lembrana de Jaimie o deteve. No podia tomar conta de um beb se estivesse bbedo. Em vez disso, foi outra vez ao armazm, 
onde comprou uma blusa nova e uma parka quente para Maggie e pijamas, camisolas interiores e um fatinho de neve para Jaimie. Era o mnimo que podia fazer, garantiu 
a si prprio. Quando os deixasse saberia, pelo menos, que estavam quentinhos.
Quando Rafe voltou ao quarto do motel, encontrou Maggie vestida e sentada na cama, a tentar calar os sapatos de tnis. Com um vislumbre do seu rosto plido, sentiu 
as pernas enfraquecerem. Fechou rapidamente a porta para impedir o ar frio de entrar e depois depositou todas as compras, incluindo a comida, na pequena mesa redonda 
junto  janela.
- Maggie, querida, o que  que est a fazer?
No fazia ideia da razo pela qual fizera a pergunta. Ela estava, obviamente, a preparar-se para se ir embora. Assustado Rafe percebeu que no havia nada que pudesse 
fazer para a deter. Naquele momento, desejava ter essa autoridade - poder dizer-lhe que voltasse para a cama e pronto.
- Tenho que me ir embora hoje - disse-lhe ela numa voz esganiada. - Tenho que ir para onde vou, arranjar trabalho e mandar buscar Heidi.
Rafe tinha a sensao de que Maggie estava a falar mais para ela prpria do que para ele, como se, dizendo as palavras, pudesse obrigar o corpo a obedecer aos comandos 
do crebro.
No aguentou ver a luta dela com os sapatos. Ainda que deix-la ir-se embora fosse a ltima coisa que quisesse, viu-se a guardar o casaco e o chapu e a ir a correr 
ajud-la. Com os olhos castanhos a brilhar, ela suspirou e agarrou-se s costelas, permitindo que ele lhe enfiasse o p estreito nos tnis e atasse os atacadores.
- Obrigada. - Olhou para o saco branco que continha o caf e o pequeno-almoo. Os odores quentes eram difceis de ignorar, mas ele sabia que ela preferia morrer 
de fome a pedir-lhe comida.
- Maggie, se nem sequer consegue calar os sapatos, como  que vai conseguir trabalhar?
- Tenho que conseguir - disse ela, simplesmente. - A Heidi est a contar comigo.
- A Heidi? A sua irm mais nova?
- Sim, ela est com uma pessoa amiga at eu poder mand-la buscar. No posso deix-la l muito tempo. - Tirou o brao que tinha  volta do corpo para apoiar a mo 
na cama. - Sabe a que horas passam por aqui os comboios?
S voltaria a entrar num vago passando por cima do seu cadver. Rafe inclinou-se para lhe calar o outro sapato. Enquanto atava os atacadores, fez uma tentativa 
v para se lembrar de todas as razes pelas quais no devia envolver-se mais com aquela rapariga. Mas de algum modo, a imagem indefinida do rosto de Susan pouco 
contribua para ele repor os sentimentos em ordem. Susan j no precisava dele. Maggie precisava.
- Sabe, tenho estado a pensar. - A voz dele parecia-lhe at a ele rouca e pastosa. Levantou o olhar ao encontro do dela. - O que  que diz de voc e eu ficarmos 
juntos durante algum tempo?
- O que  que quer dizer com isso?
Era uma boa pergunta. Em que diabo estava ele a pensar? 
- No quero dizer... bem, voc sabe... esse tipo de juntos. Apenas como amigos. Nada permanente. Durante algum tempo. At voc estar mais forte e poder governar-se 
sozinha. Lembre-se de que lhe disse que pus um anel no prego? Ainda tenho algum dinheiro. Podemos ficar algum tempo aqui no motel e eu posso cuidar de si e do Jaimie 
durante uma semana ou coisa parecida. At estar bem.
Os olhos dela reflectiam a sua incredulidade. 
- Porqu? J nos ajudou mais do que... - Abanou a cabea e ps-se em p, deixando os olhos dele ao nvel das suas ancas. - No, no acho que isso fosse uma boa ideia.
Parecia quase assustada. Lembrou-se do pnico que sentira na voz dela quando soube que ele tinha comprado a chapa elctrica. Que diabo. Ele no queria compr-la. 
S queria ajud-la.
- Olhe para si. Como  que pode trabalhar? - Agarrou-lhe a bainha da T-shirt para a impedir de se afastar. - Hei, oua. Arranjaremos uma maneira. O que  que acha? 
Uma maneira de me reembolsar... ou de trabalhar para pagar a dvida.
Ela lanou-lhe um olhar fulminante.
- No  nada disso - garantiu-lhe ele.
- Ento? - Suspirou e rolou os olhos. - Eu s sou razovel em trs coisas: contabilidade, servir  mesa e limpar a casa. Tanto quanto posso ver, actualmente, voc 
no est exactamente at ao nariz de receitas dirias, no tem uma mesa e, se tivesse, no tinha casa onde a pr.
Rafe quase lhe respondeu  letra, mas engoliu as palavras. O que ele tinha ou no tinha no estava em questo.
- Eu importo-me com o que lhe acontecer a si e quele beb. Voc precisa de uma pessoa amiga e  isso que eu quero ser para si.
- No - disse ela delicadamente. - Agradeo a oferta. A srio. Mas j lhe devo de mais.
- Quem  que est a tomar nota disso? Eu, no, de certeza.
Ela soltou-se. Rafe no podia ter a certeza, mas parecia-lhe que ela vacilara ligeiramente quando se afastara, e ela parecia estar a respirar um pouco depressa. 
- Voc diz isso agora. Mas quando l chegarmos,  outra coisa. - Levantou-se.
- O que  que quer dizer com isso?
- No h almoos grtis - disse ela ao inclinar-se com dolorosa lentido para apanhar o casaco e a camisola do canto para onde ele os tinha atirado. - O que  que 
espera obter com isso? Uma famlia temporria pronta a usar para substituir a que perdeu?
Aquilo doeu, possivelmente por estar to perto da verdade.
Ela suspirou e passou uma mo trmula pelos olhos. 
- Desculpe. No era isso que eu queria dizer.  s porque j estou to enterrada que nunca mais consigo reembols-lo. Foi voc prprio que confessou que est a ficar 
cada vez mais preso ao Jaimie. Quanto mais tempo estiver perto dele, pior ser para si quando nos formos embora.
Rafe no podia contestar. Sentiu-se um pouco desesperado com a ideia de seguirem caminhos diferentes. Ele iria direito para a loja de bebidas e da a uma hora estaria 
bbedo.
- Ningum ajuda uma pessoa sem esperar alguma coisa - disse ela. - Toda a gente acaba por querer uma paga de alguma espcie. Eu aprendi isso da pior maneira.
A avaliar pela sua expresso, obviamente tinha recebido de algum uma amarga lio.
 - Estamos a falar das pessoas em geral ou de homens, mais especificamente? - Ele sabia a resposta quela pergunta. Estava escrita em todo o rosto dela.
 - Trabalhei numa paragem de autocarros durante dez anos.  preciso dizer mais alguma coisa?
Ps o casaco e a camisola em cima da cama, preparando-se para embrulhar neles Jaimie antes de sair. Agora no seria, provavelmente, a melhor altura para lhe dizer 
que o cobertor improvisado j no era preciso, mas no via como dar-lhe a volta.
- Pode utilizar os cobertores da gaveta e eu comprei-lhe um fato de neve. - Foi abrir o saco. - Tambm trouxe uma parka para si. Preciso do meu casaco e voc no 
pode andar l fora s com uma T-shirt.
Ela fixou uns olhos muito arregalados na roupa de Inverno. Era impossvel no reparar no pnico daquele olhar. 
- No devia ter feito isto. No tem que se preocupar connosco.
Rafe sabia que no devia zangar-se. Era to frustrante. 
- Talvez esteja a querer fazer de vocs uma preocupao minha.
- Olhe, foi muito amvel em comprar-nos coisas quentes. A srio, e aprecio esse gesto. Mas preferia que no tivesse comprado e gostaria que fosse devolv-las.
Olhando para ela, Rafe pensou no seu lar, um local onde no estava h bastante tempo, e em todas as vantagens que l lhe podia proporcionar.
Nesse momento, soube que no podia deix-la ir-se embora. Se deixasse, passaria o resto da vida a lament-lo e a perguntar a si mesmo o que lhe teria acontecido. 
Era to simples e to complicado como isso.
So horas, tinha-lhe dito Susan no sonho. No sabia se, realmente, ela tinha vindo ter com ele. Racionalmente, sabia que era de longe mais provvel que o sonho tivesse 
sido o resultado de um desejo dele. Mas que importncia tinha isso? O que importava era que ele tinha tido uma conversa semelhante com Susan pouco antes de ela morrer 
e ela tinha--lhe arrancado a promessa de que no passaria o resto da vida sozinho se alguma vez lhe acontecesse alguma coisa. Abenoada seja que fez, naquela noite, 
tudo o que estava ao seu alcance para o libertar - para lhe fazer saber que queria que ele fosse feliz.
Olhando para o que se passou nessa noite, Rafe tinha razo para perguntar a si mesmo se Susan teria tido alguma espcie de premonio. 
- Promete-me, Rafe. Quero a tua palavra de honra de que encontrars outra pessoa para amar. 
Na altura, achou que ela estava a ser parva. Eram ambos jovens e estavam de boa sade. Ele tinha-se rido e tinha-lhe despenteado o cabelo, salientando a possibilidade 
de poder fazer um casamento insensato. Susan tinha-lhe dirigido um olhar de censura. Da primeira vez, fizeste uma boa escolha - recordou-lhe. Voltars afazer. Quando 
encontrares a pessoa certa, Rafe, sabers. Olhar-lhe-s para os olhos, acontecer uma coisa mgica e sabers que  a pessoa certa.
Desde o primeiro momento em que tinha posto os olhos em Maggie, alguma coisa tinha renascido dentro dele, e desde ento os seus sentimentos tinham andado numa confuso
desesperada. Havia de ignorar aquilo e passar  frente?
Era to raro um homem encontrar magia. Quando aparecia, ou se tinha a coragem de deitar as cautelas ao vento e agarr-la... ou perdia-se a oportunidade para sempre.
Portanto, que importncia tinha se os seus sentimentos para com Maggie e Jaimie no fizessem sentido nem se enquadrassem num calendrio? Pela primeira vez desde 
h muito tempo, tinha uma razo. Ela e o beb proporcionavam-lhe alguma coisa de que cuidar, algo por que lutar, algo slido a que se agarrar. No podia simplesmente 
desligar-se disso agora e dizer "Prazer em conhec-los!".
Assim Deus o ajude, ele precisava tanto dela como ela dele.
Maggie tinha trabalhado como empregada de mesa anos de mais para no reconhecer possessividade nos olhos de um homem e viu isso nos de Rafe.
Deu um hesitante passo atrs e estendeu uma mo trmula.
- Tenho... tenho mesmo que me ir embora.
- D-me uma razo para isso.
Encaminhou-se para ela, as longas pernas a darem passos sem pressa que pareciam vencer a distncia a um ritmo alarmantemente rpido.
- No andei a vida toda a vagabundear pelos comboios. Como lhe disse na noite passada, era rancheiro. Se ficarmos sem dinheiro, posso ligar para o meu irmo e pedir-lhe 
que me mande mais. Quando me vim embora, Maggie, no foi s o rancho que deixei para trs. Tambm tinha uma quantia substancial em dinheiro no banco. Est l parado, 
sem qualquer utilidade.
S com a sugesto, apertou-se-lhe o corao. 
- Durante dois anos, no telefonou para casa. Agora, de repente, est pronto a pegar no telefone? No. Se o fizer, faa-o por si, mas no pelo Jaimie e por mim. 
Isso  uma deciso do corao, uma deciso que precisa de tomar por achar que  a deciso certa.
- Talvez tenha estado apenas  espera de uma razo. Agora, tenho uma.
- No - insistiu ela. - No o vou pr a fazer isso. Por nossa causa, no.
-  uma falsa questo. Ainda tenho algum dinheiro. Se tivermos cuidado com as despesas, no precisaremos de mais dinheiro. O preo deste quarto no  muito elevado. 
Consigo cobrir as despesas enquanto recupera. - Parou  sua frente, o olhar esfumado a sustentar impiedosamente o dela. - Depois disso, tocaremos de ouvido, a ver 
o que acontece.
Maggie recuou mais um passo e ps as mos na cabea, que lhe doa. Acaba de escapar da lei autocrtica de um homem: no tinha inteno de se meter noutra. Rafe tinha 
sido, at ali, a amabilidade em pessoa e estava-lhe grata. Mas no era estpida a ponto de pensar que a situao se manteria na mesma se ficasse com ele. Mais tarde 
ou mais cedo, ele comearia a achar que o facto de a ajudar lhe dava direitos e, com toda a lealdade, ela no podia pr isso em causa. Se aceitasse o que ele estava 
a propor-lhe, ficaria em dvida para com ele e, a cada dia que passasse, o tamanho da dvida aumentaria at no haver sada.
- No posso.
Passou uma mo pela cara e piscou os olhos, mostrando a sua expresso que achara a recusa dela em aceitar a sua oferta no s irracional, mas tambm inaceitvel. 
-  a sua irm? Mando-lhe dinheiro para um bilhete de autocarro imediatamente. - Encolheu os ombros, que pareciam mais largos a cada segundo que passava. - Eu gosto 
de crianas. J demonstrei isso com o Jaimie. Que idade disse que ela tinha?
- No disse. - Estremecendo com um sbito arrepio, Maggie percebeu que se sentia tonta e queria alguma coisa, fosse o que fosse, a que se encostasse.
Ele estudou-a por um momento. 
-  essa a sua resposta? Por amor de Deus, certamente a idade da sua irm no  segredo de estado. De qualquer modo, porque  que  to imperativo mandar busc-la? 
Disse que o seu pai morreu e mencionou a sua me, pelo que sei a criana tem algum que tome conta dela. H um padrasto mau por trs disso, ou alguma coisa assim? 
Semicerrou um olho. - Quem  o Lonnie?
O corao de Maggie teve um sobressalto. Olhou para ele, perguntando a si mesma como  que ele tinha sabido o nome do padrasto.
- Voc gritou, a sonhar. Disse vrias vezes o nome. - Sustentou o olhar dela, fazendo-a sentir que estava a ler-lhe nos olhos as respostas que ela no ousava dar. 
- Voc tem medo dele, no tem? Foi ele que lhe bateu,  ele que receia que possa vir atrs de si.
O facto de ele ter descoberto to facilmente a verdade enervou Maggie. J no pensava que Rafe pudesse entreg-la a troco de uma recompensa. Tinha sido demasiado 
amvel e atencioso para com ela para que acreditasse nisso. Mas a experincia tinha-lhe ensinado que no confiasse completamente em homem nenhum. Rafe queria que 
ela e Jaimie ficassem com ele. E se ficasse a saber de mais e usasse isso contra ela? Teve instantaneamente sentimentos de culpa por fazer dele essa ideia. Seria 
muito bom para eles.
- Por favor, querida - sussurrou ele. - Aposte em mim. Confie em mim. Deixe-me tomar conta de vocs por algum tempo.
Oh, como ela gostaria de poder. No havia nada que desejasse mais do que voltar para a cama, tomar um gole de caf e, depois, dormir. Seria maravilhoso saber que 
Rafe tomaria conta dela e de Jaimie durante algum tempo, que ele estaria l se precisasse dele e que mandaria buscar Heidi.
Maggie fez abortar a fantasia. Aproveitar a sada mais fcil nunca era o melhor. Havia de pagar por isso, talvez caro, e o pior  que acabaria por magoar aquele 
homem. Era melhor cortar j todos os laos do que correr o risco de lhe partir o corao. Ele j tinha sofrido bastante. Com as tonturas a piorarem, procurou s 
apalpadelas a parede atrs de si.
No estava l. A nica coisa slida ao seu alcance era Rafe. Tinha saudades de se aproximar e se encostar ao corpo forte dele, como fizera na vspera. O prprio 
facto de querer tanto isso levava-a a afastar-se mais.
- Tenho que ir  casa de banho - disse-lhe.
No era mentira. Mal ligou o interruptor e fechou a porta  chave, o pequeno compartimento tornou-se ainda mais escuro, com tudo a ficar negro. Muito estranho. At 
a luz desmaiada que entrava atravs da janela estava mais sbria. Maggie piscou os olhos e tentou alcanar outra vez o interruptor de parede, pensando que o tinha 
desligado em vez de o ligar.
Mas de repente o brao caiu-lhe como se pesasse umas centenas de quilos e no conseguiu levantar a mo. Cambaleou e tentou agarrar-se ao toucador. No instante seguinte, 
estava estatelada no cho. Ficou ali estendida, sentindo-se como um pequeno floco translcido num caleidoscpio cinzento e preto em turbilho. Muito longe, ouvia 
Rafe cham-la. No conseguia perceber as palavras. Ento, mais alto, ele disse o seu nome. Maggie! Maggie, responda-me! Piscou os olhos, tentando ver atravs daquele 
rodopio estonteante de sombras.
Depois... escurido.
Rafe experimentou o puxador da porta, j sabendo antes de lhe tocar que Maggie tinha corrido o trinco. O grande baque que tinha ouvido ecoava-lhe na mente. Oh, meu 
Deus. Ela tinha desmaiado. Imaginava-a estendida do outro lado da porta com a cabea aberta. Se no lhe respondesse no segundo seguinte, teria de arrombar a porta.
- Maggie? Maggie, responda-me, que diabo! Nada de resposta.
Rafe no via outra maneira. Tinha de chegar at ela. Sem se permitir pensar nas consequncias, recuou e aplicou a bota mesmo por baixo do puxador da porta. A madeira 
estalou mas o fecho no cedeu. Filho da me.
Agarrando-se ao puxador, Rafe meteu-lhe o ombro, atingindo a porta com todo o seu peso. Uma vez. Duas vezes. A estrutura quebrou-se e a porta escancarou-se.
Maggie estava estendida no linleo gasto.  luz viva, o seu rosto estava to plido que parecia morta. O pulso estava irregular quando se baixou, apoiando-se num 
joelho, junto dela.
- Maggie?
Segurou-lhe a cabea com ambas as mos. No momento em que lhe tocou, percebeu que estava a arder em febre. Deu-lhe umas palmadas ligeiras nas faces mas no obteve 
reaco. Pegou-lhe ao colo. O seu corpo leve estava completamente sem energia. A cabea pendia por cima do gancho do brao como se fosse uma boneca de trapos.
- Maggie, fale comigo. - Dirigiu-se ao quarto e deitou-a delicadamente na cama. Ela reagiu  sua voz, gemendo, mas isso foi o mais perto que esteve de recuperar 
a conscincia. Rafe pegou-lhe no pulso para ver a pulsao, praguejou e deixou-lhe cair o brao. Como se soubesse o que estava a fazer! Sem relgio, nem sequer conseguia 
ver os batimentos por minuto.
Passando-lhe por cima do corpo inerte, agarrou no telefone, marcou 911 e sentiu-se como se fosse explodir meio sufocado enquanto esperava que algum respondesse.
- Preciso de uma ambulncia! - berrou quando uma expedidora respondeu.
- Pode dizer-me o seu nome, por favor?
O nome dele? - Minha senhora, tenho aqui uma emergncia. Preciso de uma ambulncia!
- Eu entendo, mas o senhor tem que se manter calmo. Pode dizer-me a natureza da emergncia? Houve algum acidente?
Apoiado com os cotovelos no colcho, para no cair em cima de Maggie, Rafe olhou para o rosto dela, sem vida. 
- No, no foi um acidente. Tenho aqui uma jovem muito doente. Acabou de desmaiar. Febre alta. Preciso de uma ambulncia, que diabo!
- Onde est o senhor?
Rafe no se lembrava do nome do motel. Deu um salto da cama para ir  janela. Esquecendo-se de que tinha o auscultador do telefone na mo, arrancou a base da mesa-de-cabeceira. 
O estrondo e o retinir que se seguiram foram ensurdecedores. - The Travelers Rest. - O cheiro enjoativo a bacon e ovos que vinha dos sacos que estavam em cima da 
mesa chegou-lhe ao nariz. - Do lado de c da linha de caminhos-de-ferro. No sei o endereo.
Mais uns segundos de silncio. 
- Pode dizer-me agora o seu nome, por favor?
Rafe explodiu. 
- O meu nome  Rafe Kendrick e vai desejar nunca o ter ouvido se no me puser aqui um raio de uma ambulncia, minha senhora! Deixe de fazer perguntas estpidas e 
faa o que lhe compete!
- Acabei de enviar a ambulncia, Senhor Kendrick. Estar a caminho a todo o instante. Por favor, acalme-se. Compete-me mant-lo ao telefone e prestar-lhe assistncia 
at chegar ajuda.
Rafe lutava por abafar o que s podia ser um acesso histrico de riso.
Toda a sua vida tinha sido sereno e calmo nas emergncias. A nica vez em que tinha perdido a frieza, como desta, fora na noite em que a sua famlia morrera.
 - Desculpe. Por ter gritado. - Dirigiu um olhar assustado a Maggie. - O que  que devia fazer? No sei o que fazer. Ela est inconsciente e est a arder em febre. 
Realmente doente. Ela est realmente doente.
- Mantenha-se calmo.  para isso que aqui estou, Senhor Kendrick, para o ajudar e lhe dizer o que fazer. Primeiro que tudo, a mulher est no quarto do motel?
- Sim, deitei-a na cama.
- Consegue chegar-lhe e continuar ao telefone comigo?
- Sim. - Voltou para junto de Maggie. - J estou ao p dela.
A expedidora fez perguntas a Rafe acerca do estado de Maggie, mas ele s estava a ouvir com um ouvido, com o outro, estava  escuta de uma sirene.
Aquilo era como revisitar um pesadelo. Relampejavam-lhe imagens na cabea. Susan e os filhos, o granizo gelado a chicote-lo enquanto tentava freneticamente ajud-los, 
mesmo sabendo, como ele sabia, que no havia ajuda que lhes valesse. Oh, por favor, meu Deus, outra vez, no.
- A ambulncia estar a num minuto -  prometeu a expedidora.
Rafe apurou o ouvido.
- J estou a ouvir as sirenes, acho eu - disse ele, com uma voz agradecida. - Vm a. Que diabo! O que  que andam a fazer? Foram lavar o carro antes de sair?
Ela riu-se baixinho. 
- Confie em mim, parece que demora mais tempo do que realmente demora. S passaram quatro minutos desde que ligou.
- So os quatro minutos mais longos de todos os tempos.
- Sim, eu sei. O seu beb est bem, Senhor Kendrick? Estou a ouvi-lo chorar.
Rafe olhou para a gaveta onde Jaimie estava deitado confortavelmente, envolvido nas suas mantas. 
- Ele est bem. Provavelmente, tem fome.
- Belos pulmes. Como  que ele se chama?
Rafe estava para responder quando se lembrou de como Maggie era reservada. Tudo na tentativa de se manter afastada das pessoas. Aquilo tinha dado completamente cabo 
desse plano. 
- No h dvida de que tem uns belos pulmes - concordou, ignorando a pergunta. As sirenes aproximavam-se. - Acho que a ambulncia est a chegar aqui.
- Eu continuo ao telefone. V fazer-lhes sinal. Est bem? Se eles no o virem, basta voltar ao telefone para que eu lhes diga onde se encontra. Quer fazer isso, 
por favor?
- Claro.
- E depois  melhor tratar do beb. No meio da confuso, no se esquea dele.
Esquecer-se? Nos ltimos dois dias, Rafe tinha chegado a sentir-se como se ele e Jaimie estivessem ligados por um cordo umbilical.
A sala de espera do Servio de Urgncia do Squire Community General era bastante parecida com a sala de espera de qualquer dos outros servios de urgncia que Rafe 
j vira. Cadeiras azuis de vinil e sofs encostados s paredes branco-sujo. Os ladrilhos beges do cho eram como habitualmente, com espirais variegadas brancas e 
pastel. Isso fez Rafe perguntar a si mesmo se no existiria uma ordem mundial dos decoradores de interiores especializados em instalaes mdicas.
A nica diferena assinalvel que Rafe conseguiu ver entre aquela sala de espera e outras foi que ele era a nica pessoa que l estava. No. O Jaimie tambm contava.
Recostado no sof ao lado do casaco, olhou para o rosto do beb, assente na curva do brao. J lhe tinha tirado o fato de neve. 
Agora, tirara-lhe um dos cobertores, com medo de que a criana pudesse estar demasiado quente. Desde que l tinham chegado de txi, estavam  espera havia mais de 
uma hora e, como  tpico dos hospitais, a temperatura era mantida a um nvel... sufocante. Mas talvez fosse impresso dele por estar muito tenso.
Dado o estado de inconscincia de Maggie, tinha cabido a Rafe responder s perguntas da recepcionista no balco de admisses. No tinha conseguido indicar o apelido 
e, quando lhe perguntaram a morada de Maggie, respondera: 
- Sem abrigo. - Suspeitava de que Maggie era de Prior, mas lembrando-se do seu secretismo, tinha hesitado em revelar at essa informao. O mais sumariamente possvel, 
tinha explicado como conhecera Maggie e que a tinha levado para um hotel quando se tornou evidente que estava doente.
Uns minutos mais tarde, tinha ouvido as mulheres do balco de atendimento a conversar sobre Maggie e uma delas disse: 
- Um tipo qualquer trouxe-a para aqui. Duvido seriamente que tenha seguro. As cobranas vo ficar muito entusiasmadas.
Como se interessasse se ela podia pagar. Um ser humano no era menos importante do que outro. O que  que a situao financeira de uma pessoa tinha a ver com isso?
Levantou-se e recomeou a andar de um lado para o outro. Maggie estava atrs daquelas portas duplas. Uma sensao sufocante comprimiu-lhe o peito quando se lembrou 
de como era branca a face dela. Tomara ter insistido com ela para ir ao mdico!
Nem sequer tinha a certeza de que houvesse um mdico qualificado de servio naquele local. O hospital era uma unidade de m qualidade de uma pequena cidade. J algum 
teria examinado Maggie? Era melhor que lhe prestassem cuidados de primeira classe ou iam rolar cabeas. Iam pr o rabo no tribunal to depressa que nem saberiam 
o que lhes tinha acontecido.
Essa ideia fez Rafe parar. Que dinheiro planeava utilizar para contratar um advogado? O seu charme irresistvel? No estava no Oregon, onde o seu apelido valia alguma 
coisa. Aquilo era Podunk, Idaho, e as pessoas de l nunca sequer tinham ouvido falar da famlia Kendrick. Podia amea-los  vontade, mas duvidava que obtivesse 
algum resultado. Achariam que era apenas um vagabundo com peneiras. Ou com alguma doena mental.
Bem, isso podia resolver-se - prometeu a si prprio. E muito depressa!



Podia ser verdade que no contactava com os pais nem com o irmo h dois anos. Mas cerrariam fileiras  volta dele se, de repente, decidisse telefonar. Rafe quase 
conseguia ver o pai a entrar de rompante por aquele hospital dentro, com a sua voz de trovo e os olhos a relampejarem.
Aquelas enfermeiras com ar de santas at haviam de tremer nas suas cadeiras de rodas.
- Senhor Kendrick?
Rafe virou-se rapidamente e viu uma ruiva magra, de bata branca, a encaminhar-se para ele. O estetoscpio que trazia no bolso fazia reflexos  luz fluorescente. 
Quando parou, puxou de um bloco de notas com mola que trazia debaixo do brao, os olhos amavelmente verdes a pousarem-lhe na cara ao mesmo tempo que estendia a mo: 
- Sou a doutora Hammish. Acho que foi o senhor que chamou a ambulncia para a nossa Maggie Doe?
Rafe mudou Jaimie para libertar o brao direito. Quando apertou a mo  mdica, examinou-a rapidamente e gostou do que viu, especialmente do ar preocupado que lhe 
fazia franzir a testa. Ao ver aquilo, sentiu-se um pouco melhor e muito envergonhado por ter achado que Maggie podia no estar a ser bem tratada.
- Como est ela? Vai ficar bem?
A mdica convidou-o, com um gesto, a sentar-se no sof e, a seguir, fez o mesmo, pondo de lado o bloco de notas e virando-se depois para poder procurar o olhar dele. 
Rafe percebeu que estava a olhar para ele com o mesmo cuidado com que a tinha visto. 
- A nossa Maggie Doe passou um mau bocado - disse ela baixinho. - Foi muito espancada. Presumo que saiba disso.
- Sim. - A avaliar pela expresso da mdica, Rafe adivinhou que estava  cabea da sua lista de suspeitos. - Estou a tratar dela h dois dias. Ndoas negras como 
aquelas so bastante difceis de ignorar. Encontrou o olhar dela. - No fui eu que fiz aquilo, se  isso que est a pensar. Encontrei-a h duas noites atrs e ela 
j estava naquele estado.
A mdica inclinou a cabea, indicando esse gesto que tinha achado a explicao dele credvel mas que ainda no estava totalmente convencida de que ele estivesse 
completamente inocente. Fez um ligeiro sorriso: 
- Como  que se conheceram?
Rafe cerrou os dentes para se controlar. Depois de respirar fundo trs vezes, disse: 
- Doutora, no se importa? Estou muito preocupado com ela e ainda no me disse como ela est.
A mdica deu uma pequena gargalhada sem humor. 
- Desculpe, mas eu sou um pouco obcecada quando se trata de uma mulher vtima de abusos. - Cruzou as mos em cima do colo e disse: - A Maggie recuperou a conscincia 
e tenho esperanas de que recupere bem.
- Graas a Deus.
- Em todo o caso, est muito doente.  uma ps-natal, o que pode causar muitos problemas se uma mulher no receber cuidados mdicos e eu arriscar-me-ia a dizer que 
ela no foi ao mdico desde que deu  luz. Tem uma infeco renal que no foi tratada. Acho que tem um problema chamado septicemia. No posso ser definitiva at 
receber os relatrios laboratoriais, mas esse  o meu diagnstico preliminar.
- Septicemia? Isso  muito perigoso, no ?
-  grave, sim. H bactrias que escapam do ponto focal da infeco para a corrente sangunea, multiplicam-se rapidamente e espalham-se pelo corpo. Se no for tratada, 
pode ser causa de choque sptico e pr a vida em perigo.
Rafe percebeu que estava a tremer e apertou mais Jaimie contra si.
- Est a levar uma infuso intravenosa de antibitico forte e uma soluo salina. Continuaremos com esse tratamento e mant-la-emos sob vigilncia durante trs dias. 
Depois, julgo que ela se dar suficientemente bem com medicao oral para ter alta... se tiver um local adequado para onde ir e se me for garantido que far exames 
de acompanhamento e far repouso absoluto na cama durante sete a dez dias. Seno, apesar das suas evidentes preocupaes com os custos, no terei alternativa que 
no seja mant-la no hospital.
Rafe fechou os olhos por um momento, to aliviado que se sentia quase sem energia. 
- Mas ela ficar bem?
A mdica suspirou. 
- No lhe posso dar uma garantia absoluta. Ficar ou no ficar bem depende inteiramente do modo como reagir ao tratamento. Porm, posso dizer que, neste momento, 
no vejo razo para prever problemas. - Estudou por momentos as mos cruzadas. Quando voltou a erguer o olhar, olhou-o de modo directo e inquisidor.
- A Maggie foi gravemente espancada, Senhor Kendrick. Acho que os golpes nos rins agravaram incomensuravelmente o seu estado, ferindo os rgos j inflamados e os 
tecidos circundantes. Para ser muito honesta, no estou to preocupada com a reaco dela aos antibiticos como com o que lhe vai acontecer quando sair daqui. 
Em minha opinio, teve muita sorte por o bao no ter sido rasgado e por no ter sofrido outras leses internas.
- Ela no voltar a ser espancada. - Rafe quase rosnou a promessa. - Se aquele filho da me se aproximar dela, seja onde for, eu... Fez uma pausa e engoliu em seco. 
- No lhe por a mo em cima, garanto.
A mdica procurou o olhar de Rafe e depois anuiu com a cabea.
- Normalmente, no fao juzos instantneos. Mas quero acreditar em si. Voc no foi, realmente, o homem que fez aquilo, pois no?
- Eu gostaria de bater no filho da me quase at  morte. Nunca vi ndoas negras como aquelas em ningum, incluindo eu, e j fiquei vrias vezes bastante rebentado 
em competies de rodeio. - Passou uma mo pelo cabelo. - No acredito que um homem merecedor desse nome fizesse isto a uma mulher, quanto mais a uma rapariga frgil 
que acaba de ter um beb.
A mdica voltou a suspirar, obviamente em total acordo. Depois, inclinando-se para ele, sussurrou: 
- Se tiver uma oportunidade de lhe bater, no queira o gozo todo s para si. Se o apanhar, eu adoraria dar-lhe pelo menos uma...
De todas as coisas que Rafe esperava que ela dissesse, aquela era a ltima. Deu uma gargalhada de espanto. 
- Doutora Hammish, pode ficar descansada.
Ela riu-se por entre dentes. 
- Fico  espera. - Esticou o pescoo para espreitar o beb. - Este deve ser o tipinho de quem tenho estado a ouvir falar... o mais maravilhoso, mais perfeito, mais 
precioso e mais bonito beb do mundo. Jaimie, se bem me lembro?
- Ela disse-lhe o nome dele? - Rafe levantou o sobrolho. - O que  que lhe fez? Torceu-lhe o brao? Deu-me um bocado de trabalho a arrancar-lhe isso.
- Invoquei a confidencialidade mdico - paciente. E depois jurei pela minha vida no repetir nada do que me disse. Perante isto, foi muito diminuta a informao 
que obtive. Ela est bastante doente, claro, e no lhe apetece falar, o que pode explicar em parte as suas reticncias. Mas continua a ser um pouco estranho que 
se recuse a dar-nos o seu ltimo nome ou a dizer donde .
- Eu acho que anda a fugir - disse-lhe Rafe.
A mdica concordou acenando com a cabea. 
- E a avaliar por aquelas ndoas negras, quem  que a critica? Voc nunca disse como foi que se conheceram.
- Qual  o mbito dessa confidencialidade mdico - paciente? perguntou ele.
- No quebrarei a confiana da Maggie nem a sua - garantiu-lhe ela. - A minha primeira responsabilidade  para com a minha paciente.
Rafe contou-lhe a histria de como tinha conhecido Maggie. 
- Tentei traz-la ao mdico, mas recusou-se. Para ser honesto... - Procurou outra vez o olhar da mdica. - Quero a sua palavra de honra de que no repetir nada 
disto, Doutora.
Ela acenou afirmativamente com a cabea. 
- Tem a minha palavra de honra.
Acho que aquela jovem precisa de proteco e no porei em perigo a segurana dela.
Rafe no sabia bem porqu, mas acreditava nela. Esperava no estar a cometer um erro. - Acho que talvez a Maggie tenha medo de que a polcia ande  procura dela.
A mdica levantou um sobrolho. 
- A polcia? Porqu? Pergunto a mim mesma.
- O seu palpite  to bom como o meu. No me parece do tipo criminoso.
- No - concordou a mdica, pensativa. - Acha que pode estar a fugir de um marido que a maltrate? - Olhou intencionalmente para Jaimie. - Talvez esteja envolvida 
num divrcio difcil, com discusso da custdia da criana, e tenha fugido com o beb.
- No me parece. Ela no usa aliana. E no h sinais de que tenha usado recentemente. Hoje em dia, nem todas as mulheres usam aliana, claro. Mas ela disse outras 
coisas que me levam a acreditar que no  casada. - Contou rapidamente a insistncia de Maggie em que Jaimie no tinha pai. - Isso no parece coisa que uma mulher 
casada ou recm-divorciada diga.
- Pois no. - A mdica suspirou e voltou a pousar o olhar em Jaimie. - D a ideia de que arranjou uma grande responsabilidade, Senhor Kendrick. Imagino que ficar 
aliviado quando lhe tirarem o mido das mos.
O corao de Rafe apertou-se. 
- Das minhas mos?
- Bem, sim - disse ela, sorrindo amavelmente. -- Maggie e o beb no so uma responsabilidade sua, afinal. At ela poder voltar a tomar conta dele, o Jaimie devia 
ser colocado sob a responsabilidade do condado. A custdia temporria  bastante boa, garanto-lhe.
- No. - A recusa saiu da boca de Rafe antes mesmo de pensar nas suas razes. No podia entregar Jaimie a estranhos.
- Como j salientei, Maggie e o beb no so responsabilidade sua. 
- A responsabilidade pode ser assumida.
- Bem, sim, suponho que pode.
- E ento? Eu assumo-a.
A mdica tocou no queixo, olhando para Rafe com preocupao. 
- Eu sei que a sua inteno  boa, Senhor Kendrick. E, por favor, no se ofenda. Mas tem a certeza de que est em situao de assumir essa responsabilidade? No 
 s no Jaimie que tem que pensar,  tambm pela Maggie. Ela precisa de cuidados quando sair daqui e eu no...
- Eu tratarei de que ambos recebam os cuidados necessrios.
- Como? Quando a Maggie tiver alta, no ser capaz de olhar pelo beb. Ela prpria precisar de cuidados constantes durante pelo menos sete dias, e no pode receber 
os cuidados de qualidade de que necessita num quarto de motel barato. Como pode cuidar dela se tiver que arranjar um emprego para pagar as contas, que podem ser 
substanciais? Ela vai precisar de uma ou duas sries de medicamentos muito caros, para comear. E de alimentao, de refeies bem equilibradas, no de fastfood 
ou da comida gordurosa que h nos nossos restaurantes locais. Abanou a cabea. - Segundo voc mesmo confessou, actualmente est desempregado, com falta de dinheiro, 
e no tem casa para onde possa lev-la. - Estendeu os braos. - O Jaimie dar-se- melhor ao cuidado do acolhimento temporrio. Por favor, deixe-me...
Rafe cortou a conversa pondo-se em p. Apoderou-se dele uma sensao de fatalidade pendente quando olhou para o beb que tinha nos braos e pensou em entreg-lo. 
Encontrou o olhar preocupado da mdica.
- As aparncias podem ser enganadoras, Doutora - informou-a bruscamente.  Tenho uma casa para onde posso levar a Maggie para convalescer. O local  quase to grande 
como este hospital do interior e h uma governanta a tempo inteiro para cozinhar. Quanto ao dinheiro, garanto-lhe que tenho muito mais no banco do que a senhora.
A expresso da mdica revelava mais claramente do que as palavras que simpatizava com os sentimentos dele, mas que no acreditava numa nica palavra do que tinha 
dito.
Rafe procurou no trio os telefones pblicos. 
- Quando Maggie tiver alta, j ter o Cessna da famlia Kendrick a voar do Oregon e j c estar  espera para a levar. - Virou o olhar para ela. - Presumindo, claro, 
que esta cidadezita do Idaho tem um aeroporto onde ele possa aterrar. Com uma expresso que reflectia espanto, acenou afirmativamente com a cabea. 
- Sim, temos aqui um pequeno aeroporto municipal. Esquadrinhou-o com um ar incrdulo. - Se est a preparar-se para me dizer que  um milionrio excntrico, no estou 
inclinada a acreditar em si sem algum tipo de prova, e no permitirei que leve Maggie deste hospital enquanto no ma der.
- Multimilionrio, mas no excntrico. Quanto a provas, o que  que tem em mente? Uma confirmao do meu banco convenc-la-?
- Eu.... bem, sim, suponho que isso bate.
Pegou no bloco de notas que estava no sof e anotou o nome e o balco do seu banco no canto superior direito da papeleta de Maggie. Por baixo, sublinhou o seu nmero 
da Segurana Social.
- V. Telefone. No me lembro do nmero de conta, mas eles reconhecero o nome. Diga-lhes que estou para lhe passar um cheque do montante que quiser e que quer confirmar 
a existncia de fundos antes de o aceitar. Eles no lhe diro qual  o meu saldo exacto, mas dir-lhe-o se chega para cobrir o cheque.
Entregou-lhe o bloco de notas. Depois, dirigiu-se s cabinas telefnicas, nunca olhando para trs para ver a expresso espantada que atravessava o rosto dela.

Captulo Seis
Rafe estava de p no meio do trio do hospital e olhou durante longos segundos para o telefone antes de levantar o auscultador. Segurando-o debaixo do queixo para 
usar a mo livre, ligou para a operadora e pediu uma chamada a cobrar no destino para o Oregon. Enquanto o telefone tocava, fixou o olhar na carinha de Jaimie. Finalmente, 
ouviu a voz do irmo, Ryan.
Numa voz que se tornou fria e suspeitosa, disse: 
- Sim, claro. Aceito a chamada.
- Pode falar, senhor - disse a operadora a Rafe.
- Ryan? - Rafe ouviu o tremor da sua voz. Fechou os olhos e engoliu em seco, quase incapaz de acreditar que estava a fazer aquilo. Sou eu, o Rafe.
- Meu Deus, s mesmo tu. Pensei que era outra chamada excntrica.
- Chamada excntrica?
-  uma longa histria. Rafe, onde diabo ests tu? Estas bem? - De voz, parecia igual mas um pouco mais velho, spero.
- Estou ptimo. - Quando pronunciou aquelas palavras, Rafe sabia que eram verdadeiras. Desde que conhecera Maggie, estava mesmo bem outra vez. - Eu... no sei exactamente 
o que dizer. Ol, acho eu.
- Ol? - Ryan praguejou e a linha crepitou: - Meu intil filho da me, pensvamos que tinhas morrido! Onde diabo tens estado?
Rafe ia responder quando ouviu o irmo soluar , um daqueles soluos secos, vindos directamente do fundo das entranhas, que s saem de homens fortes que nunca se 
deixam abater. 
- Ryan? Hei, mano. No.
- No? Como  que pudeste fazer isto? Tens uma famlia que te ama, que diabo. Fazes alguma ideia do sofrimento que causaste  nossa me?
Rafe encostou um ombro ao separador metlico da cabina. Quando falou, a sua voz rangia. 
- Peo desculpa, Ryan. Eu... no podia telefonar. Tentei vrias vezes. Peo... desculpa.
- Pedes desculpa? Ela no conseguia comer, no conseguia dormir! Perdeu mais de quinze quilos, por amor de Deus. Onde ests? Quando a chegar, a primeira coisa que 
vou fazer  abraar-te. Depois, vou arrancar-te tudo c para fora.
Rafe fez um ligeiro sorriso, os olhos toldados pelas lgrimas. 
- Neste momento, provavelmente conseguias faz-lo com uma mo atada atrs das costas.
- Oh, meu Deus! Ests doente?
Rafe fechou a mo em torno do revestimento metlico do fio do telefone. 
- Agora estou bem. ... uma longa histria.
- To longa que no aguento a conta da chamada?
Rafe soltou um riso abafado. 
- Que diabo,  to bom ouvir a tua voz. Tinha saudades de ti, Ryan. - Lentamente, foi dizendo ao irmo o que andara a fazer desde aquela manh fatdica em que lhe 
deixara uma mensagem em cima da mesa da cozinha e se viera embora.
- No posso acreditar que estou a ouvir isto. Andaste a vagabundear pelos comboios?
- Andei.
- H anos que no ouvia algum dizer que tinha feito isso.
Rafe sorriu. 
- Temos mais sem-abrigo agora neste pas do que nunca. Pensas que todos vivem em grandes cidades?
- Claro que no. S... - Ryan fez um som irritado. - O meu irmo, vagabundo? O que  que queres dizer, tens um problema de bebida?
-  isso mesmo. Mas estou sbrio h dois dias. No tinha grandes opes. Liguei-me a uma senhora que precisava mais de mim do que eu de outra garrafa.
- Uma senhora? Onde diabo  que um vagabundo conhece uma senhora? Num vago de mercadorias?
- Sim, de facto, foi num vago de mercadorias.
- Eu no quero ouvir isto. Um vago? J ouvi falar em homens que arranjam mulheres em bares. Pensava que isso era mau. Mas num vago de mercadorias? Perdeste o juzo?
- Ela  linda, Ryan. Sei que parece uma loucura, especialmente em apenas dois dias, mas acho que estou a apaixonar-me por ela.  daquelas pessoas de quem no podes 
deixar de gostar. Sabes como ?
- Oh, merda. - Longo silncio. - Rafe, onde ests tu?
- Num hospital em Podunk, Idaho.
- Disseste que no estavas doente.
- No estou doente. A Maggie  que est. Eu sei que  pedir muito, mas podes pegar no avio e vir c buscar-nos, Ryan? Preciso que estejas c daqui a trs dias. 
Que dia  hoje?
-  quinta-feira, vinte e oito. E o que  que queres dizer com isso de vir "buscar-nos"? Vais traz-la para casa contigo? Rafe, ests a pensar como deve ser?
- O mais possvel - assegurou-lhe Rafe. - Conhec-la salvou-me a vida, Ryan. Garanto-te que vais ador-la. E, olha, espera at veres o Jaimie.
- O Jaimie?
- O filho dela.  bonito de morrer.
- Ela tem um beb Rafe, onde  que ests exactamente?
- Logo a seguir  fronteira do Idaho, Excelncia.
- Nunca ouvi falar nisso.
- Bem, no  exactamente uma metrpole.  para norte. E tambm  mais frio do que nariz de co. Os pulmes quase congelam quando respiramos.
- Estou a amanh de manh - prometeu Ryan. - Ainda a estaria hoje  noite, mas j no levanto com o Cessna h algum tempo. Vai precisar de uma verificao e tenho 
que traar um plano de voo. Rafe? No faas nenhuma estupidez at eu a chegar.
- Como, por exemplo?
- Como... bem, que diabo! No sei. Casares-te com ela ou qualquer coisa estpida como essa, acho eu. Primeiro, vamos ter os dois uma longa conversa. Est bem, mano?
- Realmente, ainda no tinha pensado suficientemente  distncia para encarar o casamento. Mas no  m ideia. Se h mulher que precise de um marido  a Maggie.
- Ests a brincar, no ests?
Rafe estava e no estava. 
- Teremos que ver o que acontece, acho eu. Ela  um pouco assustadia em relao a ligar-se a mim.
- Bem, pelo menos um de vocs est a pensar com juzo. Talvez consiga a chegar esta noite. Parece-me que precisas de quem tome conta de ti. 
Rafe atirou a cabea para trs e riu-se s gargalhadas. O barulho acordou Jaimie, que soltou um curto choro.
- Que diabo, h mesmo um beb.
- Pois h - disse Rafe, abanando levemente o beb para o pr de novo a dormir. - E no  preciso partir uma perna para te pores aqui, Ryan. No h nada que possas 
dizer ou fazer para alterar isto. J engoli o anzol.
Ryan suspirou. 
- s um homem crescido. Acho que sabes o que ests a fazer. O que me interessa  que venhas para casa. 
Casa! A palavra moveu-se suavemente na mente de Rafe, reavivando memrias de que ele andara a tentar fugir. Agora, j no sentia essa necessidade. Ia voltar e, a 
menos que Maggie arranjasse um argumento terrivelmente bom contra isso, ia lev-la com ele. Havia l uma ptima faculdade e muitas oportunidades de emprego. Seria 
o lugar perfeito para ela recomear a vida, com a vantagem adicional de ele estar perto para olhar por ela.
Fugazmente, Rafe pensou em Susan. Um cantinho do seu corao pertencer-lhe-ia sempre a ela e aos filhos. Mas acabara aquilo de se punir por uma coisa que nunca quis 
que acontecesse nem podia alterar.


- Chamas-me o pai e a me? - perguntou Rafe bruscamente. No quero que tenham um choque quando me virem.
- Eles esto na Florida. Mas eu telefono-lhes. Vo querer regressar para te ver. Mas o pai tem estado com dores no peito. Acho que tem consulta marcada com um especialista 
do corao, pelo que pode demorar umas semanas. Provavelmente, a me no o deixar voar enquanto o mdico no disser que est tudo bem. Isso dar-lhes- algum tempo 
para falarem contigo ao telefone e digerirem as notcias antes de te verem.
Rafe imaginou o pai, alto e robusto. 
- Um mdico do corao? Ele est bem?
- Nada fora do normal para um homem de sessenta anos. Ataques frequentes de angina, diz a me. Mas sabes como . A enfermeira que existe nela no resiste a diagnosticar 
coisas e uma em cada quatro vezes est errada. 
Rafe franziu o sobrolho.
- Parece estranho que de repente tenha problemas cardacos.
- Penso que  da comida - disse Ryan. - Ultimamente, tm andado a comer pratos crioulos. E sabes como  com a gordura. Junta as duas coisas e tens a uma indigesto 
crnica. Alm disso, continua a dar umas fumaas s escondidas. A velha praga do costume.
A ideia de perder o pai antes de ter a oportunidade de voltar a v-lo arrefeceu o sangue de Rafe. 
- Estou contente por a me estar atenta a isso. Ele diria "Que se lixe a dor no peito" e meter-se-ia no avio.
Ryan riu-se. 
- Que diabo,  bom voltar a falar contigo.
- Tambm  bom falar contigo. - Sabia to bem que Rafe perguntava a si mesmo por que razo tinha esperado tanto tempo.
- Este ano, o Natal chegou-nos mais cedo. Passmos o pas inteiro a pente fino  tua procura. Oferecemos recompensas. Quase desistimos de ti, dando-te como morto.
- Tambm eu - confessou Rafe, baixinho. - Durante muito tempo, quis morrer e passei muito tempo a desejar que isso acontecesse. Inspirou para limpar os brnquios 
e sorriu. 
- Parece uma coisa bastante estpida, dita em voz alta. Mas eu estava muito confuso, Ryan.
- Tinhas razo para isso. - Outro silncio na linha. - Tomara eu que tivesses ficado aqui e arranjasses aconselhamento como eu sugeri. Tm toda a espcie de ajuda 
para as pessoas vencerem os seus processos de luto.
O processo de luto. Rafe lembrava-se de Ryan ter usado essa expresso e de como isso o ps furioso. Agora sabia que havia um processo de luto. Chamava-se inferno, 
mas no era preciso morrer para ir para l.
- Achei a minha prpria cura.
- Sabes a sorte que tens por ainda estares vivo, meu cepo?
Rafe riu-se. 
- Uma sorte dos diabos - disse ele, com sinceridade.
- Como  que te arranjas em matria de dinheiro?
- Tenho uns assuntos a resolver aqui na cidade que me levaro um pouco mais de setecentos dlares, pelo que preciso de algum dinheiro. Traz-me mais algum, est bem, 
mano? A propsito, a minha conta bancria ainda est activa? Tenho uma mulher a telefonar para o banco para verificar se h fundos.
- Claro que est activa. - Longo silncio. - Eu... no consegui convencer-me a fech-la. Era uma sensao to grande de final. Racionalmente, imaginava que no havia 
grande esperana de que alguma vez voltasses, mas havia uma parte de mim que no conseguia... Ryan praguejava baixinho. - Sim, ainda est activa. - Suspirou. O que 
 que te faz pensar que no consegui ir  falncia, tentando gerir sozinho este lugar?
Rafe riu-se. 
- Porque s um Kendrick. Nasceram-te os dentes no cabedal da sela e na pele de vaca. Provavelmente, valho mais agora do que quando sa da.
- Sim, e deves-me dois anos de frias.
- D-me um ms para me pr em forma e podes tir-las, se quiseres. Agora que tomei a deciso, estou ansioso por voltar a cheirar o estrume de vaca.
- Ainda bem. Posso esfregar-te o nariz nele.
Rafe ainda estava a rir-se quando pousou o telefone. O sorriso durou pouco tempo. Quando se virou para a zona de espera, viu a Dra. Hammish a caminhar pelo trio, 
e a sua expresso dizia que alguma coisa estava mal.
O corao de Rafe saltava-lhe dentro do peito como uma bola de tnis e estugou o passo para ir ao encontro dela. 

- A Maggie est bem?
Ela disse que sim com a cabea mas a sua palidez dizia outra coisa.
- Temos um problema. - Levantou as mos, dirigindo-lhe um olhar aflito. -Um dos nossos auxiliares encontrou a carta de conduo da Maggie no bolso dos jeans dela. 
Uma vez que ela tinha sido trazida inconsciente, levou a carta ao balco de admisses. Tecnicamente, estava a seguir um procedimento normal. No fazia ideia de que 
a Maggie no queria que a famlia fosse contactada.
- Oh, diabo.
A mdica dirigiu-lhe um olhar pesaroso. 
- Nunca pensei que isso acontecesse, mas uma das recepcionistas ligou para a polcia e eles contactaram a famlia dela. O agente falou com o padrasto, um homem chamado 
Lonnie Boyle.
Rafe resmungou e passou uma mo pelos olhos. 
- Fantstico.
- Acha que este Boyle foi o homem que a espancou?
Rafe pensou na pergunta. 
 - Acho que  uma boa possibilidade.
- Sinto-me pessimamente por causa disto. O polcia disse que o Senhor Boyle pareceu muito preocupado e planeava vir imediatamente de carro para c. Se for ele o 
homem que a magoou... bem, normalmente eu informaria a polcia das minhas suspeitas. O nome dela no pareceu acender nenhumas luzes vermelhas na polcia, mas imagino 
a quantidade de nomes que passa pela secretria de um agente ao longo do dia. E se ela est metida nalgum sarilho? Receio voltar a falar para l acerca do Boyle 
porque tenho medo de s ir complicar as coisas.
A mdica tinha razo. At conseguir tirar mais informao de Maggie, Rafe tambm tinha relutncia em envolver mais a polcia. 
- Se foi o padrasto que a espancou, no h nada que ele lhe possa fazer aqui.
- Isso  verdade.
- Vamos tocar de ouvido. Se ele causar problemas e as coisas ficarem fora de controlo, no teremos outra alternativa que no seja chamar a polcia. At l, no entanto, 
eu aguardaria.
A mdica mordeu o lbio inferior. Olhou para o beb nos braos de Rafe. 

- O Senhor Boyle pode insistir em que o Jaimie seja entregue aos cuidados dele.
Rafe olhou para o fundo do trio por um longo momento. 
- Isso  com a Maggie. Se ela confiar no homem, eu entrego-lho. Se no... Fez uma pausa e abanou a cabea. - Ele arranjar um inferno se puser um dedo nesta criana, 
posso-lhe afirmar.
A Dra. Hammish dirigiu-lhe um olhar pensativo e sorriu.
 - A propsito, telefonei para o seu banco.
- E?
- O caixa disse que o cheque tinha cobertura  vontade. - Arqueou uma sobrancelha. - Disse-lhe que estvamos a negociar uma transaco imobiliria e que o cheque 
era de trezentos e cinquenta mil dlares.
- Satisfeita?
Disse que sim com a cabea, perplexa. - Eu sei que  uma pergunta indiscreta, mas quanto dinheiro tem exactamente?
- O suficiente. Desde que tenha a certeza de que tenho meios para tomar conta da Maggie e do Jaimie, a quantia no interessa, pois no?
- No - confessou ela. - Acha que a Maggie sabe a sorte que tem por voc estar do lado dela?
Rafe dirigiu  mdica uma piscadela e um sorriso rasgado. 
- Ainda no.
- Disse-lhe que era um homem com meios considerveis? O sorriso dele alargou-se. - No com tantas palavras.
- Hum... - Semicerrou um olho. - Isso devia ser interessante.
Nisto, Rafe riu-se, acordando Jaimie uma segunda vez. O beb recusou-se a voltar a adormecer at lhe darem de comer e o mudarem. A mdica deixou Rafe tratar dele 
quando lhe chegou uma lufada do odor que emanava do pijama de Jaimie.
- Voc  que disse que assumia a responsabilidade - lembrou-lhe ela.
Inclinando a cabea para um lado, Rafe fez os possveis por manter a boca fechada enquanto respondia: 
- Eu disse isso, no disse?
Rafe Kendrick era um homem de palavra, no obstante a confuso das fraldas.

Maggie tinha sido transferida para um quarto particular. Estava deitada a olhar para o tecto, o tiquetaque abafado do relgio de parede a marcar a passagem dos segundos. 
Pensando nos preos de uma diria num hospital, perguntava a si mesma quanto lhe estava a custar aquilo por minuto. O shunt intravenoso nas costas da mo direita 
fazia-a sentir-se como se estivesse presa com uma trela. Se no fosse isso, pedia  mdica que lhe passasse uma receita, ia  procura da roupa e ia-se embora dali 
para fora.
No podia acreditar que tivesse desmaiado. Ter-se-ia rido se no fosse to horrvel. Porqu agora? Precisava de estar a caminho. Tinha de mandar buscar Heidi e precisava 
de assentar para tratar do Jaimie. Agora, ainda por cima, teria contas de hospital at ao nariz.
No tem importncia, assegurou a si mesma. Havia de arranjar qualquer coisa. A mdica disse que ela estava muito doente, pelo que no tinha grandes alternativas 
a ficar ali at melhorar. Uma vez que tivesse alta, teria de trabalhar em dois empregos durante algum tempo. Era tudo. J o tinha feito; podia voltar a faz-lo. 
Cuidar da criana podia revelar-se um problema, mas encontraria algum de confiana para olhar pelo Jaimie.
Tudo se arranjaria. Tinha de acreditar nisso.
Se se concentrasse, talvez conseguisse conjurar uma fada madrinha que, com a sua varinha de condo, lhe acabasse com todos os problemas.
Fechou os olhos, to doente e exausta que pensar em qualquer coisa que no fosse o momento presente era demasiado penoso. Em vez disso, portanto, rendia a mente 
ao fantstico. Se realmente existe isso de mgica e fadas madrinhas, que desejos havia de formular? Nada to estpido como um coche feito de uma abbora ou um sapatinho 
de vidro, isso era certo. No, se formulasse algum desejo, poria os olhos em coisas mais prticas, como um bom emprego e uma oportunidade de receber melhor educao.
No precisava de ningum para tomar conta dela. Nessa matria, podia fazer sozinha um ptimo trabalho. Mas mais capacidade de ganhar dinheiro seria, sem dvida, 
ptimo...
Rafe batia com o taco da bota na carpete do trio, olhando de soslaio para o balco de informaes onde uma voluntria idosa se ocupava do telefone e dava orientaes 
aos visitantes. Encarquilhada com a idade, fez-lhe lembrar um duende bem-disposto com o seu cabelo branco prateado e o seu alegre uniforme cor-de-rosa. Tinha-lhe 
prometido dizer-lhe no momento em que Maggie estivesse instalada no quarto dela. Parecia que tinha esperado uma eternidade.

Um homem aproximou-se do balco e fez uma pergunta  mulher. Depois de dar uma rpida olhadela ao tipo, Rafe desinteressou-se. Tipos como ele, havia s dzias nos 
estados do Oeste. Provinciano tpico das pequenas cidades, do tipo que bebe como uma esponja cerveja barata, acredita que a luta livre profissional est cada vez 
melhor, e se considera um literato porque tropea uma vez por ano num romance de cordel. Um cabelo sujo, cor de areia, caa-lhe, empastado, sobre os ombros. Trazia, 
jeans desbotados e uma T-shirt branca suja, uma manga enrolada sobre um mao meio fumado de Camel.
Quando, de repente, o homem se voltou e olhou directamente para Rafe, todos os seus sentidos ficaram alerta. Lonnie Boyle? No sabia por que razo estava surpreendido. 
Afinal, no estava  espera de um cidado aprumado.
Quando Boyle se encaminhou para ele, Rafe fez uma anlise mais cuidadosa, notando o brinco de ouro que trazia na orelha direita. Os seus bceps fortes exibiam tatuagens, 
a do brao direito, de uma mulher nua com uma serpente com presas enrolada  sua volta. Instintivamente, Rafe apertou mais Jaimie contra si.
Precedido por uma barriga de cerveja que passava por cima da cintura das suas Levi's de cs baixo, Boyle pavoneava-se arrogantemente. Quando chegou junto do sof, 
Rafe viu que trazia uns papis dobrados na mo esquerda. O homem fez peito, olhos cinzentos manhosos a tirarem as medidas a Rafe e a fixarem-se depois em Jaimie. 
Tinha todo o ar de arruaceiro.
-  o Kendrick?
Rafe disse que sim com a cabea.
- Chamo-me Boyle, Lonnie Boyle. Sou o pai da Maggie. Estendeu a mo direita, com um grande anel de diamantes a brilhar--lhe no dedo. Rafe olhou para aquele anel 
durante um longo momento, tirou as medidas dos dentes protuberantes que seguravam as pedras e quis imediatamente matar aquele filho da me. Uma vez que estavam dentro 
de um hospital, conformou-se com a recusa do aperto de mo.
Boyle baixou o brao, esfregando a palma da mo nos jeans. O olhar de Rafe seguiu aquele anel.
- Sou o av do Jaimie. - Apontou para o beb. - A mdica diz que voc tem estado a cuidar dele. Claro que lhe agradeo. Mas agora que estou aqui voc est safo. 
O que  que lhe devo pelo incmodo?
O que Rafe queria era apanh-lo l fora. 
- No me deve nada. Quanto ao Jaimie, continuarei a cuidar dele at a Maggie me dizer outra coisa.
 Boyle puxou dos papis. 
- Bem, Senhor Kendrick,  melhor ler isto antes que se meta nalgum sarilho. So documentos de adopo. Um acordo particular. As pessoas que adoptaram o beb pagaram 
 Maggie um boa quantia para cobrir as despesas mdicas dela, mais uma bela soma para ela entrar numa universidade. A Maggie recebeu o dinheiro mas depois armou-se 
em me extremosa e fugiu com o beb. Tarde de mais para isso. J no tem direitos e eu vim buscar o mido para o levar de volta para os seus novos pais.
- Ningum vai levar o Jaimie a parte nenhuma at a Maggie dar autorizao.
O rosto de Boyle corou. 
- Olhe, seu figuro. Est a meter-se onde no  chamado. Esse mido j no  dela e ela no tem que autorizar nada. Atirou os documentos para o sof. - Leia-os. 
Ela assinou essas malditas coisas de sua livre vontade e eu vou pegar nesse mido, quer voc queira ou no.
Rafe desdobrou o documento e deu-lhe rapidamente uma vista de olhos. A assinatura que supostamente seria de Maggie parecia ter sido feita por uma mo pouco firme. 
Tambm havia manchas de sujidade e ndoas desmaiadas castanho-avermelhadas nos papis. O selo branco do notrio parecia autntico. Passou o polegar por cima dos 
pontos salientes.
- Estes papis foram assinados num escritrio? Esto sujos e estas manchas parecem de sangue.
Boyle no teve um sobressalto. 
- So de sangue. A Maggie picou o dedo num agrafo. A sujidade? - Olhou para as mos. - Tive um furo quando vinha para aqui. As minhas mos ficaram um nojo. Lavei-as 
h uns minutos na casa de banho dos homens.
Um dedo picado e mos sujas, hein? A histria era bastante credvel. Mas algo dizia a Rafe que a conversa de Boyle estava demasiado preparada.
Quando devolveu os papis ao homem, disse:
 - Ningum vai tocar nesta criana at a Maggie me dar luz verde. Percebeu? Se quer levar este beb a algum lado, ela tem que dar autorizao.
O rosto de Boyle ficou ainda mais vermelho. Arrancou o documento da mo de Rafe e bateu com ele contra a coxa. 
- Ento, vou arranjar o diabo da autorizao dela em menos de um fsforo! Para o diabo com esta merda.
Dito isto, virou-se e arrancou pelo trio fora em direco  ala leste.
Rafe tentou resistir ao impulso de seguir o homem. No tinha nada que se meter entre Maggie e o padrasto. Ela estava num quarto perto do gabinete das enfermeiras.
Tinha de ter uma campainha de emergncia para chamar se precisasse de ajuda. No havia razo para se meter naquilo.
O cheiro acordou Maggie. Cigarros e cerveja. Pensando que era apenas um pesadelo, abriu os olhos. Um rosto danou-lhe na viso turva.
- Lonnie? - O corao deu um salto violento.
- Quem querias que fosse? Ningum foge de mim impunemente. Tinhas que saber que eu havia de te encontrar.
Lutando para no entrar em pnico, Maggie procurou s apalpadelas a campainha. Como as pontas dos dedos no encontravam o invlucro de plstico, deitou um olhar 
tmido  barra da cama,  procura do grosso fio cinzento.
- Ups. - Lonnie agarrou-se com as mos s barras metlicas, criando uma armadilha com os braos, e inclinou-se mais, de modo que os narizes de ambos quase se tocavam. 
-Parece que caiu da cama. No  pena? Embora deva dizer que me deu muito jeito. Assim, podemos resolver isto sem ningum interferir nem meter o nariz onde no  
chamado.
Uma fria firmeza apoderou-se de Maggie. Ele tinha fechado a porta. Se gritasse a pedir ajuda, no fazia ideia se algum a ouvia e s teria uma oportunidade at ele 
lhe tapar a boca. Obrigou-se a olh-lo nos olhos, tentando no mostrar medo nenhum.
- No h nada para resolver. Voc obrigou-me a assinar esses papis. Tenho ndoas negras por toda a parte que o provam. Grande erro. Desta vez, no me manteve em 
casa at as provas se desvanecerem. Devolva o dinheiro e reduza o seu prejuzo. Eu no vou desistir do meu filho.
Ele riu-se, com um som untuoso horrvel. 
- Essas ndoas negras no tm a o meu nome. No podes provar nada. Tanto quanto as pessoas sabem, arranjaste um namorado com mau feitio.- Percorreu-lhe a ma do 
rosto com a ponta de um dedo.
Maggie tentou afastar-lhe a cara, mas a dor e a fraqueza tornavam-lhe os movimentos moles.



- Isto  assim, fofinha. Tenho documentos assinados, reconhecidos notarialmente, a dizer que deste o teu mido para adopo e que recebeste o dinheiro. Tudo legal 
e limpo. Se tentares combater-me, no h juiz nenhum em parte nenhuma do mundo que decida a teu favor, especialmente quando  o teu prprio padrasto que depe contra 
ti, testemunhando que no s uma me capaz.
- Capaz? - Servindo-se da mo livre da agulha intravenosa, afastou-lhe o brao. - Saia daqui. Voc j no manda em mim. A Heidi est em segurana. Tratei disso e 
ela est preparada para contar a um juiz o patife que voc , de modo a poder viver comigo. Voc nunca mais se aproximar dela a menos de um quilmetro. Estou a 
avis-lo, Lonnie. Encoste-me  parede nesta matria e, ainda que isso possa aborrecer a me, irei  luta. Voc ser o nico a lamentar. Percebeu? Apresento queixas 
contra si por agresso. A mdica daqui apoiar-me-. Ela viu o que voc me fez. Atiram-no para uma cela e deitam fora a chave.
O sorriso dele alargou-se.
 - Ento a Heidi est em segurana, no est? Tens a certeza disso, menina?
O corao de Maggie apertou-se. J tinha visto aquele brilho nos olhos de Lonnie.
- Descobri para onde a tinhas levado - sussurrou.
Estava a mentir. Tinha de estar a mentir. Maggie pensou rapidamente. A irm da patroa tinha-se oferecido para a deixar ficar com ela at Maggie poder mandar busc-la. 
A mulher tinha um nome de casada diferente do de Terry e vivia noutra cidade. No havia maneira de Lonnie ter descoberto a Heidi.
- Voc est a mentir.
- Estou? Bem, fofinha, ento,  melhor que tenhas a certeza absoluta. - Enquanto falava, agarrou a mo dela e comeou a virar-lhe o pulso para trs. - Ests a ver, 
foi assim. A Heidi ficou preocupada por a me poder estar aflita por causa dela e telefonou para casa para lhe dizer que estava bem. - Riu-se. - Eu sempre soube 
que um dia daria jeito a identificao das chamadas. Tendo apenas dez anos, a Heidi no pensou que eu pudesse localizar a chamada. Tomei nota do nome e do nmero 
de telefone, fui ao gabinete do xerife e eu e um adjunto fomos de carro a Tillard busc-la. - Sorriu com um sorriso demonaco. - Se no vieres para casa, por mim, 
ptimo. Eu e a Heidi dar-nos- emos optimamente.
Uma tontura fez Maggie pestanejar. Vinha-lhe uma dor cortante do pulso torcido. Atravs dos dentes cerrados, sussurrou: 
- Seu monstro, Lonnie torceu-lhe a mo com mais fora. - Agora diz l e no me chames nomes. Comea a insultar e a ser desrespeitosa e eu fico louco. E depois o 
que  que acontece  Heidi? -Ps-lhe a cara to perto que o cheiro ranoso do seu hlito quase a fez vomitar. Arqueou interrogativamente as sobrancelhas. - Ento, 
fofinha, o que  que se passa com os teus gritos? Ests entupida ou qu? De repente, parece que passaste a ser um modelo de bom comportamento!
Atravs da porta fechada do quarto de Maggie, Rafe conseguiu ouvir o grunhido da voz de Boyle, entrecortado pelas fracas respostas de Maggie.
Pondo Jaimie na curva do brao direito, Rafe abriu devagarinho a porta.
Atravs da greta, conseguiu ver Maggie na cama, que estava erguida. Boyle estava inclinado sobre ela, a torcer-lhe o pulso e a rir-se baixinho. O olhar de Rafe dirigiu-se 
para o lado da cama, onde a campainha danava na ponta do fio.
- Vais dizer quele estpido que me entregue o mido ou arrepender-te-s. Ests a entender?
Maggie arqueou a espinha dorsal e tentou agarrar-lhe o pulso com ambas as mos, mas o tubo intravenoso enrolou-se na barra da cama.
Impossibilitado de intervir com um beb nos braos, Rafe virou-se para ir chamar uma enfermeira que ia a correr pelo corredor. Ignorando a expresso espantada dela, 
atirou-lhe o beb para os braos. 
- Leve esta criana ao gabinete das enfermeiras e trate de que fique em segurana. Ningum, a no ser eu, pode lev-la. Entendeu?
De olhos muito abertos, a jovem enfermeira disse que sim com a cabea.
- Depois, chame a Doutora Hammish e a segurana. H um visitante turbulento no 122. Est a espancar uma paciente. Vai haver sarilho e eu posso precisar de ajuda.
Enquanto a enfermeira corria precipitadamente para o gabinete das enfermeiras com o Jaimie, Rafe virou-se para a porta, tentando com todas as suas foras controlar-se. 
No adiantou. Nunca tinha estado to zangado.
Quando abriu a porta, ainda ficou mais furioso, com a cara desviada do padrasto, Maggie lutava enquanto Boyle continuava a torcer-lhe o pulso at ao ponto de ruptura. 
Os tendes de ambos os lados da garganta dela estavam distendidos enquanto ela se debatia para libertar o brao torcido.


Rafe no sentiu os ps mexerem-se. Num pice, atravessou o quarto. Sem se dar ao trabalho de falar, atirou-se a Boyle com toda a fora, dando-lhe um murro que o 
afastou de Maggie e o fez recuar. Maggie gritou quando Boyle rodopiou com a fora do golpe. Depois de dar uma volta completa, aquele filho da me sem corao agarrou-se 
 cortina para amortecer a queda. Levou a cortina com ele, fazendo saltar os ganchos que a prendiam em todas as direces e aterrou de rabo.
Antes que ele conseguisse mexer-se, Rafe estava outra vez em cima dele, agarrando-o pelo peito da camisa. No limite da sua capacidade de pensar, sabia que no era 
aquela a altura nem o local para o fazer, mas no conseguiu resistir a dar um directo no nariz do filho da me. S um. Boyle berrou e ps uma mo na cara.
- Voc partiu-me o nariz!
- E no  s isso que quero partir, seu verme! - Pegando no brao dobrado do homem, Rafe torceu-lho para trs das costas, f-lo dobrar-se sobre a barriga e escarranchou-se-lhe 
nas ancas. Como medida de precauo, bateu na parte de trs da cabea de Boyle com a mo para ter a certeza de que ele batia com a cara no ladrilho.
 - Se voltar a tocar-lhe com um dedo que seja, mato-o. Percebeu bem, seu filho da me?
Boyle resmungou e disse, ofegante: 
- O meu brao! Raios o partam! Deixe-me levantar antes que me parta o pulso.
- Que tal tomar um pouco do seu prprio veneno? Rafe torceu mais. 
- Oh, meu Deus! Boyle chorava: - Maggie, f-lo largar-me! Maggie!
- Rafe, por favor. Deixe-o levantar-se. Isto s piora as coisas!
Rafe ficou espantado. Tinha visto o olhar dela. Odiava e temia aquele homem e no havia dvida nenhuma no esprito de Rafe de que tinha sido Boyle que a tinha espancado. 
Mesmo assim estava a pedir a Rafe que o libertasse? Nem pensar nisso.
- Rafe, por favor - pediu ela. - Oh, meu Deus! No est a perceber. No faz ideia do que ele far. Por favor Oh, por favor!
Rafe aliviou com relutncia a presso. 
- Est bem?
Sentada na cama, ela estava a tremer violentamente, com um brao  volta das costelas. Com os olhos castanhos marejados de lgrimas, olhou receosa  volta do quarto. 
- Jaimie. Oh, meu Deus, o meu beb! O que  que fez dele?
- Est com as enfermeiras, e foram avisadas para no o entregar a ningum a no ser eu - apressou-se Rafe a garantir-lhe. - Ele est bem, Maggie.
Os ombros dela caram de repente, de alvio.
- A Doutora Hammish e a segurana esto a caminho - disse-lhe Rafe.
Depois, inclinando-se para a frente, fitou Boyle nos olhos e acrescentou:
- Voc vai para a cadeia. Pode safar-se com isto l donde vem, mas no pode entrar num hospital e maltratar uma mulher. Espero que o atirem para uma cela e deitem 
fora a chave.
- O que  que se passa aqui?
Rafe recuou para espreitar por detrs da cama. Reconheceu o cabelo ruivo da Dr.. Hammish quando ela correu para o lado de Maggie. Por cima do colcho, viu-a verificar 
rapidamente o shunt intravenoso nas costas da mo da sua paciente.
Depois, encostou Maggie s almofadas e dirigiu um olhar inquiridor a Rafe. Ele acenou afirmativamente com a cabea, apontando para o homem que estava por baixo dele.
- Apresento-lhe o Senhor Boyle. Apanhei-o a tentar fazer brao-de-ferro com a sua paciente. Parece que a obrigou a assinar papis de adopo. Acho que ambos sabemos 
que tipo de coaco usou. Agora est a exigir que ela desista da custdia do beb. Afirma que os pais adoptivos lhe pagaram bem para desistir do Jaimie - todas as 
contas mdicas e dinheiro para ir para a faculdade.
- Nunca recebi um cntimo! - insistiu Maggie. - Nunca venderia o meu beb!  mentira, uma mentira horrvel. Lonnie  que ficou com o dinheiro. Todo. Combinou tudo 
nas minhas costas e depois obrigou-me a assinar os papis.
A mdica ps um brao  volta dos ombros de Maggie e aconchegou-a a si. 
- Chiu, Maggie. Acalme-se - sossegou-a. - Ele no lhe leva o beb. Na maioria dos casos, mesmo que uma mulher assine os papis, o juiz decide a favor da me natural 
se ela mudar de ideias.
- Quer apostar? - gritou Boyle. - E se a me natural for incapaz? Eu testemunharei contra ela. Vai ver. Que ar  que isso dar? Hein? O prprio padrasto a testemunhar 
contra ela! Depois de eu falar, o juiz pensar duas vezes antes de decidir a favor dela; tome nota do que lhe digo.
- No acredite nele, Maggie - interrompeu a Dr. Hammish.
- No interessa em que  que ela acredita! - retorquiu Boyle. Apenas interessa o que o juiz pensa. Ele querer que esse mido tenha um bom lar e as pessoas que o 
adoptaram so ricas. Uma grande casa, de luxo. Numa zona elegantssima. Mand-lo-o para as melhores escolas! Sem dvida! J tero esse beb e nenhum juiz no seu 
perfeito juzo os far devolver uma criana a uma vagabundazinha insignificante que o vendeu para sustentar o vcio da droga!
Maggie emitiu um som torturado.
 - Vcio da droga? Eu no uso drogas!
Boyle escarneceu:
- Ah, sim? Prova! Eu jurarei que usas! E o procurador tambm. Diremos que s paraste de usar com a antecedncia necessria para recuperares o teu mido.
Os olhos verdes da mdica viraram-se para Rafe. Os guardas da segurana entraram no quarto a correr nesse momento. Aps tomarem rapidamente conta da situao, um 
dos homens fardados virou-se para a mdica.
- Chamamos a polcia?
- Sim! Chamem o diabo da polcia! - gritou Boyle, debatendo-se contra Rafe que continuava a agarr-lo. - Ela assinou-lhes papis de sua livre vontade e recebeu dinheiro. 
Vendeu o seu prprio beb. Que me! Foi o prprio procurador de adopes que autenticou os documentos. Esto em cima da cama. Olhem e vejam com os vossos prprios 
olhos. Ela j no tem direitos sobre esse mido, e eu vou lev-lo aos seus novos pais. Nenhum de vocs pode impedir-me de o fazer. Tenho a lei do meu lado! Levar 
meses at o processo ir a tribunal. Nessa altura, o mido j amar os pais adoptivos e ela passar as passas do diabo para o recuperar.
Rafe no duvidava nem um instante de que tinha havido dinheiro a mudar de mos. Tambm estava convencido de que tinha ido directamente para as de Boyle. Maggie no 
tinha ganho nada com o negcio, a no ser uma tareia que quase a matara. Evidentemente, depois de ter sido obrigada a assinar os documentos, tinha conseguido, de 
algum modo, fugir com o beb antes de o padrasto conseguir entreg-lo aos pais adoptivos.
Qualquer procurador que tivesse estado presente para autenticar aqueles documentos de adopo quando Maggie estava a ser fisicamente obrigada a assin-los tinha 
de ser um verme to viscoso como Boyle.
Um vigarista de um procurador de adopes que negociava em carne humana.
Um filho da me de um padrasto. Meu Deus.
Procurando o olhar aterrorizado de Maggie, Rafe sabia que ela estava a ficar desesperada. Boyle tinha razo. Daria mau aspecto a Maggie se o seu prprio padrasto 
testemunhasse contra ela numa audincia e nos meses seguintes, at que o processo fosse analisado por um juiz, Jaimie apegar-se-ia aos pais adoptivos. O tribunal 
levaria, decididamente, em conta que Maggie era praticamente uma estranha para ele.
 A menos que conseguisse provar que tinha sido obrigada pela fora a assinar aqueles documentos, podia perder o beb, e, como Boyle j salientara, nenhuma daquelas 
ndoas negras que tinha no corpo tinha o nome dele l escrito.
Perder o beb quase mataria Maggie.
No vendo alternativa, Rafe libertou o brao de Boyle e saiu de cima dele, fazendo sinal aos guardas para se encarregarem do assunto. Boyle rolou para o seu lado, 
esfregando o pulso. Sorria com desprezo quando os guardas o puseram em p e depois afastou-lhes as mos quando recuperou o equilbrio. Aspirou furiosamente o sangue 
que tinha por baixo do nariz, agarrou nos papis da adopo e encaminhou-se para a porta.
Antes de sair do quarto, virou-se e apontou um dedo a Maggie: 
- Cometeste um grande erro quando decidiste meter-te comigo, menina. Aquele beb no  a nica coisa que vais perder. Que tal a tua doce mam e aquela tua linda 
irmzinha? Fico  espera no Hall e dou-te uma hora para pensares nisto. Vou chamar a polcia. - Acenou com os papis e dirigiu a Rafe um olhar cortante. - Depois, 
j no vais ser um figuro to grande, hein, rapaz? Recusa-te a dar-lhes aquela criana e vais ver o que acontece! Pem-te na cadeia com uma pressa que at ficas 
tonto.

Captulo Sete
Depois de Boyle sair, o quarto de hospital ficou num silncio de morte.
Rafe no tinha a certeza de como esperava que Maggie reagisse. S sabia que qualquer reaco seria menos alarmante do que nada. Ela estava imvel, a olhar em frente, 
a cara to plida e os olhos to sem brilho que podia ser um cadver.
A Dra. Hammish dirigiu a Rafe um olhar preocupado e depois aproximou-se da cama e apanhou a campainha de emergncia. Depois de tocar para chamar uma enfermeira, 
voltou a enrolar o fio na barra da cama. 
- Vai correr tudo bem, Maggie. Tem uma amiga em mim e um amigo no Senhor Kendrick.
Vamos ajud-la de todos os modos que pudermos.
Uma enfermeira de bata cor-de-rosa entrou no quarto. Os sapatos com sola de borracha chiavam no ladrilho. A Dra. Hammish virou-se para dar ordens, baixinho, sobre 
a medicao.


Durante a conversa, Rafe s teve olhos para o rosto tenso de Maggie. S Deus sabia o que ela passara s mos de Boyle, sendo a nica certeza que ela no aguentava 
muito mais.
 - Maggie? - disse ele baixinho. Querida, pode falar comigo? Quero ajud-la, mas preciso de saber exactamente o que  que estou aqui a enfrentar.
- No pode ajudar-me - disse ela friamente e depois, antes que Rafe percebesse o que ia fazer, sentou-se, tirou o shunt intravenoso das costas da mo e passou as 
pernas por cima da borda da cama. - Onde esto as minhas roupas?
A mdica teve um sobressalto e agarrou a mo a sangrar da sua paciente. 
- Meu Deus, o que  que est a fazer?
- Vou-me embora. - Aplicando presso na mo para fazer parar a hemorragia, Maggie desceu da cama e dirigiu-se ao armrio de parede, com a parte de trs da sua camisa 
de noite de hospital a abanar. Quando abriu o armrio e pegou nos jeans lanou a Rafe um olhar determinado - Pode ir buscar o Jaimie, por favor?
Mesmo enquanto falava, vacilava de fraqueza. A Dra. Hammish corria precipitadamente pelo quarto.
- No pode fazer isso! - gritava.
Maggie afastou-a. 
- Eu sei o que estou a fazer. - Agarrou-se com uma mo ao armrio para se apoiar quando se inclinou para enfiar um p numa perna das calas, com o esforo, a cara 
perdeu ainda mais cor. - Tenho que regressar a Prior antes do Lonnie de modo a tirar de l a minha irm. 
Rafe no se conseguia mexer. Tinha a mais estranha das sensaes, como se o ladrilho por baixo dos seus ps se tivesse transformado em gua e estivesse a afundar-se. 
Nos ltimos dois dias, tinha sido assaltado por uma sucesso de sentimentos inexplicveis em relao quela jovem, e agora, de um momento para o outro, estavam todos 
a atingi-lo ao mesmo tempo.
- Tenho a certeza de que a sua irm fica ptima durante um dia - insistiu a Dra. Hammish. - Est muito doente, Maggie. No pode sair daqui sem tratamento.
- Passe-me uma receita de comprimidos - retorquiu Maggie enquanto puxava os jeans por cima das suas ancas magras. - Se no tirar de l a minha irm, Lonnie pode 
mago-la para chegar a mim.  assim que ele faz.
A mdica agarrou o cotovelo de Maggie para a ajudar a firmar-se. 
- No nos precipitemos. Temos outras opes. Uma delas  chamar a polcia. E a sua me no vive l em casa? Com certeza que ela cuidar da sua irm at arranjarmos 
os canais adequados para tirar de l a criana.
 Com movimentos irregulares por causa da urgncia, Maggie correu o fecho dos jeans e dobrou-se para apanhar as meias e os sapatos.
- No posso chamar a polcia. Podiam olhar para aquele acordo de adopo e entregar o Jaimie ao meu padrasto. - Enfiou uma meia e meteu o p magro num tnis. - Depois, 
levaria meses, seno anos, a recuperar o beb.
- Confesso que pode haver um elemento de risco - concedeu a mdica -, mas chamar as autoridades ainda  a sua melhor opo. Eu intercederei por si.  bvio que foi 
vtima de agresso fsica. Eles vero isso e tomaro medidas para a ajudar. Agarrando o cotovelo de Maggie com mais fora, a Dr. Hammish acrescentou: - No me coloque 
nesta situao. Se insistir em tentar ir-se embora, no terei outra alternativa que no seja sed-la e odeio faz-lo.
Maggie hesitou em calar o segundo sapato para olhar para cima, o olhar alucinado e desesperado que os seus olhos exibiam quase partindo o corao de Rafe. 
- Ento, vai salvar-me de mim mesma? E a Heidi, Doutora Hammish? - perguntou numa voz vacilante. - Tambm pode interceder por ela?
Os lbios da mdica abriram-se como se fosse falar, mas depois ficou ali sem dizer nada.
- Est a ver? - disse Maggie baixinho. - No sou s eu e o meu beb. Se no fosse isso, no acha que eu j me teria vindo embora h muito tempo?
- O que  que a levou a vir-se embora desta vez? - perguntou a Dra. Hammish.
- As coisas chegaram a um ponto em que eu no tinha escolha. Era isso ou perder o Jaimie. Pensei que a Heidi estaria em segurana, que no havia absolutamente nenhuma 
maneira de o Lonnie a encontrar. Mas encontrou!
Rafe deu um passo hesitante em direco a ela, no inteiramente seguro do que podia fazer para a ajudar, mas convencido de que tinha de fazer alguma coisa. Ela fechou 
os olhos com fora, o rosto num esgar de angstia.




- Eu queria trazer a Heidi comigo, mas o Lonnie no  estpido. Ele sabia que eu podia tentar vir-me embora, pelo que me tirou todo o meu dinheiro e todos os meus 
cartes antes de ir para a cama naquela noite e fechou-os  chave na gaveta da sua mesinha - de - cabeceira. - A minha patroa fez-me um emprstimo, mas ela  apenas 
a gerente da paragem de autocarro, no  a dona. Deu-me tudo o que podia, mas ainda no era o suficiente para eu me instalar em qualquer parte. Renda, caues, comida. 
No tive outra alternativa que no fosse trazer o Jaimie mas, a menos que fosse absolutamente indispensvel, no podia andar com uma criana de dez anos por toda 
a parte, no pino do Inverno, sem saber se lhe podia proporcionar sequer abrigo adequado. Decidi que ficaria melhor com a irm da Terry, onde estaria segura at eu 
arranjar um emprego e mandar busc-la, com o dinheiro que a Terry me deu, tudo o que eu precisava era de uma semana de salrio.
Levantou as mos num gesto de futilidade. - No teria sido por muito tempo. Mas nada correu bem! Quando estava a tentar entrar no comboio, ele comeou a andar. O 
Jaimie j estava a bordo e eu a correr para o apanhar. Escorreguei no gelo e deixei cair a manta e o saco de fraldas dele. Estava l tudo. Comida para o Jaimie, 
o dinheiro, tudo. E depois, adoeci. Agora, a Heidi est outra vez em casa. No posso deix-la l. Por favor, tente entender isso.
- Se chamarmos as autoridades, tenho a certeza de que h alguma coisa que se possa fazer - insistiu a Dra. Hammish com as mos a tremer, Maggie atou os atacadores 
e abanou a cabea. - No sem provas de que est a ser maltratada, e, acredite em mim, no h nenhuma. O Lonnie  muito mais esperto do que isso. Oh, no! At aqui, 
no tem posto as mos na Heidi.  o trunfo dele. Usa a ameaa  segurana dela como meio para me manter na linha. - Endireitou -se, mantendo uma mo encostada ao 
armrio para se apoiar, quando lanou  mulher mais velha um olhar suplicante. - Eu sei que tem boa inteno, Doutora, mas no sabe tudo. Pensa que nunca fui pedir 
ajuda  polcia? Ou  assistncia jurdica ou aos servios para crianas? Pense melhor. Fui tantas vezes que j me conhecem pelo nome.
- O que  que eles fizeram?
- Nada. Essa  que  a questo. - Libertou o brao da mo da mdica e tirou a blusa e o soutien do cabide do armrio. - Sem provas de que o Lonnie maltrata a minha 
irm, no podem fazer nada. No podiam tirar uma criana  me sem uma boa razo. Primeiro, alguma coisa tinha que lhe acontecer.
- E a sua me? No ajuda?
- A minha me... - A voz de Maggie sumiu-se e ela caiu bruscamente contra o armrio, com as pestanas a baterem como se fosse desmaiar. Aps alguns segundos, fez 
uma inspirao tonificante. - Quando o meu pai morreu, ela teve um ataque cardaco. A privao de oxignio deixou-lhe leses no crebro. Agora, ela est muito acrianada 
e a sua sade  frgil. Tem bom corao e adora a Heidi, mas como proteco,  intil.
Rafe lembrou-se da tristeza dos olhos de Maggie na noite anterior, quando lhe disse que a sua vida nunca mais fora a mesma depois da morte do pai. Agora entendia 
porqu. Para todos os efeitos, na realidade, tinha perdido o pai e a me no mesmo dia.
Olhando agora para ela, Rafe recordou todas as vezes que tinha perguntado a si prprio o que lhe teria acontecido na vida para a tornar to desconfiada. Agora o 
mistrio estava resolvido. Aos catorze anos, tinha sido deixada com uma me que parecia uma criana e uma irm beb para tomar conta. Coloque-se um patife como o 
Lonnie Boyle nessa equao e a temos um pesadelo. Meu Deus. Uma sbita nusea deu-lhe uma volta ao estmago.
- O Lonnie  inteligente e manipulador - prosseguiu Maggie, com voz tremente. - Olhou para a minha me e viu ali uma vida fcil. Uma viva que no era muito brilhante, 
com casa prpria e algum dinheiro no banco. Agora, tem a minha me na mo e est convencido de que  maravilhoso. - Encostou a parte de trs do pulso  testa. - 
Viu-o.  um patife. - Baixou o brao e piscou os olhos. - No o deixarei fazer  Heidi o que me fez a mim. No deixarei!
- No estou a sugerir que deva faz-lo - garantiu-lhe a mdica. Mas sair do hospital no  a melhor resposta. 
Maggie dirigiu a Rafe um olhar lamuriento. 
- Por favor, Senhor Kendrick, no fique a parado. V buscar o Jaimie enquanto acabo de me vestir. No tenho muito tempo!
Com uma vaga sensao de descontentamento, Rafe percebeu que estava apenas ali parado e naquele momento sabia que tinha de fazer qualquer coisa, mesmo que fosse 
errada. No faas nenhuma estupidez, tinha-o avisado Ryan ao telefone. Mas seria uma estupidez? Podia ajudar aquela rapariga. E, que diabo, fizessem os seus sentimentos 
sentido ou no, gostava dela.
No tinha sido capaz de ajudar a sua prpria famlia. Uma perversa pirueta do destino tinha-lhos roubado to rapidamente que no houvera nada que pudesse fazer. 
Mas no era esse o caso desta vez.
Rafe quase no sentia os ps mexerem-se quando atravessou o quarto 
- No tem que se ir embora, Maggie - disse ele com firmeza. Acaba de chegar a cavalaria.
- O qu?
- A cavalaria - repetiu ele. - Neste caso, um exrcito de apenas um homem, mas tenho poder. Case comigo. Se tiver o meu nome na certido de nascimento do Jaimie 
e afirmar que sou seu pai, no h ningum nesta verde terra de Deus que seja capaz de mo tirar. Boyle no pode provar outra coisa sem uma anlise ao sangue, coisa 
que ele se ver grego para conseguir, com toda a burocracia interestadual. Entretanto, farei ao Boyle uma proposta que ele no pode recusar para o pr em dificuldades. 
No ser feito mal  Heidi. Prometo.
- Casar consigo?
-  a soluo perfeita. Pense nisso. J foi estabelecido um precedente nos tribunais. Actualmente, um pai tem direitos. Se eu disser que o Jaimie  meu, e voc se 
casar comigo para reforar a minha reivindicao jurdica, esse acordo de adopo ter menos valor, sem a minha assinatura, do que o papel em que est redigido.
Ela abanou a cabea.
- Oua-o, Maggie - incitou a mdica. - No rejeite sem mais nem menos esta proposta. Eu sei que no o conhece h muito tempo, mas acredito que ele seja de confiana 
e tenha no corao os seus melhores interesses.
- Posso contratar os melhores advogados e ir para o tribunal com o Lonnie, se for preciso - apressou-se Rafe a garantir-lhe. - No perder o seu filho. Garanto-lhe.
Olhou para ele com um olhar inexpressivo no rosto plido. 
- Contratar os melhores advogados? Com qu?
- Eu disse-lhe esta manh, lembra-se? Que quando sa de casa deixei l ficar uma quantia substancial.
- Uma batalha judicial custaria muito dinheiro.
Rafe olhou para a mdica. 
- A senhora telefonou para o meu banco. Ser mais crvel vindo de si. Diga-lhe.
- Ele  rico - disse-lhe a Dra. Hammish. -  verdade, Maggie. No tenho a certeza de quanto tem, mas acho que se pode dizer que tem uma fortuna.
- Rico? - repetiu Maggie com uma expresso incrdula. - Um vagabundo dos vages de mercadorias, rico?!
- No sou vagabundo, sou rancheiro. Ainda sou dono de uma enorme extenso no Leste do Oregon. H trs anos, houve um incndio florestal. O rancho ficou financeiramente 
arruinado. Para recuperar, o meu irmo e eu separmos uma parcela de 2000 hectares e vendemos lotes a empreiteiros. Dividimos o resultado da venda entre ns e a 
nossa famlia. A minha tera foi de cerca de cinquenta milhes de dlares, a maior parte dos quais est investida. Tenho muito dinheiro, Maggie. O suficiente para 
comprar dzias de Lonnie Boyle e ainda ter troco. Entende? Dinheiro significa poder. Case comigo e esse poder estar do seu lado.
- Casar consigo? Mas isso  uma loucura.
Era uma loucura. Racionalmente, Rafe sabia. Mas era um tipo maravilhoso de loucura. Pela primeira vez em muito tempo, voltava a sentir-se vivo.
- Pense nisto a srio, Maggie - incitou a Dra. Hammish. - Eu sei que parece um pouco arcaico, mas pense nas vantagens todas. No conheo todos os pormenores e no 
me compete averiguar, mas voc est obviamente metida numa enorme confuso e, evidentemente, a sua irmzinha tambm estar se no fizer alguma coisa. A resposta 
 fugir? Voc j tentou isso e olhe o que aconteceu. O Boyle est aqui, em cima de si. Pode voltar a fugir, se for essa a sua nica opo. Mas sempre que possvel, 
 melhor parar e ripostar. O Senhor Kendrick no s est a oferecer-lhe a sua proteco, mas tambm meios para travar esta batalha e vencer.
Maggie sentia-se como se o mundo tivesse sado, repentinamente, do seu eixo. O seu vaqueiro do vago de mercadorias era mesmo multimilionrio? E estava a oferecer-se 
para casar com ela e usar o seu dinheiro para travar as batalhas dela? Era como ir dormir e acordar no meio de um conto de fadas... com ela no papel de donzela em 
apuros e Rafe Kendrick a representar o belo prncipe.
Encostou-se mais ao armrio, sem ter a certeza absoluta de que as pernas continuassem a aguent-la. Estava a sonhar, decidiu. A mdica tinha-lhe dado um sedativo 
e, na realidade, ela estava na cama, completamente drogada e a ter um sonho louco. Era a nica explicao.
- Porqu? - perguntava ela.
- Porqu o qu? - perguntou o seu belo prncipe.
- Porque  que est a propor-me casamento? Eu percebo as vantagens para mim. Mas o que  que voc ganha com isso?


Dirigiu-lhe um sorriso maroto:
 - Voc.
Maggie resmungou.
 - Voc mal me conhece. Tenho um filho ilegtimo e uma irm de dez anos por quem sou responsvel. Voc ficava com uma famlia instantnea.
No momento em que falou, Maggie percebeu que era exactamente isso. Rafe Kendrick tinha perdido a mulher e os filhos num desastre de automvel e ainda estava a fazer 
o luto. Lembrava-se da expresso ansiosa que lhe tinha visto no rosto na noite anterior quando olhara para Jaimie. Agora, via ali uma maneira de ficar com ela e 
com o beb, uma maneira de tornar seu o Jaimie. Substitutos convenientes,  o que seriam.
Era uma ideia louca. Maggie mal podia acreditar que estava realmente a pensar nela. Quem  que, no seu juzo perfeito, concordaria com uma coisa daquelas? Por outro 
lado, dada a sua situao, quem  que, no seu juzo perfeito, rejeitaria a proposta? Com aquele dinheiro todo, ele podia contratar uma legio de advogados espertos. 
Lonnie no teria qualquer hiptese. E no era como se Rafe no estivesse a ganhar nada com o negcio. Arranjaria um filho , algum que o fizesse sentir outra vez 
necessrio.
S havia um problema: ao aceitar uma proposta daquelas, estaria a vender-se, a vender o corpo e a alma. A menos que Rafe colaborasse, poderia no haver maneira de 
desfazer isso, mais tarde. No haveria sada. Ela seria sua mulher. Pior ainda, ele teria sobre ela o mximo ascendente, a custdia conjunta do filho. Tambm tinha 
de pensar na Heidi. Como  que ela se enquadrava exactamente naquele quebra-cabeas?
- No posso - disse Maggie, com uma voz to fraca que parecia vir de muito longe. -  uma proposta maravilhosa e resolveria a maioria dos meus problemas. Mas no 
resolveria todos e eu no posso.
- D-me uma razo - argumentou Rafe - No tem nada a perder e tudo a ganhar.
- J lhe disse, tenho que ir buscar a minha irm. - O quarto parecia andar  roda. Maggie agarrou-se  porta aberta do armrio para se manter de p. As palavras 
pareciam ecoar-lhe dentro da cabea. - Por favor, v buscar o meu filho para que eu possa acabar de me vestir e ir-me embora.
- Como  que vai chegar a Prior? - perguntou ele.
- Peo boleia.
- E se no arranjar logo uma boleia? Est demasiado doente para ficar na estrada, especialmente com um beb para transportar. Pode desmaiar. O que  que aconteceria, 
ento, ao Jaimie?
As pernas pareciam-lhe esparguete demasiado cozido. Receava que pudessem ceder. Meu Deus, ele tinha razo. Estava demasiado doente. Se sasse do hospital, talvez 
nunca conseguisse chegar a Prior e ento em que situao ficava Heidi?
- Tenho que ir busc-la - gritou. - No posso deix-la l.
- No tenho a inteno de a deixar l. - A voz dele parecia cerc-la, profunda e quente, e to maravilhosamente forte. - Tomaremos conta dela e lev-la-emos para 
viver connosco, Maggie. Tem a minha palavra de honra. Isso far parte do nosso acordo. E entretanto, juro-lhe por tudo o que  sagrado que o Boyle no lhe far mal. 
Farei com que fique absolutamente segura.
- Como? Voc no conhece o Lonnie.  uma vbora. No se pode confiar em nada do que diz.
Como se pressentisse que ela estava quase a cair, Rafe contornou-lhe gentilmente a cintura e encostou-a ao peito. Pela segunda vez desde que o conhecera, Maggie 
encostou-se a ele, demasiado fraca para se aguentar de p. 
- Querida, confie um bocadinho em mim. Juro-lhe que a Heidi estar segura. Diga apenas que sim. No ter mais com que se preocupar.
Mais com que se preocupar. Parecia uma coisa maravilhosa, absolutamente maravilhosa. Estava to horrivelmente cansada e ele estava a propor-lhe a soluo de todos 
os seus problemas. O que lhe apetecia era fechar os olhos e deix-lo tomar conta de tudo.
- Mas a que preo? - murmurou alto.
- O que  que quer dizer com isso?
- Ficarei de tal maneira endividada para consigo, como  que poderei reembols-lo?
- No tem que me reembolsar. Nunca me far falta o dinheiro.
- Sim - insistiu ela. - No h almoos grtis. Eu pago o meu, j lhe disse.
Oh, meu Deus. O que  que estava a fazer? Iria aceitar, realmente, aquela proposta? Sim, sim, assim Deus a ajude. A Heidi ficaria em segurana. Ela e o Jaimie ficariam 
em segurana. No  que tivesse muitas opes. Era assim.
- Se fizer isto, tenho que saber que tomar nota de cada cntimo que gastar. - Tentando freneticamente aclarar a cabea, disse: E quero que concorde com isso por 
escrito.
- Quer uma conveno antenupcial?
-  assim que se chama?
- .
- Ento,  isso que quero, uma conveno antenupcial, dizendo que, se isto no funcionar, podemos seguir cada um o seu caminho, ficando entendido que o reembolsarei 
de tudo o que tiver gasto e que no levantar dificuldades  minha partida. - Conseguiu levantar a cabea e olhar para ele. -  a nica maneira de eu concordar com 
uma coisa dessas... se eu souber que vou pagar.
- De acordo.
Maggie no esperava que ele concordasse com tanta facilidade. Tem a certeza?
- Por mim, est ptimo.
Tinha um mau pressentimento de que ele s estaria a dizer aquilo para que ela dissesse que sim, de que no tinha inteno de a deixar trabalhar para pagar as suas 
prprias despesas. 
- Estou a falar muito a srio. At conseguir voltar a servir  mesa, h alguma coisa no seu rancho que possa fazer para ganhar um salrio?
Resmungou qualquer coisa baixinho e encolheu os ombros. 
- Disse que era boa em contabilidade. Eu detesto burocracia. Pode ser a minha contabilista privativa.
Parecia um trabalho que tinha inventado para que ela ficasse contente. 
- Algum tem feito a sua contabilidade, obviamente. Tem que ser mais qualquer coisa que eu possa fazer... alguma coisa que seja uma verdadeira contribuio, e no 
apenas uma festinha na cabea para me fazer sentir til. - Tentava desesperadamente pensar numa alternativa. - Sou uma boa governanta.
- Esse lugar est preenchido. - Procurou o olhar dela perscrutando-o a fundo. -  verdade que o Ryan e eu sempre fizemos a contabilidade, mas nenhum de ns gosta 
desse trabalho, nem  muito bom nisso. Seria ptimo ter algum que realmente se encarregasse disso por ns, especialmente se conseguir aprender como  o negcio 
de gado e organizar a informao de modo que possamos ver num relance como esto a correr as coisas. Eu sempre atirei os recibos para uma gaveta para mais tarde 
tentar organiz-los. Metade das vezes, o Ryan nem sequer se dava a esse incmodo, pelo que os nossos registos nunca eram muito exactos.
- E se eu fizer um bom trabalho, paga-me o ordenado corrente? Tudo com papis, claro, para abater na minha dvida. Voc pergunta por l para ver o que um bom contabilista 
ganha normalmente e pagar-me- em conformidade?
- Jesus Cristo. Vamos negociar salrios numa altura destas? Olhou para ela. - Est bem. Claro. O salrio corrente.
- Eu consigo aprender o negcio de gado - garantiu-lhe ela. Apanho as coisas com rapidez.
- Ento, apanhe l isto - disse ele, baixando a voz, para s ela ouvir. - Eu fico com uma mulher e um filho neste negcio. E se pensa que no farei tudo o que estiver 
ao meu alcance para garantir que voc queira continuar a ser minha mulher, pense bem. No fao um compromisso destes de nimo leve, Maggie.
Pela expresso dele, podia ver que estava a falar a srio. 
- No, claro que no. Nem eu. Mas tambm no quero assumir um compromisso para toda a vida sem ter a certeza de que pode funcionar. No nos conhecemos um ao outro. 
No caso de nos separarmos, quero saber que contribu para isto tanto como voc, e que voc no est a queimar uma quantidade de dinheiro para, no fim, ficar de mos 
a abanar.
- Estarei a dar o meu nome ao Jaimie - recordou-lhe. - No momento em que o fizer, ele passar a ser meu filho para todos os efeitos, e, com ou sem conveno antenupcial, 
ser sempre meu filho, mesmo que voc decida deixar-me. Do meu ponto de vista, um filho  uma contribuio de boa-f e ficarei mais do que reembolsado das minhas 
despesas. Tambm h a possibilidade de virmos a ter um beb nosso. Como pode estar preocupada por no trazer nada de valor para a nossa relao?
At quele momento, Maggie pensava que aquilo seria um acordo platnico.
- Quer dizer que pretende que isto seja... um verdadeiro casamento?
Rafe olhou para a mdica.
- Pode sair s por um momento? Quando a tiver posto de novo na cama, grito por si. - Esperou que a mdica sasse e fechou a porta. Os seus olhos azuis brilhavam 
de determinao quando voltou a olhar para Maggie. - Sim, um casamento a srio. No fao nada por metade, especialmente uma coisa como esta, e vou explicar porqu. 
Pode levar meses at estarem concludas todas as formalidades legais. Nessa altura, o Jaimie e eu comearemos a estabelecer laos afectivos. Mesmo os pequeninos 
podem criar uma ligao forte. No me parece que seja justo deix-lo comear a ter amor por mim a menos que ambos nos esforcemos a cem por cento para que funcione. 
- Se no funcionar - prosseguiu -, ento, claro, no teremos outra possibilidade que no seja darmo-nos por satisfeitos e a terei que me conformar com o direito 
de visita. Mas temos para com ele e para connosco a obrigao de no entrar nisto com a ideia de que se trata de uma soluo provisria. No concorda?
Maggie concordou. Estava com a cabea de tal maneira esvada que nem tinha pensado em como tudo aquilo podia afectar emocionalmente o Jaimie. 
- Eu... No me sinto verdadeiramente -vontade para... bem, voc sabe.
- Sexo,  o que quer dizer? - Passou-lhe a mo pelo cabelo. Querida, se fizer isto, est a confiar em mim em muitas coisas. No acha que tambm pode confiar a esse 
respeito?
Ele tinha razo; estaria a confiar nele em tudo. To delicadamente encostada a ele, comeava a sentir-se como uma nozinha de manteiga a derreter em cima de uma panqueca. 
No sabia quanto mais tempo aguentaria de p. Sentia o corpo desligado do crebro e tinha medo de poder desmaiar. Antes que isso acontecesse, tinha preocupaes 
de longe muito maiores do que o seu prprio bem-estar.
- Prometa-me outra vez que tira de l a Heidi o mais depressa possvel - sussurrou. - Prometa, ou no h acordo.
- Prometo. Que diabo, se pudesse ia j busc-la, mas pegar numa criana e transport-la para outro estado  um crime grave.
- Tenho que saber que ela ficar em segurana. Tem s dez anos e nunca pediu nada disto.
- Ela ficar em segurana. Isso posso garantir-lhe. E antes que pense duas vezes j ela estar connosco, Maggie. Considere isso uma coisa arrumada. 
Maggie s podia rezar para que fosse assim to simples, mas parte dela receava que no fosse assim to fcil tratar do Lonnie.
- Como  que planeia fazer isso?
Pegou-lhe nos braos. Maggie teve um sobressalto e agarrou-se-lhe aos ombros. Enquanto a levava para a cama, dizia: 
- Vou atirar-me de cabea e seguir o meu instinto. Estive uns tempos fora de circulao mas sou um negociador eficiente. Consigo tratar do Boyle. Concentre-se em 
pr-se boa. Eu trato do resto.
Quando ele a depositou cuidadosamente no colcho, Maggie procurou o seu rosto moreno, uma parte dela continuando a recear ter feito um negcio com um louco. Que 
outra explicao havia? S o conhecia h dois dias e ele j queria casar com ela? Oh, meu Deus. Que tinha ela feito?
- Eu no sou a Susan - sussurrou, lutando para manter os olhos abertos para poder continuar a olh-lo nos olhos. - Olhe bem para mim e saiba o que est a fazer, 
Senhor Kendrick. A Susan est morta, assim como os vossos filhos. O Jaimie e eu nunca poderemos substitu-los e no  justo pedir-nos que tentemos faz-lo.
Servindo-se da barra da cama, apoiou o seu peso num brao para lhe pegar no queixo com a mo. Os seus dedos duros e macios como cabedal pareciam leves como uma pena 
e frescos na pele dela, mas vibrantes de fora latente.
 - Sei exactamente o que estou a fazer, Maggie, e no a confundi, por um momento que fosse, com a Susan.
Maggie gostava de estar to certa quanto a isso como ele parecia estar. 
-No posso fingir ser outra pessoa.  tudo. Quero ter a certeza de que me entende. Eu sou eu e nunca conseguirei vestir-lhe a pele.
- No estou  espera de que tente faz-lo - garantiu-lhe. - Voc  doce e bela, Maggie. Nenhum homem no seu juzo perfeito quereria que fosse outra pessoa que no 
exactamente quem  e, decididamente, eu no perdi o juzo.

Captulo Oito
Pesadelos atormentavam Maggie enquanto se deixava ir num sono induzido por sedativos. Em cada sonho, a me, a Heidi ou o Jaimie estavam em perigo terrvel, e Lonnie 
portava-se como um patife, tendo Rafe Kendrick como comparsa. Maggie tentava freneticamente proteger as pessoas que amava, mas a cada passo encontrava uma oposio 
intransponvel.
No ltimo pesadelo, estava perdida num cemitrio depois de anoitecer e sabia que Lonnie estava a espreitar na escurido com uma grande faca, com a inteno de matar 
Jaimie. Ouvia o beb chorar, mas fosse para onde fosse que olhasse, no o encontrava. Em vez disso, esbarrava constantemente numa cerca alta, de ao, com picos no 
topo. Rafe estava sempre do lado de fora do compartimento, sorrindo para ela com aquele seu ar preguioso. 
- Case comigo. No h mais preocupaes. Eu tomo conta de tudo.
Acordou confusa e encharcada em suor, vendo-se de novo no seu quarto de hospital com uma enfermeira  cabeceira. Quando Maggie viu aquele rosto a pairar por cima 
dela, gritou e tentou afastar-se.
- V, v. Est tudo bem - disse a enfermeira com uma voz tranquilizadora.
- No queria assust-la, mas agora so horas de acordar.
Maggie piscou os olhos. Sentia o corao como se lhe fosse saltar do peito. A enfermeira tinha na mo uma estranha engenhoca de plstico.

- Porque  que tenho a sensao de que isso  para mim?
A enfermeira confirmou acenando com a cabea. 
- Adivinhou. No pode alimentar o seu beb enquanto a sua infeco no tiver passado e estiver sob medicao forte, com a ajuda da enfermeira, Maggie conseguiu sentar-se. 
A mulher desapertou-lhe a parte de trs da camisa de noite. - Vou fechar a porta e pendurar o letreiro de "No incomodar". Quando tiver acabado, toque a campainha 
e uma de ns vir c apertar-lhe isso outra vez.
Depois de a enfermeira sair, Maggie deitou mos  obra. O relgio de parede indicava que eram quase oito horas na altura em que acabou e outra enfermeira veio v-la. 
Exausta, deitou-se nas almofadas com o olhar fixo nas venezianas por cima da janela. Por entre as lminas, conseguia ver a escurido da noite para l do vidro, o 
que queria dizer que tinha estado a dormir horas.
Eu tomo conta de tudo. Rafe tinha-lhe prometido. Agora que a cabea estava um pouco mais limpa, Maggie pensou em tudo o que podia ter corrido mal, e o corao apertou-se-lhe 
de medo. Lonnie era to imprevisvel...
Pare, Maggie. Rafe disse que trataria disso, voc concordou em deix-lo tratar e agora o mximo que pode fazer  rezar para que o faa. No  como se tivesse outra 
opo.
Provavelmente, tinha ido v-la enquanto estava a dormir e no quisera incomod-la. Sim, era isso. Tinha vindo p-la ao corrente da situao, mas ela estava a descansar 
pelo que se tinha ido embora, planeando voltar mais tarde.
Ento... j era mais tarde. Onde estava ele?
Tentando afastar todos os pensamentos negativos, concentrou-se no positivo. Tudo tinha corrido bem e provavelmente Rafe tinha levado o Jaimie de volta para o motel.
O trio de um hospital no era exactamente o melhor local do mundo para tomar conta de um beb.
Ao imaginar Jaimie, Maggie estava ansiosa por o ter nos braos. Por sentir aquele corpinho quente encostado a ela. Por inspirar o cheiro doce do beb. Por lhe tocar 
na cabecinha penugenta. Jaimie. Amava-o tanto... Independentemente do preo que tivesse de pagar para o ter em segurana, ele era o seu consolo. O seu nico consolo.
- Ol, meu anjo. Disseram-me que estava finalmente acordada. 
Maggie virou-se e viu Rafe a atravessar o quarto, tendo-se fechado a porta atrs dele. O seu passo era descontrado e lento. A cada balano do corpo, o cabelo apanhava 
luz, reluzindo como nix polido. Trazia o casaco pendurado ao ombro, a tapar-lhe o brao direito.
 Olhou-a de alto a baixo, fazendo-a sentir-se exposta, ainda que tivesse o cobertor e o lenol por cima. Puxou pela gola da camisa de noite para ter a certeza de 
que estava tapada.
- Onde est o Jaimie? No deixou o Lonnie lev-lo?
- Claro que no. Isso est tudo tratado. No h mais preocupaes, como lhe prometi. - Quando chegou  cama, inclinou-se para lhe mostrar um sorriso conspirativo. 
- Arranjei um passageiro clandestino. - Afastando o casaco, mostrou o filho a dormir, aninhado no seu brao. - Ele no devia estar aqui. Mas pensei que uma sesso 
de mimo com o seu menino favorito pudesse ser um bom remdio para o que a aflige.
Saltaram lgrimas dos olhos de Maggie. Lutando com a agulha intravenosa, tomou ansiosamente Jaimie nos braos. 
- Oh, Rafe, obrigada. Tenho tido tantas saudades dele!
- Como  que eu sabia? - disse ele com um riso macio como seda. J alguma vez vi uma boa me, voc  uma delas.
- Nem de perto nem de longe. - Doa-lhe a garganta quando forava as palavras a sair. - A minha vida est numa confuso... 
- J no est - garantiu-lhe ele, com uma nota de presuno no tom de voz. - O Senhor Boyle no lhe causar mais problemas, pelo menos por uns tempos, garanto-lhe.
Por uns tempos? Sim, pensou Maggie, aquilo resumia tudo. Lonnie Boyle era como lixo radioactivo enterrado nas profundezas da terra; enquanto estivesse no mesmo planeta, 
haveria sempre uma possibilidade de contaminao.
Maggie ia insistir em que Rafe lhe contasse todos os pormenores quando lhe ocorreu uma preocupao ainda mais premente. 
- O Jaimie no vai ficar doente por estar aqui dentro, pois no? Talvez seja por isso que no deixam entrar os bebs.
Atirando o casaco para a cadeira das visitas, Rafe sentou-se na beira da cama e apoiou o brao no joelho flectido.
- Perguntei  Doutora Hammish se era seguro. Ela  minha parceira no crime. Diz que no h perigo, num quarto particular como este.
- Vamos arranjar sarilhos? - sussurrou ela.
- No. A maioria das enfermeiras sabe que ele est aqui. Fingiram que no o viram. S o tapei com o casaco para lhe fazer uma surpresa.
- Uma bela surpresa. - Ps a mo em cima da cabea do beb. Ele est fresco?
- Voc ainda est com febre, querida. - Tocou-lhe na testa.  como um pequeno aquecedor, ligado no mximo. Como  que se sente?
- Melhor, agora que o Jaimie est aqui. Isto  ainda pior do que quando o deixava com a minha me enquanto ia trabalhar. Estava sempre com algum medo de que ela 
se esquecesse de que o tinha.
- Trabalhou desde que deu  luz? Quanto tempo depois de ele nascer  que voltou ao trabalho?
- Fiquei um dia no hospital e depois tirei mais trs.
- J trabalha h anos, no trabalha? Desde que o seu pai morreu.
- Tinha medo de que tivssemos que utilizar o dinheiro do seguro de vida dele se no trabalhasse.
- E voltou ao emprego logo aps o parto. - Abanou a cabea. Nunca mais.
Ps-lhe a manta para trs para admirar o novo pijama azul.
 - No tinha muitas opes. Ter um beb  caro.
- Sim, entendo isso - disse ele secamente. - E tambm os cuidados ps-parto. Deve ter-se sentido terrivelmente mal quando essa infeco renal comeou.
Maggie abanou a cabea. 
- As costas doam-me muito. Mas nada que me fizesse pensar que era uma infeco renal e me levasse a ir a correr ao mdico. No tenho seguro de sade e a consulta 
custa trinta e oito dlares.
Ouviu-o suspirar. Quando olhou para cima, ele estava a mexer numas coisas que estavam em cima da mesa-de-cabeceira. A mo ficou quieta quando viu o aparelho que 
l estava. As faces de Maggie coraram.
- Jesus Cristo. Deve dar a sensao de que se est a ser atacado por um desentupidor de sanitas.
Maggie deu uma risada de espanto. Ele tambm se riu. O calor terno do seu olhar punha-a pouco  vontade. Sem saber o que dizer, inclinou a cabea e voltou a brincar 
com o cobertor de Jaimie.
- Quanto tempo  que o deixam estar aqui? - perguntou, finalmente.
- Estivemos aqui enquanto dormia. At agora, no vieram atrs de mim. Daqui a pouco, chamo um txi e levo o Jaimie para o motel. Parece que ele dorme bem ao meu 
colo. Mas tem que ser mais repousante estar na cama dele.
Por mais que Maggie odiasse a ideia de se separar do filho, tinha de concordar.
- Obrigada por tomar to bem conta dele.
- Espero transformar isso num compromisso para toda a vida - disse ele baixinho.
Maggie olhou para cima e descobriu que no conseguia afastar o olhar.
- Tratei do Lonnie. No tem que se preocupar com a Heidi. Por enquanto, deix-la- em paz e, entretanto, mexeremos os cordelinhos para a tirar de l o mais depressa 
possvel. Ponho o meu advogado a tratar disso logo que cheguemos a casa.
Nunca conhecera ningum que tivesse sempre um advogado de planto. 
- Como pode ter a certeza de que o Lonnie no far nada? O que  que fez, matou-o?
Ele sorriu.
 - Estive tentado, acredite. Mas todos ns temos um preo. Fiz-lhe simplesmente uma oferta que ele no podia recusar.
Maggie mordeu o lbio, pensando nas vezes em que o padrasto tinha ameaado a segurana de Heidi para a manter na linha.
- O Lonnie promete uma coisa e faz outra. No pode confiar em que ele cumpra a sua palavra.
- Pensei nisso. Quando chegarmos ao Oregon, telefonarei com frequncia para saber da Heidi. E de manh farei alguns telefonemas e contratarei um detective particular 
para a manter sob vigilncia at poder tir-la de l. O Lonnie sabe que se eu tiver um relatrio mau o rabo dele vai transformar-se em relva e eu em cortador da 
dita. Tambm sabe que se acontecer alguma coisa m, mesmo que parea um acidente, a sua vida no valer uma pedra de gelo ao sol. - Piscou-lhe o olho. Disse-lhe 
que o encontraria, fosse ele para onde fosse, e que, quando o encontrasse, matava-o.
- E ele acreditou?
- Que diabo, fui to convincente. At eu estava quase a acreditar em mim. - Encolheu os ombros. - Na verdade, no estou to certo como isso de que no estivesse 
a falar a srio. Mas felizmente no  uma preocupao. Ele aceitou logo a proposta que lhe fiz.
Embora temesse saber a resposta, a curiosidade mrbida levou Maggie a perguntar: 
- Subornou-o, no foi? Quanto  que se props dar-lhe?
- Estou a tomar nota no meu livro de apontamentos. Pode preocupar-se com a quantia exacta mais tarde. O Lonnie mordeu o isco. Isso  que conta. E, como  tpico 
dos fanfarres,  demasiado cobarde para me trair. Homens como aquele no se metem com ningum do tamanho deles ou maior. Atacam os mais fracos. So fanfarres, 
Maggie. 
O medo  que os faz funcionar. Ter poder absoluto , para eles, o mximo da excitao. Atiram-se s pessoas que no podem ou no querem fazer-lhes frente.
Ela inclua-se numa daquelas categorias, a dos mais fracos. Imaginou a sua vida, a estender-se infinitamente  sua frente, cada dia  merc dos caprichos de quem 
tomasse conta dela. Devia estar contente por Rafe ter optado por desempenhar esse papel. Pelo menos, no parecia ser cruel como Lonnie. Mas no podia ter a certeza. 
Mas enquanto no estivssemos encostadas  parede, um homem raramente mostrava a sua verdadeira maneira de ser.
Oh, meu Deus, e se casasse com ele e ele comeasse a descarregar o mau feitio no Jaimie? O Jaimie no era filho dele. Muitos homens melindravam-se com os enteados.
Maggie ps de parte essa ideia. No tinha opo. Afinal, tambm no havia a garantia de que o homem que queria adoptar o Jaimie fosse um bom pai.
Pelo menos, se casasse com Rafe, estaria l para intervir em defesa do Jaimie se fosse necessrio e em breve teria tambm a Heidi com ela.
- Est com dvidas?
- No me dou a esse luxo. E voc?
- Nunca me ponho em dvida a mim mesmo e, se o fizesse, voltava para trs para o lugar onde estou agora. - Alisou o lenol com a palma da mo. Depois, olhou para 
cima e fez um sorriso maroto.
 -Eu sou mais de segundas oportunidades e  isso que voc e o Jaimie so para mim, uma segunda oportunidade. Gosto de si, Maggie, e espero que esse sentimento acabe 
por ser recproco. Mas mesmo que no seja, continuo a ter a certeza de que estou a fazer o que  correcto.
- Por mais voltas que demos, isto  uma coisa impulsiva.
-  verdade. Mas por vezes, se ficamos a pensar nas coisas de todos os ngulos durante demasiado tempo, quando tomamos uma deciso  tarde de mais. Procurou o olhar 
dela. - Voc  religiosa?
- Acredito na existncia de Deus, sim.
Piscou-lhe o olho. 
- Est a ver? J temos uma coisa em comum. Eu tambm sou crente. Mas mesmo que no fosse, acho que acreditaria nalguma coisa. Para algumas pessoas,  o universo. 
Para outras,  um poder superior. Independentemente disso, estou convencido de que h alguma coisa, chame-lhe destino ou Deus ou guardio ou atraco da Lua, que 
intervm na nossa vida. As coisas acontecem por uma razo.
- Aonde  que quer chegar?
Os seus olhos azuis sustentaram o olhar dela. 
- Quero dizer que provavelmente havia vrios vages de mercadorias vazios no parque de manobras dos caminhos-de-ferro naquela noite - disse ele, baixinho. - Normalmente, 
h. O que  que a encaminhou para aquele em que eu estava?
- Erro de avaliao?
Desatou a rir-se. Quando a hilaridade passou, abanou a cabea.
- Isso, tambm, acho que sim. Mas prefiro pensar que tambm foi o destino... ou talvez o seu anjo-da-guarda. Eu estava sossegado, sem me meter com ningum, contentssimo 
com a minha garrafa de whisky como companhia, e o que sei  que, de repente, estava a olhar para um par de grandes olhos castanhos a que no consegui resistir.
Maggie nunca o tinha visto rir-se daquela maneira e, por momentos, sentiu que estava a ver o homem que ele fora outrora. Soube-lhe bem pensar que, de algum modo, 
talvez ela e Jaimie fossem responsveis pela transformao.
- Acho que Deus olhou para baixo e decidiu que eu tinha coisas melhores  para fazer do que fazer o meu crebro em pickles com whisky. - O sorriso desapareceu e a 
expresso dos seus olhos tornou-se solene. - Eu no podia passar sem a Susan e os meus filhos, Maggie. Por alguma razo, era a altura de eles irem e no havia nada 
que eu pudesse fazer para o impedir. Vivi com as recordaes, sentindo-me zangado e desamparado e intil... e a perguntar a mim mesmo pelo menos umas mil vezes por 
que diabo no tinha morrido, tambm. Agora, acho que sei. Posso fazer a diferena para si, para o Jaimie e para a Heidi, uma menina que nem sequer conheo.  uma 
sensao muito boa, e mesmo que este casamento no corra bem, nada me pode tirar isso.
Os olhos de Maggie encheram-se de lgrimas. Embaraada, desviou o olhar. Meu Deus. - No chore. No  coisa para se sentir triste.
- No estou triste. - Bateu nas faces. - Estou... bem, se quer a verdade, estou a rezar para que voc seja mesmo to bom como parece.
A boca dele abriu-se em mais um daqueles sorrisos. 
- Fique perto de mim e ver.
- Tal como vejo as coisas, no tenho grandes opes. Sem ofensa, s espero no estar a cometer um erro terrvel.


Captulo Nove
Com a cabea encostada s costas da cadeira, Rafe estava sentado com as pernas cruzadas. As botas gastas estavam uma de cada lado da gaveta que servia de cama a 
Jaimie. Tomar conta de um beb no era uma pequena responsabilidade e ele ressonava to alto que queria ter a certeza de que acordava se Jaimie chorasse.
Quando Rafe comeou a dormitar, uma forte pancada na porta acordou-o. A sua primeira ideia foi de que Boyle tivesse renegado o acordo e mandado l ir a polcia. 
Pondo-se de p, penteou-se com os dedos e dirigiu-se  porta.
- Quem ? - resmungou, pronto para fazer uma sada rpida pela janela da casa de banho se respondesse um polcia.
-  o Ryan - respondeu numa voz dura e cortante.
Rafe agarrou o puxador e abriu o trinco com o polegar. Hesitou um momento. Ryan. Apertou o lato com mais fora.
Por um instante, quando viu o homem que estava no alpendre, Rafe achou que estava a olhar para o seu reflexo. O irmo trazia uma camisa azul de cambraia e jeans 
de bom corte, desbotados, sendo a nica diferena entre os respectivos trajes a qualidade do tecido.
Nenhum deles falou. Rafe no tinha a certeza de quem se mexeu primeiro. A nica coisa que sabe  que ficaram na soleira, agarrados um ao outro num abrao de partir 
as costelas. Quando Ryan finalmente se afastou, Rafe sentiu o corpo do irmo tremer. Accionou o interruptor da parede para acender o candeeiro da mesa-de-cabeceira.
Ao entrar no quarto, Ryan deu um toque ligeiro no brao de Rafe. Com a sua voz dura e grossa, disse: 
- Ests com um pssimo aspecto. Se  isso que o lcool faz a um homem, no  coisa altamente recomendvel.
Agora que estava a ver o irmo a uma luz melhor, Rafe conseguiu detectar enormes diferenas entre eles, sendo a mais notria que Ryan estava mais pesado do que ele 
uns bons dez quilos, cada grama transformado por um trabalho fsico esgotante em duro msculo. Ombros largos, coxas com fortes msculos e uma altura de peito que 
Rafe h muito j perdera. Foi, de certo modo, um choque perceber que o irmo mais novo se tinha tornado um homem com quem teria hesitado em lutar.
- Que diabo, filho. - Fechou a porta para evitar que o ar frio da noite gelasse o beb. - Da ltima vez que te vi, ainda tinha que te limpar o nariz.
Ryan deu uma risada irnica.
- Tu nunca me limpaste o nariz.
Era verdade; Rafe nunca o tinha feito. S faziam uma diferena de dois anos. Ryan tinha agora vinte e oito e via-se na cara. Nos cantos dos olhos azuis, comeava 
a ter ps-de-galinha e a covinha na face, to parecida com a de Rafe, tinha-se transformado numa longa ruga queimada pelo sol.
- Tens razo. Na maior parte das vezes, s queria bater-te por te armares em esperto.
Ryan atirou o chapu para cima da cama e depois ps as mos nas ancas. 
- No conseguiste descobrir nada melhor do que isto? Cheira a bolor. - Foi  casa de banho, deu um empurro  porta partida e abanou a cabea, perante as peas antiquadas. 
Virando-se para trs, disse: - Pelo menos aquele aquecedor a desfazer-se funciona.
O seu olhar dirigiu-se para a gaveta no cho. Parou e olhou para o beb a dormir. Quando voltou a olhar para Rafe, a boca tinha endurecido.
- Onde  que est a gaja? Ainda no hospital?
Ouvir o irmo chamar "gaja" a Maggie irritou Rafe. Conteve-se. Ryan nunca tinha visto Maggie. Uma vez que a visse, Rafe acreditava que a atitude do irmo para com 
ela mudaria rapidamente. Assim esperava, pelo menos. Se no, haveria algumas arestas a limar quando Ryan descobrisse que Rafe planeava casar com ela.
- Est. Neste momento,  uma rapariga bastante doente. Uma grave infeco renal que se tornou sptica.
 Ryan esfregou o canto do olho. Depois, fungou e aproximou-se em silncio para olhar para o beb. 
- Tens razo.  uma coisinha linda. Olhou para Rafe de soslaio. -  pela mulher que ests doido ou pelo mido? 
Rafe soltou um riso abafado e passou a mo pelo cabelo. 
- Acho que devia dizer que no tenho a certeza. - Apontou para a cama. Descansa um bocado.
Ryan ainda no tinha terminado a sua ronda de bisbilhotice. Depois de ver o armrio vazio, disse: 
- No estavas a brincar quanto  vagabundagem nos comboios. No h bagagem.
- Roubaram-me a minha Gucci.
- Quem  que se arma em esperto?
Rafe dobrou o corpo e sentou-se na almofada meia destruda da cadeira, apoiando os braos nos joelhos flectidos, com as mos pendentes Viu Ryan sentar-se na cama 
assumindo uma posio parecida. At a nunca tinha reparado em como ele e o irmo eram parecidos. 
- Afinal, como  que me encontraste?
Fui simptico com uma menina no hospital.
- S te esperava amanh.
- Pus o Cessna pronto mais cedo do que esperava. - Encolheu os ombros e esfregou as mos. - Achei que talvez tambm viesse tirar-te de sarilhos.
Rafe sorriu. 
- Se esperas proteger-me de uma intriguista qualquer, vais-te rir de ti mesmo quando conheceres a Maggie.
Ryan franziu o sobrolho.
- S quero que no faas nenhum erro estpido. Passaste um mau bocado, Rafe. As outras pessoas e eu estamos preocupadas com a possibilidade de uma vagabunda qualquer 
te ter deitado a unha.
- A Maggie no  uma vagabunda.
- No parece teu prenderes-te a uma rapariga qualquer que mal conheces, especialmente a uma pessoa que conheceste num vago. Que tipo de gente anda a vaguear nos 
comboios?
- Ests a olhar para uma dessas pessoas.
A boca de Ryan contraiu-se.
- Nem todos os vagabundos tm uma razo como a tua.
- s especialista nisso? - Rafe dirigiu o olhar para Jaimie. - No sejas to rpido a julgar as pessoas, Ryan. Eu ainda podia l andar, como sabes. E se no tivesse 
tropeado na Maggie, talvez nunca voltasse a ficar suficientemente sbrio para me importar.
Ryan suspirou: 
- Devias ter telefonado para casa. Eu teria vindo logo.
- Tu fazias parte das recordaes. Consegues entender?
- Estou a tentar.



Rafe inclinou outra vez a cabea para trs.
- Sim, bem, no posso pedir mais do que isso, acho eu. Sei que me amas. Mas nem sempre amar  o suficiente. Nunca perdeste ningum, a no ser os nossos avs. Eu 
sei que tentaste entender como eu me sentia, que tu querias ajudar-me. Mas eu tinha perdido toda a minha famlia, a minha razo para respirar. No restava nada em 
mim. Nada. Era impossvel entenderes isso. Ainda .
- E essa Maggie consegue? - Levantou as mos. - Est bem. 
Rafe ps-se em p e deu uma volta lenta aos ps da cama. 
- No  que a Maggie me tenha chamado  razo. Simplesmente... apareceu, uma jovem maltratada, a atravessar um mau momento. Eu estava a dormir com uma bebedeira 
quando ela entrou no vago de mercadorias. Quando voltei a mim, l estava ela. - Encolheu os ombros, as palavras a faltarem-lhe para explicar. - Ela precisava de 
mim, e no o contrrio. Entendes o que estou a dizer? Ela precisava de mim.
Ryan apoiou o cotovelo no joelho e esfregou o nariz. Observando-o, Rafe sentiu uma dor de tenso no cachao. 
- No queria magoar-te, Ryan, nem a me ou o pai. Mas j vi que magoei.
- Nunca sabers.
- Estava to envolvido na minha dor que no conseguia ver mais nada. Fui egosta e indesculpvel. E lamento muito. S tinha um sentimento, dor. Durante algum tempo, 
estive demasiado magoado para retribuir o vosso amor. Eu sei que isto soa mal, mas  a verdade. Os meus sentimentos para convosco estavam l, num stio qualquer, 
mas eu no conseguia ter acesso a eles nem importar-me fosse com o que fosse, e tinha que me ir embora.
Ryan ps-se de p. Por um instante, olharam um para o outro. Depois, Ryan abraou-se a ele noutro abrao de urso. Ficaram assim, os corpos tensos e trmulos, emoes 
que nenhum conseguia exprimir a agitarem-se dentro deles.
Quando finalmente se separaram, Rafe sabia que tudo iria correr bem.
Na manh seguinte, Maggie tinha acabado de encher a boca de farinha de aveia quando Rafe Kendrick lhe apareceu no quarto do hospital... em duplicado. Por um terrvel 
momento, pensou que talvez a enfermeira tivesse lido mal o termmetro e ela ainda estivesse com febre alta. Dois vaqueiros altos, de camisa azul de cambraia e jeans, 
com Stetsons pretos descados do mesmo modo descontrado na cabea?
Mas depois reparou que s um dos vaqueiros trazia o beb dela, com um bibero a meio na mo. O outro homem parecia ligeiramente mais jovem e menos gasto, com um 
Stetson mais novo e as botas de montar do Oeste menos usadas.
- Maggie, querida, este  o meu irmo, Ryan - disse a verso ligeiramente mais velha.
O mais jovem, de braos vazios, tirou o chapu, mostrando um cabelo preto ligeiramente ondulado, exactamente como o de Rafe. Alto, com pernas compridas e um fsico 
muito musculoso, estava com uma magra anca levantada e a perna direita ligeiramente flectida. Os traos fortes do rosto eram acentuados pela sua expresso dura, 
os olhos cinzento azulados vivos e quase assustadores em contraste com a pele bronzeada do sol.
- Minha senhora - disse ele friamente, inclinando a cabea - prazer em conhec-la.
- Hummm - foi a nica resposta que Maggie conseguiu emitir, fez um esforo por engolir em seco e agarrou-se ao cabelo, sentindo-se terrivelmente inibida. Embora 
fosse quase a cara chapada de Rafe, Ryan Kendrick podia ter sado directamente do cenrio da srie televisiva Dallas, uma das repeties preferidas da me. A despeito 
do traje desbotado de vaqueiro, apresentava-se com a segurana de um rancheiro rico acostumado a dar ordens. O relgio de ouro que trazia no pulso indicava dinheiro. 
Maggie duvidava de que estivesse habituado a ver mulheres de camisa de noite de hospital, sem maquilhagem e com o cabelo emaranhado e em desordem.
- Tambm tenho prazer em conhec-lo - conseguiu finalmente dizer, vencendo os bocaditos teimosos de papa que sentia agarrados s paredes da garganta.
Tentando recuperar a compostura, Maggie olhou para Rafe. Tinha um olhar predador que o irmo no tinha, como se o sofrimento e a misria lhe tivessem cortado tudo 
o resto, deixando apenas um ncleo de dura masculinidade. Ryan Kendrick era mais corpulento, mas Rafe era ligeiramente mais alto e tinha um ar mais perigoso. O seu 
olhar metlico era cortante como uma lmina e os tendes ao longo do queixo magro mais definidos. Tambm havia uma vivacidade e uma tenso que irradiavam dele, como 
se tivesse crescido habituado a olhar para trs e a lutar pela sobrevivncia.
A colher de Maggie fez barulho ao cair na tigela. Sentia o olhar de Ryan a observ-la. Estava preparado para no gostar de nada do que visse.
Rafe encaminhou-se para o outro lado da cama e segurou Jaimie na curva do brao para que ela pudesse ver o novo fato de neve, de veludo azul, debruado a branco. 
Apesar do seu nervosismo, ela riu-se. Rafe no a deixou chegar ao beb. 
- Primeiro, o pequeno-almoo. Est magra como um pau de virar tripas.

A papa de farinha de aveia j no lhe interessava.
- Por favor. Deixe-me pegar nele um minuto.
Rafe piscou-lhe um olho mas cedeu, afastando a mesa de rodas para o lado para lhe pr o beb nos braos. Maggie abriu imediatamente o fato de neve, ansiosa por sentir 
o doce corpinho do seu beb. Nessa manh, sentiu-o deliciosamente quente quando lhe ps as mos  volta, sinal de que a temperatura tinha baixado.
Vestido com outro pijama novo, este branco com um vivo azul, Jaimie piscava os olhos e agitava os ps, claramente desagradado por o terem incomodado na sua soneca. 
Depois, ao sentir a maciez do peito da me, virou-se e encostou a cara  camisa de noite da me. Maggie teve um sobressalto quando o beb descobriu o que procurava.
As faces ficaram muito coradas. Mesmo por cima da roupa do hospital, gasta pelas lavagens. Jaimie agarrou-se a ela como uma sanguessuga e sugou ar quando ela interrompeu 
o contacto. Zangado por lhe terem interrompido a sua tentativa de tomar o pequeno-almoo, o filho enrubesceu e contraiu o rosto para gritar. Rafe inclinou-se e meteu 
na boca do beb a tetina do bibero meio cheio. Soltou uma funda e estrondosa gargalhada com o modo como a expresso de Jaimie se alterou instantaneamente, passando 
da atrocidade da fome para uma satisfao complacente.
- Acho que est pronto para o lanche. Maggie no conseguia olhar para cima. Era embaraoso para ela ter dois homens a observ-la quando o seu beb a procurava daquela 
maneira.
Vendo o rubor que marcava as faces de Maggie, Rafe olhou para ver a reaco de Ryan. Tal como Rafe previra, o irmo estava a olhar para ela com uma expresso perplexa, 
o queixo e a boca a relaxarem-se. Ele tambm olhou e deu com Rafe a observ-lo. Um simulacro de sorriso aflorou-lhe  boca e Rafe ficou a saber que Maggie tinha 
feito outra conquista.
Irradiava uma tal doura que s um cego podia no ver que era genuna.
- , sem dvida, um rapaz com ptimo aspecto - disse Ryan suavemente, em grande medida como se no tivesse entrado no quarto preparado para lidar com uma situao 
difcil. - Aposto que est to orgulhosa desse beb que est pronta para rebentar.
Rafe evitou uma gargalhada. A desconfiana dos homens prpria de Maggie tinha-a tornado uma das pessoas que ele conhecia com quem era mais difcil aproximarem-se, 
mas quando se tratava de Jaimie, desaparecia-lhe sempre essa rigidez. Dirigiu ao irmo um sorriso tmido, claramente desarmada. Malvado Ryan. Sempre fora habilidoso 
com as mulheres e no tinha perdido o jeito.
- Sim - disse ela, baixinho. - Estou orgulhosa dele. Vai ser bonito. Estou grata por sair ao meu pai e no se parecer comigo..
A testa de Ryan franziu-se, fechando-se as pestanas pretas sobre uns olhos cintilantes que estavam concentrados numa bvia apreciao masculina das feies delicadamente 
esculpidas de Maggie. Rafe sabia exactamente em que  que o irmo estava a pensar - que um camafeu no podia ser mais perfeito. A nuvem de caracis pretos desgrenhados 
de Maggie contrastava com a tez ebrnea compensada pelo tom rseo de morango e natas das faces. E aqueles olhos castanhos enormes, incrivelmente cristalinos eram 
do tipo em que um homem podia afogar-se, o seu tamanho acentuado por um toque moreno de longas e abundantes pestanas que se juntavam em espigas sedosas.
- Bem, isso no sei - respondeu Ryan. - Claro que se for demasiado parecido consigo quando crescer, pode ser bonito de mais para rapaz.
As faces de Maggie coraram outra vez e ela olhou para o tecto, franzindo o nariz como quem diz que nunca ouvira tal elogio. Rafe e Ryan trocaram um prolongado olhar, 
ambos a sorrir.
Ryan dobrou a sua considervel altura para se sentar na cadeira das visitas, junto  cama. Pondo uma bota em cima da coxa, pendurou Stetson no joelho flectido. Uma 
onda de saudades de casa perpassou por Rafe, pois recordou-se de ver o irmo naquela posio pelo menos um milhar de vezes, na cozinha da casa principal do rancho. 
Rafe quase conseguia sentir o cheiro a caf.
Fungou e o olhar veio pousar na mesa de rodas que estava por cima da cama de Maggie. Sobre a bandeja de plstico cor-de-rosa do pequeno-almoo, estava uma chvena 
de caf quente.
- Ento, est ansiosa por conhecer o rancho, Maggie? - perguntou Ryan, j sem o mnimo sinal de animosidade na voz.
- Ainda no lhe falei muito no rancho - interrompeu Rafe.
Ryan bateu com o bico da bota no ladrilho. -
 - Ainda no? - Sorriu para Maggie. - Vai ador-lo!  Dezasseis mil hectares de rancho e floresta que apoiam mais uns milhares de hectares de terras alugadas pelo 
Gabinete de Gesto da Terra. Uma imensido na montanha selvagem.  o local perfeito para um rapaz. O Rafe e eu crescemos l e nunca tivemos um momento aborrecido. 
Na Primavera e no Vero, pode sair-se a cavalo durante dias. Acampar e pescar nos lagos da montanha. Caminhar at cair. Os desportos de Inverno so ilimitados. Gosta 
de downhill ou de esquiar a corta-mato?
- A cavalo? - repetiu Maggie, que ouvira evidentemente pouco mais daquilo que Ryan dissera. - Oh, no me parece que queira o Jaimie metido com cavalos. Podia magoar-se.
O olhar de Ryan agudizou-se.
- Bem, claro que vai andar metido com cavalos. - Olhou para Rafe. - Quando tiver trs anos, j o teremos a andar a cavalo como um profissional.
Maggie apertou mais o beb contra o peito, parecendo assustada. Ryan voltou rapidamente atrs.
- S com a sua autorizao, claro. Quando l estiver e conhecer os cavalos, vai ficar descansada a esse respeito. Temos algumas guas e cavalos castrados to meigos 
que se pode deitar-lhes um beb aos ps. No , Rafe?
A cara de Maggie empalideceu.
- Claro que no amos pr um beb... - Ryan parou e lanou a Rafe um olhar que queria dizer Ajuda-me a sair desta, meu irmo.
Esquecendo-se das ndoas negras dela, Rafe ps uma mo reconfortante no ombro de Maggie. Ia garantir-lhe que ela teria sempre a ltima palavra em relao ao beb, 
mas ela retraiu-se sob a ligeira presso da mo e ele esqueceu-se do que ia dizer. Tirando a mo, disse: 
- Desculpe, querida, no queria mago-la.
- Estou ptima.
- Passa-se alguma coisa com o ombro dela? - perguntou Ryan.
- Ela est bastante magoada.
- De qu? - Ao mesmo tempo que fazia a pergunta, Ryan concentrou um olhar agudo em Maggie, obviamente observando-a de perto do pescoo para baixo pela primeira vez. 
Ela puxou timidamente o decote redondo da camisa de noite do hospital, que lhe ficava muito grande, mas no a tempo de impedir que Ryan lhe visse a pele descorada.
- Meu Deus, o que  que aconteceu? - O olhar fixou-se-lhe nos braos descobertos, que ainda apresentavam as marcas inequvocas do aperto brutal de um homem. Um msculo 
do queixo de Ryan contraiu-se e os olhos adquiriram um brilho perigoso. Dirigiu a Rafe um olhar inquisidor.
- No  nada - disse Maggie, de modo vago.
O pescoo de Ryan ficou muito corado e os batimentos da bota no cho aceleraram-se. Rafe decidiu que era a altura de tirar Ryan dali antes que comeasse a bombardear 
Maggie com perguntas que no tinha o direito de fazer.
Olhando para o relgio de parede, disse:
 - Tenho coisas a fazer na cidade. Enquanto acaba de tomar o pequeno-almoo, vou tratar disso. Depois, voltamos.
Maggie apertou mais o beb contra si.
- Posso ficar com o Jaimie comigo? Eu j descansei.
Rafe comeava a achar que tinha espinha de alforreca no que se referia a ela. Talvez no fosse pior. Tinha a sensao de que Maggie ouvira vezes de mais a palavra 
- "no". Nesta matria, porm, tinha de manter-se firme. Segundo a Dr. Hammish, estava a fazer grandes progressos na luta contra a infeco, mas estava longe de 
estar bem. Da maneira como amava aquele beb, ficar com ele no quarto cans-la-ia.
- No creio, querida. - Saindo daquilo de modo cobarde, Rafe acrescentou rapidamente: - As enfermeiras foram muito boas em ignorar a presena dele. Mas, se abusarmos 
muito, podem comear a aplicar as regras. Depois  que no posso trazer o Jaimie para o veres.
A cara ficou com um ar amuado, mas mesmo quando os lbios se puseram a fazer um beicinho que o fez desejar beijar aquela doce e vulnervel boca, fez Jaimie arrotar 
e, depois, comeou a vestir-lhe de novo o fato de neve.
-  Tem razo, claro. Esqueci-me disso. Regras so regras.
Regras. Era coisa que ela entendia bem de mais, evidentemente. A garganta de Rafe apertou-se-lhe ao v-la vestir o beb. Desejava do fundo do corao tir-la daquela 
cama e lev-la para o rancho, onde as nicas regras em vigor eram regras que tinham sido feitas para ser infringidas.
Meu Deus, como desejava v-la sorrir e fazer os seus olhos brilhar de felicidade. Podia estoirar com ela at o seu ltimo cntimo e nunca lamentar o prejuzo.
Quando Rafe pegou no beb, Ryan levantou-se e ps o seu Stetson na cabea morena.
- Gostei muito de a conhecer, Maggie. Agora percebo porque  que o Rafe est to doido consigo.
Outro doloroso rubor corou-lhe as faces. Comeou a estender a mo a Ryan mas a agulha intravenosa impediu-a. Ele inclinou-se rapidamente para a frente para encurtar 
a distncia e apertou-lhe os dedos magros na palma da mo.
- Eu sei que referiste ontem  noite que ela tinha sido espancada. Mas pensei que era uma figura de estilo! Quem, diabo, lhe fez aquilo?
A voz de Ryan vibrava muito de ira enquanto ele e Rafe caminhavam ao longo do corredor da ala esquerda a caminho do trio do hospital.
- O padrasto, Lonnie Boyle, um patifezinho lodoso. Conheci-o ontem.
- Deste-lhe o que ele merecia?
- No.
- Onde  que ele est?
Rafe comeou a responder mas travou a resposta.
- Porqu? Ryan lanou-lhe um olhar de desagrado. 
- Porque ele precisa que lhe dem umas palmadas no rabo, porque  que havia de ser?
- E tu designaste-te a ti prprio para tratar disso? Esquece. A situao  mais complicada do que pensas.
- O que  que se passa?
Rafe deixou a pergunta em suspenso enquanto atravessavam o trio cheio de gente. Quando chegaram  sada da frente e passaram pelas portas automticas para o ar 
gelado da manh, puxou o cobertor para cima da cara de Jaimie. -  uma longa histria, Ryan.
- No tenho nada melhor para fazer do que ouvir.
- No vou deixar que te precipites. A Maggie  um problema meu. Entendes? No caso de isso no ser suficientemente claro para ti, significa: "No te metas nisto." 
No a embaraces fazendo-lhe uma srie de perguntas e no metas na tua cabea que precisa de ti para a defenderes. J tem quem a defenda.
- Tu? O irmo que eu conhecia teria batido quase at  morte num homem que fizesse aquilo a uma mulher. Ou perdeste a coragem, Rafe, ou fizeste de tal modo os miolos 
em pickles com tanto lcool que o teu sentido de justia foi-se por gua abaixo. L donde eu venho, nenhum homem se safa com uma merda destas.
Rafe suspirou. 
- Vimos do mesmo stio. Lembras-te? E como ousas tu julgar-me sem conheceres todos os factos? H uma hora, querias que eu deixasse o Jaimie nos degraus do hospital 
e fosse para casa, deixando a Maggie desenrascar-se sozinha. Agora, ests em pulgas para te meteres numa briga por causa dela?
- E depois? Mudei de ideias.
Enquanto faziam o seu caminho por entre os carros no parque de estacionamento, Rafe comeou a informar Ryan sobre o passado de Maggie.
Quando chegaram ao Toyota alugado, Ryan apoiou os braos cruzados no tejadilho e olhou para a vastido de tinta vermelha brilhante. 

- Ele combinou dar o mido para adopo nas costas dela?
- E depois espancou-a brutalmente para a fazer assinar os papis. O procurador de adopes autenticou-os, o que me diz que ele tambm  um monte de esterco. Provavelmente, 
no hesitaria em mentir a respeito dela em tribunal. - Rafe inclinou a cabea para o beb que tinha nos braos. - Abres a porcaria das portas? Est frio.
Ryan praguejou baixinho e meteu a chave na fechadura. Um instante depois, Rafe ouvia o mecanismo da fechadura baixar na porta do passageiro. Puxou o manpulo, abriu 
a porta e atirou-se rapidamente para o assento, batendo com o joelho, com a pressa.
- Filho da me! - Mudou o Jaimie para o outro brao para esfregar o local da pancada. - Tinhas que alugar um patim? O espao para as pernas, aqui,  para anes. 
- Fungou e abriu o cinzeiro, encontrando beatas de cigarro. "Era de esperar."
- Isto no  Los Angeles. Fiquei com o que pude arranjar. E no te ponhas a embirrar comigo. No gosto disso. - Ryan tirou o cinzeiro e abriu a janela para deitar 
as beatas para a rua. - Pronto. Est melhor assim? No me lembro de te ver preocupado com as beatas.
- Embirrar contigo? Dizes que perdi a coragem e eu  que estou a embirrar contigo?
Ryan bateu no volante com a base da palma da mo. 
- Desculpa. Est bem? Como  que eu havia de saber que o filho da me te tinha preso pelos tomates?
- Bem, pelo menos reconheces que os tenho. Pensas que foi fcil controlar-me? O que eu queria era matar aquele palerma. Havias de ver as canelas dela. Ele deu-lhe 
pontaps com as botas. E usa um diamante enorme, berrante. Provavelmente falso. Sei perfeitamente que foram as garras do anel que a cortaram.  um filho da me perverso 
e pretensioso. Que precisava que o fizessem engolir os dentes.
Ryan batia com as pontas dos dedos no volante.
- Temos que parar de praguejar.
Donde  que aquilo tinha vindo, Rafe no sabia. Dirigiu ao irmo um olhar perplexo.
 - No podemos falar assim ao p da Maggie - explicou Ryan. - E o beb? Queres que seja expulso do jardim-de-infncia por dizer asneiras? No quero uma cunhada chateada. 
As fmeas no so leais a lutar.
- Posso considerar isso como significando que j no ests a fazer campanha no sentido de eu recuperar o juzo?

Ryan esfregou a parte debaixo do nariz.
- Ela no  o que eu esperava. Portanto, sim, podes considerar isso.
Rafe observou Jaimie.
- Dizem que os bebs comeam a aprender a linguagem no tero.
- Ests a lixar-me. - Ryan emitiu um som sufocado. - A prejudicar-me, queria eu dizer. - Silncio. - Vai ser um caso muito srio voltar agora a deixar de praguejar. 
Sabes? No dizer asneiras j no  uma coisa natural.
- Se comearmos j, talvez tenhamos a coisa controlada quando ele comear a falar.
Ryan olhou para o espelho retrovisor para mirar uma morena esbelta a atravessar o parque. Soltou um assobio baixinho. Quando voltou a olhar para Rafe, os seus olhos 
estavam a brilhar. Num tom de voz baixo, disse:
- A Maggie  uma doura, Rafe. Desculpa ter agido como um estpido.
Rafe sorriu. 
- Gostava de ter tido ali uma cmara de vdeo.
- Para qu?
- Para apanhar a expresso da tua cara. Passaste de tigre a gatinho em trs segundos. O meu irmo duro.
- Levou mais de trs segundos... quatro, pelo menos. - Ryan ria-se e abanava a cabea. - Ela no tem um rosto impenetrvel, sem dvida. H muito tempo que no via 
ningum corar assim. Como se nunca tivssemos visto um beb atacar a me? D-lhe um par de anos no rancho, que ela endurece.
- Espero que no -  respondeu Rafe. - Gosto dela tal como .
- Sim, eu sei. - Ryan dirigiu ao irmo um olhar avaliador. Quanto  que te custou extirpar aquele quisto? O apelido condiz, no ?
Rafe riu-se. 
- Sim, e agora apetece-me lancet-lo. Oferecer-lhe dinheiro no me caiu bem, digo-te, e, se no te importasses, no falava na quantia. Foi contra a minha maneira 
de ser. Mas o fim justifica os meios. Acho que ela j teve desgostos suficientes.
- O que  que ela acha de casar contigo?
- Quase to entusiasmada como se fosse ao dentista.
Ryan ficou a pensar naquilo. 
- E se lhe desses mais folga? Isso  uma m maneira de iniciar um casamento. Provavelmente, consegues tirar-lhe o Boyle de cima sem dares o n.
Rafe sabia que o irmo talvez tivesse razo.
- Estou a ouvir o que ests a dizer. Mas o meu instinto diz-me que estou a fazer o que  correcto.
- Para quem? - perguntou Ryan, baixinho. - Para a Maggie ou para ti?
- Isso no  justo. Ela precisa de algum que trate dela. No podes neg-lo.
- No. E no  isso que estou a dizer. Estou apenas a tentar salientar que pode sair o tiro pela culatra quando se tenta laar uma poldra pela perna da frente.  
um modo danado de cruel de a derrubar.
- A Maggie no  uma poldra e eu no estou a la-la. Estou a fazer o que  melhor para ela. O filho da me nunca mais ousar meter-se com ela a partir do momento 
em que ela seja uma Kendrick.
- Isso  verdade. S o teu nome proteg-la-. V se no cais na armadilha de te tornares tu prprio um filho da me. - Levantou uma mo quando Rafe lhe dirigiu um 
olhar fulgurante: - No estou a dizer que no deves casar com ela. No tem discusso. A srio. Estou s a fazer de advogado do diabo e a tentar lembrar-te que ela 
tem sentimentos. Se cometeres o erro de os ignorar, podes vir a lament-lo.
Frustrado pelo tejadilho baixo do carro, Rafe tirou o chapu. 
- Vais conduzir este calhambeque ou ficar aqui sentado at morrermos congelados?
Ryan ligou o motor. 
- Para onde?
- Para a rua principal. Tenho alguns assuntos para finalizar na baixa.
Rafe aumentou o aquecimento do carro de aluguer, olhando atentamente para a rua  sua frente. 
- Encosta - disse a Ryan. - Pra. S demoro uns minutos.
Ryan estacionou o Toyota vermelho junto de um dos muitos parqumetros livres. Depois de engrenar a mudana de estacionamento e de desligar o motor, olhou surpreendido 
por Rafe lhe entregar o beb. 
- Se ele chorar, mete-lhe um dedo na boca. Mantm-no satisfeito por uns minutos.
- Oh, obrigado - disse Ryan. - Agora vou fazer de chupeta humana.
- Toma conta dele. Est bem? Isto no demora. Se o carro comear a arrefecer, liga o motor e o aquecimento.

Rafe saiu e bateu a porta. Quando se virou e deu com a casa de penhores, o olhar fixou-se numa aliana de ouro cravejado de diamantes que estava em cima do veludo 
vermelho da montra. A sineta da porta tocou para anunciar a sua chegada quando entrou na loja. O local cheirava a poeira e a promessas postas no prego. Rafe inspirou 
esse odor enquanto percorria a distncia at ao balco. O proprietrio, um homem magro que estava a ficar careca mas tinha madeixas de cabelo grisalho cuidadosamente 
arranjadas sobre o couro cabeludo luzidio, levantou os olhos de um bloco de notas onde estava a rabiscar uns nmeros.
- Posso ajudar?
Rafe procurou o recibo no bolso das calas.
 - Sim, empenhei aqui um anel h uns dias. Quero lev-lo.
O lojista teve a bondade de corar. 
- No o reconheci. - Apontou-lhe vagamente para o queixo. - Est muito diferente, sem o cabelo e a barba. - Olhou para o expositor da montra. - Nunca esperei que 
voltasse.
- O que entendi foi que no vendia o anel durante um prazo de trinta dias. Est a adiantar- se um bocado ao p-lo j na montra.
O homem esfregou as mos no peito da sua camisa verde. 
- Sim, bem. - Ria-se, nervoso. - Como disse, na realidade, no pensei que voltasse.
Rafe castigou-o com um olhar duro. 
- Surpresa, surpresa.
O dono da loja correu precipitadamente para a montra para ir buscar o anel. 
- Isto  uma bela pea de joalharia. - Segurou os diamantes contra a luz que atravessava o vidro. - Tenho pena de a ver resgatada. No  frequente ter uma coisa 
to bonita.
Rafe pegou no mao de notas que Ryan lhe tinha dado.
- Mais vinte por cento. - Tirou sete notas de cem dlares e depois idntico nmero de notas de vinte, pondo-as a um lado. - Gostei de fazer negcio consigo. Com 
relutncia, o lojista ps o anel no balco. Rafe pegou nele com reverncia. Quase o enfiou no dedo anelar da mo esquerda mas, no ltimo segundo, apertou-o antes 
na mo. Atirando o recibo cor-de-rosa amarrotado para cima do balco, virou-se e saiu da loja sem dizer mais uma palavra.

Uma vez c fora, ao ar fresco da manh, Rafe ficou no passeio a absorver o brilho puro do sol. A sua cor dourada fazia-lhe lembrar o cabelo de Susan. Que recordaes 
to doces e preciosas. Muitas delas estavam enterradas nos recnditos escuros da mente. Mas eram apenas recordaes, uma parte do seu passado.
Rafe abriu a mo e olhou para a aliana que l estava. Susan. Voltou a sorrir, pois a nica vez que ela lhe tinha causado tristeza fora ao deix-lo. Que pessoa to 
maravilhosa e rara ela era! Mas Deus tinha-a chamado e j h muito era tempo de se libertar e de a deixar partir.
Rafe ps-se na borda do passeio. Olhando para cima e para baixo da valeta, viu uma grelha. Foi at l, sentindo-se curiosamente livre pela primeira vez em mais de 
dois anos. Quando estava por cima do buraco, deu um ltimo olhar  aliana que fora durante tanto tempo a sua nica ligao com ela. - Promete-me, Rafe. Promete-me 
que encontrars algum para amar.
Vieram-lhe lgrimas aos olhos quando estendeu o brao por cima da grelha e abriu a mo. - Acho que a descobri, Susan - sussurrou baixinho. - Acho que  provvel 
que saibas. Tu aprov-la-ias. Fico satisfeito por saber isso. Com um movimento do pulso, Rafe deixou cair a aliana de casamento. Bateu na grelha metlica com um 
tinido musical e, por um momento singular, quase conseguia acreditar que era o som melodioso do sorriso de Susan.
Enquanto a aliana caa por entre as tiras enegrecidas da grelha, os diamantes lanavam-lhe refulgncias, como que num adeus final. E depois desapareceu o brilho.
Rafe ficou ali por um longo momento, a olhar para a escurido infinita.
Tinha estado apanhado por ela durante muito tempo. Era tempo de a pr definitivamente para trs das costas. - Deseja-me sorte, querida - sussurrou. - Vou precisar 
dela.
Quando Rafe voltou para o carro, Ryan dirigiu-lhe um prolongado olhar perscrutador. 
- Aquilo era o que eu penso que era?
O aperto largou a garganta de Rafe e ele sorriu. 
- Do rio para o mar - disse baixinho. - Ela costumava atirar ptalas de flores para uma corrente e dizer isso. Parecia uma maneira simptica de dizer adeus.
Durante um longo momento, Ryan olhou intencionalmente pelo pra-brisas.
Quando voltou a olhar para Rafe, havia uma nova compreenso nos seus olhos. 
- Na noite passada pediste desculpa por me teres magoado. Agora  a minha vez. Desculpa no ter estado  tua disposio como devia. - Tirou o chapu, p-lo no tablier, 
e passou uma mo pelo cabelo.
- Na noite passada disseste mais uma coisa. Tem andado a roer-me desde ento. Que eu nunca perdi ningum que amasse. Ests completamente enganado quanto a isso. 
Perdi uma pessoa, e agora sei como te sentes.
O corao de Rafe apertou-se, a sua primeira ideia tinha sido que um dos pais tinha morrido e Ryan esperara at agora para lhe dizer. 
- Meu Deus, quem?
- O meu irmo.
Vendo o olhar de Ryan, Rafe compreendeu finalmente a dor que tinha infligido  sua famlia. 
- Ryan, eu...
- No digas. J pediste desculpa. Estou contente por te ter de volta. - Mudou Jaimie de brao, cuidadosamente, e entregou o beb ao irmo. Depois, pegou no chapu 
e p-lo na cabea. - A bagagem adicional que trazes contigo tambm  ptima.
Ps o carro a funcionar e arrancou pela rua fora. No semforo, olhou em redor: 
- E agora, para onde? Algum stio em especial?
Rafe soltou um suspiro purificador. 
- Sim, de facto. Quando  que fizeste pela ltima vez uma loucura total?
Esperando que o semforo mudasse de cor, Ryan manteve o olhar fixo em frente.
- No sei. H algum tempo. Porqu?
- Preciso que me ajudes a fazer uma coisa.
- Tenho a agenda livre. O que ?
Rafe engoliu em seco. 
- Uma coisa ilegal. Se alguma coisa correr mal, podemos ir parar os dois  cadeia.
Ryan vacilou e olhou para a cara de Rafe.
- Oh, meu Deus. Vais matar o Boyle, no vais? - Abanou a cabea. -De maneira nenhuma. Ajudo-te a dar-lhe uma tareia, mas mat-lo no  comigo.
- No vou matar ningum. Descansa.
- Ento, o que ?
- Quero raptar a irm da Maggie.
Soou uma buzina atrs deles. Ryan praguejou e carregou no acelerador quando o outro parou de buzinar. O carro deu um salto no cruzamento.
- Perdeste o juzo? Rapto? Isso  um crime. Se formos apanhados, j teremos o cabelo grisalho e seremos impotentes quando sairmos da priso.
- Sim, eu sei. - Rafe passou uma mo pela cara. - Mas da maneira como tenciono faz-lo, no  to arriscado como isso. Ontem telefonei ao Mark para discutir os aspectos 
legais. Ele...
- Oh, meu Deus. Ests a falar mesmo a srio. Falaste ao telefone com o advogado?
- Claro que estou a falar a srio. Se prevenir todas as hipteses, o Mark acha que consigo faz-lo sem passar um mau bocado. No ser exactamente legal, mas...
- O que significa que, tecnicamente,  rapto?
- Tecnicamente, sim. Mas tenho que o fazer, Ryan. Fico numa situao muito slida em relao  adopo se o Boyle mantiver a sua palavra e reembolsar os pais adoptivos. 
E estou noventa e nove por cento seguro de que a Heidi estar ptima durante algum tempo, ficando onde est. Se arranjar uma equipa de advogados para trabalhar no 
caso imediatamente, h a possibilidade de ela sair daquela situao antes que o Boyle faa alguma coisa. Mas e se as coisas azedam? Tenho maus pressentimentos em 
relao quele filho da me. Aquele olhar... Sabes? A Heidi tem s dez anos.  uma criana. Como  que posso correr o risco de lhe acontecer alguma coisa?
- Fcil. Reza para que o bom senso aceite o que no podes mudar.
- Dei a minha palavra  Maggie de que a manteria em segurana e, por Deus, assim farei.
Ryan ps para trs a aba do chapu.
 - Santo Deus. No vais fazer nada disso. A mida fica bem at poderes tir-la de l legalmente.
- Isto ser legal... quase. - Rafe virou-se no assento para olhar para o irmo. - A me da Maggie no  propriamente brilhante e...
- ptimo. Agora ests a dizer-me que vamos enfraquecer os nossos genes? No  que tu apresentes um QI de gnio neste momento.
- Podes calar-te e ouvir? A me sofreu leses cerebrais devido a um ataque cardaco. No nasceu assim. Maggie diz que est como uma criana, mas tanto quanto o Mark 
conseguiu descobrir, no foi declarada legalmente incapaz. O Mark elaborou-me um documento e enviou-mo por fax para o hospital. Basicamente, diz que a me da Maggie 
me autoriza a atravessar a fronteira do estado com a mida. Se conseguir fazer o Boyle sair de l de casa durante o tempo suficiente para lhe fazer uma visita, penso 
que consigo convenc-la a assin-lo perante um notrio. - Rafe esfregou as mos. - Depois, levo a me a casa, rapto a criana quando chegar da escola e pomo-nos 
a andar dali para fora.
Rafe esperou uma reaco. 
- Bem, o que  que achas?
- Acho que no ests no teu juzo perfeito. Que razo dars  me para lhe levar a filha para fora do estado?
Rafe sorriu. 
- Disneylndia.
- O qu?
- Direi que a Maggie e eu vamos  Disneylndia em lua-de-mel e que queremos levar a irm. Brilhante, no ? Assim, a Helen no fica preocupada por a filha ter desaparecido 
e  tecnicamente legal eu tir-la do Idaho.  uma coisa em que uma senhora que no  muito brilhante vai acreditar. A Disneylndia, o Rato Mickey e isso tudo! Ficar 
agradada por a filha ter a oportunidade de l ir.
- Rafe, isto  uma loucura. H demasiadas incgnitas. O Boyle no  idiota. Chega a casa, v o que fizeste e fica doido. Chama a polcia.
- Sim, talvez. Mas a posse corresponde a nove dcimos da lei. Teremos ns a criana e o documento assinado pela me. O Mark diz que provavelmente a Heidi tem idade 
suficiente para falar por ela perante um juiz. A Doutora Hammish pretende testemunhar que a Maggie foi selvaticamente espancada. O Mark acha que podemos defender-nos 
muito bem lanando a suspeita sobre o ambiente em casa e pedindo a custdia temporria.
- E se no conseguires?
Rafe encheu a boca de ar. 
- Bem, nesse caso, podamos ir os dois para a cadeia. No entanto, eu testemunharia que tu s pilotaste o meu avio e no sabias o que eu ia fazer.
- A ignorncia da lei  uma m defesa - salientou Ryan.
- A Maggie no pode sair do hospital nos prximos dois dias - retorquiu Rafe. 
- No teremos nada que fazer. Porque no dar melhor uso ao tempo? V l, Ryan. Onde est o teu sentido de aventura? Sempre formmos uma boa equipa. Lembras-te das 
confuses que costumvamos arranjar? Quantas vezes fomos apanhados?
- Jesus Cristo. - Ryan desviou o carro para a berma, ps o motor em ponto morto e olhou para Rafe com um olhar incrdulo. - Isto no  bem a mesma coisa que roubar 
um sinal rodovirio. J no somos crianas. Tens a noo do que ests a pedir-me?
- Sim. Estou a pedir-te que ponhas o pescoo no cepo. Acho que conseguimos ser bem sucedidos, Ryan. Ser arriscado, mas acho que conseguimos faz-lo. A minha licena 
de piloto expirou. Preciso de ti para pilotar o Cessna e tomar conta do Jaimie enquanto eu fao o trabalho sujo. Uma vez que tenhamos a Heidi, podes deixar-me aqui 
e, depois, lev-la para o rancho. A Becca  ptima para as crianas. Pode tomar conta da Heidi enquanto aqui voltas para me vires buscar a mim e  Maggie. O que 
 que dizes?
- Ests a discutir um rapto mas, ao mesmo tempo, ests preocupado por voares sem a tua licena? - Ryan olhou pelo pra-brisas, o msculo do queixo a palpitar enquanto 
pensava naquilo. Depois, soltou um suspiro enfastiado e olhou o irmo nos olhos. - H coisas que nunca mudam. Sempre que estou contigo, acabo a fazer coisas loucas.

Captulo Dez
Quando Ryan Kendrick aterrou com o Cessna 340 na pista de Rocking K, dois dias depois, Maggie sentia-se como um caniche mimado com um dono hiper ansioso. Desde que 
tinha tido alta do hospital, naquela manh, Rafe no permitira que fizesse nada, nem sequer andar. A Dra. Hammish tinha dito que durante a semana seguinte Maggie 
no podia estar de p, excepto para ir  casa de banho. Determinado a cumprir essas ordens, Rafe tinha-a transportado da cadeira de rodas para o carro e, depois, 
do carro para o avio, onde a tinha depositado nos lugares de passageiros de trs, que j tinha reclinado para formar uma cama. Era a primeira vez que voava e o 
que  que via? O tecto da cabina.
Ao longo do voo de trs horas, tinha tirado vrias vezes do bolso as instrues da mdica. Hora de beber? Tinha arranjado uma garrafa trmica de gua e enchido at 
acima um copo de plstico de meio litro, insistindo em que ela o bebesse. At lhe tinha segurado no copo, como se ela no fosse capaz. Hora dos medicamentos? Punha-lhe 
os comprimidos debaixo do nariz e era obrigada a beber mais gua. Poucos minutos passados, eram outra vez horas de beber lquidos. Maggie tinha a sensao de que 
ele podia apertar-lhe o nariz se se recusasse a engolir. O Cessna no tinha casa de banho.
Na altura em que as rodas do avio pousaram na pista do Oregon, qualquer movimento do pequeno avio era uma agonia para ela. Depois de Ryan sair do avio pela porta 
lateral, ela apoiou-se no cotovelo para espreitar pela janela oval que ficava perto da sua cabea, esperando ver uma casa. Em vez disso, at onde o seu olhar alcanava, 
o sol brilhante da tarde s mostrava campos e montanhas varridos pela neve. Ergueu-se um pouco mais para espreitar pela outra janela,  procura de edifcios.
Nada. Apenas a vastido da natureza.
Terminando a comunicao via rdio, Rafe virou-se e viu-a soerguida.
Desapertou o cinto de segurana e saiu do banco do co-piloto para a coxia central.
- Descanse  vontade, querida. O Ryan tem que ligar o todo-o-terreno e deix-lo aquecer, pelo que ainda demoraremos uns minutos a sair. - Inclinou-se sobre um banco 
da primeira fila para ver o beb que estava a dormir e depois foi l atrs agachar-se  frente dela. Maggie estava meio  espera que ele lhe fosse buscar um copo 
de gua atrs das costas. Em vez disso, ps-lhe a mo na testa. - Como  que se sente? Cansada, aposto.
Maggie estava demasiado tensa para estar cansada. Nunca tinha atravessado a fronteira do estado Idaho nem nunca tinha posto os ps dentro de um avio. Agora estava 
para casar com um homem cuja famlia tinha dois, aquele Cessna, que tinha uma cabina pressurizada para confortveis viagens de longa distncia, e um pequeno monomotor 
chamado Eagle, que Rafe lhe explicara que era utilizado para trabalho no rancho. - Ento? - perguntou ele baixinho.
Maggie abanou a cabea. Como  que conseguia explicar os seus sentimentos se estavam numa confuso to grande? Aquele homem, que lhe tinha despejado quase dois litros 
de gua para dentro dela nas ltimas trs horas e no tinha parado de pensar que ela podia precisar de ir  casa de banho, tinha assumido o controlo da sua vida.
Uma parte de Maggie sabia que Rafe no queria fazer-lhe mal. Tratava-a como se fosse feita de vidro frgil, sendo a sua solicitude quase sufocante. Como podia ela 
ter medo de uma pessoa que parecia to freneticamente preocupada com o seu bem-estar?
Todavia, a um nvel em que a razo no comanda, Maggie tinha mesmo medo dele. Estivera numa situao em que um homem tivera o controlo completo do seu mundo e tinha 
aprendido com a experincia como isso a tornava vulnervel.
- Pode sentar-se, querida?
Maggie fez o que ele lhe pediu, aliviada ao descobrir que se sentia agora forte como j no se sentia h vrios dias. Ele foi-lhe buscar a parka.
- Eu fao isso - protestou ela quando ele comeou  procura do brao dela para lhe enfiar uma manga. Como isso no o travou, acrescentou: - Odeio ser um incmodo 
to grande.
Puxou-lhe o casaco para os ombros e depois foi por trs dela ajeit-lo. 
- No  incmodo nenhum - disse ele com a voz tomada. Hesitou na sua tarefa para lhe pr a sua grande mo por baixo do queixo e a fazer olhar para ele. - Nunca saber 
a sinceridade com que digo isto.
Pareceu a Maggie que o seu rosto moreno se aproximava e, por um momento, teve a certeza de que ele ia beij-la. O corao teve um sobressalto e parecia que lhe saa 
pela garganta. O olhar fixou-se-lhe na boca dele. Na obscuridade do avio, os seus lbios firmes tinham um brilho acetinado. Por um momento fugaz, perguntou a si 
mesma como seria beijar um homem cujo hlito no tresandasse a cigarros baratos e cerveja.
Chocada consigo mesma, Maggie afastou aquele pensamento. Um sorriso travesso danava nos olhos de Rafe, como se ele soubesse exactamente em que  que ela estava 
a pensar. Deixando o casaco cair para trs dela, segurou-lhe o queixo com mais fora e enrolou-lhe o outro brao por trs do pescoo, os dedos fortes a examinarem-lhe 
minuciosamente as madeixas de cabelo para descansarem com ntima possessividade na sua pele.
Serpenteavam-lhe tremores na espinha enquanto ele descrevia crculos com as pontas dos dedos.
As feies dele tornaram-se menos ntidas quando se aproximou. Maggie ps-lhe uma mo no peito, com o intuito de o manter afastado. No instante em que a palma da 
mo entrou em contacto com o peito da camisa, essa esperana desvaneceu-se. Ele parecia to pesado e inamovvel como uma parede de granito. A respirao ficou-lhe 
presa na garganta quando os lbios dele pousaram nos seus. Calor de veludo.
Ele inclinou a cabea para controlar melhor o beijo, afastando os lbios e tocando ao de leve com a ponta da lngua nos dela. Maggie deu um safano. O brao dele 
retesou-se e a mo espalmada por trs do pescoo dela tornou-se um impiedoso mas delicado freio que a mantinha segura.
Apreciou-a como podia ter apreciado um doce que quisesse saborear, com ligeiras pinceladas da lngua que provocavam a sua carne sensvel como o esvoaar de uma borboleta. 
O seu hlito misturou-se com o dela, quente e entrelaado com o rico sabor de caf e hortel-pimenta.
Maggie sentia-se como se os seus ossos estivessem a dissolver-se.
A gaguez das suas palpitaes no fundo da garganta transformou-se em batidas fortes que pareciam ecoar-lhe nas tmporas. Ele no lhe permitia que o afastasse e ela 
no podia deixar de estar assustada com a fora enorme que sentia irradiar do seu corpo avantajado. 



Tinha-se visto demasiadas vezes do lado receptor da maior fora de um homem para ignorar facilmente os perigos. Mas ao mesmo tempo estava fascinada. Todos os outros 
beijos que tinha experimentado tinham sido descuidadas amolaes de dentes que lhe tinham magoado os lbios e a tinham feito sentir como se fosse ficar sufocada 
com a prpria blis. Pelo contrrio, a boca de Rafe aliciava a sua para uma resposta que ela no sabia dar.
Quando ele se afastou, havia uma pergunta nos seus olhos.
- Eu... - Maggie engoliu em seco e tacteou atrs de si  procura da manga do casaco. - Receio no ser muito boa a beijar.
Enquanto procurava, atrapalhada, vestir o casaco, ele continuou a acariciar-lhe o pescoo, parecendo o seu toque tornar-se mais elctrico a cada passagem das pontas 
dos dedos. Sentia o estmago como se tivesse engolido uma caixa gigantesca de douradas vivas.
- Maggie? - sussurrou ele.
Ela gelou, o seu olhar atrado para o dele pelo tom sedoso da sua voz.
Ele sorriu ligeiramente e passou-lhe o polegar por cima da boca. 
- O que ? - perguntou ela com voz aguda.
Inclinou-se para a frente para lhe passar ao de leve os lbios pelas tmporas, o seu hlito a fazer mexer os caracis enquanto sussurrava. 
- Voc beija como um anjo.
Afastou-se e libertou-a. Quando se chegou a ela para a ajudar a vestir o casaco, sorria. 
- Posso fazer alguma coisa para a fazer sentir-se um pouco menos nervosa? Corrija-me se no tiver razo, mas estou com a sensao de que tem um bocadinho de medo 
de mim. No h razo para isso.
No havia razo? Ele tinha manifestado claramente a inteno de fazer daquilo um casamento a srio. Ela achava aterradora a perspectiva de intimidade fsica. No 
 que alguma vez o confessasse. O medo era outra fraqueza que um homem podia usar contra ns.
Tentando manter uma expresso cuidadosamente neutra, inclinou a cabea para tratar do fecho clair. 
- No tenho medo de si. Que estupidez. -  mesmo uma estupidez ralhou uma vozinha dentro da sua mente. Maggie achava que era como aquelas pessoas que tm medo das 
alturas. Mesmo atrs de uma forte balaustrada, no conseguiam respirar quando olhavam para baixo. Por vezes, os medos de uma pessoa desafiavam a razo. - Porque 
 que havia de ter medo?
Ele separou-lhe os dedos. 
-  por isso que as suas mos esto a tremer? Por confiar tanto em mim?
Maggie olhou e viu que ele tinha razo; estava a tremer. 
- S tenho...frio.
Fechou-lhe o fecho clair do casaco e voltou a balouar-se sobre os calcanhares, com os braos apoiados nos joelhos. Tinha uma expresso perplexa quando olhou para 
Maggie. 
- Nunca a magoarei. Quero que saiba isso. E quando for altura de fazermos amor, voc  que querer fazer. Prometo!
Maggie mal conseguiu evitar um calafrio. 
- Is-Isso seria bom.
- Melhor do que bom - garantiu-lhe ele. - Muito melhor do que bom.
Maggie tinha as suas dvidas. Seria um grande alvio se a intimidade sexual com ele se revelasse tolervel, bom era esperar um pouco de mais.
Levantou-se e p-la de p. S ento Ryan abriu a porta do avio. 
- O todo-o-terreno j est pronto.
Rafe tirou Jaimie do assento e entregou-o ao irmo, que correu prontamente para o Ford que os esperava para l meter o beb ao abrigo do frio. Agarrando-se a uma 
pega suspensa do tecto, Rafe saltou do avio sem passar pelos degraus da escada retrctil. Recuperou o equilbrio e virou-se, fazendo-lhe sinal para que se aproximasse 
da porta. Quanto j estava ao seu alcance, agarrou-a nos braos. Enquanto ele a levava para o carro estacionado a uns metros de distncia, reparou num pequeno hangar 
em frente do avio que no conseguira ver pelas janelas de trs. 
- Aquele edifcio tem uma sala de repouso? - perguntou ela, odiando-se por ter corado.
- Claro que sim.
Parou e mudou de direco, a caminho do hangar. Ficava a uma certa distncia e a neve na berma da pista tinha mais de 30 cm de altura.
- Eu posso andar - sugeriu ela. - Hoje sinto-me muito mais forte.
-  mais longe do que parece - foi a sua nica resposta.
 Maggie reprimiu um suspiro.
 Maggie ia agarrada  camisa dele, com o corpo tenso. Estava apenas a umas dezenas de centmetros do cho mas parecia-lhe que estava a muito maior distncia. 
- H stios que parecem ter gelo e estar escorregadios - observou ela, pensando como seria fcil ele escorregar.
- E esto.
Maggie ficou  espera de que ele ficasse sem respirao. O caminho era difcil e ele estava a carregar uma quantidade de peso a mais. Mas ele seguiu caminho sem 
perder o flego. Uma vez no hangar, inclinou-se ligeiramente para abrir a porta e depois levou-a para dentro de um pequeno escritrio mobilado apenas com uma secretria, 
uma cadeira e um arquivo metlico. P-la no cho, de p, em frente a outra porta.
- Obrigada.
Inclinou-se para rodar o manpulo e acender a luz da casa de banho.
- Muito bem-vinda. Se precisar de ajuda,  s gritar.
Nunca na vida.
Sentia as pernas fracas, indubitavelmente por ter estado tanto tempo de cama. Entrou, fechou a porta e estava para correr o trinco quando ele disse: 
- No tranque, est bem? Para o que der e vier. No quero ter que partir outra vez a porta.
Despachou-se rapidamente. Quando saiu da casa de banho, viu-o a olhar para uma fotografia na parede.
- O meu filho, Keefer - disse ele. - Foi tirada no Vero anterior.
Anterior. Maggie aproximou-se mais, perguntando a si mesma como seria ter a vida dividida em duas partes, antes e depois. A criana aos ombros nus de Rafe que estava 
na fotografia aparentava cerca de dois anos e tinha umas bochechas rechonchudas de querubim e cabelo castanho-escuro ondulado. Era muito parecida com o pai.
A mquina fotogrfica tinha apanhado Rafe a rir-se. Estava, nessa altura, muito mais novo, se no em anos, pelo menos de corao, os olhos a danar de alegria. Tambm 
era de constituio mais rude, sendo a metade superior do corpo, bronzeada, uma verdadeira escultura da fora humana, com bceps fortes, um peito bem constitudo 
e um abdmen estriado de msculos fortes como ao. Usava jeans que lhe tapavam as ancas magras e as longas pernas.
O seu olhar voltou para a criana, cujos dedos com covinhas estavam agarrados ao cabelo preto do pai, batido pelo vento. Quase disse que sabia como devia ser doloroso 
ver a fotografia mas, se perdesse o Jaimie, no queria que as pessoas fingissem que entendiam o que ela sentia. No entendia, apenas podia imaginar, e rezava a Deus 
para que assim continuasse.


- Pronta?
Maggie olhou para cima. Rafe estava a sorrir, mas era difcil no reparar nas sombras dos seus olhos. 
- Lamento muito. - Hesitou e depois ouviu-se a si mesma a dizer exactamente o que tinha decidido no dizer. - Sei como deve magoar.
- Foi a primeira fotografia que vi desde que me fui embora - disse ele baixinho. - Foi como se me tivesse apanhado de surpresa, mais nada.
Tomou-a nos braos. Maggie abraou-se ao seu forte pescoo, sentindo-se mais uma vez como se estivesse a balouar no peitoril da janela de um arranha-cus. A tristeza 
tinha-lhe abandonado os olhos. 
- Est preocupada com que eu a deixe cair?
- Espero que no - respondeu ela.
Um lento sorriso espalhou-se-lhe pela boca firme.
 - Esteja descansada, Maggie.
Enquanto ele a levava para o todo-o-terreno que os esperava, Maggie perguntava a si mesmo se tinha sido tranquilizador ou ameaador.
A caminho de casa, Maggie levava o beb a dormir encostado a si e olhava pelas janelas do todo-o-terreno  procura de sinais de edifcios. Tudo o que via eram montanhas 
distantes, pinheiros e abetos, campos, todos parecendo andarem  solta. Era uma paisagem maravilhosa, como algumas vistas de Inverno que vira em postais ilustrados. 
Mas admirar fotografias e estar no meio da realidade eram duas coisas diferentes.
Depois de deixar toda a sua vida na cidade, sentia-se ali deslocada. E separada do mundo.
Mesmo o interior luxuoso do carro tinha um cheiro estranho para ela, o cheiro familiar do cabedal e do plstico moldado dos carros novos misturado com odores estranhos. 
Talvez algum tipo de erva? E cavalos?
Olhando por cima do ombro, Maggie viu que a parte de trs do Ford destinada  carga, estava cheia de pedaos de corda, tiras de cabedal com um aspecto estranho, 
objectos metlicos volumosos e pedaos de feno.
Rafe, que ia sentado ao lado dela, atrs, reparou finalmente que ela estava a esticar o pescoo para espreitar pela janela e lanou-lhe um olhar interrogativo.



Maggie olhou para ele. 
- Onde  a casa?
- Ainda  um bocado longe - disse Ryan enquanto se desviava para a esquerda para evitar um buraco lamacento na estrada de gravilha, dezasseis mil hectares  muita 
coisa. A casa principal fica a mais uns onze quilmetros daqui.
A casa principal? Ryan disse aquilo de um modo que fazia pensar que tinham dzias delas. 
- Esses onze quilmetros fazem todos parte do vosso rancho?
Quando Maggie fez a pergunta, o carro deu um solavanco que lhe fez bater os dentes uns nos outros e a fez andar de um lado para o outro no assento de pele. Agarrou 
Jaimie com mais fora. Rafe olhou para baixo e ps-lhe o forte brao  volta dos ombros. 
- Acho que precisa de um pouco mais de lastro. - Baixou a cabea para olhar pela janela do seu lado. 
- Em resposta  sua pergunta, sim, estaremos em terras do Rocking K at chegarmos  casa principal. Est a ver aquilo ali?
Maggie seguiu-lhe o olhar. Tudo o que via era uma extenso brutal.
- Sim.
- Olhe para o mais longe possvel - disse-lhe ele. Quando fixou o olhar no ponto mais distante do horizonte que conseguiu descobrir, ele disse: - Tudo isso faz parte 
do Rocking K ou  terra alugada por noventa e nove anos renovveis. O nosso pai iniciou isto h trinta e cinco anos.
Incrdula, Maggie continuou a olhar para o horizonte. 
- Uau. Porque  que terei a sensao de que, daqui, no consegue ir a p  mercearia?
- Tem razo. O armazm mais prximo fica a uma distncia razovel. Maggie olhou pela sua janela.
- Aquilo tambm  tudo Rocking K?
- Sim. Como  que vai ser sentir-se dona desta terra toda?
A pergunta fazia recordar o prximo casamento deles e Maggie estreitou mais Jaimie contra si, pois era ele a razo de ali estar. Queria de volta o mundo dela - o 
mundo com passeios e mercados de esquina e vizinhos que conhecera durante toda a vida. Menos Lonnies, claro. Desde o princpio que ele lhe pusera a vida numa confuso. 
Agora, tinha-a eliminado por completo.
Ryan riu-se.
- Bem, isso  uma maneira especial de pr a questo. Ser dona de uma quantidade de terra! - Olhou para o espelho. - Tudo o que ela consegue ver agora  neve. Mas 
no Vero, temos terra, Maggie. Muita. A alegria dele no tinha fronteiras. Rafe acomodou-a mais a ele. - Querida, vai adorar o rancho. No ponha esse ar to preocupado.
- A nica coisa  que eu sou uma pessoa da cidade, acho eu. Talvez me acostume.
- Temos uma grande cidade a apenas vinte minutos de distncia.
- Depois de chegar  estrada - salientou Ryan, como se isso fosse mais uma vantagem. - Isto aqui  o mximo em matria de privacidade. No h olhos indiscretos. 
No h vizinhos intrometidos. Se quiser, pode andar a passear nua no ptio.
- Nem pense nisso - avisou Rafe, com um resmungo possessivo na voz. - Com a quantidade de empregados que aqui existe, no  to privado como isso.
Maggie no tinha inteno de se separar da roupa, ponto final. Mesmo quando a ideia lhe passou pela cabea, qualificou-a logo. Separar-se-ia rapidamente das roupas 
quando Rafe decidisse que devia faz-lo.
- Vocs continuam a falar da casa "principal". H mais do que uma?
- Pode dizer-se que sim. - Ryan travou para passar por cima de um sulco. H a minha casa, a cerca de um quilmetro da do Rafe. E depois de nos terem entregado o 
rancho, os pais construram uma vivenda do outro lado do lago. Alm disso, os alojamentos para os nossos empregados e respectivas famlias. Alm das choupanas todas.
Uns minutos mais tarde, o carro fez uma curva e a vastido deu lugar  cerca branca que parecia estender-se infinitamente. Ela avistou uns anexos brancos.
- Ali est a casa - sussurrou Rafe.
Concentrou o olhar numa casa enorme de tijolo localizada numa pequena colina coberta de neve, l longe.  medida que Ryan se aproximava, viu que aquela enorme estrutura 
era uma casa de dois andares com madeiras brancas e hera a subir pelas cinco chamins. O caro telhado com diferentes inclinaes era constitudo por telhas vermelhas.
Aquilo no era uma casa; era uma manso.
- Ento, o que  que acha?
Lanou a Rafe um olhar incrdulo. O que achava? Lembrava-se do seu vaqueiro vagabundo com roupa esfarrapada e suja, com o seu cabelo pelos ombros a sair por todos 
os lados por baixo da aba descada do seu Stetson empoeirado. Mesmo depois, quando lhe dissera que era rico, nunca imaginara aquilo. Como  que alguma vez se integraria 
naquilo?
- Eu...  lindo - disse Maggie sem entusiasmo.
- Querida, o que  que se passa? - Olhou para a casa pelo pra-brisas, como se esperasse ver que o telhado macio tinha abatido, ou coisa parecida. Quando voltou 
a olhar para ela, disse: - Se no gosta, construo-lhe outra. No temos que viver ali. Esta Primavera vamos a cavalo  procura de um stio para construir.
A cavalo? 
- No, no  isso.  uma... casa maravilhosa. Mas... Maggie interrompeu-se e olhou melhor. Perder-se-ia l dentro. - No estou habituada a casas to...grandes.
-  mesmo grande - concordou Ryan. - Mas vocs no precisam de viver na casa toda. O andar de baixo  uma enorme cozinha  escala industrial para dar de comer ao 
pessoal durante os ajuntamentos de gado, com uma grande sala de jantar e outra grande sala para bailes e festas. O andar principal tem s... o qu, Rafe? uns 650 
metros quadrados?
- Mais ou menos - respondeu Rafe. - Setecentos, no mximo. E uma grande parte  de quartos de hspedes.
Pela janela de trs do lado direito, Maggie viu um belssimo cavalo ruivo do outro lado da vedao. Acompanhava o percurso do carro, de cauda levantada e a crina 
a esvoaar.
Rafe deu por ele no mesmo instante. 
- O que  que aquele filho da me ainda aqui est a fazer? Disse-te que o vendesses ou o abatesses.
-  um reprodutor de primeira classe. Depois de te teres ido embora, que sentido fazia?
Maggie nunca tinha ouvido a voz de Rafe to fria. Olhou outra vez para o cavalo e lembrou-se da histria que ele lhe tinha contado acerca do desastre de automvel. 
Soube nessa altura que aquele era o garanho que armara confuso no reboque naquela noite durante a tempestade de granizo.
Maggie no podia criticar Rafe por no ser capaz de suportar v-lo.
A sua expresso ainda estava carregada quando levou Maggie para a casa.
Ryan seguia-o, levando Jaimie. Entraram naquilo a que Ryan chamava a sala da lama mas era realmente um enorme trio ornamentado com corredores de pedra e canteiros 
de plantas. No centro, havia um lago para peixes, com uma queda-d'gua, rodeado de bancos.
Durante um longo momento, Rafe ficou de p  entrada da porta. Maggie suspeitava de que ele tinha misturado emoes relativamente ao regresso a casa e estava a lembrar-se 
da famlia.
Passado um momento, sorriu para ela. 
- Tem razo.  grande. 
Maggie descontraiu-se ligeiramente, satisfeita por aquele momento ter passado. Quando sentiu a tristeza dele, quis confort-lo. No era uma coisa inteligente, dadas 
as circunstncias. Estaria a chamar sarilhos. Tinha visto o brilho possessivo dos olhos de Rafe Kendrick e sabia que no era preciso muito para o tornar apaixonado.
Encaminhou-se para umas portas de correr no extremo oposto do compartimento abobadado. Ela agarrou-se-lhe mais ao pescoo quando ele flectiu os joelhos para abrir 
a porta de vidro. Entraram numa cozinha de campo enorme, com panelas de fundo de cobre penduradas em ganchos por cima de uma ilha de trabalho com um cepo de cortador. 
Toda uma parede era dominada por uma lareira de pedra. Crepitava na grelha um fogo alegre e havia,  frente do fogo de sala, duas cadeiras de baloio de madeira, 
muito usadas, que convidavam as almas cansadas a sentar-se e descansar.
Do outro lado da cozinha havia uma mesa de tbuas com pernas cruzadas.  volta, assentos individuais ao acaso. Ao ouvir a porta abrir-se, uma mulher robusta com 
uma cabeleira grisalha ondulada virou-se do lava-louas. Quando viu Rafe, os olhos verdes encheram-se-lhe de lgrimas.
Limpou as mos molhadas ao avental branco engomado que lhe cobria o vestido castanho.
- Rafael! - Atravessou pesadamente a cozinha e atirou contra ele o seu considervel corpo, ensanduichando Maggie entre o peito rijo dele e os seios moles e avantajados 
dela. Um brao forte apertou-se  volta do pescoo de Maggie, empurrando-lhe o rosto contra o queixo de Rafe,  medida que ia apertando. - Oh, meu rapaz! Louvado 
seja Deus.  um milagre. Fartei-me de rezar para que no estivesses morto e agora aqui ests, real como a vida!
- Cuidado com a Maggie, Becca - avisou Rafe, com uma gargalhada. - Ela ainda est um bocadinho indisposta. - Baixou a cabea para lhe beijar a face enrugada. Quando 
se endireitou, sorriu: - O que  que h para comer? Estou a morrer de fome.
Becca recuou e ps as mos rechonchudas nas faces, com o olhar fixo no semblante moreno dele. Depois, desatou a chorar e desfez-se em lgrimas.
- Nunca pensei voltar a ouvi-lo dizer-me isso.
Rafe dirigiu a Maggie um olhar apologtico e depositou-a numa das cadeiras de baloio. Foi tomar a mulher mais idosa nos braos. Arqueando nos ombros, inclinou a 
cabea para lhe beijar a tmpora.
- Nunca foi minha inteno faz-la passar por um bocado to mau - disse ele bruscamente.
Ela percorreu-lhe as largas costas com as mos como se no conseguisse acreditar que ele fosse verdadeiro, mesmo quando comeou a dar-lhe uma descompostura. 
- Sair de casa sem uma palavra, e depois nunca telefonar para casa. Apetece - me aquecer - te esse rabo com a minha esptula!
- Mais tarde - disse ele com um riso sufocado. - No vou pr-me de ccoras  frente da Maggie. No  digno. 
Becca soluou e depois soltou um riso abafado. - Bem, ento  melhor endireitares-te! Mais um disparate e trato-te da sade mesmo  frente dela. Toma nota do que 
te digo. O que fizeste a tua me passar! Que vergonha, Rafael! E o teu pai, Deus lhe abenoe o corao. Nunca vi aquele homem verter uma lgrima, repara, mas chorava 
como um beb na outra noite, quando telefonou a dar-me a notcia!
- Lamento. Lamento muito.
Quando Ryan entrou na cozinha, Maggie estendeu os braos para beb. Ele abanou a cabea. 
- Acho que vai direita para a cama.
Ouvindo o comentrio do irmo, Rafe soltou-se da governanta. Becca bateu ao de leve nas faces para as secar e puxou o vestido e o avental.
- Meu Deus, claro. Onde  que tenho a cabea, para a deixar a sentada, Maggie? Perdoe-me.
- Estou perfeitamente - garantiu-lhe Maggie.
- Conversa. O Rafael disse-me ao telefone como tem estado doente. Bem, no se preocupe. A suite do patro j est pronta para vocs. O Rafael redecorou completamente 
o quarto antes de se ir embora. Ser a primeira a dormir l desde... bem, desde h muito tempo. E eu preparei o quarto do beb o melhor que pude. Toda a moblia 
de l foi... Parou e olhou para Rafe. - Bem, no importa. O Rafael ter que comprar mais,  tudo. Pedi algumas coisas emprestadas s mulheres dos empregados que, 
por agora, nos serviro.
- Preferia ter o Jaimie no mesmo quarto que eu - disse Maggie.
- S se me prometer que no vai tentar tomar conta dele pessoalmente - interrompeu Rafe. - As ordens da mdica, lembra-se? Repouso completo na cama.
O brilho determinado dos olhos dele disse a Maggie que discutir no a levaria a parte nenhuma. Decidiu que meio po era melhor do que nada.
 - Lembro-me.
Ele veio busc-la  cadeira de baloio. Disse para Becca: - Durante uma semana, no pode pr-se em p.
- E no se por - disse Becca, firmemente.
- Provavelmente, era bom levantar-me um bocadinho se...
- Nada de discusses! - disse Becca, interrompendo Maggie. Gostava de lhe dar algum tempo para assentar antes de ir atrs de si com a minha esptula. Mas no hesitarei 
se a apanhar a desobedecer  sua mdica. - Saiu da cozinha a bambolear-se e seguiu por um longo corredor, falando para Rafe, que a seguia. - J telefonei ao Doutor 
Kirsch que, portanto, est avisado. Trouxe os medicamentos todos de que ela precisa?
- Trouxe.
- Quero uma lista de instrues para a tratar. No se esquea de ir a correr para os estbulos sem ma dar.
- Eu no vou a correr para parte nenhuma, Becca. J tens com que te entreter com o Jaimie e as coisas da casa.
- Oh, pfff. Fao mais com um beb nos braos do que trs mulheres e uma rapariga. Abriu uma porta e entrou num compartimento enorme, com tapetes cor de malva e paredes 
macias, quase tocando as ombreiras dos dois lados com as largas ancas. A cama est virada para baixo - disse ela, correndo precipitadamente para um grande painel 
de janelas para correr os cortinados que tapavam o Sol do fim de tarde.
- Ponha-a ali na beira.
- Trouxe as camisas de noite?
- Depois de me telefonar, mandei a Dolores  cidade. Esqueceu-se de me dizer que nmero cala, pelo que trouxe chinelos elsticos. O roupo  de um belo veludo grosso. 
- Fez uma pausa com uma mo em cima de umas calas de flanela. - Est tudo ali aos ps da cama.
Maggie queria recordar-lhes que era adulta e no uma criana doente.
Andavam para c e para l a falar como se ela ali no estivesse. Rafe p-la em cima do colcho, que estava coberto por lenis esticados que parecia que tinham sido 
passados a ferro. Agachou-se para lhe desatar os sapatos ao mesmo tempo que Maggie se inclinou para a frente para fazer a mesma coisa e bateram com a cabea um no 
outro. Ela viu as estrelas e agarrou-se s tmporas.

- Querida, est bem?
Muito mais ajuda e acabariam por mat-la. Ela olhou para ele, esfregando o local da pancada, que estava a latejar. Normalmente, era preciso muito para se zangar, 
mas Maggie estava quase a chegar l.
- Eu fao isso - disse ela, quando ele voltou a pegar-lhe no p.
- No seja tonta. Inclinar-se magoa-lhe as costas. - Desatou um dos sapatos e tirou-o. Enquanto atacava o outro tnis, olhou para a camisa de noite estampada e para 
o robe de veludo bordeaux que estavam aos ps da cama. - Flanela pelo tornozelo? - disse ele, fazendo um trejeito com o lbio.
Quando acabou de correr as cortinas, Becca encaminhou-se para junto da cama para ligar a luz.
 - Se quiser ngligs, tem que os ir comprar pessoalmente.
Rafe piscou o olho a Maggie enquanto lhe afastava as mos para desapertar o fecho clair do casaco. -Talvez eu faa isso mesmo.
Maggie comeou a tirar o casaco. Ele puxou-lho para baixo antes que ela pudesse mexer-se, prendendo-lhe os braos pelos cotovelos. Enquanto lhe puxava as mangas, 
Maggie teve um mau pressentimento, com certeza que, depois de pr o casaco para o lado, ele ir aos botes da blusa.
Maggie agarrou-lhe os pulsos.
- Eu fao isso - disse ela.
- Querida, no...
Maggie passou-se. Bateu nas mos dele. 
- Rua! Vocs os dois. Agradeo a vossa preocupao, mas no sou uma invlida.
Rafe apoiou-se nos calcanhares, parecendo algo admirado, e Becca ps as mos nas ancas. Olharam os dois para ela.
Maggie sentiu-se tonta quando se ps em p. Agarrou-se  coluna do leito, profusamente esculpida.
- Rua - disse ela com firmeza. Quando estiver pronta, chamo.
Becca e Rafe trocaram olhares preocupados. 
- Est cansada - disse ele 
- Pobrezinha - disse Becca.

A Maggie apetecia-lhe puxar-lhe os cabelos. Para seu alvio, no entanto, ambos saram do quarto para lhe dar alguma privacidade. Tinha comeado a desabotoar a blusa 
quando Rafe abriu a porta e meteu a cabea. Ela fechou a blusa. 
- Se precisar de mim, estou aqui no hall. No hesite em chamar-me.
Depois de ele ter fechado a porta, Maggie ficou com um sentimento de culpa. E ela a moer-lhe a cabea. No importava que ele a estivesse a tratar como uma criana. 
Tambm ela estava a portar-se como uma criana.
Acabou de se despir e enfiou a camisa de noite de flanela antes de se sentar na borda da cama. Uma por uma, as coisas com que estava aborrecida pareciam triviais. 
No ser autorizada a pegar no seu prprio copo. Meterem-lhe os comprimidos na boca. Ser levada ao colo para toda a parte.
Comear a fazer uma coisa e ele trav-la logo. Eram cem pequenas coisas.
S quando se juntavam  que se tornavam numa grande coisa. Ele estava a sufoc-la.
Sentindo-se esgotada, meteu-se entre os lenis novos em folha e deitou-se nas almofadas. Observando o quarto, reparou nas paredes cruas e nos cortinados ligeiramente 
mais escuros. No havia lume na grelha da lareira de pedra, uma verso mais pequena da da cozinha, mas Maggie conseguia imaginar, mesmo assim, o calor do mbar. 
Num canto, duas poltronas arrumavam-se de modo acolhedor junto a uma pequena mesa de leitura. Numa noite fria de Inverno, seria bom ler junto a um fogo crepitante, 
calculava ela. Era apenas um pouco difcil ver-se ali com um marido que podia querer ter sexo com ela depois de fechar o livro.
Virou a cara para a almofada, querendo chorar, o que no fazia sentido nenhum. Nunca tinha sido do tipo chorona nem tinha pacincia para as pessoas que eram. Tristeza 
ps parto? Tinha lido sobre os desequilbrios hormonais a que as mulheres estavam sujeitas depois de terem um beb.
Seria isso que se passava com ela? No lhe parecia que o seu sistema estivesse desarranjado. O mundo  sua volta  que lhe parecia no estar bem.
Ouviu a porta do quarto abrir-se. Pensando que era Rafe de regresso para ver dela, no olhou.
- Maggie?
Ao ouvir aquela voz doce e familiar, o corao de Maggie deu um salto.
Sentou-se de um pulo e olhou para a criana que estava de p  entrada do quarto, ainda com a mozinha agarrada ao puxador da porta.
 - Heidi? - Maggie no acreditava nos seus olhos. - Oh, Heidi! O que ... como  que vieste aqui parar?
A irmzinha deu um grito de alegria e atravessou o quarto a correr.
Quando chegou  cama, saltou para cima do colcho e atirou os dois braos ao pescoo de Maggie.
- Oh, Maggie, estou to contente por estares aqui! Foi imensamente divertido, mas tenho tido umas saudades terrveis de ti! Maggie mal reparou na dor de ser abraada 
quando tomou a irm nos braos. Heidi. Passou as mos pelas costas da criana e encostou-lhe a cara ao cabelo, inspirando o seu odor doce e familiar. - Oh, Heidi. 
Tambm eu tenho tido saudades de ti. No fazia ideia de que estavas c!
- Foi uma surpresa. - Heidi recuou, os grandes olhos castanhos a danarem de excitao. - Adivinha! O Rafe e o Ryan tm cavalos. Toneladas deles, e o Sly diz que 
me ensina a montar.
- Quem  o Sly?
-  o capataz do rancho.  muito simptico. Vais gostar imenso dele. Espera at o veres cuspir.
- Cuspir?
- Sim. Ele masca. - Heidi encolheu o nariz. Depois, esclareceu: Ele diz que consegue acertar numa mosca a quatro passos de distncia.
Maggie deu uma gargalhada de admirao.
- Mas que proeza espantosa.
- Ele diz que me pe pronta para a corrida dos barris no rodeio do prximo Vero. No vai ser fantstico?
- Corrida de barris? Heidi, s tens dez anos.
- Chega. O Sly diz que, quanto mais nova comear, mais possibilidades tenho de me tornar uma campe. - Deu uma risadinha abafada perante a expresso preocupada no 
rosto de Maggie. - Eu no me magoo, Maggie.  to divertido. H catorze cavalos, s no estbulo. Esta manh ajudei a limpar os estbulos. Logo que digas que sim, 
o Sly diz que posso ter a minha primeira lio de montar a cavalo.
Heidi sempre quisera ter um cavalo. Era um desejo que Maggie nunca pudera satisfazer.
- Diz que sim, Maggie. Por favor? Eu tenho muito cuidado, prometo.
- D-me algum tempo para discutir isso com o Rafe - acabou Maggie por dizer. - Se ele disser que  seguro, dou-te autorizao. Mas no caso de no dizer, no tenhas 
grandes esperanas. Talvez ele recomende que esperes at seres mais velha.
- Oh, ele no diz isso! - garantiu-lhe Heidi. Depois, com um risinho, beijou a face de Maggie. - Obrigada! Obrigada! Estou to excitada. Espera e vais ver, Maggie. 
Serei uma cavaleira fantstica. O Rafe diz que tenho uma ptima constituio fsica para correr porque nunca pesarei muito.
- Fantstico! - Queres dizer que ele j disse que podes aprender a montar?
- S depois de tu dizeres se posso. Mas quando lhe perguntei, no avio, disse que ia falar contigo. Ele comeou a aprender quando era muito mais novo do que eu.
Nessa altura, Rafe entrou pela porta aberta. Cruzando descontraidamente os braos, encostou-se  ombreira da porta, encontrando com o olhar o de Maggie por cima 
dos cabelos escuros de Heidi. Sorriu levemente e depois pareceu ouvir atentamente a animada conversa da criana.
Maggie estava morta por o interrogar. Pela vida dela, no conseguia imaginar como ele tinha conseguido tirar a Heidi a Lonnie. De forma ausente, ouvia os relatos 
entusisticos que Heidi fazia das suas experincias no estbulo. Quando a criana terminou, Rafe falou, finalmente.
- Heidi, eu sei que tens todo o tipo de coisas para pr em dia com a Maggie, mas o Sly est  tua espera. Diz que lhe pediste para te levar com ele a cavalo a casa 
do Ryan.
Heidi saltou da cama. 
- Ver o potro. O Sly diz que ele  lindo. Rodopiou para olhar outra vez para Maggie. - Posso ir?  um beb acabadinho de nascer. Chama-se Lightning Dancer e quero 
taaa-anto v-lo!
Mal Maggie deu autorizao, Heidi saiu do quarto a correr. Rafe acompanhou-a com o olhar por um momento. Ainda a sorrir. Depois, desviou a ateno outra vez para 
Maggie.
- Ela considera-a mais sua me do que irm, no ?
Maggie disse que sim com a cabea. 
- A me est to infantil que a Heidi virou-se, naturalmente, para mim. O sentimento  recproco. Tomo conta dela desde que era pequenina.
- Suponho que esteja ansiosa por saber como a trouxe para aqui.
- Anteontem, quando chegou ao hospital e me disse que tinha que estar o dia inteiro fora, a "tratar de uns assuntos", foi isso que foi fazer, no foi, buscar a Heidi?
- Fi-lo de um modo que no aborreceu a sua me - garantiu-lhe rapidamente -, no se d o caso de estar preocupada com isso.
Naturalmente, essa preocupao tinha-lhe ocorrido. Ela adorava a me, e devido ao estado do corao de Helen, a simples ideia de a afligir era aterrorizadora para 
Maggie.
- Como  que conseguiu no a aborrecer?
Coou ao lado do nariz, parecendo embaraado.
- Bem, na realidade, menti com todos os dentes que tenho na boca. - Explicou os planos fictcios de lua-de-mel na Disneylndia. -  espantoso, mas ela deixou-se 
levar - estranhou ele. - Ali estava eu, uma pessoa completamente estranha que lhe aparecia  porta, e nunca lhe ocorreu suspeitar de nada. - Piscou-lhe lentamente 
o olho. - Ps-se a afagar-me o brao e a dizer: J eram horas de a minha Maggie arranjar um jovem bom."
- J lhe disse que ela no est muito... bem, no ocorre  minha me que algum lhe possa mentir. - Maggie procurou o olhar dele. - Como  que sabia que ela sempre 
quis levar a Heidi  Disneylndia?
- Parecia ser uma aposta segura - suspirou, inclinando a cabea e esfregando ao de leve a sola da bota no tapete. - Ter-lhe-ia dito o que estava a preparar-me para 
fazer, Maggie, mas no quis preocup-la. Muita coisa podia ter corrido mal e achei que quanto menos soubesse, melhor, at poder ver com os seus prprios olhos que 
a Heidi estava aqui, segura e feliz.
Lanou-se num pormenorizado relato de como ele e Ryan a tinham tirado de l. - Aparentemente, ela tem gostado de estar aqui nestes ltimos dois dias - concluiu. 
- Nunca vi uma mida to excitada. Ela adora mesmo cavalos, no ?
- Sim. Sempre adorou. Nunca tive dinheiro para lhe arranjar um.
 Maggie passou com a mo pelo cobertor que lhe cobria os joelhos. A garganta ficou apertada quando voltou a encontrar o olhar dele, pois suspeitava de que ele tinha 
desvalorizado o risco que tinha corrido para trazer a Heidi para ali.
- Se o Lonnie fizer com que a me apresente queixa, no h uma boa possibilidade de voc ir parar  cadeia por ter feito isto?
Os cantos da boca fizeram um trejeito bizarro.
- No, claro que no.



Afastou-se da ombreira da porta e foi para os ps da cama dela. 
- Tenho o meu advogado a trabalhar no caso. Se me tramar, pacincia. O importante  que a Heidi esteja segura. - O seu olhar sustentou o dela. - Talvez tenha que 
fazer um depoimento, mas o meu advogado acha que podemos apresentar uma defesa forte e que, uma vez casados, ficaremos com a custdia temporria dela. Quando isso 
estiver conseguido, comear a trabalhar numa soluo mais permanente.
Maggie duvidava seriamente que as coisas fossem to claras como isso.
Nunca nada que envolvesse Lonnie Boyle tinha sido.
- Obrigada, Rafe. - A voz saiu-lhe angustiada e um pouco estridente. - Ter aqui a Heidi, saber que ela est segura e feliz, significa mais para mim do que sou capaz 
de dizer. No sei como  que alguma vez conseguirei pagar-lhe isto.
A boca firme dele mostrou um sorriso e entrou-lhe um brilho maroto nos olhos. 
- Tenho a certeza de que serei capaz de pensar nalguma coisa.


Captulo Onze
Rafe deu uma pancadinha na caneta em cima da secretria e depois sacudiu-a em cima do mata-borro. Recostando-se na cadeira de pele de escritrio, apoiou as botas 
no rebordo de uma gaveta aberta e olhou para o cheque que acabara de passar a Lonnie Boyle. Para algum como Boyle, pareceria uma fortuna. No eram trocos, mesmo 
para Rafe, e amargurava-o dar tanto dinheiro quele filho da me. Tudo dentro dele deu uma volta.
Suspirou e passeou o olhar pelo estdio ricamente montado. Depois de tanto tempo longe, de cada vez que inspirava, tinha clara conscincia do cheiro a leo de laranja 
e a cera para mveis, cheiros que para ele no tinham existido nos ltimos dois anos. Estantes de livros de alto a baixo cheias de clssicos encadernados a pele 
e volumes sobre agricultura e criao de animais alinhavam-se na maior parte das paredes revestidas de cedro. Os poucos espaos livres acolhiam pinturas, todas cenas 
da natureza pintadas por um artista local chamado Dobbs.
A ltima vez que se tinha sentado naquela cadeira, sentia-se como se a vida tivesse acabado. Agora, tinha Maggie, Jaimie e Heidi. J no chorava o que tinha perdido. 
O futuro sorria-lhe, brilhante como uma moeda acabada de cunhar.
Podia dar-lhes tanta coisa. Uma segunda oportunidade. Lembrou-se de como Lonnie tinha atirado  cara de Maggie a infncia vantajosa que Jaimie podia ter com os pais 
adoptivos, fazendo parecer que qualquer coisa que ela tivesse para lhe oferecer era pouco melhor do que fgado picado. Bem, agora, o rapaz at teria mais vantagens, 
assim como Heidi. Maggie podia dedicar-se a decorar os livros que lhe apetecesse e mandar vir profissionais para lhes arranjarem os quartos. Aquelas crianas nunca 
teriam falta de nada. Quanto  universidade, Rafe incitaria decididamente as duas crianas a seguir uma carreira escolar estivesse ela inteiramente relacionada com 
o rancho ou com outra coisa qualquer.
O prprio Rafe tinha duas licenciaturas e nenhuma porta estaria fechada para os filhos.
Quando estivesse tudo dito e feito, Maggie nunca se arrependeria de ter ficado com o filho nem sentiria que, ao faz-lo, tinha defraudado Jaimie, fosse de que modo 
fosse. Disso tinha ele a certeza absoluta. J gostava do rapaz e seria um bom pai, no s assegurando que nada faltasse a Jaimie, mas tambm que ele fosse educado 
com um conjunto slido de valores e de tica do trabalho.
Naquele momento, Rafe suspeitava de que Maggie achava a vastido do rancho intimidatria, mas a pouco e pouco aclimatar-se-ia e acabaria por gostar tanto como ele 
prprio. S queria que ela estivesse suficientemente bem para comear a goz-lo j. Mas no estava.
Rafe suspirou. Parecia to estranho estar outra vez  sua secretria.
Fiel  sua palavra, Ryan no tinha fechado nenhuma das contas bancrias de Rafe.
Autorizado nas contas, Ryan tinha feito cheques ocasionais para se fazer reembolsar da metade das despesas do rancho que competia a Rafe mas tinha deixado o resto 
da situao bancria intacto. Rafe precisava de revalidar a carta de conduo e a licena de piloto mas, de resto, era como se nunca de l tivesse sado. Mesmo assim, 
muita coisa tinha mudado, tudo para melhor. Maggie. Meu Deus, que sorte que tinha por a ter encontrado.
Um sorriso aflorou-lhe  boca quando pensou no seu rosto doce e se lembrou de ela lhe ter dito que no era a Susan. Como se ele confundisse as duas. Essa era outra 
preocupao dela que ele tinha que resolver, mas tudo a seu tempo. Ela no era nada como a Susan, quer no aspecto quer na personalidade, e Rafe no quereria outra 
coisa. Maggie era uma bela pessoa, por dentro e por fora.


Voltou a olhar para o cheque. Estava a protelar. Independentemente da volta que lhe desse, pagar a Boyle era uma necessidade. Podia pensar em dar-lhe uma tareia, 
mas em nome da segurana de Maggie, tinha de pr de parte os seus sentimentos e resolver aquilo, do modo mais limpo e indolor possvel.
Ps os ps no cho e tirou da gaveta um sobrescrito comercial. Depois de escrever o endereo de Boyle no sobrescrito, fechou-o, com os msculos dos ombros a contrarem-se 
de tenso. Por Maggie. Noutras circunstncias, nunca teria comprado Boyle. Tinha de considerar aquilo um investimento, o preo que tinha de pagar para a ter na sua 
vida. Uma vez que pusesse o cheque no correio, ela estaria em segurana.
E ele.
A ideia provocou um sobressalto a Rafe e, por um momento, pensou seriamente no aviso que Ryan lhe tinha feito no outro dia. Aquilo era uma base terrvel para construir 
uma relao. Estaria a ser egosta?
E se estivesse errado e no conseguisse fazer Maggie feliz? Se pensasse isso conseguiria encontrar modos de a ajudar sem a unir a ele pelo matrimnio. Legalmente, 
no estariam to seguros, claro, especialmente o que respeitava a Heidi. Mas podia tentar alguma coisa e s casar com ela em ltimo recurso.
Tambm podia subir a um ramo alto e v-la partir, pensou secamente, precisava dela. S conseguia pensar nisso, no muito que precisava dela e no muito que ela precisava 
dele. Apesar da sua determinao em controlar o seu destino e fazer tudo por ela, por baixo de tudo aquilo era vulnervel e estava assustada.
Quando olhava para ele, ele sentia-se outra vez um homem, algum de valor com uma razo para existir.
F-la-ia feliz. Estavam destinados a ficar juntos. Sentia isso sempre que olhava para ela , uma sensao profunda de justia que desafiava qualquer explicao mas 
nem por isso era menos empolgante. Conhec-la tinha-lhe dado uma segunda oportunidade e, desta vez, no repetiria os mesmos erros. Nunca nada seria mais importante 
para ele do que a famlia. Nada.
No podia deix-la fugir. No podia, pronto. Se estava, agora, a ser egosta, passaria o resto da vida a compens-la por isso.
 Maggie acordou lentamente na manh seguinte. A primeira coisa que viu foi uma coluna de leito de mogno esculpida e deu-se-lhe imediatamente um n no estmago. Em 
casa, a cama nem sequer tinha uma cabeceira, mas apenas um colcho e um div de molas de metal barato.
Na noite anterior tinha adormecido a olhar para aquela coluna de leito pois, na sua mente, era representativa de todo o mundo de Rafe Kendrick - quantidades de dinheiro 
que ultrapassavam a sua compreenso e todo o poder que acompanhava a riqueza. Maggie estava habituada a escolher as marcas mais baratas de atum. Sentia-se como se 
tivesse entrado num labirinto e talvez nunca encontrasse uma sada.
Ouviu um som atrs dela e percebeu que estava mais algum no quarto dela alm de Jaimie. No era grande surpresa. Na noite anterior, mal conseguia bocejar sem que 
Rafe ou Becca lhe enfiassem comprimidos pela boca abaixo.
E gua. Tinham-lhe andado a dar continuamente copos de gua. Se as canalizaes de uma pessoa enferrujassem, as dela j estariam corrodas.
Virando-se na cama, procurou a origem do som que a tinha acordado e viu Rafe. Naquela manh, trazia uma camisa castanho chocolate com as mangas enroladas sobre uns 
fortes antebraos bronzeados e salpicados de plos castanhos. Inclinado sobre a alcofa emprestada para mudar a fralda a Jaimie, segurava um telefone sem fios entre 
o queixo e o ombro para ficar com as mos livres.
Maggie observou-o a cuidar do filho com emoes mistas. No que tocava a Jaimie, ele era a expresso da pacincia, todos os toques das suas fortes mos eram delicados, 
a sua voz - que podia ser explosiva quando gritava ordens ao telefone - sempre baixa e cheia de afecto Jaimie era o beb dela. Rafe nem sequer sabia quem era o pai 
da criana. Mesmo assim, ao v-lo, uma pessoa pensaria que o Jaimie era dele.
Nada de muito surpreendente. Quase desde o princpio, os seus sentimentos para com Jaimie tinham sido claramente evidentes para ela. Tinha perdido o filho e, de 
repente, tinha-lhe cado no colo uma criana substituta.
Por mais grata que Maggie estivesse por tudo o que ele tinha feito por ela, e por tudo o que planeava fazer ainda, uma parte dela ficava assustada cada vez que pensava 
nas possveis ramificaes. Um homem atingido pela dor que tinha andado a fugir da vida. Agora, pusera essa dor em suspenso submergindo numa fantasia. Jaimie no 
era o menino que Rafe tinha perdido. E, assim Deus a ajudasse, ela no era Susan, o modelo de virtudes cujos louvores eram constantemente cantados pela rechonchuda 
governanta, Becca.



Que ia acontecer quando Rafe Kendrick acordasse um dia e percebesse que a sua famlia substituta nunca poderia substituir a que lhe tinha sido tirada? E que a prpria 
Maggie era uma substituta pattica da mulher que ele adorara? Quando finalmente casse em si, comearia a melindrar-se com ela? E se isso acontecesse no era possvel 
que descarregasse as suas frustraes em Jaimie?
Enquanto tratava do beb, ouvia quem quer que fosse que estivesse em linha, proferindo um ocasional "hummm" ou um baixo "estou a ver".
Evidentemente sem saber que ela estava acordada, atirou a fralda descartvel suja para um recipiente prximo e depois tirou Jaimie da caminha, p-lo ao ombro e foi 
para o hall, encostando a porta atrs de si. Pela greta, Maggie via-o a andar para trs e para diante, dando palmadinhas no rabo do beb enquanto falava, a voz modulada 
para no a incomodar. Achou espantoso que um homem que parecia to absorvido noutros assuntos pudesse, ao mesmo tempo, prestar a uma criana a ateno de que necessitava. 
As mulheres faziam sempre esse tipo de coisas, mas a experincia de Maggie era de que os homens raramente o faziam. Maggie queria acreditar que os sentimentos dele 
para com Jaimie nunca mudariam. Mas se mudassem, teria a surpresa da vida dele se alguma vez tentasse maltratar o filho dela. Primeiro, tinha de se haver com ela.
- Ontem telefonei ao Harry antes de ele sair do tribunal e ele est a preparar uma renncia para o perodo de espera. - Rafe virou-se e pisou os seus prprios passos, 
embalando Jaimie, que comeava a ficar nervoso. - Que tal parece a situao em relao  Heidi?
Escutou por um momento.
- Sim, a Becca matriculou-a na escola esta manh. Falei com o director ao telefone e ele disse-me que rolariam cabeas se autorizasse algum que no fosse a Becca 
ou um membro da famlia a ir busc-la. Fez um aceno decidido com a cabea. Est coberto. Entendo que precisamos de andar depressa. O Doutor Kirsch aparece hoje e 
vem a um funcionrio do tribunal com a papelada. Portanto, agarra-te a isso, est bem, Mark? Antes de nos casarmos, quero o meu nome nessa certido. Esse tipo do 
Boyle  um excntrico. Mandei-lhe o cheque mas, segundo a Maggie, ele no  de confiana. Inclino-me para achar que ela tem razo. Silncio.
Depois, Rafe soltou um suspiro enfastiado.
- Por a, no h problema. Ela est disposta a assinar o que for necessrio. Preenche os impressos, minuta os documentos e aparece com eles.
Maggie puxou mais os cobertores e olhou desolada para a lareira vazia do outro lado do quarto. Quando Rafe Kendrick decidia fazer alguma coisa, era como uma bola 
de bowling a rolar num plano inclinado. Estava satisfeita, por um lado. No queria que houvesse nenhuma possibilidade de poder perder Jaimie e era essencial que 
obtivessem a custdia temporria da Heidi o mais depressa possvel, coisa que, provavelmente, no se poderia conseguir com tanta facilidade se no fossem casados. 
Mas as coisas a acontecerem to depressa tambm era um pouco enervante. Ainda no estava naquela casa h vinte e quatro horas e Rafe andava a organizar coisas desde 
que chegaram. Parecia-lhe que ele estava a fazer presso para que o casamento se realizasse imediatamente.
- Estou-me nas tintas para a maneira como fazes isso - ouviu-o ela dizer.
Admirada com a veemncia da voz de Rafe, Maggie voltou a olhar para a porta parcialmente aberta. Viu-o dar outra volta e, depois, parar.
- Sim? Jameson, sim. Nunca ouvi falar.  bom? - Outro silncio. Ento, contrata-o.
Maggie avistou a figura corpulenta da governanta no corredor. No instante seguinte, Rafe tinha um bibero na mo. 
- Obrigado, Becca - murmurou.
Passou Jaimie do ombro para a curva do brao e comeou a dar-lhe o bibero. 
- Que diabo, sim. No hesitarei - disse ele. Depois, riu-se: -  o menor de todos os males. No perderei o sono por causa disso, posso dizer-te. Parou para olhar 
de modo caloroso para o beb que tinha no brao. - Da maneira como vejo as coisas, para todos os efeitos, ele  meu. Outro longo silncio. - Agradeo, Mark.
Ela ouviu o bip do telefone quando a ligao foi interrompida. No instante seguinte, Rafe meteu a cabea pela porta. Quando viu que estava acordada, sorriu e voltou 
a entrar no quarto. Prendeu o telefone ao cinto como se se tivesse tornado uma parte necessria do corpo.
- Bom dia, dorminhoca. - Aproximou-se da cama. - Quer acabar de dar o pequeno-almoo ao seu filho?
Maggie estendeu os braos para o beb. Mantendo a mo inclinada para que Jaimie no sugasse ar, Rafe ps a criana ao lado dela. Quando agarrou no bibero, os dedos 
rasparam nos dele e sentiu um formigueiro pelo brao acima. Como se tivesse dado pela sua reaco, dirigiu-lhe um olhar cintilante. Maggie estava to enervada que 
se esqueceu de manter o bibero inclinado e a tetina emitiu um apito.
- Ups. - Rafe pegou no fundo do bibero para o inclinar. Apareceu-lhe no canto da boca um sorriso de entendido. - Clica, a vamos ns.
Dirigiu-se a uma caixa de cor creme montada na parede, junto  porta. Premindo um boto, disse:
- Becca, a Maggie j acordou.
Um instante depois, voltava a voz da governanta, dizendo: - J tenho o tabuleiro dela quase pronto.
Voltou a premir o boto - No te esqueas dos medicamentos, por favor. Oh, Becca, e traz um jarro de gua, est bem?
Embora Maggie continuasse a olhar para o beb quando Rafe voltou para a cama, apercebeu-se de todos os seus movimentos. Sentia-o observ-la e adivinhou que estava 
a sorrir. Pelo menos, um deles estava a gostar daquela situao. Pessoalmente, sentia-se como que numa montanha-russa a alta velocidade com Rafe Kendrick a manejar 
os comandos.
- Um cntimo pelos seus pensamentos - disse ele quando se sentou na borda do colcho, com o cheiro rico, vagamente picante do seu aftershave a rode-lo. - Esta manh 
est com um ar muito srio por qualquer razo.
Os pensamentos dela eram srios. Por vontade dela, nunca se casaria. Uma vozinha, na borda da mente, passava a vida a dizer-lhe: No fales isso, Maggie. No  s 
um arranjo temporrio.
- Querida, pode falar acerca disso? Seja o que for que a aborrea, diga-me. Se ainda est preocupada com a possibilidade de perder o Jaimie ou de termos que mandar 
a Heidi para casa, no esteja - disse-lhe ele numa voz rouca. - Est-se a tratar dos arranjos legais. Estava ao telefone ainda agora com o Mark Danson, um velho 
amigo e advogado. Ele disse-me que lhe dissesse que no tem nada que se preocupar, que ele est a controlar tudo. Pode tratar das alteraes na certido de nascimento 
do Jaimie por fax e ter isso pronto esta tarde. Tambm est a telefonar para um procurador de adopo chamado Jameson. O tipo  um guru. Tratar de quaisquer problemas 
que resultem desses papis que assinou, e tambm tratar da situao da Heidi. Quando estivermos casados, estaremos um passo mais perto de obter a custdia temporria 
dela e, quanto ao Jaimie, o Lonnie ficar com as mos completamente atadas.
Oh, como desejaria estar absolutamente segura daquilo, mas a experincia fazia Maggie quase recear ter esperana.
- E quando ser o casamento? - perguntou ela. - Parece que voc est a fazer fora para que seja em breve.
- Numa situao destas, quanto mais cedo estiver tudo feito, mais seguros estamos.
No conseguiu olh-lo nos olhos.
- Querida, o que ?
- Parece... - Maggie mordeu o lbio. - Est a acontecer tudo muito depressa, mais nada. - Arranjou coragem e olhou para ele. Aqui estou eu, quase a casar-me, e ainda 
nem sequer posso levantar-me da cama.
Tocou-lhe com um dedo na ponta do nariz. A voz soava a divertida quando respondeu:
- Se estivesse completamente bem, provavelmente passava a primeira semana de casada na cama.
O estmago de Maggie parecia que lhe tinha cado, atravessado o colcho e parado no cho. Um calor ardente apoderou-se-lhe do rosto.
Ele suspirou e ps-lhe um brao de cada lado, formando o seu largo peito uma abbada de msculo por cima dela e do beb.
- Desculpe. No devia provoc-la desta maneira. 
Quando ela desviou a cara, ele inclinou-se para a olhar outra vez nos olhos. 
- Maggie... - disse ele num tom suavemente severo -... j lhe disse que no se preocupasse com isso. Certo? No haver problemas, prometo. Seja o que for de que 
tem medo, tire isso da cabea.
Fazia parecer tudo muito fcil, mas no era. Pelo menos, para ela.
Apoiando-se num brao, passou-lhe os ns dos dedos pela face. 
- No vai recuar no ltimo minuto, pois no?
O corpinho quente de Jaimie estava encostado a ela, uma lembrana do que poderia perder se o fizesse. 
- No - conseguiu dizer. - No quero recuar.
Sentiu a tenso dele aliviar um pouco.
 - Tem a certeza? Se est a reconsiderar, diga j, querida, antes que seja demasiado tarde.
Ele agia como se ela tivesse opo.
- Tenho a certeza - disse ela com indiferena.






Captulo Doze
No dia seguinte, ao fim da tarde, Maggie tornou-se mulher de Rafe Kendrick, sendo Heidi o nico membro da famlia dela a assistir, e Ryan e Becca a fazerem de padrinhos. 
Para Maggie, a rpida cerimnia junto  cama foi um sacrifcio.
- Margaret Lynn Stanley, aceita este homem, Rafael Paul Kendrick, como seu marido legalmente casado, prometendo am-lo e respeit-lo, para o melhor e para o pior, 
na doena e na sade, at que a morte os separe? - perguntou o juiz.
Maggie dirigiu um olhar de pnico a Heidi e depois para a alcofa. Atravs da camisa de noite de flanela, a mo de Rafe parecia to grande como uma luva de basebol 
a envolver as suas costelas. 
- S... Sim.
Os dedos dele apertaram-se quando o juiz terminou a sua recitao e chegou a vez dele. Ento, com uma voz forte e firme, disse: - Sim.
- Tm as alianas?
Quando o juiz lhe fez sinal, Ryan avanou com as alianas. Quando abriu a tampa de uma caixa de veludo vermelho e pegou numa para ela, Maggie tirou a aliana de 
casamento de homem, de ouro de lei, de um embrulho de cetim branco.
Rafe tirou o brao das costas dela para lhe estender a mo. Ela olhou-lhe para os dedos longos com ns calejados, marcas de uma vida inteira de trabalho duro.
Reparou que Becca fungou e disse: 
- Oh! - numa voz trmula.
- Enquanto enfia a aliana, Maggie, repita comigo... - ensinou o juiz Barker.
O som da voz do juiz e a dela enredavam-se-lhe na mente. Quando se preparava para a enfiar no dedo de Rafe, a aliana escapou-lhe da mo e caiu no tapete, saltando 
antes de lhe aterrar entre os ps descalos.
Quando se agachou para a apanhar, Rafe agarrou-lhe com uma mo quente o tornozelo, que estava escondido pela bainha da camisa de noite. Maggie deu um salto, como 
uma gazela assustada. Ele dirigiu-lhe um olhar, passando rapidamente a sua expresso de preocupao a desorientao.
Quando se levantou, olhou-a nos olhos. Dessa vez, ajudou a enfiar a aliana no dedo.


Depois disso, tudo pareceu acontecer com uma rapidez estonteante e a coisa seguinte que soube foi que Rafe disse numa voz forte: - Com esta aliana, caso contigo.
Maggie ficou de boca aberta a olhar para a aliana de casamento que ele lhe enfiou no dedo. Os diamantes entrelaados pareciam to grandes como uma moeda de cinco 
cntimos de dlar  sua viso desfocada. Quando lhe largou a mo, o brao caiu-lhe como se tivesse uma ncora presa a ele.
Ele voltou a pr-lhe um brao  volta da cintura. Era s imaginao dela ou agora estava a tocar-lhe de uma maneira diferente? Maggie tinha a certeza de que as pontas 
dos dedos dele se aninhavam mais intimamente debaixo do peito dela.
O juiz sorriu e fechou o livro. O som fez lembrar a Maggie um ferrolho a fechar-se. 
- Rafe, j pode beijar a sua noiva.
Rafe pegou-lhe no rosto com as mos e fez valer delicadamente os seus direitos  boca dela. A mente de Maggie ficou desorientada. No conseguia sentir os prprios 
lbios e vacilou quando ele a largou.
- Desejo as maiores felicidades a ambos - disse o juiz.
- Obrigado, Harry. - Mantendo o brao esquerdo  volta dela, Rafe inclinou-se para a frente para apertar a mo ao juiz. - E pode deixar de se preocupar. Ou a fao 
feliz ou morro a tentar.
Maggie piscou os olhos. Rafe parecia quase estar  defesa. Concentrou-se no juiz, que olhava para ela com preocupao. Ryan tinha a mesma expresso preocupada. Seria 
assim to bvia a sua relutncia em casar-se com Rafe?
Ryan atirou as caixas das alianas para os ps da cama.
- Afasta-te, meu irmo. Agora,  a minha vez de beijar a noiva. Talvez obtenha uma reaco mais entusistica.
Rafe deu uma gargalhada pouco entusiasmada e tirou o brao, enquanto Ryan a agarrava pelos ombros. Viu-se a olhar para uns olhos azul-acinzentados muito parecidos 
com os do marido. Na incerteza do que esperar, ficou tensa quando Ryan inclinou a cabea, com os lbios quase a roarem os dela. Depois, ele sussurrou-lhe ao ouvido.
- Ele  um velho urso de peluche. No ponha um ar to preocupado.
Quando Ryan a largou e se afastou, ela olhou para a face morena do noivo.
O msculo do queixo estava contrado e viu-lhe uma cintilao inequvoca nos olhos que lhe fazia lembrar o reflexo de pedaos de gelo. Um urso de peluche?
- Parabns, Maggie! Uau, ests casada. Nem acredito! - Heidi deu rpido abrao a Maggie. Depois, virou-se para Rafe. Ele sorriu e puxou-a para si.
- Isto quer dizer que s meu irmo? - perguntou Heidi.
Ryan despenteou o cabelo da menina de dez anos. 
- Significa que arranjaste dois irmos, sardanisca. Finalmente, arranjei uma irm para atormentar. - Torceu-lhe a ponta do nariz: - O que  que achas disso?
Os olhos de Heidi brilharam com alegre expectativa quando levou o olhar de Ryan para Rafe. Vestida com um top cor-de-rosa novo e um par de caros jeans de marca, 
parecia radiante de felicidade e a verdadeira adorao que se manifestava no seu olhar indicava que j tinha desenvolvido uma paixoneta pelo novo marido de Maggie 
e pelo seu cunhado. - Tambm vais atormentar-me, Rafe?
Rafe riu-se. 
- Provavelmente.  um passatempo irresistvel para irmos mais velhos. Mas s at fazeres dezasseis anos. Depois, passamos a tornar impossvel a vida dos teus namorados.
- Namorados? Bah!
A indisfarada repugnncia da criana pela ideia fez toda a gente que estava no quarto rir-se. Quando o som desapareceu, Maggie sentiu que as atenes se concentravam 
nela.
Ps um sorriso e disse: - Bem, graas a Deus, j est!
Assustava-se, mesmo a falar, pois parecia uma pessoa que tinha feito uma operao sem anestesia.
- Sim - disse Rafe secamente. - Graas a Deus.
- Nem tanto - disse o juiz. - Ainda h os papis para assinar. Dirigiu-se ao toucador.
Rafe encaminhou Maggie para o outro lado do quarto. A mo dela tremia quando assinou os documentos e tinha plena conscincia de que o novo marido continuava com 
o brao  volta dela quando pegou na caneta e se inclinou para fazer a sua prpria assinatura. Quando se endireitou, disse: 
- Est a sentir-se como se tivesse dado a sua vida, Senhora Kendrick?
Aquilo que sentia - fosse a respeito do que fosse - no interessava.
Naquele momento, parecia-lhe que nunca tinha interessado.
- No sentimos todos quando nos casamos? Afinal, normalmente, as pessoas no pensam nisto como uma coisa temporria.
-  precisamente essa a minha opinio. - Agarrou-a ao de leve pelos ombros e conduziu-a para a cama. - J esteve levantada tempo suficiente. V de volta para a priso.
Foi isso que sentiu quando se enfiou entre os lenis novos, que ele estava a p-la de novo numa gaiola. Ele ajeitou as almofadas. Os ns dos dedos rasparam na flanela 
por cima dos seios dela quando alisou a dobra do lenol. Os mamilos contraram-se e transformaram-se em bicos rijos.
Sentiu as pontas espetadas contra as suas mos e olhou. Durante vrios momentos, olharam um para o outro. Depois, ele tirou a mo, voltando os ns dos dedos a raspar 
nela. Maggie sabia que o toque no tinha sido intencional, mas nem por isso era menos perturbador.
- Bem! - disse Becca, com uma lgrima no olho e a fungar. - Este casamento foi to maravilhoso como qualquer outro que j vi, absolutamente maravilhoso.
Maggie olhou para a camisa de noite de flanela. Maravilhoso? O noivo estava vestido de jeans e uma camisa de trabalho de cambraia. Quando era pequena, imaginara 
casar-se um dia de vestido de noiva branco de renda com uma longa cauda e vu. H anos que tinha abandonado esse sonho, mas ainda se sentia triste. A vida real nunca 
acabava por ser como se imaginava que pudesse ser quando ramos crianas, nem mesmo que nos casssemos com o equivalente moderno do prncipe encantado.
A aliana cintilava-lhe no dedo enquanto brincava com o lenol e ouvia, ausente, as gargalhadas de Heidi. Perguntava a si mesma se Rafe tinha ido escolher as alianas 
ou se limitara a dar mais uma ordem pelo telefone, deixando o joalheiro escolher por ele. Grandes como eram os diamantes, o desenho de ligao era delicado e feminino.
- Espero que goste - disse-lhe ele numa voz to spera como lixa. Maggie levantou a cabea e deu com ele ainda ali, de p. Dobrando o polegar, tocou na parte de 
baixo da aliana que lhe causava uma sensao to estranha no dedo. 
-  lindssima. Como  que sabia o meu nmero?
- Adivinhei. Se no apreciar o meu gosto, podemos trocar. - Fez um trejeito com um canto da boca e encolheu os ombros. - De algum modo, o desenho faz-me lembrar 
de si. Delicado mas radioso.
Ento tinha sido ele a escolher pessoalmente. Maggie ficou contente. De algum modo, saber isso fazia com que a aliana tivesse mais significado para ela. 
- Eu gosto. - Era mais encantadora do que qualquer coisa que ela prpria pudesse ter escolhido e provavelmente tinha custado este mundo e o outro. Infelizmente, 
o prazer que lhe dava estava arruinado.
Aquilo no lhe tinha sabido a um verdadeiro casamento. Era mais um arranjo de convenincia. E se mais tarde se separassem, teria de pagar os diamantes. Sentia-se 
como se estivesse a afundar-se cada vez mais de cada vez que respirava. 
- Obrigada.
Becca tirou Jaimie da alcofa e encaminhou-se para Ryan. Este comeou a juntar a parafernlia do beb dentro do cesto, sob a orientao de Becca.
- O que  que eles esto a fazer? - perguntou Maggie a Rafe.
- A Becca vai levar o Jaimie e a Heidi para casa do Ryan, onde vo passar a noite, para ns ficarmos sozinhos. Embora, estando doente, adiamos o bolo, o champanhe 
e a abertura dos presentes para a prxima semana. Tinha medo de que demasiada agitao hoje pudesse cans-la.
Com a ateno fixada em Jaimie, Maggie reprimiu as suas objeces. Era a noite de npcias deles. Rafe tinha tido a pacincia de aceitar a presena do Jaimie, no 
se queixando nem ficando zangado uma nica vez, mesmo quando o beb chorava. Como seu marido, tinha o direito a esperar pelo menos uma noite sozinho com ela, com 
um olhar preocupado, viu Becca sair do quarto com Jaimie nos braos e a Heidi atrs dela.
Ryan fechava o cortejo, com a alcofa segura  altura da cintura. 
- No se preocupe com o trabalho - disse ele ao telefone, por cima do ombro. - Tenho os homens a tomar conta do gado e voltarei para dar comida aos cavalos.
O juiz fechou a pasta, dirigiu um sorriso de despedida a Maggie e juntou-se  sbita debandada. 
- J volto - disse-lhe Rafe. - Tenho que acompanhar o Harry  porta e tratar de umas coisas.
Ela no tinha grande pressa. Quando a porta se fechou atrs dele, relaxou encostando-se s almofadas e fechou os olhos, incapaz de esquecer que ele tinha raspado 
acidentalmente com os ns dos dedos na frente da sua camisa de noite. Sentia os seus terminais nervosos como se estivessem  vista e cada vez que a flanela lhe raspava 
nos peitos fazia arder a pele.
Instalava-se-lhe no estmago uma sensao de enjoo quando virava a aliana no dedo. Tinha-o feito. Estavam casados. Tinha de se lembrar de que a irm e o filho estavam 
em segurana e tentar no pensar em mais nada.


Ouvia o tiquetaque alto do relgio de p, que atravessava o quarto, com o pndulo a marcar os segundos. A noite de npcias deles. Oh, meu Deus. Mas no conseguia 
encontrar maneira de contornar a questo. Supunha que podia dizer a Rafe que ainda estava dorida do parto, mas sempre fora uma pssima mentirosa. Era melhor tomar 
o medicamento do que correr o risco de o aborrecer. Passar aquela noite j era sacrifcio suficiente sem isso.
Passaram quase vinte minutos at ele abrir a porta. Trazia uma bandeja de prata equilibrada nas mos. Debaixo do brao, trazia dois candelabros de prata com velas 
compridas.
- Eia - disse, com um sorriso, dirigindo-se a ela: - Decidi que devamos celebrar bebendo um bom vinho pelos " Waterford" da minha av.
Maggie olhou para os delicados copos de p alto.
 - So encantadores.
- Guardou-os durante anos. A minha av deu-os  minha me como prenda de casamento e ela, por sua vez, deu-os  Susan, igualmente como prenda de casamento. Agora, 
o servio passa a ser seu.
Atravessou-se na garganta de Maggie um assomo de ressentimento. Estava a viver na cada da Susan, possivelmente estava a dormir na cama dela e agora tinha-se casado 
com o marido dessa mulher e estava a herdar as prendas de casamento dela. Maggie de segunda mo. Sentia-se intrusa.
Empurrou o candeeiro e o telefone para o lado com o antebrao, para arranjar espao na mesa-de-cabeceira. Becca tinha tido imenso trabalho a pr acepipes em pratos 
de papel rendilhado: queijos, pedacinhos de funcho em vinagre, azeitonas verdes e pretas, presunto e carne de vaca s tiras e bolachas. Ele tinha trazido a garrafa 
de vinho.
- Para nos irmos servindo - explicou ele quando a viu olhar para a garrafa. - Achei... - Endireitou-se e puxou para cima o cabelo, que lhe tinha cado para a testa 
em ondas pretas soltas e brilhantes. Parecia nervoso e como que desassossegado, como se tivesse andado a correr e s agora tivesse tido a possibilidade de recuperar 
a respirao. Quando tirou a rolha da garrafa e serviu um pouco a cada um com movimentos cuidadosos, disse: - Sei que est um bocadinho nervosa. Pensei que isto 
talvez ajudasse.
- Posso beber a garrafa toda?
Mal as palavras lhe tinham sado da boca, j Maggie se tinha arrependido.

Mas em vez de se mostrar perturbado, Rafe s se riu. Ainda a sorrir, sentou-se e dirigiu-lhe um olhar pensativo. Ao cabo de dois segundos, Maggie comeou a sentir-se 
como se aqueles olhos azul-acinzentados estivessem a virar-lhe a pele do avesso. Agarrou-se, tensa, ao plo rosa velho do cobertor.
- Est mesmo nervosa - disse ele finalmente, com voz baixa e sedosa. - Peo-lhe desculpa por isso. Tenho andado to atarefado a tratar das coisas que a deixei  
espera e ignorei-a.
- Tratou das duas pessoas com quem mais me importo. No me importo de ficar  espera. A srio.
- Aposto que no - disse ele, num tom que revelava um delicado gudio. - E o erro  meu. Devia ter tentado p-la mais -vontade em relao a isto.
- Voc tentou. - Maggie encolheu os ombros. - Desculpe, eu... que...  a rapidez. Isto , em certos aspectos, parece que o conheo desde sempre. Odeio estar na 
cama, pelo que cada minuto que tenho passado doente me parece durar anos. Mas depois penso: eu conhecia-o h uma semana? Eu...
- No tem que explicar. - Ps-lhe a mo no pescoo, fazendo-lhe outra vez com as pontas dos dedos na pele aqueles crculos de fazer parar a respirao que lhe tinha 
feito no Cessna quando a beijou. - Eu sei. Vamos devagar e bem.
Devagar? Ela preferia a abordagem rpida e dolorosa. Ficou imensamente aliviada quando ele tirou a mo para ir buscar os copos de vinho. Os dedos dela tremiam quando 
pegou no p frio do copo que ele lhe entregara. Ele estendeu-lhe o seu:
 -A ns e a muitos anos de felicidade juntos.
Quando Maggie foi tocar com o seu copo no dele, o bater do copo retiniu vrias vezes, sinal revelador de que estava a tremer muito. Consternada, afastou para acabar 
com o barulho e entornou vinho na frente da camisa de noite. 
- Ai, credo!
Rafe pegou num guardanapo e comeou a esfregar levemente a flanela, cada raspadela da roupa no seio fazendo-lhe os nervos dar um salto. Agarrou-lhe instintivamente 
o pulso, entornando com isso ainda mais vinho. Lgrimas ardentes inundaram-lhe os olhos.
- Desculpe. Estou a arranjar aqui uma grande confuso. Desculpe.



Tinha de parar com aquilo. J! E se tornasse aquilo to mau que Rafe ficasse indignado e decidisse anular todos os acordos? At consumarem o casamento, podia obter 
a anulao. Tinha tornado claro desde o princpio que esperava que ambos tornassem aquilo um verdadeiro casamento em todos os aspectos. Ela precisava dele. Sem a 
sua proteco, no teria como manter o filho e Heidi em segurana.
Ele pegou noutro guardanapo para a ajudar a limpar-se. Ela decidiu largar o copo antes que entornasse o vinho todo. Procurou s apalpadelas um espao no tabuleiro. 
No instante em que o largou, o copo caiu e bateu na garrafa de vinho. Horrorizada, Maggie olhou para os cacos.
- Oh, no! O cristal da Susan!
- No se preocupe com isso.
- No me preocupo? - A prpria maneira como ele tinha pronunciado o nome "Waterford" disse-lhe at que ponto o cristal era especial. - Peo muita desculpa. Sei como 
a Susan o deve ter estimado. No queria parti-lo.
Deitou um longo olhar ao copo partido e depois recomeou a limpar-lhe a camisa de noite. - No  to importante como isso, acredite.
- E estraguei a comida!
- H mais no stio donde esta veio!
De repente, ele parou com o olhar fixado nos contornos do mamilo erecto dela, que empurrava com fora, pontiagudo, o tecido ensopado em vinho carmesim. Durante um 
momento horrvel, Maggie tambm olhou para o mamilo.
Depois, ps a mo em cima do seio para esconder o que era evidente.
Quando voltou a levantar os olhos, Rafe estava a olhar pela janela, com um msculo a palpitar no queixo. J no havia riso nem terna compreenso nos olhos dele. 
Parecia suficientemente furioso para roer as unhas.
Ps-se em p to repentinamente que ela ficou admirada.
- No tencionava estragar esta celebrao - apressou-se ela a explicar. - Foi tudo um acidente. Francamente. Peo desculpa pelo copo.
Ele praguejava baixinho e ps o copo de vinho no tabuleiro com um estalido que se ouviu muito bem, com o olhar abrasador dele fixado em si, o corao de Maggie j 
estava aos saltos. Recordaes de Lonnie furioso atravessaram-lhe a mente. Quando Rafe fez um movimento repentino com a mo, ela estremeceu e levantou um brao.

Ele parou com os dedos abertos perto da tmpora. Quando ela percebeu que ele ia apenas passar-lhe os dedos pelo cabelo, como fazia frequentemente, sentiu-se uma 
parva.
Uma expresso dorida atravessou-lhe o rosto moreno e os lbios contraram-se num esgar.
- Eu... acabei de me lembrar de uma coisa que preciso de fazer.
Dito aquilo, virou-se e saiu do quarto. A porta fechou-se atrs dele com estrondo. Maggie ficou ali sentada, a olhar para o painel de madeira, sentindo-se doente.
Devia escrever um livro, pensou ela de modo um pouco histrico. Como Livrar-se do Seu Noivo em Cinco Passos Fceis.
Oh, meu Deus, meu Deus... Aquilo no tinha graa. Ele estava furioso com ela e ela no podia critic-lo por isso. Fora to amvel e paciente para com ela. Tinha-o 
humilhado durante a cerimnia. Agora, ainda por cima, tinha partido o "Waterford" da sua falecida mulher e estragado a festinha que ele planeara. At as velas estavam 
salpicadas de vinho.
Tinham feito um acordo e ela tinha faltado ao combinado. Se ele voltasse e lhe dissesse que levasse a irm e o beb de l de casa para fora, no era mais do que 
o que ela merecia.
Rafe afundou a bota no feno e empurrou com tanta fora que o fardo deslizou pelo cho do armazm de raes. Deu-lhe uma dor no joelho.
Praguejou e ficou a andar em crculos, coxeando. 
- Filho da me - Teria partido o dedo grande? - Que chatice.
Aquilo ensin-lo-ia a no ter frias, pensou ele, encaminhando-se, a coxear, para o local aonde o fardo tinha ido parar, junto  parede inacabada. Afundou-se com 
agrado, no feno, apoiou um cotovelo no joelho e ps-se a massajar o dedo, que latejava, por cima do cabedal. Quando, finalmente, a dor passou, voltou a praguejar 
e cobriu a cara com as mos.
Acabei de me lembrar de uma coisa que preciso de fazer. Sempre que se lembrava de ter dito aquilo a Maggie, ficava com uma vontade doentia de se rir. Grande problema!
Era um pouco difcil sair e dar um pontap no prprio traseiro. Mas, Meu Deus, que vontade tinha de o fazer. Estpido! No seu tempo, tinha feito algumas boas, mas 
esta levava a palma a todas. Onde diabo tinha tido a cabea nos ltimos dias?



Ela estava assustada de morte e tinha-a empurrado para casar com ele mal lhe prestando um segundo de ateno desde que a trouxera para ali, excepto para lhe enfiar 
comprimidos ou gua pela boca abaixo Uma pessoa podia sofrer de muito mais doenas do que as fsicas,  ele tinha ignorado completamente esse facto, to decidido 
a fazer o que ele queria que no deu a mnima importncia aos sentimentos dela.
Bem, estava feito. Tudo legal e vinculativo. Sentia-se como se tivesse andado a fazer uma corrida de dias, com um monstro devorador de homens a morder-lhe os calcanhares, 
acabando por ser apanhado quando estava a chegar, cambaleante,  zona de segurana. Aquele olhar nos olhos dela. Jesus Cristo! Tinha preparado o tabuleiro de comida 
e tinha-o levado para o quarto com o objectivo de pr em prtica a mais suave seduo de todos os tempos. P-la um pouco alegre com o vinho e, depois, beij-la delicadamente 
at ela esquecer aquele domnio mortal da maldita camisa de noite que lhe cobria cada doce centmetro. Ah, sim. Rafe Kendrick, o grande amante, com a sua vtima 
escolhida to aterrorizada que no conseguia pegar num copo de vinho. Bem, nimo. No h problema. Ela tinha todas as partes habituais do corpo. Podia ultrapassar 
as reservas dela provocando-a e beijando-a, at ela estremecer com as convulses do orgasmo. Estava feito.
Na sua vida, j tinha tido vergonha de si mesmo algumas vezes, mas nunca desta maneira. Cuidado, no te tornes tu mesmo um filho da me. Ryan tinha-o avisado. Se 
ao menos lhe tivesse dado ouvidos. Agora, ali estava ele sentado, a odiar-se. E Maggie continua deitada naquela cama, a tremer, sem dvida,  espera que ele volte 
e a viole. Se no tivesse sido to horrvel, talvez pudesse ter-se rido. Nunca se impusera a uma mulher na sua vida e tinha a certeza absoluta de que no era agora 
que ia comear.
- No s a imagem da felicidade no casamento. Problemas no paraso, j?
Rafe levantou a cabea e viu o irmo em p  porta do armazm de raes, de ombro encostado  ombreira.
- Por que diabo no me meteste algum juzo na cabea, Ryan? Lamentou-se outra vez e passou a mo pelos olhos. - Meu Deus. Desde quando  que penso em mulheres como 
pedaos de carne?
Ryan franziu os lbios e coou imediatamente abaixo da aba do chapu, que usava inclinada para baixo, sobre os olhos. 
- No ests a ser um pouco duro contigo? Sem dvida que tens sido um pouco egosta, mas no a maltrataste.
- Claro que sim, que maltratei, e tu sabes muito bem que sim. Porque  que no disseste nada?
- Bem, ento. H uma coisa. Acho que foi porque no gosto de levar um pontap no rabo.
Rafe dirigiu mais um longo olhar ao ombro do irmo. 
- Sim, est bem. Preciso de um ms para arranjar peso suficiente para me atirar a ti. Ryan meteu um dedo por dentro do colarinho aberto da camisa. 
- Tu no s propriamente franzino. - Estudou Rafe por um momento. Mudaste desde que te foste embora. H em ti um lado duro. - Os lbios crisparam-se-lhe. - Eu prefiro 
ficar com uma cara como est, obrigado. E tento, sempre que posso, no me meter nos assuntos das outras pessoas, incluindo os do meu irmo. Eu avisei-te e previ 
isto. E basta.
- Tomara eu ter-te dado ouvidos.
-  assim to mau? Bolas. S sa por uns minutos. Ela parecia suficientemente bem quando sa.
- Suficientemente bem? - Rafe ficou a pensar naquilo. - Acho que isso define a situao, no era exactamente saltar de alegria, mas tambm no estava histrica. 
- Riu-se amargamente.
- A Maggie vai ficar bem. Passou por tempos difceis mas vai ultrapassar isto.
- No sei o que lhe hei-de dizer quando voltar para l.
- Que diabo fizeste tu? Saltaste-lhe para cima?
- Claro que no. Estava a preparar o terreno.
- Eu sabia que comearias a tempo a entender que te tens portado de uma maneira estpida. - Ryan venceu a distncia entre eles, batendo com os taces das botas no 
cho de madeira. - Chega-te para l. Se tenho que me armar em conselheiro, vou-me sentar.
Rafe afastou-se para arranjar espao. 
- Vendo bem, porque  que estou a falar contigo? Nunca foste casado. Provavelmente, estragarias a tua noite de npcias ainda mais do que eu estraguei a minha.
- Eu nunca terei o mesmo tipo de problemas. Verifico a mercadoria antes de comprar. Noivas a tremer  coisa do passado. Hoje em dia, as raparigas  que nos do instrues 
e eu gosto assim. Nascido para agradar s senhoras, sou eu.
Naquela altura, uma mulher experiente com preferncias definidas em matria de tcnicas de fazer amor era uma coisa que soava muito bem a Rafe. 
- A Maggie no  assim.
- s um anjinho. S agora  que reparaste?
- Pra com isso. J me sinto suficientemente mal, est bem?
Ryan inclinou-se para a frente, repousando os braos em cima dos joelhos.
Tal como Rafe, ps-se a olhar para o feno espalhado pelo cho.
- Bem... Agora que percebeste como tens sido parvo, o que  que vais fazer?
- Eu tenho sido parvo, no tenho?
- O mais possvel.
Rafe esfregou o taco no feno. 
- Se no consumar o casamento, no  vinculativo. Ela ainda pode obter a anulao.
- Tu s incurvel. - Ryan empurrou o chapu para trs e fixou um olhar incrdulo no irmo. - Queres ouvir-te a ti mesmo?
Rafe abanou a cabea. 
- Eu sou incurvel, no sou? Agora que a encontrei, tenho tanto medo de a perder que estou paranico. E no  s por ela poder decidir deixar-me. Esta coisa do rim, 
saber que pode azedar se os antibiticos deixarem de funcionar. Pedi ao doutor Kirsch que a observasse. Ele diz que est a reagir bem. Mas preocupa-me e parece que 
no consigo deixar de pensar naquilo.
- Temos tendncia para nos preocuparmos com as pessoas de quem gostamos, Rafe.  normal. Tu foste apenas um pouco longe de mais. - Encolheu os ombros. - Que diabo, 
um mdico sabe que as suas ordens no sero cumpridas  risca uma vez que o paciente v para casa. Se fosse uma situao de vida ou morte, no achas que os doentes 
se manteriam no hospital?
- Provavelmente - admitiu Rafe.
- Tenho a certeza de que ela no morrer por ir  cozinha fazer uma sanduche. Mantiveste-a acorrentada quela cama desde que aqui chegou e houve alturas em que 
receei que afogasses a pobre da rapariga. - Ryan, riu-se. 
- Todos os relgios da casa acertados para tocarem  hora dos medicamentos  outra bonita coisa. Hoje, estava a almoar com a Becca e, precisamente ao meio-dia e 
meia hora, despertadores e rdios comearam a tocar em toda a parte. Fez-me lembrar a vida em dormitrios. Como se os rins dela piorassem se te atrasasses trinta 
minutos com os medicamentos.
Rafe assustou-se: 
- Tenho sido assim to mau?
- No  exactamente ser mau. Acho que toda a gente sabe que tens boas intenes, incluindo a Maggie.  s que... - Franziu o sobrolho e empurrou o chapu para trs. 
- Podes relaxar um pouco, sabes? Ela vai ficar ptima... se a ideia que tens de cuidados em casa no a matar.
Rafe riu-se. Era verdade, achava ele. Andava a portar-se como se Maggie fosse uma doente terminal, e isso no era tudo. Pensou nos seus actos dos ltimos dias e 
tentou ver-se a si mesmo como os outros deviam v-lo. A imagem que formou no era agradvel de enfrentar. 
- Realmente, arranjei um sarilho, Ryan. No a devia ter empurrado para este casamento.
- Bem, mas empurraste. Agora, tens que tirar o melhor partido disso. Agora, no  s no bem-estar do Jaimie que tens que pensar, mas tambm no da Heidi. Se desistes 
agora e deixas esse Boyle levar a rapariga de volta para o Idaho, ters problemas que no sers capaz de resolver e esses problemas tero as minhas iniciais marcadas.
-  uma mida ptima, no ?
Ryan sorriu e acenou afirmativamente com a cabea. 
- Hoje perguntou-me se tenho namorada. Acho que estou a ser objecto de um grave caso de amor infantil. - Voltou a coar-se por baixo do nariz.  muito parecida com 
a Maggie, sem dvida.  bom saber que ela poder crescer aqui sem ter as mesmas angstias.
- Sim, pois . E isso diz-me exactamente o qu? Que de boas intenes est o inferno cheio?
- Tu consegues resolver isto, meu irmo. S precisas de te sentar a conversar com a Maggie, mais nada. Os resultados do arranjo so ptimos. Agora, em vez de levares 
tudo  frente, avana lentamente, uma coisa de cada vez.
Rafe soltou um suspiro de cansao misturado com descontentamento consigo mesmo.
- Pensei que mais tarde podia compens-la de tudo, sabes? Vencer a relutncia dela, fazer com que... bem, sabes? gozasse as intimidades. E uma vez isso feito, no 
perderia nenhum deles porque ela estaria casada comigo.
Ryan disse que sim com a cabea.
- Eu sei, e entendo... mais ou menos. - Fez um gesto com a mo. - No te zangues, est bem? Mas por um minuto vou ser completamente honesto. Ests numa confuso, 
emocionalmente falando, e os teus sentimentos pela Maggie trazem-te to confuso que parece que no ests a pensar devidamente.

- O que  que queres dizer? Que eu no a amo, realmente?
- No, no estou a dizer isso, de maneira nenhuma. Acho que a amas e, conhecendo-te, que  provvel que a ames profundamente. Nunca fizeste nada devagar nem nunca 
entraste em nada com um p atrs. Com a Susan, tambm foi amor  primeira vista, se bem te lembras. s um daqueles felizardos que de algum modo sabem exactamente 
o que est certo. O que se passa... oh, diabos, no sei. Tu no s tu. Pareces quase... bem, como que frentico. Talvez at um pouco ganancioso.
As entranhas de Rafe enrolaram-se num frio n dentro da barriga.
- Ganancioso? - Era uma palavra feia, uma palavra que nunca imaginou que pudesse ser utilizada para o descrever.
- Perdeste as trs pessoas que mais amavas no mundo, Rafe. Quando somos feridos dessa maneira, creio que todos receamos que volte a acontecer.  como se tivesses 
visto a Maggie, te tivesses apaixonado profunda e rapidamente por ela e arranjado uma maneira de lhe deitar a mo. Percebes o que estou a dizer? Isso no  maneira 
de tratar uma mulher. - Voltou a encolher os ombros. - No fundo, tu sabes. Especialmente uma pessoa como a Maggie. Ela tem o seu passado e os seus medos. Precisa 
de ser tratada com calma.
Rafe sabia disso. Apenas lhe tinha escapado durante algum tempo.
Recordando aqueles tempos de h muito em que conhecera Susan, lembrava-se de todas as horas que passaram juntos apenas a conversar e a rir, apaixonando-se cada vez 
mais a cada segundo que passava. Muito antes de se tornarem amantes, tinham sido grandes amigos, saam com outros casais, estudavam juntos e tinham conversas interminveis 
ao telefone, partilhando os seus pensamentos e segredos mais ntimos.
Rafe fechou os olhos, pensando no que sabia da adolescncia de Maggie - escola, trabalho e, depois, casa,  noite, para ainda trabalhar mais.
Alguma vez teria embaciado os vidros de um carro estacionado no Lover's Loop? Alguma vez se teria esquivado dos avanos de um namorado no cinema?
Provavelmente, no. No, que diabo. Onde  que ela teve tempo para sadas? Ao contrrio de Susan, que tinha sido estragada com mimos, a quem o pai fazia as vontades, 
e protegida das realidades cruis, Maggie tinha saltado para a idade adulta e para as responsabilidades quando era pouco mais do que uma criana. No houvera ningum 
que olhasse por ela, ningum que a protegesse e absolutamente ningum que lhe fizesse as vontades.
Em vez disso, tinha cado nas garras daquele filho da me do Lonnie e, a menos que Rafe estivesse enganado, ele tinha acabado com toda a espcie de normalidade na 
vida dela.
Rafe voltou a suspirar e esfregou a testa. O irmo tinha razo. Em vez de lhe fazer a corte e de lhe conquistar o corao, tinha montado um cerco, criado uma ratoeira 
forrada de veludo e atrado Maggie l para dentro, fechando logo a seguir a grade.
- Obrigado, Ryan.
- De qu? Apenas tentei apontar o problema.
Rafe ps-se penosamente em p. 
- Por vezes, reconhecer o problema  metade da soluo.


Captulo Treze
O corao de Maggie deu um salto quando ouviu rodar o manpulo da porta.
No instante seguinte, Rafe aparecia. No tinha a certeza do que esperava ver na sua expresso. Ira, talvez? Em vez disso, o conjunto das suas feies cinzeladas 
era impossvel de ler, com sombras a escurecerem-lhe os olhos azul-acinzentados e a torn-los de uma sombria cor de ardsia que lhe lembrava o cu de Vero imediatamente 
antes de uma tempestade.
- Ol - disse ele com voz rouca, o olhar a mover-se lentamente por cima dela quando entrou no quarto. Depois de fechar a porta, encostou-se a ela, a envergadura 
dos seus ombros ocupando grande parte da respectiva largura. O cabelo preto estava em ondas despenteadas pelo vento que se espalhavam pelo topo da testa. A camisa 
azul de cambraia estava com o colarinho aberto, revelando um pouco do peito lustroso que Maggie sabia que pareceria to duro como uma laje de granito.
- Ol - voz fraca. - Comeava a pensar que no ia voltar. 
Ele cruzou os braos. 
- Um exerccio de desejo muito forte?
Ela sentiu uma onda de calor no rosto. Uma vez que era bvio que no estava entusiasmada com a noite de npcias, no via razo para fazer desmentidos.
- Lamento ter estragado a pequena celebrao que planeou. Especialmente por ter partido o cristal da Susan. Por acidente, pus o copo em cima de uma azeitona. Que 
estupidez. Devia ter olhado antes de o largar.
- Na realidade, no quero saber do cristal para nada e, agora,  seu, no  da Susan.
- Oh. - Preferia que ele deixasse de olhar para ela daquela maneira. Enervava-a. - Bem, ento por ter estragado a festa. Se quiser experimentar outra vez, farei 
o possvel para no a estragar.
- Tambm no me importo muito com isso. Foi m altura. - Esfregou a cana do nariz. - J ouvi falar em ser salvo pelo gongo. Mas por uma azeitona?
Endireitou-se e foi ter com ela, lentamente e num passo sem pressas.  medida que se aproximava, o corao batia-lhe loucamente.
Parou perto da mesa-de-cabeceira e apoiou as mos nas ancas inclinadas, verdadeira imagem de um homem forte, pernas afastadas, vestidas de ganga, boca firme com 
um sorriso maroto. Maggie tentou olh-lo nos olhos e devolver-lhe o sorriso. Os olhos dele cintilaram.
- Maggie, parece nervosa como um gato de rabo comprido numa sala cheia de cadeiras de baloio. No vou atac-la. Apenas quero falar consigo. Acho que depois ambos 
nos sentiremos muito melhor.
Ela baixou o olhar para as mos, percebeu que estava a brincar com a aliana e, em vez disso, comeou a tirar plo do cobertor. Ele voltou a sentar-se na borda da 
cama e assentou os braos nos joelhos.
- No vai sobrar muito cobertor se continuar a fazer isso - observou ele secamente. - Terei que ir  procura de um edredo para no morrermos gelados durante a noite. 
No lhe passou despercebido que ele tinha tornado clara a sua inteno de dormir com ela.
- Maggie - disse ele delicadamente -, pode olhar para mim, se faz favor?
Fez um esforo para o olhar novamente nos olhos.
- Isto tem sido tudo bastante difcil para si, no tem?
- Tudo o qu?
Suspirou e olhou para longe.
 - Tudo, do princpio ao fim. Est aqui, a pedir-me desculpa por ter armado uma confuso? Eu  que tenho que lhe pedir desculpa. - Deu uma gargalhada, baixinho. 
O pior  que no sei por onde comear.
Esfregou o taco da bota no tapete. Maggie observava-o, com o corao a bater, agora por uma razo completamente diferente. Tinha uma sensao horrvel de que ele 
ia dizer-lhe que tudo aquilo tinha sido um erro desastroso.


- Vai mandar-nos embora, no vai?
Ele olhou, espantado.
- Embora? Claro que no. O que  que lhe deu essa ideia?
Maggie tentou humedecer os lbios. Sentia a lngua to spera e seca como uma toalha de rosto acabada de lavar e secar.
- Eu... - Fez um gesto pouco enrgico com a mo. - Eu no estou a no querer cumprir a minha parte do acordo. A srio, no estou. H bocado, estava um pouco nervosa, 
mais nada. Eu... - No suportava olhar para ele enquanto dizia aquilo, pelo que voltou a puxar o pelo do cobertor. - Agora estou ptima, e farei o que quiser, se 
me der outra oportunidade de cumprir a minha parte do acordo.
- Sou eu que quero pedir outra oportunidade.
Isso f-la levantar a cabea. - Voc?
- Sim, eu. - Entrelaou os dedos e inclinou-os para trs, fazendo estalar os ns. - Quando regressava a casa recapitulei tudo o que queria dizer-lhe. Acha que consigo 
lembrar-me de uma nica coisa que seja? No, que diabo. - Abanou a cabea. - Porque  que acha que, quando  mesmo importante dizer as coisas todas certas, uma pessoa, 
normalmente, diz s coisas erradas?
Parecia to genuinamente tenso que Maggie esqueceu por momentos as suas preocupaes. 
- O que  que quer dizer?
Fechou os olhos, o msculo do queixo a ondular por baixo de uma pele de cobre quando apertou os dentes.
 - Para comear, que peo desculpa por ser to estpido.
Estpido? Passou-lhe pela mente, num relmpago, a imagem dele a andar de um lado para o outro no quarto, durante a noite, com o beb. Aquele homem estivera a impor 
regras. Ela sentia-se secretamente como um bem que ele tinha comprado para substituir algo que tinha perdido. Mas, apesar disso, no conseguia lembrar-se de um nico 
caso em que ele tivesse sido aquilo a que poderia chamar um estpido. 
- Na verdade, tem sido muito amvel para ns.
O sorriso que lhe aflorava  boca firme era um sorriso dorido. Amvel?


- Talvez  superfcie. - Ps-se repentinamente em p e comeou a andar em direco  lareira com longos passos, os tendes das pernas a retesarem-se sob a ganga 
dos seus jeans a cada movimento. Quando se virou e se encaminhou de novo para ela, meteu os polegares no cinto. - Eu no sou bom nestas coisas, pelo que vou simplesmente 
atirar-me de cabea. Tenha pacincia comigo, est bem?
Maggie disse que sim com a cabea.
- Primeiro que tudo, voc est com medo de que lhe v bater. Temos que falar acerca disso. - Os olhos dele ficaram escuros, outra vez com sombras. - Chame-lhe o 
que quiser, mas eu no quero uma mulher que tenha medo de cada vez que lhe coo a cabea.
Os pulmes de Maggie ataram-se e reverberou-lhe nas tmporas uma palpitao abafada. Tinha-se retrado em relao a ele. No podia neg-lo. Oh, Meu Deus! Era a vez 
de fechar ela os olhos. Apesar de ter negado, tinha a certeza de que ele se preparava para lhe dizer que aquilo no ia funcionar e ela no sabia o que ia fazer.
Ele limpou a garganta e resmungou baixinho.
- Tenho o mau hbito de falar com as mos. Esfregando o queixo, metendo os dedos no cabelo. So gestos do meu pai. Acho que foi algo que o Ryan e eu apanhmos dele. 
Duvido seriamente que seja uma caracterstica que eu consiga vencer porque o fao inconscientemente.
- Desculpe levantar assim o brao - disse ela numa voz pouco firme. - No pensei que me fosse bater. A srio.
- Pensou, sim.
As palavras dele foram extremamente cortantes e pareceram fazer eco. 
- No - garantiu ela, com voz rouca. - Talvez parecesse que sim. Mas era apenas um reflexo. Voc nunca me bateu e no tenho nenhuma razo para pensar que o fizesse.
- Maggie, no estou a censur-la. Est bem? Voc tem razo em acreditar que eu pudesse bater-lhe. Mais razo do que, provavelmente, eu julgo. E tal como disse, reflexos 
ou gestos inconscientes so coisas que nenhum de ns pode controlar. No estou a pedir-lhe isso. S preciso que cheguemos a um entendimento sobre isso. Quero que 
saiba que nunca a magoarei. - Gostava de poder dizer-lhe que nunca na minha vida bati numa fmea, mas a verdade sagrada  que j o fiz uma vez. - Esfregou a parte 
de trs do pescoo. - Fechei o punho e dei-lhe com ele, em plena cara. Pus-lhe o nariz a sangrar, rebentei-lhe um lbio e dei-lhe um murro em pleno rabo.
Uma nusea enrolou-se no estmago de Maggie. Tinha quase a certeza de que ficava sem nariz se Rafe Kendrick lhe desse um murro. 
- O-o que  que ela fez para o pr to furioso?
- Tenciona tirar apontamentos para nunca cometer o mesmo erro? Provavelmente, no  m ideia. - Os olhos dele adquiriram uma expresso distante. - O que  que ela 
fez? - Parecia estar a pensar no assunto. - Bem, arranhou-me, para comear. E depois, bateu-me. Podia ter deixado passar as duas coisas, mas depois ela esmagou o 
meu "Twinkie". Isso chateou-me.
Maggie piscou os olhos e fitou-lhe o rosto.
- Perdo?
Ele semicerrou-lhe um dos olhos.
- J lhe disse. - Aquele olho semicerrado fechou-se numa piscadela lenta e provocante. - No brinque com os meus "Twinkies". Tenho tendncia a reagir violentamente.
- "Twinkies". Os de comer?
- H outros? - Apareceu-lhe um ar de satisfao no rosto. - Sabe, aqueles que tm creme no centro? Era doido por eles. Ainda sou.
Maggie ainda estava a pensar no nariz esmagado daquela pobre mulher.
- De qualquer modo, quando o meu "Twinkie" foi esmagado, perdi o controlo e atirei-me a ela. O meu professor da primeira classe telefonou ao meu pai e fez queixa 
de mim.
- Andava na primeira classe?
Os lbios contraram-se-lhe. 
- Nessa tarde, quando cheguei a casa, o meu pai levou-me para a arrecadao, onde me deu cabo dos fundilhos dos jeans com o cinto, dando-me uma das poucas tareias 
que alguma vez apanhei. - Levantou um dedo. - Regra nmero um da famlia Kendrick: os homens nunca, em circunstncias nenhumas, batem em mulheres. O meu pai  absolutamente 
rigoroso a esse respeito. Sempre achei que talvez ele tivesse reagido demasiado mal, uma vez que eu tinha apenas seis anos e a rapariga era maior do que eu. Mas 
acho que foi uma lio que me quis dar bem cedo. - Encolheu os ombros. F-lo e, ainda por cima, a lio pegou. - Franziu o sobrolho mas os olhos ainda cintilavam 
por causa da brincadeira. - Acho que est escrito na testa. Bater numa mulher no  comigo, Maggie, e no tenho respeito por nenhum homem que o faa. Vai contra 
tudo aquilo em que fui educado para acreditar.
 Quando estiver aborrecido consigo, posso ter fantasias de lhe torcer o pescoo, mas quando chega a hora, nunca retalio fisicamente. No faz parte da minha maneira 
de ser.
- Ah!
- Pode esmagar os meus "Twinkies" todos. s caixas, se quiser. Nunca levantarei a mo para si. - Cruzou os braos sobre o peito. - Independentemente da fria com 
que eu estiver, quando a poeira assentar, no lhe terei tocado nem num cabelo. Prometo! - Olhou por cima do ombro dela. - H aqui uma Bblia algures. Farei uma jura 
solene sobre ela, se quiser.
- No  preciso - disse ela baixinho.
- Eu sei que provavelmente no  a melhor ideia, para mim, falar muito da Susan e peo desculpa por faz-lo agora. Mas ajud-la-ia saber que a Susan e eu tnhamos, 
por vezes, violentas discusses e no lhe bati uma nica vez?
- No entanto, voc amava-a.
Confirmou com a cabea. 
- Sim, amava-a. Mais do que qualquer coisa no mundo. No lhe mentirei acerca disso. Adorava-a, venerava-a. Mas por vezes, apesar disso, punha-me to furioso que 
me apetecia estrangul-la. - Fez um ligeiro sorriso. - Por vezes, as pessoas casadas zangam-se uma com a outra. A srio. Um homem que merea a plvora necessria 
para o mandar para o inferno no usa os punhos para resolver uma disputa. Eu saio e vou arrefecer a cabea antes de alguma vez lhe tocar. Prometo.
Maggie acenou afirmativamente com a cabea, querendo do fundo do corao acreditar nele. O pai nunca tinha batido na me. Sabia que havia mesmo homens como os que 
Rafe descrevia. Mas tinha passado tantos anos a esquivar-se dos punhos de Lonnie que isso j no lhe parecia real.
Rafe assentou outra vez o calcanhar no tapete e depois fez um desenho com a biqueira da bota.
- Em relao  Susan e ao amor que lhe tinha - prosseguiu. - Isso  outra coisa de que precisamos de falar. Uma parte do meu corao pertencer sempre a ela e aos 
midos. A voz ficou enrouquecida. - No seria grande homem nem o meu amor valeria grande coisa se conseguisse enterrar as pessoas de quem gosto e esquec-las. Mas 
entenda, por favor, que as minhas recordaes deles no tm nada a ver com o que sinto por si e pelo Jaimie. A Susan j c no est, os midos j c no esto. A 
vida continua. 
Um homem pode amar e amar profundamente mais do que uma vez. - Os olhos dele ficaram toldados de ternura enquanto a estudava. - Amo-a a si, actualmente.
- Comea a amar-me?
- Comeo? - Deu uma gargalhada de troa dele mesmo e passou uma mo pelo rosto. - Acredito que isto lhe parea repentino.
- Um pouco. Na realidade. Muito.
- Acha que o amor tem que estar de acordo com uma mdia e seguir um calendrio?
- No, claro que no.
- Ou que fazer sentido? - Encolheu os ombros. - Em nove de cada dez vezes, no  nada evidente o sentido que faz, excepto para a pessoa que o sente. No sei explicar 
como aconteceu. Nem, exactamente, quando. Eu no queria gostar de si. Fazia-me sentir como se estivesse a trair a Susan. Mas o sentimento apanhou-me de surpresa. 
Fez uma pausa, engoliu em seco e evitou o olhar dela por um momento. - Voc  uma pessoa muito especial, Maggie. No sei se sabe at que ponto. - Olhou-a outra vez 
profundamente nos olhos. Lembra-se de me dizer que nunca conseguiria substituir a Susan? Quando disse isso, tive a sensao de que se sentia de algum modo inferior, 
que achava que independentemente das tentativas que fizesse, nunca seria capaz de se colocar  altura dela.
- Foi voc que disse que ela era realmente maravilhosa e a Becca fala dela como se fosse uma santa...
- Quando as pessoas morrem, tendemos a canoniz-las, acho eu. No quero dizer que ela no fosse maravilhosa. Era. Mas por mais que a amasse, quando se trata de alturas, 
 ela que fica por baixo, Maggie, no  voc.
E se ela aqui estivesse, seria a primeira a dizer-lhe isso.
- Seria?
- A Susan era adorvel, sem dvida, mas nunca foi posta  prova como voc. Aos catorze anos, era chefe de claque. Uma rapariguinha rica. Quando fez dezasseis anos, 
o pai comprou-lhe um carro novinho em folha. Quando samos da faculdade e decidimos casar-nos, foi trabalhar para uma casa de hambrgueres para me comprar a aliana, 
que lhe custou quatro mil dlares. Cada cntimo que ganhou foi para aquele anel. No foi para roupa. O pai deu-lhe um carto de crdito para isso, e qualquer coisa 
que ela quisesse ou de que precisasse, ia simplesmente comprar. O que ganhou nunca foi para pagar contas. Ela no tinha contas a pagar. Vivia com a famlia e pagavam-lhe 
tudo. No teve verdadeiras responsabilidades at se casar, e mesmo depois fiz tudo para ela viver bem. No estou a critic-la por isso, nem a dizer que no devia 
ser assim. Estou apenas a salientar que para si a vida nunca foi to fcil.
- No, mas isso no quer dizer que eu no tivesse aproveitado uma oportunidade dessas. No liceu, invejava as raparigas assim.
- Diabos me levem. Vai dizer-me que tem uma caracterstica ignbil? - Arqueou uma sobrancelha. - Aposto que nunca na vida se deu ao luxo de gastar os seus salrios 
numa coisa to frvola como uma aliana de quatro mil dlares. Nem em qualquer outra coisa frvola. Fez o que tinha a fazer, cuidar da sua me e da Heidi.
- Adoro a minha me e a Heidi mas, mesmo assim, no era to simples como isso. Por vezes, eu... bem, para ser honesta, ressentia-me com ambas porque no podia ser 
como as outras midas da minha idade. Queria... - A garganta de Maggie secou. - Por vezes, queria ser outra pessoa qualquer.
- Outro trao ignbil? - Deu uma gargalhada, baixinho. Meu Deus, est cheia deles, no est? No me diga que tem remorsos disso. Ressentir-se, querida, isso  normal. 
Por vezes, deve t-las odiado. Se ficar a sentada a dizer-me que no,  altura de lhe marcar uma consulta num bom psicoterapeuta.
Um calor escaldante apoderou-se das faces de Maggie.
- A questo  que, apesar desses sentimentos, no fugiu  responsabilidade. - Sorriu e abanou a cabea. - Comparar-se, Maggie? Pense melhor. Em comparao com a 
sua vida, a da Susan foi canja. No liceu, nunca teve que se preocupar em apoiar a famlia. E mais tarde nunca teve que se preocupar com o modo de arranjar comida 
para os bebs.
De certeza que ela nunca esteve numa situao em que tivesse que negociar o corpo para deitar a mo a um bibero e papa. No estou a dizer que no o fizesse, se 
se encontrasse nas mesmas circunstncias. Era uma me maravilhosa. Nunca precisou de mostrar de que era capaz. Voc precisou.
No conseguiu pensar no que dizer.
- Preciso de apontar mais algumas razes? - perguntou ele delicadamente.
- Razes para qu?



- Para a amar. Ou talvez, para ser mais exacto, para a convencer de que merece ser amada. Posso continuar, se quiser. Mas no fim, Maggie, estaremos de regresso ao 
ponto de partida, comigo a dizer-lhe que a amo e voc sem ter a certeza de acreditar. Tomara eu poder pr-lhe tudo preto no branco e, de algum modo, conseguir justificar 
os meus sentimentos. Mas no  assim que o amor funciona. Acontece, simplesmente.
- Nunca quis que pensasse que tinha que justificar fosse o que fosse - bom, porque provavelmente no posso. Os sentimentos atingem-me, depressa e com fora. Agora, 
a est ele e preferia morrer a perd-la, o que me leva ao resto do meu pedido de desculpa.
Voltou para a cama e agachou-se para olhar para ela. - No h desculpa para a maneira como lidei com tudo isto. Fiz tudo o que pude para pensar numa boa, acredite. 
Mas a verdade  que fiz asneira. Da grossa. - Os msculos da garganta tiveram uma convulso e a laringe andou para cima e para baixo. - Alguma vez quis tanto uma 
coisa, precisou tanto de uma coisa que ficasse um bocadinho maluca?
- Uma vez, quase roubei um colar - confessou com insegurana.
- Um colar?
- Um medalho de ouro. Todas as raparigas da escola usavam um. - Tocou na garganta. - Sabe... para trazer a fotografia do namorado. Eu... no tinha namorado e sentia-me... 
- Encolheu os ombros. - No sei, excluda, acho eu. Pensei que se usasse um medalho seria mais como as outras pessoas e as pessoas pensariam que algum gostava 
de mim. Mas os medalhes custavam quinze dlares e eu no podia gastar isso. Portanto, quase roubei um.
Tinha alguma esperana de que ele se risse. Em vez disso, pareceu ficar triste, como se soubesse exactamente como ela se tinha sentido. Passado um momento, disse:
- No  exactamente no mesmo plano, mas acho que  uma espcie do que sinto por si. A nica coisa  que o meu carcter no  to slido. Eu avancei e agarrei o que 
queria.
Enquanto Maggie tentava digerir aquilo, ele continuou:
- Amar a Susan e os meus midos como eu amei e depois perd-los... quase me destruiu. Num dia, tinha o mundo aos meus ps e, no dia seguinte, a minha mulher e os 
midos estavam mortos. O pior  que me culpei a mim mesmo. Quando a conheci, era um bbedo. No vou dourar a plula. Ia de garrafa em garrafa e s isso  que me 
interessava, estar bbedo. No tinha uma vida. No queria uma vida. Antes de me ir embora do rancho, pensei em matar-me. Durante vrias noites, sentei-me aqui no 
escuro com o cano de um revlver encostado s tmporas, mas fui demasiado cobarde para puxar o gatilho.
Maggie tinha-o visto atirar-se a quatro homens apenas com uma garrafa de whisky para a proteger.
- Voc no  cobarde.
- Sim - disse ele, com a voz tomada. - Sou, sim, Maggie. Fugi da dor, tentei afog-la numa garrafa. H vrias espcies de cobardia. Para mim, o terror no era enfrentar 
a morte, embora tenha posto o limite em estoirar os miolos. Era enfrentar a vida sem as pessoas que amava - ps a mo em cima da boca. - No conseguia lidar com 
isso e, portanto bebia. Conhec-la mudou tudo. Voc precisava de mim. Saber disso deu-me uma razo para deixar de beber. Num sentido muito real, voc foi uma bia 
salva-vidas que me lanaram quando submergi pela ltima vez. Sabe?
Recordou-se do vagabundo de cabelo desgrenhado e mal vestido que conheceu no vago de mercadorias. Seria o mesmo homem? 
- Acho que sim, que sei - disse ela com firmeza.
Apoiou os braos nas coxas e virou as palmas das mos para cima para examinar as linhas profundamente marcadas.
- Acho que comecei a apaixonar-me por si na primeira vez que a vi. Tentei que no acontecesse. Tinha a cabea to baralhada, naquela altura, que tinha um sentimento 
de culpa, como disse. Mas passou. Imediatamente antes de morrer, a Susan obrigou-me a prometer que encontraria outra pessoa para amar se alguma vez lhe acontecesse 
alguma coisa. Lembrei-me disso enquanto olhava para si e no consegui combater os sentimentos. Sabia que ela no queria que o fizesse. E uma vez que aceitei o que 
estava a sentir por si, comecei... - Ps-se-lhe um brilho nos olhos e pestanejou. - Eu... senti-me assustado. - Entrelaou os dedos abertos e fez estalar outra vez 
os ns. -  uma coisa dos diabos um homem confessar isto, mas a est. Estava com medo de poder perd-la, e ainda estou. S agora  que estou a ficar com a cabea 
arrumada, e ento estava apenas a reagir. A nica coisa em que conseguia pensar era no modo de garantir que voc no se fosse embora.
- Eu no me vou embora. Para onde  que havia de ir? O Lonnie acabaria por me encontrar e, quando me encontrasse, eu estaria de volta  casa nmero um. E agora tambm 
h que pensar na Heidi. Seria muito mais difcil para mim obter a custdia dela se eu tivesse que trabalhar em dois stios e vivesse num apartamento miservel, num 
bairro mau, que era o que, provavelmente, tinha que fazer para que o dinheiro me chegasse at ao fim do ms. Como  que isso a deixava?
- Eu sei isso tudo - disse ele numa voz spera. - E para minha vergonha, usei isso em meu benefcio. Sabia que voc estava numa encrenca dos diabos.  verdade que 
lhe propus uma sada, mas s uma. Havia alternativas. Contratar-lhe uma equipa de advogados. Dar-lhe dinheiro suficiente para que trabalhar em dois empregos e viver 
num apartamento miservel nunca fosse uma perspectiva. Havia muitas coisas que podia ter - me oferecido para fazer por si, Maggie, mas no o fiz.
Mais uma vez, no conseguia pensar no que havia de dizer, pelo que no disse nada.
- Em vez disso, ofereci-me para fazer aquelas coisas s se voc casasse comigo e sabia, quando lhe fiz a proposta, que voc aceitava, que, essencialmente, no tinha 
outra opo. - O brilho dos olhos dele transformou-se inequivocamente em humidade. - Quando um homem rouba a uma mulher o direito de escolher, algo no est bem. 
Agora,  minha. Obtive o que queria. No desfaria nada disto, por nada deste mundo, porque sei em que diabo de confuso voc ficaria metida se eu o fizesse. Para 
no falar no que aconteceria  Heidi, agora que a raptei do Idaho e a trouxe para aqui. Por ela, temos que ir em frente e tentar obter a custdia temporria.
- Eu no quero que desfaa nada.
- Por causa do Jaimie e da Heidi. Que diabo de maneira de iniciar um casamento. Se no fosse aquela azeitona, t-la-ia pressionado para fazer amor. Sinto-me desprezvel, 
mas a est. Salvo por uma azeitona. - Passou outra vez a mo pela cara. - Eu sei que  pedir muito. D-ma? Outra oportunidade, quero eu dizer?
Deu-se um n na garganta de Maggie. Quase comeara a acreditar que ele queria suspender-lhe a pena. Estpida, Maggie. 
- J lhe disse que estou completamente disponvel para isso - disse ela com foz fina, empurrando os cobertores para o lado para arranjar espao na cama ao lado dela. 
- Mas desta vez no me d vinho.
Ele riu-se e pegou-lhe no pulso.
- No, no. No  isso que quero dizer. Uma segunda oportunidade, do princpio ao fim, querida.  isso que estou a pedir. - Puxou os cobertores para onde estavam 
e deu-lhe uma boa palmada, como que para os prender ao lenol. - Normalmente, um homem conquista o corao de uma mulher antes de tentar fazer amor com ela. Passeios 
ao luar, beij-la at os joelhos dela comearem a ceder. Lev-la a jantar fora. Sabe, namorar e... - Encolheu os ombros. - Preciso de passar por tudo isso. Mesmo 
que nunca consiga amar-me, pelo menos posso tornar um pouco mais fceis para si a intimidade desta relao.
Maggie tambm passou a mo por cima do cobertor.
- Ns j... estamos casados. No tem que usar truques para vir para a minha cama. Eu devo arranjar-lhe o jantar e no esperar ser levada a jantares fora. E mesmo 
que fssemos a algum lado, viramos juntos para casa. No sei porque  que havemos de namorar ou sequer porque  que voc havia de se dar a esse incmodo.
- Bem, no ser um namoro normal. Isso  verdade. - Percorreu com os ns dos dedos o rebordo do colcho que se via atravs do lenol esticado. - Mas no  impossvel 
dar-lhe algum tempo para se habituar a mim. - Mostrou-lhe um sorriso lento. - Antes de fazer amor consigo, seria bom que o facto de lhe tocar no a pusesse to nervosa 
que nos encharcasse a ambos de vinho. No acha? O mnimo que podemos fazer  tentar ser bons amigos antes de nos tornarmos amantes.
- Amigos? - repetiu ela.
- Acha que o seu marido no pode ser seu amigo? Eu gostaria de ser o seu melhor amigo, querida. No posso prometer-lhe fogo-de-artifcio e sinos a tocar quando fizer 
amor consigo. Ter que me amar muito, para que isso seja possvel, ou alguma coisa parecida. Mas  amizade pode chegar-se. Eu posso ser a pessoa da sua vida que 
sabe que estar sempre disponvel para si. Algum que se importa com os seus sentimentos. Que a ouvir e tentar ajudar. E acho que podemos divertir-nos juntos se 
conseguir convenc-la a relaxar quando estiver ao p de mim.
Durante um longo momento de exame minucioso, sustentou o olhar dela. 
- Ento? Que me diz? Quer tentar?
Maggie contornou a proposta. Porque quereria ele aquilo? Estavam casados.
Tinha todo o direito de exigir que ela lhe entregasse o corpo. 
- Est a dizer que no vamos... bem, voc sabe, ter uma noite de npcias?
- Claro que vamos ter uma noite de npcias. Mas de um tipo muito diferente.
- De que tipo, exactamente?
Ele riu-se. 
- Voc no confia facilmente, pois no? - Encolheu os ombros e olhou  sua volta. - Um passeio ao luar est fora de questo nos prximos trs dias. Que tal fazermos 
olhinhos um ao outro a jogar um jogo de xadrez? Eu arranjo outro tabuleiro. Podemos beber um pouco de vinho. Divertir-nos um bocado. E depois, quando estivermos 
cansados, vamos dormir. Fazer amor fica para quando estivermos preparados.
Maggie olhou para ele, numa semiexpectativa de que, de repente, ele atirasse a cabea para trs, se risse ruidosamente e dissesse: Apanhei-a!
Mas no o fez. Continuou  procura do olhar dela, como se estivesse  espera da sua reaco. Finalmente, ela disse.
- Est a falar a srio?
- Claro que estou a falar a srio. Diga-me que quer comear tudo de novo e est feito.
- At eu estar pronta? - repetiu ela, incrdula.
Ele disse que sim com a cabea. 
-  essa a questo, at estar pronta. - Aquele brilho maroto voltou aos olhos dele. - No  que tenhamos que esperar que eu esteja.
- E o que  que est por trs disso?
- Nada. A no ser que conto muito com a minha capacidade de a conquistar. Mas esse problema  meu, no ?  uma aposta minha.
- E se...
- O qu? - perguntou delicadamente. - No tenha medo de dizer o que pensa. O que  que a preocupa?
- E se eu nunca estiver pronta? - disse ela bruscamente. - Eu... acho que  justo dizer-lhe que no gosto muito disso.
- De fazer amor?
- Sim - confessou ela em voz baixa.
- Quando  que experimentou?
- Quando?
Pegou-lhe no queixo com o dedo.
- Maggie, no ponha isso de parte como uma coisa de que no gosta at ter experimentado com a pessoa certa. Vai ser bom para si, quando acontecer. E se eu conseguir, 
vai ser muito melhor do que bom. Fantstico, talvez.
Olhando para ele, Maggie quase conseguia acreditar que tudo era possvel, at isso. Ele queria passar a noite de npcias a jogar xadrez? Quando pensou nas coisas 
todas que tinha admitido que ele pudesse exigir-lhe naquela noite, ficou com lgrimas nos olhos.
- O que foi? - perguntou ele.


Maggie abanou a cabea, incapaz de falar devido  secura sbita da sua garganta. O momento que receava tinha chegado. Era mulher dele. Ele tinha reivindicado a paternidade 
de Jaimie, coisa que poderia usar facilmente contra ela, e o bem-estar de Heidi tambm dependia totalmente da benevolncia dele. Estava completamente sozinha naquela 
casa enorme com ele, a quilmetros da cidade mais prxima, e nem sequer tinha a certeza de onde seria essa cidade. Ele tinha-a a ela e  situao sob o seu absoluto 
controlo. Qualquer coisa que quisesse dela, podia, simplesmente, servir-se. Mas em vez disso estava a oferecer-se para passar a noite a jogar?
- Querida, o que ? Fale comigo.
Maggie voltou a abanar a cabea, tentando freneticamente impedir que as lgrimas cassem. Mas ficou-lhe um soluo atravessado no peito. Pensou nas vezes sem conta 
em que tinha ficado  merc de Lonnie e desejou que ele soubesse o significado dessa palavra.
Por que razo aquilo a fazia ter vontade de chorar, no sabia. Mas fazia.
Uma dor enorme, horrvel, subiu-lhe pela garganta quando tentou evitar as lgrimas.
- Querida, no - disse ele, fazendo-lhe uma festa no cabelo. Seja o que for que eu tenha dito, retiro. No tinha essa inteno. Foi a questo de fazer amor? Tem 
medo? Ou acha que nunca estar pronta? Seja o que for, podemos resolver isso.
Maggie no podia ter respondido para salvar a alma. O calor da mo pesada dele sobre o seu cabelo e o seu toque delicado sabiam maravilhosamente, como sempre. Ela 
apertou-lhe o pulso com os dedos. Perante esse contacto, ele praguejou entre dentes. O que Maggie sabia era que logo a seguir ele sentara-se outra vez na borda da 
cama e abraara-a com os seus fortes braos, constituindo o peito uma forte parede para a embalar. Ainda mais espantoso do que ver-se naquela situao  que no 
tinha vontade de sair dela. Sabia bem ser abraada por aquele homem - sabia bem e estava perfeitamente certo.
- Filho da me - murmurou ele.
O soluo libertou-se-lhe do peito com uma erupo de riso e lgrimas, combinao que quase a estrangulava quando lhe subiu pela garanta.
Segurou-lhe a parte de trs da cabea com a mo aberta, que quase lhe cobria a distncia de orelha a orelha. Normalmente, recordar como ele era alto e bem constitudo 
ter-lhe-ia contrado o corao. Mas, por razes que a ultrapassavam, agora parecia reconfortante. Ele no queria fazer-lhe mal. Aquele homem, no. Xadrez. Maggie 
agarrou-se-lhe ao pescoo e encostou-se mais a ele para lhe sentir o calor, sentindo-se totalmente segura. Era a sensao mais maravilhosa, uma sensao que lhe 
fazia sentir os msculos distendidos e fazia irradiar dentro dela uma sensao de paz.
Ele apertou o abrao.
- Vai correr tudo bem. Prometo. Vai correr tudo bem.
Pela primeira vez desde que, h muito tempo, descarrilara, Maggie acreditava verdadeiramente que talvez assim fosse.

Captulo Catorze
Normalmente, Rafe gostava de xadrez mas, aps trs jogos, era difcil concentrar-se na estratgia, especialmente com Maggie deitada na cama,  frente dele, com as 
faces a ficarem rosadas por causa do vinho e as pestanas a baterem enquanto ela lutava por sufocar os bocejos.
Olhando para cima depois de fazer a ltima jogada, disse:
- Acho que so horas de apagar a luz. Est mesmo cansada.
Ela pestanejou e fez um esforo bvio para parecer completamente desperta. Enquanto a observava, Rafe era tomado pela ternura. - Oh, no!
- No estou nada cansada - garantiu-lhe. - Voc est?
No querendo apress-la, voltou de novo a ateno para o jogo. Cinco minutos depois, ouvia sufocar outro bocejo. Olhou para cima e viu-a deixar cair a cabea de 
cansao, as longas pestanas escuras a velarem-lhe os olhos. Aflorou-lhe um sorriso aos lbios. Estava a chegar rapidamente  suspeita de que a relutncia da mulher 
em parar de jogar vinha do medo que tinha de partilhar a cama com ele.
Por um breve momento, acalentou a ideia de voltar para o seu quarto. Mal a ideia lhe ocorreu, varreu-a firmemente da cabea. O objectivo de esperar para fazer amor 
com ela era p-la  vontade na relao, dando-lhe uma oportunidade de se ir acostumando a ele um bocadinho de cada vez. Se ele mantivesse a distncia e nunca lhe 
tocasse, nunca mais alcanaria esse objectivo.
No era uma deciso inteiramente egosta, embora Rafe confessasse livremente, ainda que s a ele mesmo, que esperava ansiosamente o momento em que pudesse fazer 
amor com ela. O factor decisivo, porm, era Maggie.
Muito simplesmente, quanto mais tempo ele a deixasse dormir sozinha, mais medo ela teria da invaso da sua cama por ele.
O medo era uma coisa engraada, com caractersticas comuns partilhadas igualmente por seres humanos e animais. Se deixado  vontade, em vez de se curar, ulcerava, 
aumentando as suas propores at se tornar gigantesco.
Sentou-se e fingiu um bocejo, esticando a espinha e encolhendo os ombros.
- Eu desisto. Posso ficar com a fama de estragar as festas, mas estou estafado.
Ela tambm se sentou, o olhar fixado nas peas de xadrez de mrmore como se fossem amigos h muito perdidos. Rafe comeou a junt-las e a p-las outra vez na caixa 
de carvalho esculpida  mo. Depois, dobrou o tabuleiro, guardou-o l dentro e fechou a tampa.
Depois de pr o jogo no cho ao lado da cama, ps-se em p e rolhou a garrafa de vinho, que ainda tinha um quarto. Maggie tinha consumido dois copos e ele s tinha 
bebido um ao longo do sero, com algum medo de que o sabor do lcool pode faz-lo voltar a ansiar por whisky. Felizmente, no tinha, o que indicava que a sua dependncia 
fora mais emocional do que fsica.
Acabadas as arrumaes, virou-se para olhar para a sua noiva. Ela devolveu-lhe o olhar com evidente circunspeco. Naquele momento, parecia uma menina de cerca de 
doze anos, sendo aqueles enormes olhos castanhos a coisa maior que tinha. Rafe deu com ele a fazer tudo para no voltar a sorrir. Uma fada em cima de um cobertor 
cor-de-rosa.
Percorrendo-a com o olhar, notou as curvas femininas e indiscutivelmente maduras do seu corpo acariciadas pela flanela. Foi a primeira vez na vida de Rafe que conseguiu 
lembrar-se de ter inveja de uma camisa de noite. A sua ateno ficou presa num salpico carmesim de "cabernet" por cima de um seio suavemente pontiagudo.
- Acho que a primeira coisa a fazer  dar-lhe os comprimidos e arranjar-lhe uma camisa de noite lavada - disse ele.
Ela soltou um suspiro de longo sofrimento quando pegou nas cpsulas que ele deitou na palma da mo. Rafe deitou-lhe um pouco de gua do jarro que mantinha cheio 
em cima da mesa-de-cabeceira. Depois de lhe dar o copo, olhou para o relgio e congratulou-se em silncio pelos progressos que estava a fazer. Estava vinte minutos 
atrasado e no a tinha pressionado para beber lquidos durante todo o sero.
Enquanto ela engolia os comprimidos, ele dirigiu-se ao toucador e comeou a pesquisar as peas de roupa que Becca tinha trazido para ela. Quando se virou com uma 
pea de flanela perfeitamente dobrada na mo, encontrou Maggie de p aos ps da cama.
- Eu... - Fez um gesto na direco da casa de banho. - S demoro uns minutos.
Deu-lhe a camisa de noite lavada quando ela passou rapidamente por ele.
Quando a porta da casa de banho se fechou e ele ouviu o trinco correr, suspirou e abanou a cabea. A mulher era dolorosamente tmida, o que estava a tornar-se mais 
evidente naquele momento.
Enquanto esperava por ela, Rafe tirou as botas e sentou-se na borda da cama. Pensou em tirar a roupa e deitar-se mas, dado o nervosismo de Maggie, isso podia no 
ser uma ideia sensata. Era melhor deix-la instalar-se primeiro e, depois, juntar-se a ela. Tambm decidiu que seria melhor manter as calas vestidas. As boxers, 
pelo menos.
Parecia-lhe que tinha passado uma quantidade interminvel de tempo at ela emergir finalmente da casa de banho e, quando apareceu, vinha corada como se tivesse estado 
a fazer alguma coisa vergonhosa. Trazia a nova camisa de noite vestida e tinha-se penteado. Simples tecidos de crepe ficavam-lhe, em cima dos ombros, como ricas 
sedas.
Parou a uns metros de distncia, os dedos nervosos a enrolarem-se na camisa de noite e o olhar a evitar o dele. Observando-a, procurou na cabea algo que pudesse 
dizer para a ajudar a relaxar. Nem um comentrio banal lhe ocorreu. Fixando-se nos olhos ensonados dela, que considerou uma proeza dado o facto de o rosto dela se 
ter tornado numa mancha espantosa de cor-de-rosa, disse:
- Querida, tem ar de estar completamente exausta.
- Hummmm.
Esfregou as palmas das mos na flanela, parecendo to insegura como uma mosca numa conveno de pesticidas. O olhar passeava-se entre ele e a cama onde estava sentado, 
como se no conseguisse decidir qual deles representava maior ameaa.
Nunca tinha sido bom a tagarelar, especialmente quando a companheira estava tensa e no parecia inclinada para pegar na conversa. Em vez disso, mantinha-se ali como 
se os ps tivessem criado razes.
- Bem... - disse ele, perguntando logo a seguir a si mesmo porqu. Bem, o qu, exactamente? Passaram-lhe algumas possibilidades pela cabea. Bem... isto no  uma 
confuso dos diabos? De algum modo, duvidava de que ela apreciasse essa tentativa de fazer humor. Conformou-se com limpar a garganta, o que fez com que parecesse 
um motor a diesel avariado a tentar subir uma acentuada rampa.
Uma vez que tinha renunciado aos seus direitos conjugais, Rafe no conseguia imaginar o que ela pensava que pudesse acontecer quando fossem para a cama.  medida 
que passavam aqueles segundos de silncio ensurdecedor, ocorreu-lhe que talvez ela no confiasse em que ele cumprisse a promessa. Por um instante, sentiu-se ofendido. 
Se havia coisa de que se orgulhava, era de cumprir a sua palavra. Mas ento lembrou-se do que Ryan tinha dito acerca de as pessoas terem medo de que a histria pudesse 
repetir-se.
Lonnie Boyle, o saco de pus. O filho da me tinha, sem dvida, feito promessas sem conta a Maggie ao longo dos anos, nunca cumprindo uma nica, a menos que fosse 
a concretizao de uma ameaa. Vinda de um ambiente daqueles, era de admirar que achasse difcil confiar?
Segundo a sua experincia, o cdigo de honra de um homem no valia grande coisa.
O que realmente partiu o corao de Rafe era saber quanto ela queria confiar nele. Esse desejo ardente estava ali, nos seus belos olhos.
Tambm havia um olhar suplicante na sua expresso, como se estivesse a implorar-lhe em silncio que fizesse alguma coisa, sendo que o problema era ele no saber 
do que ela precisava. Mais promessas? Podia falar-lhe com toda a lealdade e nunca afastar a ansiedade que ela sentia.
Rafe ps-se em p e atravessou o quarto em direco a ela, com movimentos lentos e decididos para no a assustar. A avaliar pelo modo como os olhos dela se abriam 
 medida que ele se aproximava, tambm podia muito bem no se ter incomodado. Deu um grande suspiro de cansao para dentro.
- Maggie - disse ele delicadamente, agarrando-lhe ao de leve pelos ombros. - No esteja nervosa. No vou fazer-lhe mal.
- Oh, eu sei - garantiu-lhe ela numa voz trmula.
Mas era mentira. A verdade  que esperava que no e rezava para que isso no acontecesse, mas Lonnie tinha-lhe roubado toda a capacidade de ter a certeza disso.
 - Vamos, querida - disse ele, encaminhando-a para a cama. - Deite-se l.
Ela deslocava-se  frente dele como um condenado que est a ser conduzido para a cmara de execuo. Quando os joelhos tocaram no colcho, estremeceu. Por baixo 
das suas mos, Rafe sentia o corpo magro dela tremer. Sentia-se como se fosse o maior filho da me do mundo por ignorar isso e puxar as cobertas para trs.
- V - incitou.
Com movimentos rgidos e desajeitados, meteu-se entre os lenis e depois chegou-se tanto para a borda do lado oposto que ficou em perigo de cair.
Deitada rigidamente do seu lado de costas para ele, puxou os cobertores at s orelhas.
- Boa noite - disse em voz baixa. E depois: - Apago a luz?
- Se faz favor - disse-lhe Rafe quando comeou a despir a camisa.
Mantendo cuidadosamente o olhar desviado dele, alcanou o interruptor do candeeiro. No instante seguinte, o quarto ficou mergulhado na escurido.
Dotados de uma boa viso nocturna, os olhos de Rafe adaptaram-se rapidamente. O luar entrava pelas janelas, pintando o tapete cor de malva de cinzento-prateado e 
lanando na sombra a moblia em todo o permetro do quarto.
Depois de atirar a camisa para o lado, tirou os jeans. A fivela do cinto e os trocos que tinha no bolso soavam no silncio tenso como uma pandeireta quando as calas 
caram no  cho. Sentou-se na borda da cama para tirar as meias e as colocar em cima do cano das botas. Quando finalmente se meteu entre os lenis para se juntar 
a Maggie, apenas tinha as boxers, o que, considerando o facto de normalmente dormir nu, era uma concesso.
Quando lhe ps a mo em cima da anca coberta pela flanela, ela retraiu-se como se lhe tivesse tocado com uma brasa a arder. Rafe aproximou-se mais, encostando-lhe 
o peito s costas. Ao chegar-se  borda da cama como se tinha chegado, ficara sem espao para fugir. Isso servia perfeitamente os propsitos dele. Passou-lhe a mo 
da anca para o abdmen, espraiando os dedos na sua macieza. Os msculos do estmago tiveram uma convulso no preciso instante em que a mo dele assentou. Mesmo atravs 
da flanela, conseguia sentir a flacidez da pele naquele stio, sinal da sua recente gravidez.
O seu cabelo de seda assentava na almofada. Deixando os olhos vaguear fechados, Rafe apoiou a face numa madeixa de caracis, com os lbios e o nariz enterrados no 
cabelo. Ela cheirava maravilhosamente, misturando-se os odores delicados do champ e do sabonete com uma fragrncia doce que era exclusivamente dela.
Podia jurar que tinha sentido a pulsao acelerar. Como podia isso ser, no sabia. A mo estava em cima da barriga dela e no do peito. Aumentou a presso com as 
pontas dos dedos. Claro que sentiu um rpido tamborilar.
A pobre rapariga estava to assustada que o corao batia com toda a fora.
Abriu um olho.
- Maggie, querida, pode tentar descontrair-se?
- Estou descontrada - disse ela, agarrando-lhe o pulso mesmo enquanto falava.
Rafe ficou ali um longo momento a perguntar a si mesmo se ela teria conscincia de que lhe estava a enterrar as unhas na pele. Decidiu que, provavelmente, no. A 
avaliar pela fora com que o agarrava, era uma reaco de pnico. Cada linha e cada curva do seu corpo tinham ns de tenso. Esperou vrios minutos, esperando que 
ela pudesse relaxar ou, pelo menos, aliviar o modo como lhe apertava o pulso. No teve essa sorte. Os dedos comearam a ficar dormentes.
- Maggie? - sussurrou ele.
- Sim? - retorquiu ela numa foz fina.
- Acha que por me agarrar a mo me pode impedir de lhe tocar noutro stio qualquer?
Gaguejou e suspendeu a respirao. Quando, por fim, respondeu, a voz saiu sufocada: - No, claro que no.
- Ento, porque  que est a incomodar-se com isso?
Passou a fazer menos fora mas manteve a mo no punho dele. Rafe flectiu os dedos para fazer o sangue correr, o que lhe valeu instantaneamente outro assalto dilacerante 
das unhas dela.
Pensou em tentar tranquiliz-la outra vez, mas uma vez que isso no tinha funcionado at ento, optou por fingir que estava a dormir, em vez disso, sendo a sua esperana 
que talvez ela se sentisse segura se acreditasse que ele tinha adormecido. Obrigou o corpo a relaxar-se e a respirao a mudar. Mesmo assim, ela l estava, corpo 
rgido, a mo a tomar-lhe conta do pulso.
Rafe teve o pressentimento de que ia ser uma noite muito longa e de longe mais torturante para ela do que para ele. Contou os tiquetaques do pndulo. Tentou pensar 
noutra coisa qualquer. Quando os seus pensamentos voltaram  mulher que tinha nos braos, ela ainda estava rgida como uma corda de piano bem afinada.
Quanto tempo tinha passado? Vinte minutos, talvez trinta? S sabia que, assim, ela no podia descansar nada. Jesus Cristo. Naquele momento, Rafe detestou Lonnie 
Boyle com uma virulncia que quase o sufocava.
O pior  que no era problema que Rafe pudesse discutir abertamente com ela. Ela ainda nem tinha confessado que Boyle era o pai do seu filho, quanto mais contar 
pormenores do que o filho da me lhe tinha feito. Como  que Rafe podia jurar-lhe que nunca lhe faria o mesmo se no podia discutir abertamente o assunto?
No posso deix-lo fazer  Heidi o que me fez a mim - dissera ela a chorar, naquela tarde, no hospital. No instante em que tinha dito aquilo, Rafe adivinhara exactamente 
o que Boyle lhe tinha feito. Quando pensava nisso ainda se sentia doente. Mais cedo ou mais tarde, tinha de a fazer falar-lhe nesse assunto. Ela precisava de o fazer, 
para se libertar dessa maldade, se no fosse por outra razo qualquer. Tal como estava, ela acreditava que mais ningum sabia toda a verdade - que o padrasto no 
s tinha abusado fisicamente dela, mas tambm a tinha violado.
Rafe fechou os olhos, sofrendo por ela de maneira muito intensa. Meu Deus. Queria tanto dizer: De que  que tem tanto medo, Maggie? De que eu possa fazer o mesmo 
que o Lonnie fez?
A capacidade de confiar nos outros  uma coisa to frgil e estilhaava-se com tanta facilidade. Maggie tinha sido trada por um homem que devia ser o nico na sua 
vida em quem podia confiar implicitamente. Boyle tinha ridicularizado aquele lao familiar fazendo o que tinha feito e, ao faz-lo, tinha deixado Maggie a achar 
que para os homens nada era sagrado.
Rafe queria dizer-lhe outra coisa. Mas to profundamente como ansiava por lhe sossegar os medos, sabia que s palavras no seria o suficiente. O nico modo de conseguir 
provar a Maggie que podia confiar nele era com os seus actos, abraando-a assim e no fazendo mais nada, ensinando-lhe pela experincia que o toque das suas mos 
nunca lhe traria dor. Lentamente, momento a momento, dia a dia.
No havia cura rpida. Ela precisava de tempo e, provavelmente, muito. A nica consolao de Rafe era que ela valia bem a pena da espera.
Aconchegando-a a ele, continuou a fingir que estava a dormir, esperando com todas as suas foras que ela ficasse depressa to exausta e conseguisse relaxar-se e 
cair no sono, pareceu-lhe que tinha passado uma eternidade at, finalmente, ela ter relaxado o modo como lhe agarrava o pulso e a tenso ter-lhe abandonado o corpo. 
Ento, suspirou, a respirao com um arquejo sussurrante como uma criana que tivesse chorado para adormecer. Encostou-se mais a ele, torcendo-se ligeiramente na 
cintura, a anca macia a estimular-lhe a masculinidade. O rgo sexual crispou-se-lhe e ps-se em sentido. Rafe susteve a respirao, com medo que aquela dureza a 
que no estava habituada pudesse acord-la.
No precisava de se ter preocupado. Ela estava a dormir. Cansado de se manter na mesma posio durante muito tempo, deitou-se de costas, puxando-a delicadamente 
para ele. Ela murmurou e virou-se. Procurando a cavidade do ombro dele com a sua face acetinada, aninhou-se bem, pondo a perna flectida por cima das coxas dele, 
a plvis encostada  anca e os seios contra a superfcie rija do seu peito.
Ele deixou os olhos fecharem-se. Maggie. Meu Deus, ela era to macia e incrivelmente doce. Poder estar agarrado a ela assim era como receber um milagre. No importava 
que no pudesse fazer amor com ela. A seu tempo, isso mudaria.

Por agora, ia aceit-la tal como era e considerar isso uma bno. Antes de se deixar adormecer, Rafe prometeu a si mesmo que, independentemente do que fosse necessrio, 
proteg-la-ia a ela e s pessoas que amava de qualquer nova dor ou maldade. Mas ao passar da semiconscincia para sonhos conturbados, a sua confiana na capacidade 
de o fazer abandonou-o.
Estava mais uma vez na parte de trs do reboque do cavalo, a olhar atravs da fria de uma terrvel tempestade de granizo para a carrinha que pairava  beira do 
talude, quase a levar para a morte as pessoas que amava. Mas desta vez, em vez de estarem Susan e os filhos no carro, de algum modo ele sabia que era Maggie e Jaimie.
Naquela fraco de segundo que, de algum modo, se tornava uma eternidade nos seus sonhos, antes de o carro saltar por cima do penhasco, o rosto do condutor virou-se 
para ele. Para seu horror, j no foi o rosto de Susan que viu. E, Deus o ajudasse, tambm no foi o de Maggie.
O rosto era o de Lonnie Boyle e ele estava a rir-se loucamente.

Captulo Quinze
Vai correr tudo bem.
Nos trs dias seguintes, enquanto Maggie ainda estava confinada principalmente ao quarto, Rafe reafirmou aquela promessa de dzias de modos diferentes. Todas as 
manhs, sem falha, ele e a Heidi iam ter com ela ao quarto para tomar o pequeno-almoo e, antes de Heidi ir para a escola, ele fazia uma chamada de longa distncia 
para Prior, desviando a ateno de Lonnie e passando o telefone a Maggie ou  Heidi s depois de a me estar em linha. Maggie ficava indescritivelmente aliviada 
por falar com a me e saber de viva voz que ela estava bem, e sabia que isso tambm significava muito para Heidi. Dada a imaturidade mental e emocional de Helen, 
Heidi sempre tinha procurado apoio maternal junto de Maggie e no estava to ligada, ou no era to dependente da me como a maioria das crianas da idade dela podia 
ser. Mas amava Helen e preocupava-se com ela.
No resto do dia, Rafe evitava o tdio, entretendo Maggie com uma quantidade de actividades agradveis. Uma tarde, viu filmes romnticos com ela; na tarde seguinte, 
ensinou-a a jogar poker e, no ltimo dia, encheu-lhe a cama de catlogos de decorao para que ela pudesse escolher um tema para os quartos da Heidi e do Jaimie.
Por mais que Maggie apreciasse a sua ateno, no entanto, o que realmente a tocava eram todas aquelas coisas incrivelmente doces que ele fazia.
Telefonava-lhe frequentemente por uma linha diferente doutro compartimento da casa para a envolver em conversas ridculas. Falar ao telefone, explicava ele, era 
uma parte essencial do namoro. Por vezes, apenas se provocavam um ao outro com coisas tolas. Outras vezes, trocavam informao acerca deles prprios, partilhando 
histrias da infncia ou relatando os momentos mais embaraosos de cada um. Maggie soube que outrora a cor favorita dele fora o azul, mas que os seus gostos tinham 
mudado recentemente e agora adorava o castanho - a cor exacta dos olhos dela. A sua refeio favorita era um bife e uma batata cozida no forno, com muita manteiga, 
natas azedas e cebolinho fresco. A sua cano favorita era The Way We Were, o seu filme preferido, O Despertar, o seu livro favorito, Wbere the Red Fem Grows, e 
os seus dios de estimao, cerveja quente e papel higinico molhado.
Porque sabia que o seu tempo podia ser mais bem gasto a tratar dos assuntos do rancho, Maggie tinha sentimentos de culpa por causa das horas todas que ele perdia 
ao telefone com ela. Quando sugeriu que ele podia usar esse tempo para comear a familiariz-la com o sistema contabilstico, ele insistiu em que conversas telefnicas 
tolas eram um ritual de namoro que todas as mulheres deviam experimentar. Tambm defendeu que era de longe muito mais fcil falar abertamente ao telefone do que 
pessoalmente, e uma vez que queria saber coisas acerca dela, parecia ser um pequeno preo a pagar. Maggie achou que ele era um bocadinho louco, mas era a mais amvel 
das loucuras.
Uma manh, quando ainda estava com os movimentos limitados, convidou-a para ir tomar o pequeno-almoo "fora" e levou-a, juntamente com a Heidi, para a cozinha, onde 
bateu uma das suas "famosas omeletas Kendrick". Na noite seguinte, convidou-a para um jantar  luz de velas "fora" e para ir ao cinema. No importava que ir fora, 
com ele, fosse, na realidade, apenas um curto passeio do quarto at outra parte da casa. No importava se a omeleta dele no estava muito boa nem se os bifes estavam 
um pouco queimados. No, o que contava para Maggie era que ele preocupava-se com ela o suficiente para ter aqueles gestos.
No seu primeiro dia de liberdade fora do quarto, Rafe levou-a  cidade a visitar o Doutor Kirsch para fazer um exame e ver como estava, aps o que lhe foi receitada 
mais uma srie de dez dias de antibiticos e lhe foi dito que estava a recuperar bem.

- Pode retomar as suas actividades habituais - disse-lhe o mdico com um sorriso amvel -, sendo a nica excepo que no pode amamentar o seu filho at acabar a 
medicao. Sugeria que esperasse pelo menos dois dias depois de tomar a ltima dose, para ter a certeza de que j saiu completamente do seu organismo.
Maggie sentiu-se como se tivesse acabado de ser libertada da priso.
Apetecia-lhe atirar a cabea para trs e gritar que estava bem. Como se percebesse exactamente como ela se sentia, Rafe dirigiu-lhe um enorme sorriso quando saram 
da clnica e seguiram pelo movimentado passeio. A expirao dele formava baforadas de vapor no ar frio. 
- A Becca est a tomar conta do Jaimie. No h razo para irmos a correr para casa. Vamos celebrar.
Dando um passo para o lado com ele para evitar um peo que vinha em sentido contrrio, Maggie riu-se e encolheu os ombros. 
- Como  que podemos celebrar?
Ps-lhe um brao  volta dos ombros e o odor condimentado do seu aftershave estimulou-lhe os sentidos. 
- Que tal almoarmos cedo na Baixa e depois irmos s compras at desfalecermos?
- s compras? Comprar o qu?
Franziu-lhe o sobrolho a fingir. 
- Comprar o qu: Senhora Kendrick, tenho que lhe recordar que o seu guarda-roupa est com carncias graves?
- No posso pagar tanto! - sussurrou ela mais tarde, quando entraram numa loja de artigos de senhora e ela viu a etiqueta de uma blusa de que gostou.
- Querida, o dinheiro j no faz muita falta, lembra-se?
Com dedos entorpecidos, Maggie viu as etiquetas de algumas outras peas e a blusa mais barata que encontrou custava oitenta e nove dlares. Uma, eram duzentos e 
quarenta e nove dlares e era algodo liso. Oh, meu Deus.
Rafe queria comprar-lhe vrios tops e, com aqueles preos, derreteria mil dlares num abrir e fechar de olhos.
Uma sensao de angstia, de abafamento, encheu-lhe o peito. Se ele cortasse com ela, continuava a querer reembols-lo de todo o dinheiro que tinha gasto, com os 
rendimentos de uma empregada de mesa, levaria o resto da vida a pagar a dvida, a menos que limitasse as despesas.
- Confesso que preciso de roupa, mas isto  um roubo - insistiu ela. - No h um K Markt ou um Wal-Markt em Crystal?
Em vez de responder, pegou na blusa que ela tinha na mo e ficou ali, cerrando os dentes e olhando para um dos botes, que ela tinha quase a certeza que era feito 
de ouro de 14 quilates. Por um momento horrvel, receou que ele estivesse a preparar-se para a imobilizar. Em vez disso, respirou fundo, aliviou a fora com que 
tinha agarrado na pea e pareceu desinteressar-se dela.
Quando se virou para ela, estava a sorrir. Empurrou o chapu para trs, levantou a blusa, para ver como lhe ficava e disse  empregada:
- Ela vai experimentar esta.
A empregada levou a blusa para o gabinete de prova.
- Rafe, no ouviu o que eu disse? - sussurrou Maggie quando ele se afastou para continuar  procura de coisas.
- Ouvi. - Viu outro top caro que tinha escolhido no escaparate e p-lo no brao. - No quero saber do que est a dizer.
- Sempre trabalhei e paguei  minha maneira. No me sinto bem deixando outra pessoa pagar as minhas coisas.
Dirigiu-lhe um olhar cortante.
- Porque no diz o que est a pensar, Maggie? Que no gosta de deixar um homem comprar-lhe coisas. Mais especificamente, eu.
- No  isso.
- No? Est a falar em pagar  sua maneira. "No h almoos grtis." Mas isso  conversa fiada, e ambos o sabemos. A verdade  que tem medo de que eu insista noutro 
tipo de reembolso.
Cada vez mais alarmada, Maggie viu-o tirar outra blusa do escaparate. Era a que custava duzentos e quarenta e nove dlares. 
-  uma questo de orgulho.  o seu dinheiro, no o meu. No fiz nada para o ganhar. O mximo que fiz na sua casa foi lavar um prato sujo ou limpar o p de um mvel. 
No consegue entender como me sinto?
Suspirou e, finalmente, parou de vasculhar para lhe prestar ateno. Os olhos azul-acinzentados olharam-na bem nos olhos. Passado um instante, disse com suavidade:
- Vai andar com isso o resto da vida? H sempre qualquer coisa, desde o primeiro dia. O quarto do motel, a comida, a chapa elctrica.  normal o seu marido comprar-lhe 
coisas. No  uma empregada.  minha mulher.
- No  crime ser poupada, pois no? Porqu deitar fora o dinheiro? D o que sobra para obras de beneficncia.
- Antes de sair do rancho, dei muito. Agora, continuarei a faz-lo, e provavelmente em muito maior escala. Nunca estragarei dinheiro que possa ser mais bem utilizado 
apenas pelo prazer de estoirar. Mas, segundo o mesmo raciocnio, desde que tenha meios para isso, recuso-me a contar os tostes quando se trata de coisas para a 
minha mulher e para o meu filho. Ou para a Heidi, tambm, neste caso. Faz-me sentir bem, poder comprar coisas bonitas para vocs os trs. Isso  crime?
O olhar de Maggie caiu para a etiqueta com o preo. O corao bateu mais depressa. 
- Podemos chegar a um acordo e ir a uma loja de preo mdio?
- Jesus Cristo - disse ele entre dentes.
- No fique zangado, por favor.
Saiu-lhe um riso de irritao.
- Zangado? Est a ferir os meus sentimentos, que diabo. Eu tenho sentimentos, sabe? - Chegou-se mais para ela para evitar que outras pessoas ouvissem a conversa. 
- Temos milhes no banco. Milhes, Maggie. E voc est a regatear preos de coisas de primeira necessidade? Porqu? S consigo pensar numa razo. Se houver outra, 
no estou a v-la, por favor, esclarea-me ou este dilogo  uma bofetada na minha cara. Nunca lhe exigi nada. Nada, zero! Acha que estou a fazer um registo, a poupar 
para uma semana inteira?
Maggie recuou um pouco para pr alguma distncia entre os narizes de ambos. 
- J lhe disse que no  isso. Sou apenas frugal por natureza e prefiro regatear os preos.
- Qual  a sua soluo? Ter um par de jeans e uma blusa? Andar por a parecendo uma pedinte? As pessoas ho-de pensar que eu sou um idiota de um forreta que obriga 
a mulher a passar sem as coisas de que precisa enquanto eu uso um Rolex e botas de quinhentos dlares.
- No  minha inteno parecer uma pedinte. Preferia apenas fazer compras num grande armazm de preos baixos. No preciso de gastar uma fortuna para parecer bem, 
ps a segunda blusa no brao. Maggie suspeitou de que ele estava contar at dez. Lentamente. Apoiava o peso do corpo ora num p, ora no outro, parecendo deslocado, 
por entre os expositores de artigos de senhora. Alto, moreno, robusto, com o casaco de cabedal e o Stetson puxado para trs a revelar-lhe o rosto queimado, era to 
bonito que lhe apressava a pulsao.
Evidentemente, contar at dez no funcionou muito bem. Os olhos dele brilhavam quando a percorria com o olhar.
-  verdade. Ficaria muito bem com um saco de serapilheira. Mas isso no quer dizer que eu tencione deix-la usar um.
- Esta temporada no estava a planear andar com nenhum. - Olhou por cima do ombro para ter a certeza de que no estava ningum perto. Acredite, Rafe. Fico perfeitamente 
feliz com roupas mais baratas. Se, mais tarde, quiser uma coisa especial, vou trabalhar a tempo parcial para a comprar eu. Sentir-me-ia melhor dessa maneira.
- Pode ser que se sentisse feliz com roupas mais baratas - concedeu ele -, mas eu, no. Tenho dinheiro para lhe comprar coisas bonitas. Quero comprar-lhe coisas 
bonitas. Quanto a ser voc a ganhar o dinheiro, se est a falar em servir s mesas, mesmo a simples referncia a isso far com que eu faa parecer Hiroxima uma exploso 
de pistola de fulminante.
Maggie refreou-se para no dizer que ele j parecia estar muito perto da detonao.
- Quer ir para a universidade? Por mim, ptimo. Quer ter uma carreira profissional? Por mim, ptimo. Nunca tentarei impedi-la. Mas juro por Deus que s por cima 
do meu cadver  que alguma vez voltar a servir  mesa, deixando algum camionista beliscar-lhe o rabo para lhe dar uma gorjeta melhor. Percebeu?
- Eu nunca deixo ningum beliscar-me o rabo para obter uma gorjeta melhor! - gritou ela, com uma voz do tamanho da loja. Mal tinha acabado de falar, estremeceu e 
sentiu um calor abrasador nas faces. Viu a empregada pr a cabea de fora da sala de provas e olhar para eles de boca aberta.
Rafe passou a mo pelo queixo, parecendo envergonhado. - Golpe baixo. Desculpe. Eu sei que no. - Quando voltou a olhar para ela, os olhos dele tinham comeado a 
cintilar e tinham desaparecido todos os sinais de ira. - Esta fica para a histria. Eu a discutir com a minha mulher numa das lojas mais luxuosas da cidade. -Ergueu 
uma sobrancelha. Diga-me, por favor, que no atira nem parte coisas quando se irrita. As empregadas daqui do lies s mulheres para vestirem correctamente os soutiens.
Saiu de Maggie uma risadinha espantada. Que homem... Por vezes, sentia-se como se ele tivesse prendido cordas invisveis s suas emoes e pudesse toc-la como se 
fosse uma harpa bem afinada. No tinha graa nenhuma. Por que diabo estava a rir-se? Alvio, achou ela. Ele parecia querer declarar trguas e ela no podia deixar 
de aceitar a proposta.
- H mais de uma maneira de vestir um soutien?

Um sorriso maroto atravessou-lhe a boca.
 - Vamos para casa e eu mostro-lhe.
- Como se voc soubesse? Tanto quanto me lembro, reprovou a Fechos de Soutien 101.
- Isso no quer dizer que no conhea a minha logstica. A Susan veio aqui algumas vezes e a pouco e pouco contava-me.
- A srio?
Aproximou-se dela.
- Num stio como este no  permitido empurrar e encher. A pessoa inclina-se para a frente e acomoda-se suavemente nas copas.  a nica maneira de obter o nmero 
certo.
Ela mal podia acreditar que estavam a ter aquela conversa, quanto mais num local pblico. - Isso arruma a questo - disse ela, mantendo um tom de voz baixo. - Temos 
que descobrir um armazm. Eu sou uma rapariga de "empurrar e encher".
- Casada com um tipo que est a fazer o mximo para a acomodar em roupas decentes. Habitue-se a isso.
- Estou a tentar.
- Ainda bem. - A voz dele tornou-se baixa e rouca. - A srio, Maggie. O Oregon  um estado de propriedade comunitria. O que  meu  seu, o que  seu  meu. Isso 
significa que o meu dinheiro  o seu dinheiro. Insiste em reembolsar-me de cada cntimo que gastar se acabarmos por separar os trapinhos? Por mim, ptimo. Pode reembolsar-me 
tirando da sua metade dos nossos bens.
- No foi isso que estipulmos no acordo que assinmos. O livrinho preto, lembra-se? Manter um registo e eu reembols-lo com o meu prprio dinheiro.
- Essa pode ter sido a sua perspectiva, mas no foi necessariamente a minha. Onde  que nesse acordo dizia "o seu prprio dinheiro"? Nada de servir  mesa outra 
vez, ponto final, fim da discusso. - Deu-lhe uma pancadinha debaixo do queixo. - Descontraia-se e goze a ida s compras. Por favor!
Maggie sabia quando estava vencida. Ou o deixava comprar-lhe roupa, ou entravam numa enorme luta. Uma vez que ele era mais do que assustador quando realmente se 
zangava, optou pela sada mais fcil. 
- Est bem. Mas, na minha opinio, esta roupa daqui custa uma fortuna. Ficava muito feliz acomodando-me noutra mais barata.
- Mas vai parecer to bem. Baixou-se e beijou-lhe a ponta do nariz. Considere isso uma prenda que me d. Eu sou o tipo que tem que olhar para si.
Postas as coisas naquele p, Maggie aplicou-se na tarefa de escolher um guarda-roupa.
No fim da tarde, ele tinha-lhe comprado tudo, desde roupa de rancho comprada numa dispendiosa loja de roupa do Oeste, at roupa para usar de dia e vestidos de noite 
de lojas de vesturio para mulheres de elite de toda a cidade.
Quando Maggie tentou evitar a seco de roupa interior na ltima loja que visitaram, ele riu-se por entre dentes e levou-a directamente para l. A cara dela ficou 
a escaldar quando ele comeou a pegar em minsculas calcinhas e soutiens de renda, olhando para ela como se estivesse a tentar imagin-la com eles vestidos. Tambm 
escolheu vrias camisas de noite sensuais e levou-as para o balco. Quanto notou a expresso preocupada dela, mexeu as sobrancelhas, piscou-lhe o olho e depois sussurrou: 
- Acredito firmemente na fora do pensamento positivo.
Maggie foi obrigada a rir-se.
- Pensamento positivo?
- Confie em mim - sussurrou ele. - No tenho inteno de a obrigar a usar nada disto. Pelo menos, to depressa. Pode deixar de parecer to preocupada.
- No estou preocupada - replicou ela, um pouco admirada ao perceber que no estava mesmo. Rafe talvez pensasse em fazer amor com ela, mas ela comeava a confiar 
em que ele nunca a obrigaria a nada enquanto no estivesse pronta. Saber isso era uma sensao muito boa.
Nos dez dias seguintes, enquanto terminava a ltima ronda de medicao, caram numa rotina, Rafe passando a maior parte do dia fora de casa com Ryan e Maggie em 
casa, a tomar conta do filho. Na maioria das tardes, quando caa o crepsculo, Rafe voltava dos estbulos, tomava um duche rpido, barbeava-se e, depois, passava 
o resto da noite com ela, Jaimie e Heidi.
Nesses seres, Ryan juntava-se frequentemente a eles para um jantar informal na cozinha, o que dava a Maggie a oportunidade de conhecer melhor o cunhado, que mostrou 
ser um sedutor e to simptico como o marido.
Depois, quando Heidi e o beb iam dormir, Rafe levava sempre Maggie a dar um longo passeio junto ao lago, desde que o tempo permitisse. Ela nunca tinha visto nada 
to bonito ou to parecido com um conto de fados como o lago gelado e os bosques varridos pela neve quando tudo estava banhado pelo luar. 


As janelas da casa brilhavam como lanternas de farol atravs das ramagens de pinheiros e abetos cobertos de neve, o cheiro a fumo de madeira proveniente das chamins 
temperava o ar da montanha e quando o vento soprava por cima dos picos cobertos de neve que rodeavam o lago, fazia-lhe lembrar o som de anjos a sussurrar. A serenidade 
do cenrio acalmava-a e, gradualmente, acabou por perceber a razo pela qual Rafe gostava tanto do rancho.
Durante esses passeios ao longo do lago, por vezes conversavam ou divertiam-se na neve, mas outras vezes pouco falavam, partilhando apenas os sons nocturnos da natureza. 
De qualquer modo, Maggie aprendia uma coisa nova acerca do marido em cada passeio. Ele era ferozmente protector, agarrando-lhe frequentemente o cotovelo ou pondo-lhe 
o brao  volta dos ombros para a impedir de escorregar no gelo. Tambm era de uma delicadeza inata, nunca se esquecendo da sua fora, mesmo quando andavam na brincadeira.
Nas trs noites em que, nessa altura, jantaram fora sozinhos, ele levou-a a jantares  luz de velas em restaurantes de "ir bem vestida", como ela lhes chamava, onde 
os homens tinham de estar de fato e as senhoras de vestido de cocktail.
Nessas ocasies, Maggie ficava contente por ele lhe ter comprado as suas maravilhosas roupas, pois estava a tornar-se cada dia mais importante para ela que o seu 
aspecto lhe agradasse. Nunca quis que ele a comparasse a qualquer das outras mulheres que encontravam e achasse que ela ficava a perder.
A comida servida nesses estabelecimentos era to requintada que Maggie no conseguia pronunciar o nome de metade dos pratos, com vergonha de confessar a sua ignorncia, 
fazia de conta que escolhia mas, muitas vezes, no fazia a mnima ideia do que estava a encomendar. Numa dessas ocasies, os olhos de Rafe encheram-se de um riso 
cintilante quando viu a expresso que lhe atravessou o rosto ao saber que a entrada que tinha mandado vir eram caracis. Veio em seu socorro dizendo que tinha sido 
ele e no a mulher a encomendar "escargots". Maggie suspeitou que a troca de pratos com ela foi um monumental sacrifcio. No parecia que ele gostasse muito de caracis. 
Mas para lhe poupar o embarao, comeu-os.
A partir da, quando iam a um restaurante, ele dava-lhe orientaes confusas reflectindo em voz alta sobre as opes do cardpio. "Pinot Noir"?


Um pouco seco de mais. Naquela noite, o palato pedia-lhe um vinho com um toque de um pouco mais de doura. "Que opes  que havia?", perguntaria ao empregado de 
mesa.
Maggie percebia exactamente o que Rafe estava a fazer, mas fazia-o de um modo to discreto que no se sentia humilhada. Tornou-se perita em observar sub-repticiamente 
todos os movimentos que ele fazia. Punha o guardanapo no colo quando ele o fazia e cedo aprendeu por observao que a taa que continha gua e uma rodela de limo 
no era para beber e que o garfo pequenino no se usava para salada. Quando, uma vez, ele olhou e a apanhou a copi-lo, piscou o olho e disse: 
- Amo-a, fazendo-a sentir-se incrivelmente especial quando, em vez disso, ele a podia ter rebaixado.
H j tanto tempo que um homem no mostrava qualquer preocupao com os seus sentimentos. O pai mostrava, certamente, mas tinham passado muitos anos desde a sua 
morte e as recordaes que Maggie tinha dele h muito que se tinham esbatido. Durante sete anos interminveis, Lonnie tinha poludo a vida dela, dia a dia.
Em comparao, Rafe era maravilhoso. Desde o princpio, fora imaculadamente generoso, dando-lhe tanto. Mesmo assim, nunca lhe tinha exigido nada em troca, excepto 
que casasse com ele e, nessa matria, Maggie absolvia-o, acreditando do fundo do corao que o fizera para a proteger. Agora era legalmente seu marido, com todo 
o direito de a possuir, mas continha-se.
Maggie no conseguia explicar mas, de algum modo, a cada dia que passava, estar ao p dele reforava a sua confiana. Antes de o conhecer, sentia-se incapaz. Maggie-ningum, 
uma criaturazinha inconsequente, a sofrer e a esquivar-se para no ser esmagada.
Pelo contrrio, Rafe fazia-a sentir-se inteligente, talentosa e importante. Quando insistiu em que ele a familiarizasse com o sistema contabilstico e lhe entregasse 
as contas, admirava-se da rapidez com que dominara o computador e se tornou especialista dos diversos programas.
Quando compilou os dados dos ltimos trs anos fiscais e extraiu fluxogramas que mostravam lucros e perdas, no se limitou a dar-lhe uma palmadinha na cabea e dizer: 
bom trabalho. Passou uma tarde e uma noite inteiras no escritrio com Ryan, a estudar cuidadosamente a informao e recorriam frequentemente a ela para lhes explicar 
algumas das variaes, concluindo, no fim, que havia alteraes operacionais ali indicadas que podiam aumentar substancialmente os lucros anuais. Maggie mal podia 
acreditar nos seus ouvidos. 
Aqueles homens inteligentes e altamente bem sucedidos iam alterar o modo como tinham feito as coisas durante anos simplesmente porque ela tinha sugerido que o fizessem?
- Voc  espantosa, Maggie - disseram, mais de uma vez, os dois homens, e o respeito que lhes viu nos olhos disse-lhe que estavam a falar a srio.
- Poupou-nos literalmente milhares de dlares, s na rotao das colheitas.
Vinda de um lar dominado por um homem onde levava uma bofetada apenas por dizer o que pensava e lhe diziam constantemente que era estpida, Maggie adorava os elogios 
mas o mais importante era sentir que os seus esforos eram uma contribuio vlida que, por extenso, a fazia sentir-se igualmente vlida. Uma noite, Rafe perguntou-lhe 
se deviam pensar em gastar dinheiro a substituir algum do equipamento do rancho. Depois de analisar a questo e de comparar os custos peridicos das reparaes de 
equipamento com os possveis custos de aquisio, Maggie recomendou que comprassem um tractor e um "Cattetpillar" novos, perante o que Rafe pegou imediatamente no 
telefone para fazer algumas comparaes de preos. Quando se familiarizou mais com as contas do rancho, tambm determinou que devia haver grandes redues dos impostos 
se constitussem uma sociedade e Rafe chamou um fiscalista para discutir essa possibilidade.
Pela primeira vez na sua vida adulta, Maggie sentiu-se importante e a timidez que lhe tinham metido na cabea comeou a dissipar-se, sendo substituda por autoconfiana. 
No era estpida. Rafe acreditava nela e, porque ele acreditava, tambm ela comeou a acreditar. Chamava-lhe "nosso guru do computador" e, quando estava ao telefone 
com o fiscalista, ouviu-o dizer: "A gerente do rancho diz que podamos poupar quantias substanciais constituindo uma sociedade." A gerente do rancho. De repente, 
tinha um ttulo e, ao outorgar-lho, Rafe estava a dar-lhe um crdito que ela nunca esperava receber. Uma noite, a rir, ele disse:
- O Ryan e eu somos o msculo desta operao e a Maggie, o crebro.
- O crebro. Depois de o ouvir dizer aquilo, sentiu-se um pouco mais orgulhosa.
Ele tambm se desviava do seu caminho para a fazer sentir-se incrivelmente especial de outros modos. Se ela dizia em voz alta que lhe apetecia chocolate, o que sabia 
era que lhe aparecia uma caixa de chocolates na mesa-de-cabeceira. Quando dizia que gostava muito de limonada, aparecia por artes mgicas um cntaro dela no frigorfico.
Estragava-a desavergonhadamente com mimos, e embora no estivesse acostumada quelas atenes, gostava de cada gesto amvel.

Todas as noites, quando se deitava com ela e a tomava nos braos, Maggie sentia a dureza latejante da sua masculinidade encostada a ela e pensava:
A est. Acabou a minha suspenso de pena. Desta vez, vai forar a questo. Mas nunca o fez e, porque no o fez, ela acabou por perceber lentamente que ele dava 
mais importncia aos seus sentimentos e s suas necessidades do que s dele.
Quando Maggie chegou a essa concluso, o que anteriormente pensara que era impossvel comeou a acontecer. Deu com ela a apaixonar-se por ele.
J no estava acordada nos braos dela cheia de medo. Em vez disso, dava consigo a perguntar a si mesma como seria fazer amor com ele. Gostava de sentir as mos 
dele quando lhe tocava, to grandes, duras e quentes, mas ainda assim to delicadas. E apetecia-lhe tocar-lhe tambm, passear com as pontas dos dedos pelos msculos 
que ele tinha nas costas, aplicar as palmas das mos nos contornos firmes do seu peito, experimentar as protuberncias elsticas de fora dos seus ombros.
Por vezes, depois de ter a certeza de que ele estava a dormir, satisfazia a sua curiosidade, percorrendo-lhe o rosto com as pontas dos dedos passando-lhe as mos 
ao de leve pelos braos. Tocar-lhe fazia-lhe lembrar a pulsao e enchia-a de desejo de se aproximar mais. Quando mida, sonhara um dia encontrar o tal, algum alto, 
moreno e bonito que fosse delicado, doce e maravilhosamente romntico. Rafe Kendrick satisfazia ou excedia todas as suas exigncias. Era decididamente alto, e, excepto 
por causa dos olhos azul-fumados, era o mais moreno possvel, com a sua pele de bronze e o seu cabelo preto de azeviche. Quanto a beleza? Certamente no era um rapaz 
lindo, mas havia qualquer coisa nas superfcies cinzeladas do seu rosto que lhe fazia bater o corao.
Tambm era, indiscutivelmente, o homem mais amvel e mais atencioso que jamais conhecera.
Amor. Havia de dar por si a observ-lo, aterrorizada pelos sentimentos que estava a desenvolver por ele mas incapaz de parar. Esses sentimentos deram lugar a um 
novo medo paralisante, o de o perder.
E havia coisas acerca dela que Rafe no sabia, coisas to vergonhosas que nunca as tinha confessado a ningum. Tinha a certeza de que, quando soubesse, ele lhe viraria 
as costas.
Era horrvel da parte dela, ela sabia, mas admitiu a ideia de simplesmente nunca lhe contar a verdade. Podia com bastante facilidade inventar um pai fictcio para 
o Jaimie.

Era tal o seu desespero que podia ter escolhido esse caminho, no fora o medo de que Rafe viesse a descobrir mais tarde a sua duplicidade. Um dia, ele podia olhar 
para o Jaimie e notar alguma pequena parecena que ele tivesse com o verdadeiro pai. Ou Lonnie poderia irromper de novo pela vida dela e espalhar as brasas. De qualquer 
modo, Rafe podia descobrir o segredo dela e odi-la por o ter enganado.
Honestidade. Durante toda a vida, sempre tinham dito a Maggie que o melhor era sempre no mentir. Mas como  que a verdade podia ser o melhor, naquele caso? Tal 
como as coisas estavam, Rafe tinha-a em alta considerao. Meu Deus,  to doce, sussurrava-lhe ele muitas vezes, de noite. Bem, no sofreria mais dessa iluso se 
ela deitasse a verdade c para fora.
Maggie andou s voltas, a contornar o dilema, o seu instinto de conservao a tent-la a manter o seu segredo, o seu sentido de lealdade a ench-la de sentimentos 
de culpa simplesmente por pensar nessa possibilidade.
Tendo tomado essa deciso, Maggie deu consigo a ver quando lhe diria.
Nessa noite, depois do jantar, prometeu a si mesma. Mas, quando chegava a altura, ou estava l o Ryan ou o Jaimie chorava e precisava de ateno, ou a Heidi precisava 
de ajuda na Matemtica, dando a Maggie uma boa desculpa para adiar o inevitvel.
Na tera-feira anterior ao Dia de Aco de Graas, acabava de tomar o ltimo antibitico e Rafe levou-a mais uma vez ao Dr. Kirsch, que a declarou completamente 
curada. Depois de sair da clnica, Rafe insistiu em que dessa vez assinalassem a ocasio fazendo compras para o Jaimie.
Entraram em vrias lojas de artigos para beb onde Maggie ficava horrorizada com os preos dos beros, hesitando em escolher por serem todos to caros. Quando estavam 
na ltima loja, aproximou-se mais de Rafe como que para as outras pessoas no ouvirem e sussurrou:
- No h lojas menos caras para bebs nesta cidade? Todos estes preos so absurdos.
O olhar cortante dele veio ao encontro do seu. 
- Mais baratas? No me diga que foi por isso que me arrastou para cinco lojas diferentes, por andar  procura de uma pechincha.
- Est bem. Eu no digo.
Ele olhou  volta.


- Acabou-se. - Olhou para o relgio. - Tem cinco minutos para escolher entre carvalho natural ou pintado, com dois tons ou tom nico. Quando tiverem passado os cinco 
minutos, vou comprar um carregamento de mveis para beb. Aconselho-a fortemente a dizer-me quais so as suas preferncias antes disso porque seno, ficar com o 
que eu escolher.
Maggie j sabia de que bero gostava. Mas custava mais de mil dlares. Se acabasse por o reembolsar de tudo, tinha de ter cuidado com o total da dvida, e mil dlares 
parecia um preo extravagante por uma cama de beb.
Havia seguramente bonitas por muito menos.
Rafe seguiu-lhe o olhar at ao bero que preferia e perguntou: 
-  daquele que gosta?
-  lindo - confessou ela. - O carvalho escuro tem um aspecto esplndido.
- Ento,  carvalho escuro, com aquela proclamao, comeou a seleccionar coisas para beb como se estivesse a matar cobras, as sobrancelhas negras franzidas a dar-lhe 
um ar carrancudo e a voz to cortante e spera que a empregada encheu-a de atenes, tentando pacific-lo. No espao de cinco minutos, escolheu um bero, um carrinho, 
uma alcofa, uma secretria e uma mesa de banho, no olhando uma nica vez para Maggie para ver se ela aprovava as suas escolhas. Depois, como se no tivesse gasto 
dinheiro suficiente, foi comprar uma cadeira de baloio com escorrega e turca a condizer, um conjunto de colcho e protector antichoque da Arca de No, vrios jogos 
de lenis e cobertores  medida e montes de brinquedos. Mandou entregar as compras todas no rancho no dia seguinte, excepto o bero que, insistiu ele, caberia na 
parte de trs do carro.
Quando saiu da loja com o dito bero, Maggie foi atrs dele, to nervosa que ia a torcer as mos. Nunca o tinha visto to zangado. Quando chegaram  parte de trs 
do carro, ps-se de lado a v-lo meter a cama no compartimento de bagagens, arrancando, entretanto, uma das ripas laterais. Olhou para a ferida no castanho-escuro. 
Era profunda e definitiva, representando para ela a ferida que acabava de lhe fazer.
-  um bero lindo, Rafe. - Passou a mo pelo carvalho reluzente.
Uma coisa to bonita como esta estava completamente fora do meu alcance, nunca sequer me atreveria a desej-la.
- Ainda bem que gosta! - disse ele, com mau humor.
Fechou a porta traseira da bagageira e fuzilou-a com os olhos, o queixo anguloso a projectar-se, um msculo a palpitar na face magra. Os olhos azul-acinzentados 
brilhavam tanto de ira que lhe fizeram lembrar slex cintilante.
Nunca como naquele momento Maggie tinha tido conscincia do vigor perigoso daquele homem. Tinha ganho peso de novo. Estava em p, com as biqueiras das botas afastadas, 
as pernas longas e fortes juntas contra o vento irregular que lhe moldava o casaco de pele de corte  moda do Oeste contra o dorso bem musculado. O sol de fim de 
tarde batia nele, um dourado suave e esbatido que contrastava muito com a sua pele morena. Por baixo da aba do seu Stetson, aparecia-lhe o cabelo de bano em madeixas 
desgrenhadas sobre a testa batidas pelo vento. Parecia uma fora da natureza, como os picos brutais que se elevavam  distncia, atrs dele, altos, firmes, letalmente 
aguados.
Um ms antes, Maggie teria tremido de terror. Ele parecia furioso e, segundo a sua experincia do passado, um homem furioso era um homem imprevisvel. Mas Rafe, 
no. Podia ficar to desvairado que roesse as unhas, mas nunca lhe tocaria nem com um dedo. Acreditava nisso do fundo do corao.
Saber disso enchia Maggie de alegria. Era um momento inadequado para desejar abra-lo. Mas, oh, como o desejava. Era to querido, aquele homem, mesmo quando olhava 
para ela como se estivesse a poucos centmetros de a estrangular.
A profunda convico com que confiava nele abalava Maggie e fazia vacilar as suas emoes num perigoso limiar entre a tristeza e a felicidade. Oh, meu Deus. No 
se limitava a am-lo. Adorava-o. Nas ltimas semanas, lenta e sistematicamente ele tinha ultrapassado as defesas dela, reclamando o seu corao como se se tivesse 
apoderado dele com um daqueles punhos brutais. E naquele momento sentia-se como se ele estivesse a esmag-la. A dor que tinha no peito cortava como uma lmina.
- Est muito zangado comigo - arriscou.
- Estou - disse aquela palavra de um modo sibilante, como se lha tivesse assobiado, na verdade.
- Importa-se de me dizer porqu?
Quando fez aquela pergunta, Maggie sentiu-se envergonhada. Recordando-se da discusso que tinham tido na Monique's Boutique, sabia exactamente por que razo ele 
estava aborrecido com ela. Sabia e lamentava profundamente ter ferido mais uma vez os sentimentos dele.
Estava completamente errado quanto s razes pelas quais no queria que ele comprasse aquele bero caro. Mas para o esclarecer tinha de lhe dizer a verdade acerca 
de Lonnie. Um parque de estacionamento pblico no lhe parecia o local ideal para ter essa conversa, especialmente quando Rafe j estava furioso com ela. Esperar 
pela oportunidade certa para abordar esse assunto era a nica esperana que tinha.
-  um pouco difcil pedir desculpa se no sei o que fiz - atreveu-se a dizer. - No sou capaz de lhe ler a mente.
Se era possvel os seus olhos cintilantes brilharem de modo ainda mais perigoso, foi isso que aconteceu. Num tom de voz completamente em desacordo com as veias distendidas 
que lhe palpitavam de cada lado da garganta, disse calmamente:
- Como se no estivesse farta de saber. No brinque, Maggie.
Meteu as mos geladas nos bolsos da parka quentinha que ele lhe comprara.
Devia-lhe tanto! Boa ideia. No brinque. Isso inclua no se ponha a adivinhar. 
- No pode dizer-me o que fiz?
Pelo canto do olho, viu a mo direita dele fechar-se formando um punho que facilmente poderia derrubar um bezerro crescido. Quando ele lhe apontou aquele punho  
cara, Maggie manteve-se firme e no tirou as mos dos bolsos. A sua f nele no foi trada. Em vez de lhe bater, como poderia esperar umas semanas antes, apontou-lhe 
um dedo esticado ao nariz.
- Se no sabe, que diabo, para que serve dizer-lho? Eu fao o melhor que posso exprimindo-me pelos meus actos. Para si, isso no conta para nada, no ? Ningum 
faz nada por outra pessoa sem esperar recompensa. No , Maggie? Lembra-se de me ter dito isso?
Lembrava-se, e com uma clareza que a fez sentir-se mal. Brotou-lhe uma negao do fundo da garganta, mas antes que pudesse exprimi-la, ele continuou a ralhar com 
ela.
- Neste momento a altura no  boa para discutir isso - informou-a ele numa voz vibrante. -Acredite em mim. Se alguma vez eu comear, descarrego tudo duma vez e 
digo coisas que no devo. Portanto, deixe estar at eu acalmar.
Dito aquilo, dirigiu-se de rompante para a porta do condutor, carregando com tamanha fora no boto do controlo remoto que Maggie receou que nunca mais voltasse 
a funcionar. Um vento gelado soprava em rajadas  sua volta no stio onde estava, junto da parte de trs do veculo.
Depois de subir para o Ford, ele olhou para ela pela janela traseira.
- O que  que est a a fazer? - gritou. - Meta-se no carro!




Sentindo-se estranhamente separada dos seus ps, Maggie moveu-se para lhe obedecer, semi assustada com a ideia de que ele pudesse deix-la no parque de estacionamento.
A porta abriu-se imediatamente antes e chegar junto dela, uma ateno do marido irado. Quando comeou trepar para dentro, a mo dele, muito queimada do sol, agarrou-lhe 
o brao esquerdo, dando-lhe uma ajuda desnecessria. Mesmo num ataque de mau gnio, tinha inconscientemente gestos atenciosos.
Rodou a chave da ignio e ligou o motor. Durante sete anos, a reaco instintiva dela  ira masculina fora tapar a cabea e esquivar-se. Agora, ali estava ela com 
um homem que no s no comeava a danar quando ficava desvairado, mas tambm se recusava a discutir o problema at se acalmar. Como se dizer-lhe coisas cruis 
e desagradveis fosse a pior coisa do mundo. Nem perto andava.
Enquanto Maggie ajustava o banco e apertava o cinto de segurana, os olhos ardiam-lhe de lgrimas. Pestanejou para as evitar, no inteiramente certa da razo pela 
qual lhe apetecia chorar. S sabia que tinha um n na garganta que parecia do tamanho de uma bola de basebol e que a cara lhe ardia com um calor escaldante.
Ele meteu a primeira e arrancou do parque de estacionamento obrigando os pneus a patinar e fazendo Maggie recear que fosse daqueles homens que conduziam como manacos 
quando estavam zangados. Mas no. Uma vez na rua, manteve-se dentro dos limites de velocidade e conduziu com uma preciso calma, parando lentamente e acelerando 
depois com exagerada suavidade.
A tenso dentro do veculo era to grande que era quase palpvel. Ele no falava nem olhava para ela. O estmago de Maggie revirava-se. Pareceu-lhe que demorava 
horas a atravessar as movimentadas ruas da cidade at chegar  estrada. Depois de se terem metido no trnsito que ia para leste, no conseguiu suportar mais o silncio.
- Vai tratar-me com silncio at casa?
Ele ignorou a pergunta, tirando o chapu e pondo-o na consola entre eles.
Inclinando ligeiramente a cabea para olhar para o espelho retrovisor, ligou o pisca-pisca para mudar de faixa.
- Rafe?
- Que diabo, Maggie, deixe-me estar! - disse ele, cerrando os dentes numa rosnadela. - Agora no posso falar consigo. Est bem? Seja inteligente e no insista.


Comprimiu-se contra a porta, olhando fixamente para a linha branca  frente deles que dividia as duas faixas de rodagem. Cobarde, ralhava-lhe uma vozinha do fundo 
da mente. Sabia por que razo ele estava to magoado. Porque  que no havia de explicar que ele tinha interpretado mal os seus motivos?
Crispou a mo sobre o cinto de segurana, odiando-se por continuar em silncio. Mas, Meu Deus, se abrisse aquele saco de gatos, que aconteceria a seguir? Teria de 
lhe contar toda a feia verdade. Mais tarde ou mais cedo, planeava faz-lo, de qualquer maneira. Mas no j. No quando ele estivesse to desvairado que nem sequer 
olhasse para ela.
Lanando-se numa auto-recriminao, recordou tudo o que tinha sido dito na loja de artigos para criana. Ele tinha sido to doce toda a tarde, acompanhando-a de 
loja em loja, nunca se queixando nem insistindo para que ela se decidisse por um bero. Estava com uma atitude branda. Tinha um sorriso compreensivo na boca e um 
brilho nos olhos sempre que olhava para ela. Depois, pronto. Ela tinha-lhe perguntado se havia na cidade lojas mais baratas para bebs e ele tinha explodido.
 primeira vista, podia parecer que ele se tinha zangado por nada, mas Maggie sabia que no era assim. Desde o princpio que ele era sensvel  questo do dinheiro. 
E tinha sido absolutamente frontal com ela a esse respeito, confessando que considerava aquilo um insulto e que lhe feria os sentimentos. Quantos homens estariam 
dispostos a engolir o seu orgulho e a confessar a uma mulher que lhe tinha ferido os sentimentos?
Fazia o melhor que podia exprimindo-se pelos seus actos? No inteiramente. Tambm a tinha tranquilizado com palavras, vezes sem conta.
Sem recompensas, Maggie. E, Deus o abenoasse, era verdade. Noite aps noite, tinha estado deitado na cama ao lado dela, a envolv-la delicadamente com os braos 
e com o seu corpo volumoso encostado a ela.
No era ingnua a ponto de achar que a conteno no lhe tinha custado.
Lembrar-se de todas aquelas noites f-la sentir-se muito pequenina. Mas era to assustador contar-lhe a verdade acerca dela! Voc  to doce.
Nunca mais olharia para ela da mesma maneira depois de ter conversado com ele. Nunca.
Rafe. Ele era tudo o que ela sempre esperara e sonhara. Era a resposta a todas as preces que tinha feito nos ltimos sete anos. Por favor, Deus, ajuda-me. Quantas 
vezes tinha chorado na almofada, sussurrando aquelas palavras a um Deus que h muito decidira que no a ouvia? Para o fim, quase deixara de rezar. Quase deixara 
de sonhar. Desejos eram para os tolos, dizia a si mesma, e ela andava demasiado ocupada a tentar sobreviver.
Depois, tinha batido no fundo. No havia sada. No havia maneira de ripostar. No havia foras para continuar a lutar. Portanto, tinha fugido. Directamente para 
os braos de um vagabundo de um vago. O seu sapo que se tinha transformado num belo prncipe vaqueiro.
Engoliu em seco para abafar um soluo, enquanto a estrada  sua frente se transformava numa mancha turva. Bem, tinha notcias para ele, era o enviado do Cu. E se 
soubesse a verdade acerca dela, talvez ela o perdesse. Estava assim to errado esperar e deixar passar os dias em silncio? Ele fora o nico milagre que alguma vez 
tivera uma probabilidade de receber. Se o perdesse, era o fim. E, Deus a ajudasse, agora que tinha tomado o gosto  vida com ele, achava que no podia continuar 
sem ele, em sentido figurado e literal. Sem Rafe para a proteger, o que  que havia de o impedir de voltar a atacar? Da prxima vez, talvez ele acabasse o servio.
Maggie respirou fundo, sabendo que no podia permitir que aquilo continuasse. Se Rafe tivesse dito ou feito alguma coisa que lhe ferisse os sentimentos, no ficaria 
em silncio a deix-la sangrar. Resolveria as coisas, independentemente dos riscos que corresse. Como podia ela fazer menos do que isso? Acontecesse o que acontecesse, 
tinha de lhe contar. E no era nessa noite. Nem no dia seguinte. Tinha que o fazer imediatamente.
Passaram alguns minutos. Longos, angustiantes, horrveis minutos. Depois, l  frente, viu o desvio para o Rocking K. Quando saiu da estrada, o carro deu uns solavancos 
ao passar por cima de uns sulcos, fazendo-a cerrar os dentes.
- Rafe - conseguiu dizer. - Importa-se de encostar? Preciso de falar consigo e  um pouco difcil ter uma conversa em estrada m.
Ele continuou a guiar, o msculo do queixo contrado, os lbios fechados num silncio terrvel. Maggie esperou. Pareceu-lhe que tinham percorrido mais de quinze 
quilmetros. Na realidade, provavelmente tinham sido apenas dois, mas cada segundo de silncio parecia durar anos. Se lhe ia dizer, ele no podia deixar ficar assim 
as coisas at chegarem a casa. Morreria de vergonha se Becca ou Ryan por acaso ouvissem partes da conversa e no podia de modo nenhum correr o risco de que a Heidi 
os escutasse. Fosse a que preo fosse, a Heidi nunca devia saber. Maggie nunca quis que tivesse sentimentos de culpa ou se sentisse em dvida para com ela pelo que 
tinha passado para a proteger.
Nunca.



- Rafe - tentou ela mais uma vez.
Ele apoiou a parte de trs da mo no volante, desferiu-lhe um olhar e sem abrandar virou para a berma da estrada. Quando, finalmente, carregou nos traves, o Ford 
deu os solavancos e parou bruscamente em cima da neve que se amontoava na berma.
- No consegue deixar as coisas como esto, pois no? - disse, irado. Est bem, ptimo. Quer conversar, Maggie? Por amor de Deus, vamos conversar. Quem comea?
Voc? - Esperou um momento. Ah, est bem. A Menina Inocente no faz ideia da razo por que estou irritado!
- Eu...
- Cale-se! - disse rapidamente, interrompendo-a. - Quer brincar comigo, querida? Bem, tenha juzo. No se meta nisso.
- Desculpe - conseguiu ela dizer, com a voz a tremer.
- Desculpe! E fica tudo resolvido, no ? Tenho o corao a sangrar. Bem, sabe uma coisa? Estou mortalmente cansado de fazer de Senhor Bonzinho. Portanto, vou jogar 
a porcaria deste joguinho  sua maneira. "Recompensas so o diabo."  assim que se chama, no ? Eu dou, voc recompensa-me. Acho bem. Tenho tanto teso que conseguia 
fornicar j com um n da madeira.
Maggie viu a dor que se escondia por trs da ira nos seus olhos. Queria desviar a cara, zangar-se igualmente com todas as coisas horrveis que ele estava a dizer, 
mas no se deixaria ir com essa facilidade. Isto era culpa dela.
- Quer ouvir-me, por um minuto?
Ele deu uma risada amarga.
 - Estou farto das suas tretas. Novo jogo, novas regras. Nesta altura, exige-se um pouco de adio e um pouco de diviso. Quanto  que me deve? Vejamos. H os quinhentos 
mil que paguei ao Lonnie.
Maggie ficou sem respirao. 
- Quinhentos qu?
- J lhe disse - retorquiu com aspereza. - Pensa que esse filho da me se afastou devido  bondade do seu corao? Depois, h o dinheiro que gastei em roupas para 
si. Vamos em quanto? Burro sou eu que nunca fiz a soma. Quatro mil, cinco mil, talvez? Est bem, eu sou justo e fao-lhe um desconto. Digamos trs mil e quinhentos. 
Depois, h os trs mil e setecentos que estoirei hoje. 
E quanto  que acha que vale um tecto por cima da cabea e comida na barriga? E a montanha de contas de servios mdicos, claro. - Calou-se, com o olhar expectante 
em cima dela. - V, depressa. Voc  uma rapariga inteligente. Ponha esse seu crebro calculador a funcionar.  muito melhor em nmeros do que eu. Quanto  que me 
deve?
Maggie no conseguia falar. Estava ali sentada, a olhar para ele, mal registando as suas palavras. A nica coisa em que conseguia concentrar-se era aquele olhar 
terrvel, ferido, nos olhos dele.
- Deixo de fora a comida para si e para o beb. Que diabo. Tambm meto comida de graa e esqueo as contas do hospital e do mdico. Feitas as contas de cabea, calculo 
que j me tenha feito sair da carteira cerca de quinhentos e sete mil. Querida, l donde venho, no h rabo nesta terra de Deus que valha tanto!
O manpulo da porta magoou Maggie nas costas. Percebeu que se tinha virado no assento e estava a fugir dele. Endireitou-se, mantendo o olhar fixo no dele.
- J acabou? - perguntou ela. - H uma coisa que preciso de dizer.
- Se acabei? - Passou a mo pelo cabelo. - No, que diabo. Voc teria acabado? Qual  a sua tarifa actualmente, Maggie? Espero por Deus que se coloque num valor 
mais elevado do que quando a conheci. Um bibero e uma lata de papa? - Deu outra gargalhada sem humor. Cinco ou seis dlares, talvez? Tinha que andar a molhar o 
pincel o resto da vida e mesmo assim no recuperaria o meu dinheiro. Cem dlares cada voltinha. Que tal? Assim, s tem que abrir as pernas cinco mil e setenta vezes. 
Divida isso por trezentos e sessenta e cinco dias, cara linda. Dando uma por dia, andar uns treze anos, mais ms menos ms, para se ver livre da dvida.
Maggie sentiu-se como se ele lhe tivesse dado uma bofetada, com tudo...
Estava a ser mau e sujo, no havia dvida. F-la sentir-se um lixo.
Achou que aquilo era adequado.
- Claro que, jogando o jogo  sua maneira, estar todos os dias a entrar-me na carteira durante esses treze anos, aumentando a dvida mesmo enquanto trabalha para 
a pagar. Sendo o custo de vida o que , acho justo cobrar cinquenta dlares por dia para a manter a si, ao Jaimie e  Heidi. E roupas, claro. Que diabo, o resultado, 
no contando as roupas,  que vai andar por a vinte e seis anos e no fim ainda estar a dever-me dinheiro.  bom para mim,  uma chatice para si, mas a vida  um 
inferno. Pior ainda, eu sou mais velho seis anos do que voc. Quando o meu apetite sexual diminuir, talvez s consiga dar-lhe uma queca por semana e arrastar a coisa 
at voc estar de papo para o ar com seis palmos de terra por cima!
Dentro dos bolsos da parka de penas, Maggie cerrava os punhos com tanta fora que as unhas dilaceravam-lhe as palmas das mos. Sabia que no tinha o direito de se 
zangar. Mas, por dentro, aquilo estava a corro-la como um cido. Sem conseguir impedir-se de o fazer, gritou:
-  essa a minha deixa para ir pela estrada fora a gritar, Rafe? - Tirou as mos dos bolsos e abriu a parka, o barulho das molas a saltar ouvindo-se alto no meio 
do silncio. - Bem, adivinhe outra vez! Andei a prostituir-me para manter a Heidi em segurana durante trs anos! Realmente, voc devia ter continuado a fazer de 
Senhor Bonzinho. Tentar fazer de filho da me no d consigo! Comparado com o Lonnie, voc  um gatinho.
Ele abanou como se ela lhe tivesse dado um soco. O rosto queimado ficou branco e a mscara de ira caiu, revelando apenas a ferida. Olhou para ela durante um longo, 
aparentemente interminvel segundo. Depois, como se lhe tivessem puxado o ar todo de l de dentro, soltou um suspiro rouco e apoiou os antebraos no volante para 
assentar neles a cabea.
 - Ai, Jesus, Maggie... -- Os tendes da garganta incharam e definiram-se completamente quando o rosto se contorceu numa careta torturada. - Eu no queria dizer 
isso. Por favor, acredite. Eu no queria dizer isso.
- Eu sei que no queria - disse ela numa voz que soou distante e desafinada. - Mas eu quero dizer isto. Considerar-me-ia a mulher mais feliz do mundo se trabalhasse 
os prximos vinte e seis anos para lhe pagar. Deitada. A fazer o pino. Uma vez por dia, duas vezes por dia No me importo. Agradeceria a Deus cada minuto que estivesse 
consigo. Quer-me nessas condies? Por favor, diga que sim. Dispo-me e comeo j a pagar!
Levantou a cabea. Dirigiu-lhe um olhar desnorteado: 
- Digo o qu?
- J lhe disse. Deixei h dias de me sentir aterrorizada por ter sexo consigo. H uma ou duas semanas, talvez. Nesta altura, passei a sentir-me apenas muito nervosa 
em relao a isso, que  uma coisa que posso resolver. H s um problema. Em conscincia, no posso cobrar-lhe cem dlares de cada vez. Fica em cinco dlares. Assim, 
voc no  explorado e eu tenho a garantia de que me deixar ficar!
Ele pestanejou e passou a mo pela cara. Enquanto deixava cair o brao, voltou a olhar para ela, como se pensasse que talvez a imagem mudasse se a focasse melhor.


- Eu no estava irritada por voc gastar tanto dinheiro num bero pelas razes que pensa - obrigou-se a dizer. - Confesso que estava preocupada com a possibilidade 
de ter que o reembolsar se as coisas corressem mal entre ns. Mas nunca, nem por um momento, pensei que talvez tivesse tanta sorte que pudesse pagar-lhe fazendo 
amor consigo. Estava a pensar em termos de arranjar um emprego depois de me mandar embora e reembols-lo todos os meses, um pouco de cada vez. - Riu-se um pouco 
histericamente. - Claro, no sabia quanto tinha pago ao Lonnie. Mesmo com dois empregos, nunca serei capaz de o reembolsar!
Ele sentou-se direito, a sua expresso ainda a mostrar confuso. 
- Depois de eu o qu? Maggie, por amor de Deus. Mand-la embora? J falmos nisso.
Isto tudo porque tem uma obsesso na cabea de eu a mandar embora? Eu nunca faria isso. Nunca. Quantas vezes tenho que lhe dizer que a amo para a fazer acreditar 
em mim?
- Voc ama uma iluso - ripostou ela com voz esganiada, as lgrimas a marejarem-lhe os olhos e quase a cegarem-na. - Minha doce Maggie, meu anjo inocente. Bem, 
acorde! Eu no sou inocente, e tenho a certeza absoluta de que no sou um anjo. Lembra-se de quando lhe disse que o Jaimie no tinha pai?
- Sim - disse ele com voz rouca.
- Menti.
- Bem, claro que mentiu. A menos que tivesse protagonizado a segunda Concepo Imaculada.
- Lonnie  o pai do Jaimie. - Maggie sentiu-se como se quisesse voltar. Abanou a cabea, incapaz de continuar enquanto no engolisse em seco. - O meu padrasto. Dormi 
com ele trs anos. Sempre que ele quis, como ele quis. Chame-lhe o que quiser, mas eu fi-lo. No pode falar comigo como se eu fosse uma prostituta e insultar-me. 
 isso que sou!
Voltou a meter os dedos pelo cabelo dentro, desta vez parando para fechar o punho agarrado s madeixas antes de as libertar.
- Como pode dizer isso? Uma prostituta? O filho da me violou-a.
Parecia a Maggie que se tinha esgotado o oxignio dentro do carro.
Danavam  sua frente. Pontos negros. A garganta parecia congelada 



- No, Rafe. Lonnie Boyle nunca me violou. Voc acreditou nisso porque era nisso que queria acreditar e eu estava demasiado envergonhada para lhe dizer outra coisa. 
- Ela observava o olhar incrdulo que a pouco e pouco ele ps. - Ele nunca me obrigou. Nem uma nica vez.  um animal e so muitos os seus pecados, mas violao 
 coisa que no lhe posso apontar.
Comeou a tremer-lhe um msculo debaixo do olho enquanto olhava para ela de boca aberta. O silncio entre eles crepitava. Maggie susteve a respirao, preces irracionais 
saltavam-lhe  mente, todas incoerentes, nenhuma delas fazendo sentido. No importava. Tinha pedido dzias de vezes a Deus que fizesse com que Rafe no se importasse 
quando lhe contasse, que, de algum modo, fizesse um milagre e conseguisse que continuasse a am-la.
Agora era o momento decisivo.
Ficou a olhar para ela como se nunca a tivesse visto, o rosto moreno paralisado pelo choque, com uma gargalhada seca, disse:
- Quer dizer que lhe apetecia?
Maggie no conseguiu fazer sair uma resposta, pelo que simplesmente disse que sim com a cabea, procurando algum sinal de reaco na cara dele. O que viu era efmero 
mas de despedaar a alma. Nojo. Recuperou rapidamente o controlo. Provocar-lhe-ia isso. Mas, em todo o caso, tinha visto.
Pondo uma mo atrs de si, agarrou no manpulo e abriu a porta do passageiro. Caindo para trs, esforou-se por cair de p em cima da neve.
No parou para fechar a porta. Desatou a correr. s cegas, sem realmente se importar com a direco que tomava, desde que no tivesse que voltar a ver aquele olhar 
na cara dele.
A honestidade nem sempre era a melhor poltica, pensou tolamente, enquanto lutava contra os profundos sulcos entre as rvores. Dissera-lhe a verdade. Tinha feito 
jogo limpo. E tinha perdido. Era to simples e doloroso como isso.

Captulo Dezasseis
Por um gelado instante, Rafe ficou to apanhado pela surpresa que no conseguiu mexer-se. Apetecia-lhe? As imagens que aquela palavra trazia  mente eram to contraditrias 
com tudo o que sabia da mulher que no podia acreditar nelas.
Quando passou a primeira onda de choque, recuperou a plenitude dos sentidos, viu que Maggie ia a fugir dele para os bosques a correr e saltou do Ford. 
- Maggie, volte para aqui! - gritou como um trovo.
J aproximadamente a uns quinze metros dele, virou-se para olhar para trs, lutando para conseguir andar na neve profunda. Mesmo  distncia, Rafe conseguiu ver 
a dor que lhe contorcia as feies. A postura dela e a expresso que tinha na cara fizeram-no vacilar e parar junto ao pra-choques da frente. Ela parecia pronta 
a fugir e ele tinha a sensao de que um movimento errado da sua parte seria o nico incentivo de que ele necessitaria. Em breve seria escuro. O Sol j estava atrs 
das montanhas e quela altitude, uma vez que casse o crepsculo, a escurido chegava a uma velocidade traioeira.
- Volte, querida. Por favor. Vamos conversar. Podemos...
- No! - berrou ela, dobrando-se para a frente pela cintura e empurrando-lhe o peito com um punho. - Eu sabia que me odiaria se lhe dissesse. Eu sabia.
- No odeio nada, Maggie. Isso  uma loucura. Amo-a. Vamos discutir isso.
Se estava a ouvi-lo, no dava sinais disso. Abanava descontroladamente a cabea. Rafe mediu a distncia entre eles, confiante em que as suas pernas mais compridas 
lhe dariam vantagem se tivesse de correr atrs dela. Esperava que no.
- Eu no quero conversar. Deixe-me em paz! - Ela tinha invertido a situao, quisera conversar e ele tinha recusado. Agora, era ela que no queria comunicar. Voltou 
a suspirar. - Deixe-me em paz com isso, virou-se para comear a correr, perdeu o equilbrio e estatelou-se ao comprido num sulco. Enquanto lutava para se pr de 
novo em p, Rafe saltou ao seu encontro. 
- Maggie, por amor de Deus, no fuja. Vai perder-se!
Ela lanou-se como uma seta, a cada passo internando-se mais nos bosques.
Rafe lembrava-se de pelo menos mea-dzia de vezes ao longo dos anos em que visitantes do rancho se tinham perdido ali, tendo a mais memorvel ocorrido num Vero, 
quando um comprador de gado tinha estacionado na berma da estrada para urinar. Tinha entrado apenas uns metros no bosque, o suficiente para ningum poder v-lo por 
acaso. Quando tentou voltar ao camio, tinha ido no sentido errado. Um grupo de batedores tinha acabado por o encontrar vivo trs dias mais tarde, a treze quilmetros 
do veculo.
Rafe atravessou a salincia da estrada com dois passos largos e rpidos, esticando-se para saltar por cima do sulco. Quando a bota tocou no cho, ao terceiro passo, 
acertou em gelo num local para onde a neve derretida da estrada tinha escorrido e voltado a congelar, tornando-se em gelo polido. A sola macia das botas de montar 
fugiu de debaixo dele.
Lutou com unhas e dentes para no cair. O gelo estava mais escorregadio do que manteiga. Uma das pernas foi para a frente e a outra, para trs.
Aterrou mal, numa prestao sem graa de bailarina a fazer espargata.
Explodiu-lhe a dor na virilha e no baixo abdmen. Uma rocha. Tinha aterrado em cima de uma rocha enterrada na neve.
Ps a mo nos fundilhos e rolou para o lado, colocando-se em posio fetal. No conseguia ver nada  volta da bruma vermelha que lhe nadava  frente dos olhos. No 
conseguia respirar. Nem sequer conseguia mexer-se, excepto para rolar para a frente e para trs. Jesus Cristo. Ia morrer.
A agonia manteve-o paralisado. Durante segundos? Minutos? Quando a dor desapareceu e os sentidos comearam a clarear, percebeu que tinha escorregado da salincia 
para o sulco e ficado deitado na corrente de neve derretida. Soergueu-se apoiando-se nos cotovelos, arranjou um ponto de apoio e conseguiu sair dali. Uma vez em 
terreno mais nivelado, uma mar convulsiva de nuseas purgou-lhe o estmago.
A tremer de fraqueza, levantou a cabea  procura das rvores. 
- Maggie - chamou, um pouco admirado por a voz no ter mudado para a de um alto soprano. - Maggie!
Silncio. Ps-se em p e, cambaleando como um bbedo, foi atrs dela.
Ainda que estivesse a ficar escuro, no estava muito preocupado. Duvidava que ela pudesse ir muito  frente dele. Alm disso, mesmo que demorasse at ficar escuro 
a encontr-la, a lua apareceria em breve. Reflectindo-se na neve, o seu brilho proporcionaria boa visibilidade.
O rasto dela seria fcil de seguir. Se as rvores filtrassem a luz, podia sempre ir a casa buscar uma lanterna de nove volts.
- Maggie! Querida, se est a ouvir-me, grite que eu encontro-a. Nada. Querida, eu no a odeio. Amo-a! - Ao lusco-fusco, Rafe no viu um ramo baixo. Apanhou com ele 
na testa e quase caiu. Praguejou e deu um passo para o lado como um bbedo para manter o equilbrio. Agora, ambas as extremidades dele estavam a latejar.
- No quero saber do Lonnie! - gritou ele, no propriamente num tom de voz afectuoso. - Maggie, diabos me levem, responda-me!  uma criancice fugir e esconder-se 
assim. Precisamos de discutir isto como dois adultos maduros!
Nada de resposta.
- Precisamos de discutir isto! - gritou ele, subindo o tom de voz mais um decibel. As palavras pareciam ressaltar nele, insignificantes e abafadas.
A neve. Nalguns locais, o vento tinha-a acamado em brancos montinhos redondos que lhe davam pela cintura. Uma camada profunda de neve absorvia o som e era totalmente 
possvel que a sua voz no chegasse muito longe.
Conseguiria a Maggie ouvi-lo? No podia estar muito  frente dele, mas os seus apelos podiam no lhe chegar.
Quando ziguezagueava por entre as arvores, caiu pela crosta de um sulco e ficou enterrado at meio da coxa. 
- Filho da me! Que diabo, Maggie, sei que est a ouvir-me! - Rezava para que, realmente, estivesse. Fazendo fora com a perna que estava livre para escapar do buraco, 
conseguiu tirar o p. Caiu para o lado, s conseguindo manter-se de p agarrando-se a um tronco de rvore. Ia matar-se a tentar apanh-la. Rastejou para fora do 
lodaal.
- Peso mais cinquenta quilos do que voc! Estou a cair dentro do gelo. Quer que eu parta a porcaria de uma perna?
S silncio. Rafe ajoelhou-se ali, a recuperar a respirao. Espreitando atravs do crepsculo cada vez mais escuro, Rafe procurou ver movimento na zona dos pinheiros. 
Ela no podia ter ido to longe. Mesmo uma pessoa com uma constituio to leve como Maggie cairia de vez em quando, o que a fazia avanar devagar.
Olhou para a frente,  procura do rasto dela. Os tnis tinham deixado depresses de meio centmetro na superfcie branca de gelo. Olhando para trs, viu que as suas 
botas se enterravam pelo menos um centmetro em cada passo.
Maravilhoso. Ela ia a correr  sua frente com a rapidez de uma gazela enquanto ele chafurdava ali atrs como um bfalo gordo.
- Maaaaggiiie! - gritou o mais alto que pde. - Maaaa...ggiiie! Quando a apanhasse, estava tentado a torcer-lhe o pescoo. Por causa de todas as loucas aventuras 
que tinha provocado. Havia pumas naqueles bosques e recentemente teriam sido avistados lobos que tinham migrado das cascatas de Washington. No era muito provvel 
que encontrasse um animal perigoso, mas se encontrasse?
Pondo-se de novo em p, Rafe comeou outra vez a seguir-lhe o rasto.
Movia-se com cautela. Nada de preocupaes. Cada passo que ela dava deixava uma marca na neve. No era como se lhe perdesse o rasto. Certo?
Mal se tinha tranquilizado com isso, Rafe entrava numa pequena clareira onde se tinham deitado vacas. A neve tinha sido to revolvida que no conseguia detectar 
as pegadas de Maggie naquela confuso. Pelo menos, com to pouca luz.
Parou para escutar. Tudo o que ouvia era os pinheiros a ranger ao vento.
Frio. A roupa molhada estava a gelar-lhe o corpo. O lado encharcado do casaco de cabedal assentava-lhe no ombro como um pedao de gelo. Meu Deus. Pouco depois de 
escurecer, a temperatura cairia vinte graus, levando o mercrio muito para baixo dos dez, com o factor vento, podia descer abaixo de zero. Se no conseguisse encontrar 
Maggie e ela passasse ali a noite...
Tirou aquela ideia da cabea. No fazia sentido arranjar problemas. Havia de a apanhar. Porque  que havia de se assustar pensando nas coisas horrveis que lhe podiam 
acontecer? S servia para lhe dar ns nas entranhas e o impedir de pensar devidamente.
Mas no conseguia impedir que se lhe formassem imagens na mente. E se tivesse cado nos sulcos? A roupa dela podia estar to molhada como a sua. Trazia a parka de 
penas nova, mas o diabo daquela coisa fora desenhada mais em termos de moda do que de aspectos prticos.
- Maggie! - gritou, cada vez mais assustado, apesar de tudo. Ps as mos em concha  volta da boca e virou-se gritando o nome dela em todas as direces. Apenas 
o silvo dos ramos de pinheiro lhe respondia.
Abaixado sobre o terreno numa tentativa de lhe encontrar o rasto, movia-se num crculo cada vez mais largo. Tinha de ter deixado algum sinal da sua passagem. Havia 
neve alta em todas as direces. Havia de dar com a pista dela. Tinha de dar.
Minutos depois, a sua pacincia foi recompensada. Encontrou uma marca desmaiada dos tnis dela. Indo nessa direco, rapidamente encontrou um trilho, com rgido 
controlo sobre si mesmo, deslocava-se lentamente e com leveza. No podia dar-se ao luxo de correr e cair. Maggie ficaria realmente num grande sarilho se ele partisse 
uma perna.
Quando visse que eles no apareciam no rancho, Ryan comearia a ficar preocupado. A sua primeira atitude seria tentar contactar com Rafe pelo telefone celular fixo 
do carro. Talvez perdesse duas horas antes de decidir ir  procura deles. Quando encontrasse o carro estacionado na berma da estrada, perceberia que se passava algo 
errado. Mas quanto tempo levaria ele a organizar um grupo de buscas?
Nessa altura, onde estaria Maggie? Se ela conhecesse os bosques, Rafe no estaria to preocupado. Mas era uma rapariga da cidade e, devido  doena, ainda no tinha 
tido tempo de lhe ensinar a tomar conta dela ali.
Saberia ela, pelo menos, indicar a sua localizao? Algum lhe teria alguma vez explicado que podia andar em crculos, estando cada vez mais perdida a cada passo 
que desse? Ou que a coisa mais inteligente a fazer se se perdesse era ficar quieta? Saberia ela que escavar fundo num banco de neve podia impedi-la de gelar?
Continuava a ver a cara dela. Aquela boca doce e vulnervel. Aqueles olhos grandes e expressivos. A dor que lhe tinha distorcido as feies.
Quer dizer que lhe apetecia? Porque, diabo, tinha ele perguntado uma coisa to estpida? Claro que no lhe apetecia. Independentemente do que dissesse ou de como 
tivesse acabado por acreditar numa coisa dessas a seu respeito, sabia que no era assim. A sua Maggie, no. Prostitu-me para proteger a Heidi durante trs anos. 
Sempre que ele queria, como ele queria. Chame-lhe o que quiser. Eu fi-lo. Quando lhe disse aquilo, porque  que ele no a tinha tomado nos braos? E dito que a amava. 
Mas, oh, no. Tinha ficado ali sentado como um imbecil desatento. Apenas olhou para ela com a boca aberta.
- Maggie! Desculpe! - gritou ele. - No  como pensa! Eu amo-a! 
Nada...- Eu amo-a! Est a ouvir-me? Amo-a. Am-la-ei sempre! No me interessa se dormiu com o Lonnie!
Silncio...- No me interessa! - gritava ele, com as cordas vocais a doerem-lhe, do esforo. - Se dormiu com todos os camionistas da interestadual do Idaho para 
a Califrnia, tambm no me interessa! - Como ela no respondia, ele gritava: - Maaa...ggiiie! Estava a entrar em pnico. No podia permitir-se aquilo. Tinha que 
manter a cabea fria. Pensar. Seguir sistematicamente o rasto dela. A vida dela podia depender disso.
Oh, meu Deus. Estava perdida. No havia dvida. Tinha andado em todos os sentidos, encontrando sempre a mesma coisa. Apenas mais rvores. Tinha percorrido uma curta 
distncia a partir da estrada. Como, raios,  que me virei ao contrrio?
Maggie andava pela pequena clareira. Acima dela, tudo o que via era o topo das rvores e pequenos pedaos de cu preto aveludado, salpicado de estrelas. No conseguia 
orientar-se sem estudar as constelaes.
Primeiro, tinha tentado voltar  estrada, pelo menos h duas horas. Em vez de seguir as suas prprias pegadas, como qualquer pessoa no seu perfeito juzo teria feito, 
quisera evitar enfrentar outra vez Rafe, pelo que tinha andado para nor-nordeste, esperando chegar  estrada num ponto diferente daquele em que ele tinha estacionado. 
Depois de andar durante o que ela pensava que teriam sido uns trinta minutos, soube que tinha ido pelo caminho errado. Decididamente, no era nor-nordeste. Depois, 
tinha tentado corrigir o percurso, andam pelo menos outros trinta minutos e finalmente conclura que tambm no era aquele o caminho certo.

Nesse ponto, fizera o que devia ter comeado por fazer, tentando seguir as suas prprias pegadas. Simples, no ? Assim pensara ela. Mas tinha deixado trs conjuntos 
de pegadas at ento, e as que escolheu para seguir no eram as que levavam  estrada. Pior, o conjunto seguinte tambm no e, entretanto, os rastos estavam to 
entrecruzados e confusos que no fazia ideia de qual era qual.
Tinha passado a ltima hora a ir primeiro por um caminho, depois por outro, enquanto o seu terror aumentava. A roupa estava ensopada, a parka de penas estava encharcada 
e pesada, tornando difcil balanar os braos para se equilibrar. As pernas, h muito que tinham passado de simplesmente frias para um torpor terrvel, gelado.
- Rafe! - gritava. - Rafe! Est a ouvir-me?
Ele andava ali  procura dela. Ela sabia que andava. Apenas tinha de continuar a mexer-se at ele a encontrar, era tudo. E havia de a encontrar. Ela sabia que sim. 
Por mais zangado que pudesse estar. Por mais enojado que pudesse estar. Poria de parte os seus sentimentos pessoais e procur-la-ia.
Estpida, Maggie. Que estpida. Porque raios tinha fugido daquela maneira? Naquela altura, apenas tencionava embrenhar-se nos bosques apenas o suficiente para que 
ele no conseguisse v-la , e depois caminhar paralelamente  estrada at chegar a casa. Ento, parecia um bom plano, a nica maneira que tinha de chegar a casa 
sem suportar a companhia dele e sem ver aquele olhar horrvel, doente, na cara dele durante o caminho todo. Segundo os seus clculos, seriam apenas uns oito quilmetros 
at casa. Tinha percorrido essa distncia a p para ir trabalhar em pouco mais de uma hora vezes sem conta. No  nada de especial, dissera a si mesma. Mas o que 
sabia  que no tinha conseguido encontrar a estrada, quanto mais caminhar paralelamente a ela.
Tinha o peito a arder. O ar estava to frio que lhe queimava os pulmes.
Uma rajada de vento vinha a assobiar por entre as rvores, atravessando-lhe o casaco, cortante como uma lmina. Altos pinheiros abanavam e rangiam a toda a volta 
dela com um som arrepiante e assustador. Agradecia a Deus o luar que, pelo menos, a ajudava a ver.
Continuar a mexer-se. Se se deixasse vencer pela exausto, morreria gelada. Heidi e Jaimie precisavam dela. Por eles, tinha de se manter em p e continuar a andar. 
Se parasse para descansar, nem que fosse um minuto, talvez no conseguisse voltar a levantar-se.

Era isto que se sentia quando se morria gelado, os pulmes a arder, o corao a funcionar em esforo, como se o sangue tivesse engrossado e se tivesse transformado 
em melao? s ideias dela estavam confusas e incoerentes, o frio de gelo fazendo-a sentir o cimo da cabea como se estivesse para ir pelo ar. Doam-lhe as mas 
do rosto e as sobrancelhas.
At o cabelo doa.
Uma perna foi-se abaixo. No instante seguinte, estava deitada na neve, de cara para baixo. Lutou para se levantar. No conseguia. O gelo queimava-lhe as palmas das 
mos e os dedos vidos tremiam. Escorriam-lhe lgrimas quentes dos olhos, mas gelavam no instante em que lhe chegavam s faces.
Passado um bocado, no sentia tanto frio. Era bom. Vagamente, perguntava a si mesma se no estaria a entrar uma frente quente. Ainda sentia o vento a fustig-la, 
mas j no parecia to cortante, atravs da roupa.
Uma vaga sensao de alarme perpassou-lhe pela cabea. Quente? As pessoas comeavam a sentir calor quando estavam quase a morrer geladas. A seguir, sentir-se-ia 
sonolenta. Oh, meu Deus, j sentia uma espcie de sonolncia.
Pestanejou, aumentando o alarme quando as pestanas superiores e inferiores se colaram. Deus a ajudasse, os olhos estavam a ficar fechados por causa do frio. Tinha 
de se levantar. Mas como? Mexer simplesmente uma perna era um esforo hercleo.
Um som horrvel chegou-lhe vindo dos bosques. Muu...uuuhhh. Maggie levantou a cabea. Muu...uuuhhh. Era um animal qualquer. Um animal muito grande. Um urso, talvez? 
No, naquela altura estavam a hibernar. Voltou o mesmo som e ela ps-se  escuta, tentando determinar o que era. Passado um momento, quase se riu. Uma vaca. Apenas 
uma vaca. Mesmo que fosse um pequeno rebanho, no era provvel que lhe fizessem mal. Rafe disse que a maioria das vacas do rancho estavam acostumadas aos seres humanos.
Maggie estava agora a caminhar sem destino. Rafe conseguia determinar isso pelo trilho sem plano definido que vinha a seguir. Porque  que no tinha parado de modo 
a poder alcan-la? No tinha essa sorte. As suas pegadas irregulares diziam-lhe que estava exausta. O bom senso dizia-lhe que provavelmente estava gelada. Ele estava, 
sem dvida.
Rafe vacilou e parou. Aquilo no estava a lev-lo a parte nenhuma. Tinha de se dirigir de novo  estrada e chamar Ryan. Que trouxesse para ali um grupo de busca. 
Vrios homens com motos de neve conseguiam cobrir muito mais terreno do que um homem sozinho a p. Diabos. A cada passo, esperava dar com ela, com aspecto abandonado, 
sentada debaixo de uma rvore, abraada aos joelhos para se manter quente. Virar-se para o outro lado e vir-se embora com aquela imagem dela na mente tinha sido 
quase impossvel.
- Maggie! - gritou, parecia que pela milsima vez. - Maggie?
O corao de Rafe teve um sobressalto quando ouviu um som responder-lhe.
Levantou a cabea. L estava, outra vez. Virou-se para escutar, marcando a direco. Uma vaca. Derrotado, Rafe olhou para as pegadas dela na neve, notando o ziguezaguear 
dos seus passos. Estava quase a ir-se abaixo, a avaliar pelo desenho pouco firme daquele rasto. Os olhos ardiam-lhe das rajadas de vento frio. Ia  procura de ajuda 
ou seguiria o rasto por mais uns minutos? Se ela se fosse abaixo, um grupo de busca poderia no a encontrar a tempo. Seria preciso pelo menos uma hora para reunir 
os homens todos e encher o depsito das motos de neve. Perder-se-iam mais trinta minutos para eles virem do rancho at ao local onde o Ford estava estacionado. Adicione-se 
o tempo adicional que podia levar a penetrar nos bosques e a ach-la, e ela podia estar morta antes que a alcanassem.
Rafe rezou para que no estivesse a tomar a pior deciso da sua vida quando comeou a seguir, de novo, o rasto. Mas, errado ou no, no podia desistir. Apenas mais 
uns minutos, prometeu a ele mesmo. Se no a encontrasse, dirigir-se-ia  estrada.
O rasto dela tornava-se cada vez mais errtico  medida que avanava. O corao apertou-se-lhe de novo quando chegou a um local onde parecia que ela tinha cado, 
estatelando-se ao comprido na neve. Ajoelhou-se para examinar a superfcie desarranjada, tocando com as pontas dos dedos em depresses que tinha a certeza de terem 
sido feitas pelos dedos dela.
Imaginou-a ali deitada, a escavar o gelo com os dedos, a soluar, aterrorizada. Jesus Cristo. Nunca perdoaria aquilo a si mesmo. Sempre soubera que Lonnie era o 
pai do beb. Porque, diabo, no a tinha obrigado a falar-lhe nisso?
Levantando-se, Rafe recomeou a perseguir o seu rasto, agora com a certeza de que ela no conseguia andar muito mais. Por favor, meu Deus.
Lembrou-se de como ela tinha resistido resolutamente a tudo o que se lhe atravessou no caminho quando a conheceu, suportando o frio sem um casaco e amamentando Jaimie 
mesmo quando isso lhe fazia vir as lgrimas aos olhos. Maggie tinha um aspecto delicado, mas aquela sua espinha frgil era feita de ao. A sorte dele  que ela continuaria 
a andar at congelar em p.
Uns minutos depois, Rafe chegou a uma clareira onde mea-dzia de vacas e de bezerras se tinham deitado para pernoitar. Estavam encostadas umas s outras para se 
manterem quentes, a sua respirao soltando fitas de vapor que pareciam fumo ao luar. 
O rasto de Maggie virava para a esquerda. Ele seguiu-lhe as pegadas. A cerca de meio caminho da abertura, fez uma viragem acentuada  direita. Em direco s vacas.
Rafe virou-se para olhar para o cacho de bovinos escuros. O focinho branco das vacas brilhava estranhamente ao luar. Duas das criaturas tinham a cabea levantada, 
os olhos como se fossem duas pevides escuras quando olhavam estupidamente para ele, ruminando.
Quase com medo de ter esperana, Rafe encaminhou-se lentamente para elas.
- Calma, minhas senhoras - disse ele de modo a acalm-las - s quero ver se tm companhia.
Maggie estava deitada, comprimida entre duas bezerras. Com lgrimas de alvio a transformarem-se em trilhos de gelo nas faces, Rafe abriu caminho cuidadosamente 
at junto dela. Ps-lhe uma bota de cada lado do dorso, com a parte de fora de cada uma das pernas encostada aos corpos quentes dos bovinos que tinha a certeza de 
que a tinham impedido de morrer gelada.
- H-i! - gritou, dando uma palmada no lombo da vaca que estava  sua direita.
Os enormes animais puseram-se atabalhoadamente em p, berrando em protesto contra o incmodo. Rafe enxotou as duas bezerras que ladeavam a mulher, protegendo-a de 
ser pisada com as pernas a servirem de escora.
Quando os animais se afastaram, ps um joelho no cho.
- Maggie? - Agarrou-lhe no ombro, tendo ficado transido de medo quando sentiu o nylon gelado da parka. Oh, meu Deus! Tal como receava, estava molhada at aos ossos. 
- Maggie? Acorde - ordenou, abanando-a...
Ela no respondeu. O medo transformou-se em terror.
 - Maggie, que diabo! Acorde! - Agarrou-lhe nas mos e comeou a friccion-las para as aquecer.
Depois, deu-lhe umas pequenas palmadas nas faces. Por favor, meu Deus...
No suportava perd-la. - Maggie?
- Rafe? - As pestanas bateram e ela abriu os olhos. O alvio que sentiu foi to grande que ficou sem energia. Ela rolou-lhe para as costas. - Eu sabia que havia 
de vir.
Aterrorizava-o pensar em como tinha estado perto de voltar para trs. 
- Claro que vim, querida.


Como diabos podia ela, ter tanta f nele naquelas matrias e to pouca noutras? Estava ansioso por lhe perguntar, mas agora no era a altura nem o local para discutirem 
os problemas deles. Maggie tambm parecia ter posto os problemas deles em banho-maria. No era grande surpresa. A primeira coisa a fazer era sarem dali. Tudo o 
resto ficava em segundo plano.
- Tenho estado sempre a seguir o seu rasto - disse-lhe. - Porque  que no parou e ficou quieta  espera que eu a apanhasse?
Hirta, ps-se de joelhos. Com a voz ainda impaciente do sono, respondeu:
- Estava tanto frio. At encontrar as vacas, tinha medo de parar com receio de morrer gelada.
Foi um milagre que as vacas no se tivessem assustado, deixando-a morrer ali deitada. Esse simples pensamento fez com que as entranhas se lhe arrepanhassem. Ele 
amava-a muito.
Riu-se a tremer e ps as mos em cima da cabea dela. Os caracis rebeldes tinham ficado molhados, provavelmente por causa da neve que caa dos ramos das rvores, 
Agora, as madeiras estavam rijas, do gelo. Rafe queria abra-la at mais no poder e fazer-lhe longas declaraes de amor. Mas isso teria de esperar. Tinha de a 
tirar dali. Despir-lhe aquelas roupas molhadas como os diabos. Aquec-la.
- Fico em dvida para com aquelas vacas - acabou por dizer. Amanh, trago um saco de cereais para lhes mostrar a minha gratido.
Inclinou-se para lhe dar um rpido beijo na testa, tendo-se-lhe apertado o corao quando lhe sentiu a pele quente contra os lbios. - Dois sacos de cereais - emendou. 
- Graas a Deus, teve o bom senso de se aninhar.
- Para mim, a necessidade  a me da coragem. Era a minha nica opo. - Franziu o nariz: - Lamento muito isto, Rafe. Foi uma estupidez da minha parte vir-me embora 
daquela maneira. Tencionava seguir a estrada, mas acabei por no conseguir encontr-la!
- Isso acontece por aqui. As rvores so to grossas que at habitantes experientes da floresta j se tm perdido. Se no conhecer alguns dos pontos de referncia 
para se orientar, est desgraada.
Ela riu-se, sem foras. 
- Isso descreve bastante bem o que aconteceu. Independentemente do caminho que tomasse, no era o caminho certo. Tirem-me os passeios e sou uma incapaz.

Rafe abraou-a mesmo, nessa altura. Por mais fraca que fosse, aquela pequena gargalhada corajosa derreteu-lhe o corao e ele no conseguiu resistir. Os braos tremiam-lhe 
com a intensidade dos seus sentimentos enquanto a apertava contra si.
- Incapaz? Usou a cabea. Encostou-lhe os lbios ao cabelo. - Ainda hei-de fazer de si uma grande mulher de rancheiro. S precisa de algum saber de montanha e fica 
ptima.
Ela empertigou-se ligeiramente. 
- Uma mulher de rancheiro?
- Exactamente, uma mulher de rancheiro. A minha mulher. Acorrento-a  coluna de leito antes que me deixe, Maggie. Entenda isso e habitue-se.
Os olhos dela encheram-se de lgrimas e a boca tremia-lhe quando olhou para ele. 
- Est a falar a srio? - perguntou com voz fraca.
Rafe percebeu que estava ali ajoelhado na neve como um diabo de um parvo, a perder minutos preciosos. A partir do dia seguinte, ia tornar na misso da sua vida ensinar-lhe 
algumas tcnicas de sobrevivncia. Tambm ia meter-lhe na cabea, a escopro e martelo, que a amava que nada ia alterar isso. Mas, por agora, tinha preocupaes muito 
mais prementes.
- Muito a srio - garantiu-lhe bruscamente. - Est pronta para ir para casa?
- Estou... Espero que a Becca tenha o jantar quente. Tenho frio e estou a morrer de fome.
- A morrer de fome? - Rafe teve outra vez um acesso irracional de riso. A morrer de fome. Tinha-a imaginado ali deitada, meia morta. Traria trs sacos de cereais 
quelas vacas. No. Traria um camio carregado.
Endireitou-se, preparou-se para a ajudar a levantar-se mas, para sua surpresa, ela conseguiu levantar-se sozinha. Era de calcular. Aquela rapariga tinha andado sempre 
a fazer o contrrio do que ele esperava desde que lhe tinha posto os olhos em cima pela primeira vez. Ela tiritou com uma rajada de vento gelado. Ele at nisso viu 
motivo de regozijo. Era quando uma pessoa parava de tiritar que havia razo para verdadeiro alarme.
- Consegue andar? - perguntou ele.
Ela levantou um dos tnis e abanou o p. 
- Consigo. Antes, estava a dar as ltimas, mas o descanso e o facto de ter aquecido ajudou muito.
Ps-lhe um brao  volta dos ombros, aconchegando-a a si. Sabia to bem t-la com ele, s e salva. Sabia muito bem. Uma vez chegados ao carro, estariam em casa sem 
mais problemas.
Rafe deu s um passo e depois parou, o olhar fixado na direco da estrada. No tinha a certeza da distncia a que estava. Numa rpida estimativa, demorariam mais 
de uma hora, e isso era se nada corresse mal - como furarem o gelo e carem, o que era uma possibilidade. Quando chegasse com a Maggie ao carro, ela estaria outra 
vez gelada at aos ossos, para no dizer que estaria to esgotada que no seria capaz de pr um p  frente do outro.
Conseguiria ele lev-la pelo meio daquela neve? Por um lado, Rafe jurava que, se fosse preciso, sairia dali a rastejar, com ela s costas, se fosse preciso, mas, 
por outro lado, tinha de encarar os factos. Com o peso dela adicionado ao seu, quebraria o gelo muito mais vezes. Conseguir sair de cada buraco levaria um tempo 
precioso e consumiria muitas energias, coisas que os atrasariam. E se demorasse duas ou mesmo trs horas a chegar com ela ao veculo?
A preocupao provocou-lhe um n na garganta. Olhou para oeste. No cimo daquela salincia ngreme havia um abrigo que estaria abastecido de comida enlatada e cheio 
de lenha. Estaria tambm equipado com outras coisas necessrias numa emergncia, incluindo lanternas, roupa quente de cama e um rdio ou um telefone celular para 
comunicar com o exterior, alimentado por um gerador de mil volts com uma sada de corrente directa. O Rocking K estava polvilhado de refgios como aquele. Eram equipamentos 
necessrios numa extenso enorme como aquela que faziam muitas vezes a diferena entre a vida e a morte para trabalhadores do rancho, que ficavam encalhados a quilmetros 
de parte nenhuma. Essas casas rudimentares tambm serviam de acomodaes para pernoita dos homens durante as rondas.
Se bem se lembrava, demoraria menos de meia hora a chegar ao abrigo, mas teria uma subida infernalmente ngreme para escalar a salincia. No entanto, a favor da 
soluo havia o facto de a neve no ser to alta numa ladeira to inclinada como aquela. Olhou para Maggie, que cambaleava ligeiramente. Provavelmente, j no tinha 
fora para conseguir l chegar.
Podia p-la ao ombro,  maneira dos bombeiros, se ela se fosse abaixo. Do abrigo, chamaria Ryan e combinaria as coisas para que homens com motos de neve os fossem 
buscar de manh.
Arrastando-a consigo, Rafe rumou a oeste, dirigindo-se para a salincia que parecia um espectro negro contra o cu iluminado pela lua. A cada passo que davam, ele 
rezava uma prece em silncio para que conseguissem l chegar.

Captulo Dezassete
Com os ps juntos sobre salincias granticas, Maggie agarrava-se a um ramo cheio de neve de um pinheiro cujas razes se tinham apoderado da ngreme e gelada encosta. 
As pernas tremiam-lhe de cansao e ele estava com tanto frio que os dedos das mos mal sentiam a mordedura do gelo que envolvia o ramo irregular da rvore. Os seus 
pulmes lutavam por respirar, cada inspirao fazendo um rudo sibilante como que de uma respirao asmtica que lhe percorria, veloz, a traqueia.
Parado na subida, Rafe estava cerca de um metro acima dela, com uma longa perna esticada para trs e a outra flectida para dar mais um passo. Olhou por cima do ombro, 
o rosto banhado por sombras negras. No lhe conseguia ver os olhos, mas Maggie nunca se apercebera to intensamente da sua capacidade de pr de parte a aparncia 
de uma pessoa com aquele olhar penetrante dele.
- Est exausta, no est? - perguntou ele com delicadeza.
Tanto quanto Maggie podia ver, estar "exausta" no era exactamente uma opo. O caminho at  base da encosta acabara por ser muito mais longe do que Rafe tinha 
calculado. O ar das grandes altitudes explicara ele - fazia muitas vezes com que as coisas parecessem mais prximas do que realmente eram, especialmente  noite. 
"Efeito ampliador", tinha-lhe chamado ele. Desde ento, tinha-lhe pedido desculpa vrias vezes e ia-se condenando a si prprio, entre dentes, por ter avaliado mal 
a distncia.
J ali no ia h dois anos - explicou e no devia ter confiado na memria.
Maggie sabia pouco de grandes altitudes, excepto que o ar rarefeito torna difcil respirar. Agora, a crista do cume no lhe parecia mais perto do que quando tinham 
iniciado a subida. No podia simplesmente deitar-se ali e dizer que no aguentava mais. Para arranjar abrigo, tinha de conseguir chegar ao topo e Rafe dissera que 
depois ainda havia uma distncia a percorrer at  cabana.
- Estou ptima - disse ela por entre uma respirao ofegante. S preciso de descansar um segundo.
Ele disse que sim com a cabea e ps as mos nas ancas, atirando a cabea para trs para aspirar um grande gole de ar gelado. 
- Que subida infernal, no ? Desculpe. No Vero, quando no houver gelo, no  to difcil. At eu estou quase exausto.


Maggie via que ele estava cansado, mas parecia longe do ponto de colapso.
Estava a respirar pesadamente. Qualquer pessoa que fizesse uma subida como aquela estaria. Mas ele no estava a lutar freneticamente para respirar e aquelas longas 
e fortes pernas dele pareciam firmes como rochas. As dela estavam a tremer e a mover-se aos abanes.
- Sim - concordou ela. - ngreme.
No conseguia dar uma resposta mais longa. Naquela altura, qualquer bocadinho de oxignio que conseguisse extrair do ar era necessrio para lhe dar energia ao corpo.
Passaram-se uns segundos. Sentia-o a olhar para ela e adivinhou-lhe um.
Ainda no est pronta para segui-lo. Engoliu em seco e reuniu as ltimas reservas de fora.
- Vamos - deixou escapar.
De p acima dela, Rafe observava Maggie a mexer-se, com o corao a apertar-se-lhe quando um p lhe escorregou no gelo. Conseguiu apoiar-se, equilibrou-se e depois 
ficou ali em p, a tremer. Admitisse ela ou no, estava exausta. Ele admirava-lhe a coragem. Exausta como obviamente ela estava, a maioria das pessoas estaria a 
lastimar-se e a dizer que no conseguia.
Mas Maggie, no. Continuaria a andar at as pernas cederem e depois tentaria arrastar-se para cima, grande mulher. Jesus Cristo. No acreditava que tivesse subestimado 
a distncia. Que salvador que se estava a revelar! Se no conseguisse lev-la at ao abrigo, morreriam de hipotermia e a culpa era dele.
Para se sentir melhor, Rafe lembrava a si mesmo que tinha estado afastado do rancho muito tempo. Naturalmente, tinha esquecido algumas coisas. Era uma ironia dos 
diabos a memria falar-lhe numa situao de vida ou morte.
Era um grande idiota e Maggie estava a pagar o preo disso.
Estendeu-lhe a mo esquerda. - Agarre.
Ela olhou-lhe para a mo esticada. - No consigo - arquejou. Preocupe-se consigo. Eu vou atrs de si.
Rafe tinha deixado de se preocupar s com ele no momento em que tinha posto os olhos nela naquele vago de mercadorias, um ms antes. Ela era uma irresistvel combinao 
de garra e fragilidade, a sua Maggie, o tipo de mulher que fazia um homem aplaudir a sua determinao mesmo que ardesse para a proteger.

Cada vez mais tenso, via-a lutar para ganhar mais terreno. Quando ficou ao seu alcance, agarrou-lhe um brao. O olhar que ela lhe dirigiu era uma mistura de orgulho 
ferido e de gratido. Atravs da manga ensopada da parka, sentiu como os msculos dela estavam a tremer. Antes que ela conseguisse imaginar o que ele ia fazer, inclinou-se 
para a agarrar por trs do joelho direito.
Quando a ps aos ombros como fazem os bombeiros, ela reclamou:
- Oh, meu Deus! Rafe, p-ponha-me n-no cho!
- No a deixo cair, querida.
- Eu sou muito pesada. Voc no consegue subir assim, a carregar comigo.
- J carreguei vacas mais pesadas do que voc e ao longo de distncias muito maiores. - No mencionou que j h uns tempos que no o fazia nem que isso fora quando 
estava em muito melhor forma. - Nem sequer reparo que estou a carregar consigo.
H, h. S para se pr direito, sentiu o esforo nas pernas. No entanto, no tencionava perder flego a discutir a questo com Maggie, pelo que no deu mais resposta 
s muitas objeces dela quando retomou a escalada.
- Eu no estou desesperada!
No, desesperada, no, pensou ele. Mas tinha limitaes fsicas que se tinham intensificado recentemente com a gravidez e a grave doena.
- Eu consigo ir pelo meu p. Sim, ainda que tivesse que se arrastar.
- Oh, meu Deus, Rafe, por favor... no faa isto a si mesmo. Nunca conseguir.
Consigo, prometeu veementemente a si mesmo. Tinha de conseguir. Quando se est a ser carregado aos ombros por um homem, decidiu Maggie, os pensamentos que nos passam 
pela cabea so to brutais e contraditrios como a prpria circunstncia. Que ele era maravilhoso... e teimoso de enfurecer. Que, se tivesse alguma coisa dentro 
da cabea, punha-a no cho e obrigava-a a caminhar. Que o amava... e queria bater-lhe. Ou talvez apenas abra-lo, em vez disso.
Ele lutava para chegar ao topo do monte, matando-a um pouco de cada vez que respirava com dificuldade e a cada passo que dava com esforo. O caminho era ngreme 
e traioeiramente escorregadio. No havia trilho para seguir. Era uma subida brutal por cima de pedregulhos e pedras soltas que lhe rolavam debaixo dos ps. Mais 
de uma vez, ela teve a certeza de que iam para l abaixo, mas de uma maneira ou de outra ele conseguira manter o equilbrio. Estava exausto. Ela sabia que no era 
possvel ele continuar assim. Mas continuou. E a tenso de se preocupar com o fardo que ela devia ser para ele fazia a ideia de caminhar sozinha parecer muito mais 
fcil.
Descontraiu-se um pouco depois de ele ter chegado ao topo do monte, onde o cho estava nivelado, mas mesmo ento, por vezes, sentiu-o tropear sob o seu peso. O 
corao contorcia-se-lhe. Desejava ser to leve como uma pena. Boa possibilidade. Pensou em puxar-lhe o cabelo para lhe meter algum senso dentro da cabea.
E, entretanto, ele continuava, colocando um p teimosamente  frente do outro num teste atroz de resistncia do seu corpo cheio de tendes que pareciam cordas. Ouvia 
o peito dele assobiar de cada vez que se torturava a inspirar. Por vezes, quando a mudava de posio, sentia o bater violento do seu corao entre as omoplatas. 
Numa altura, o gelo partiu-se, ele caiu e ficou de joelhos. Maggie implorou-lhe que a pusesse no cho quando ele lutava para voltar a pr-se em p.
Ele nunca falou, nem sequer para a mandar calar. Maggie suspeitava de que no tinha flego, e saber disso partia-lhe o corao. Oh, meu Deus. Tinha medo que ele 
continuasse a forar at cair; e depois, que havia ela de fazer? Por mais que o amasse, nunca seria capaz de o carregar como ele estava a carreg-la.
Lgrimas quentes escorreram-lhe dos olhos. Ela sentia que ele estava exausto. Quase podia provar. Nunca - nem uma nica vez em toda a sua vida - se tinha sentido 
to pequenina e to envergonhada. Ele estava a matar-se por ela. Sentia a fadiga palpitar-lhe no corpo, cada movimento era um esforo que vibrava dentro dela. Mesmo 
assim, ele continuava, dando mais um passo e depois outro.
De qualquer modo, quanto faltava ainda para a cabana? Por favor, Meu Deus, no permitas que seja longe. Aquilo era obra dela. Tinha corrido como uma lebre para o 
bosque. Pobre Maggie, a fugir para se esconder.
Tinha sido uma coisa muito estpida e infantil que tinha feito. E porqu?
Porque no acreditara que ele pudesse am-la depois de ouvir a feia verdade.
Bem... se aquilo no era amor, ento o que era? Um caso grave de predileco?
Ele voltou a cair. Desta vez, bateu de peito na neve. O joelho direito de Maggie enterrou-se no gelo. O que sentiu foi como se a sua carne gelada se tivesse despedaado, 
provocando uma dor que ia dos dedos do p at  anca. Esqueceu-se da dor e concentrou todas as suas preocupaes em Rafe.
Ficou ali deitado por um momento com o osso da anca dela assente no pescoo e a cara encostada ao gelo. Ela lutou para se libertar, mas o modo como ele a agarrava 
era invencvel.
- Oh, meu Deus, Rafe, deixa-me sair! - gritou ela com um soluo. - No podes fazer isto.
Com uma fora que no acreditava que ele tivesse, endireitou as costas com todo o peso dela ainda em cima dos seus ombros. Maggie percebeu que ele tencionava mant-la 
ali, fosse como fosse, pelo que deixou de lutar.
- Rafe, por favor. J estou repousada. - Era mentira. No tinha certeza de conseguir andar. Mas, oh Deus, tinha de tentar. - Eu consigo, pelo meu p. A srio.
- Neve... demasiado alta - disse ele com voz spera. - J no falta muito.
Lutou para voltar a pr-se em p. Ela tinha a horrvel suspeita de que ele tinha utilizado as suas ltimas reservas de fora oitocentos metros atrs, e que agora 
estava s a funcionar com fora de vontade. E se o corao cedesse? A me parecia perfeitamente saudvel antes de a doena comear a manifestar-se. Oh, meu Deus, 
nunca perdoaria aquilo a si mesma.
Maggie quase chorou quando finalmente viu os contornos escuros de uma estrutura  sua frente. Fixou o olhar na silhueta obscura do edifcio, esperando que Rafe no 
voltasse a cair antes de l chegarem.
Quando parou, a cambalear, a uns metros da porta da cabana, ficou ali com as pernas afastadas, a olhar para ela. Maggie suspeitava de que ele estava to exausto 
que mal podia pensar, quanto mais determinar o que precisava de fazer a seguir. Ia sugerir que a pusesse no cho quando os joelhos dele cederam. Ele caiu pesadamente, 
mas conseguindo, de alguma maneira, mant-la mesmo assim aos ombros.
Ela ouvia-lhe os pulmes a queixarem-se e via-lhe nuvens de vapor  frente da cara. Por entre lgrimas, observou o seu perfil nitidamente esculpido. Tem tufos de 
cabelo molhado colados  testa. Gotas de suor tinham-lhe congelado nas faces. A boca estava aberta e ele procurava oxignio.
- Rafe?
Ele soltou-a e ela escorregou-lhe pelas costas at cair na neve gelada.
Quando rolou para se pr de gatas, ela ps as palmas das mos nas coxas e levantou a cabea. Mesmo com o grosso casaco de cabedal a tapar-lhe o dorso, ela via que 
ele estava a tremer violentamente.
- Consegui - disse com dificuldade.
Maggie ps-se direita. Sentia as pernas como se fossem de borracha e dormentes. Cambaleou para manter o equilbrio, aceitando como aceitou que ele tinha tido razo: 
ela no teria chegado ali pelo seu p.

Esgotada. Aquela palavra tinha descrito adequadamente o estado em que se encontrava na encosta, tal como descrevia agora o dele. Maggie foi com passos incertos para 
a cabana. Enquanto cobria a distncia at  porta, ziguezagueava como um bbedo. O porto tosco fechava-se por meio de um pedao de tbua pregado  madeira. Os dedos 
semicongelados faziam-na gritar de dor enquanto tentava vir-lo.
Deu um passo atrs para a porta se abrir. No se mexeu. Olhou para baixo e viu que um montculo de gelo a mantinha fechada. Ajoelhando-se e esquecendo o sofrimento 
atroz que sentia desde os dedos at aos ombros, ps-se a arranhar o gelo tendo como nica ideia abrir a porta e meter Rafe l dentro.
Ele ainda estava ajoelhado no gelo quando ela veio ter com ele outra vez.
Inclinou-se e agarrou-lhe no brao com ambas as mos. - Rafe? Vamos para dentro.
Ele abanou a cabea como que para acordar e depois olhou para a porta como se estivesse a milhares de quilmetros de distncia. Depois, comeou a lutar para se pr 
em p, Maggie tentou ajudar, mas tinha os braos to pesados que no conseguiu dar grande ajuda.
Quando ele lhe atirou um brao para cima dos ombros e lhe deixou cair o peso em cima, as pernas dela quase cederam. Lutou, recuperou o equilbrio e, de algum modo, 
orientou os seus passos hesitantes para a cabana. Trs passos, quatro.
Lutava com todas as suas foras para o apoiar.
De repente, como uma rvore enorme que casse batida pelo vento, ele comeou a ir-se abaixo. Maggie gritou, empurrou-lhe o ombro contra o peito na tentativa de o 
amparar. A coisa seguinte que soube foi que estava deitada de costas como uma criana a fazer anjos de neve. Piscou os olhos e olhou estupidamente para as estrelas 
que cintilavam por cima dela. Quando ficou com os sentidos mais despertos, virou-se para se pr de joelhos, ps-se em p e olhou vertiginosamente para o marido.
Marido. No era um prncipe de conto de fadas temporariamente emprestado.
No era um sonho tornado realidade a que pudesse fechar os olhos e fingir que no era real quando o caminho se tornasse duro. Era um homem de carne e osso que lhe 
tinha depositado o corao aos seus ps e, Deus lhe perdoasse, que ela tinha espezinhado, atirando-lhe  cara o seu amor por ela, negando-lhe o direito de lhe tocar 
e duvidando dele permanentemente.


Depois, como a proverbial cobertura do bolo, tinha fugido dele para a floresta como uma criana mimada e pouco esperta, com as pernas poucos firmes, Maggie voltou 
a ir ter com ele. Ele tinha-a transportado aos ombros ao longo de quilmetros, metade dos quais pelo monte acima e sobre gelo que tornava cada passo traioeiro, 
com certeza que era capaz de o meter dentro da cabana.
Inclinou-se e agarrou-lhe as mos, no permitindo a si mesma pensar nas palavras "no consigo". Havia de conseguir. Pondo no esforo tudo o que tinha, arrastou-o 
centmetro a centmetro at  porta. Depois, despindo a parka e pondo-lha, enrolada, debaixo da cabea para proteger o rosto, conseguiu pux-lo para dentro do vazio 
escuro do abrigo. Ele murmurou qualquer coisa ininteligvel.
- Est tudo bem - disse ela, ofegante. - Agora, est tudo bem, Rafe. Conseguimos.
As costas dela bateram numa esquina viva de madeira quando estava a tentar met-lo suficientemente para dentro do escuro compartimento para fechar a porta. Ignorou 
a dor, tal como ignorara a fadiga palpitante dos membros. Tudo vai ficar bem. Lembrou-se de como ele lhe tinha pegado to delicadamente na chamada noite de npcias 
deles, sussurrando-lhe constantemente aquela promessa.
Com excepo do penoso gemido da sua respirao, o silncio desceu quando bateu com a porta e a fechou ao ferrolho. No havia vento. Tinha-o ouvido assobiar durante 
tanto tempo que o facto de ter cessado subitamente fazia-lhe zumbir os ouvidos.
- Agora, vai ficar tudo bem - disse outra vez.
E era isso que ela queria. Do fundo do corao com tudo o que era. Ia aquec-lo e dar-lhe comida quente. Ele ficaria bem. Oh, Deus, tinha de ficar. Estava a respirar. 
Claro que estava. O arquejar dela era to alto que no conseguia ouvi-lo respirar. Rafe no era a me dela. Era grande, forte e saudvel. O corao estava ptimo. 
ptimo.
Caminhou aos trambolhes naquela escurido de breu, com os braos esticados  sua frente. A primeira coisa de que precisava era de luz. Oh, Deus, precisava de uma 
luz. Depois de bater com os joelhos em vrios obstculos que no tinha visto, deu com o que lhe pareceu ser uma mesa tosca. Rezando inconscientemente, foi apalpando 
as tbuas toscas. Quando as mos tocaram numa lanterna, soltou-se um soluo de dentro dela. Ao
lado, estava uma caixa de fsforos de cozinha. Obrigado, meu Deus.
Obrigado. Com os dedos entorpecidos e s escuras, procurou riscar um fsforo. Apareceu chama. Olhou com ar de tola para o candeeiro, no fazendo a mnima ideia de 
como acender aquela coisa.
Aps vrios fsforos estragados, metade dos quais inutilizados por causa da violncia com que ela tremia, deduziu que a pega na base da lanterna era a bomba mencionada 
nas instrues quase obliteradas imediatamente abaixo do globo de vidro chamuscado. Bombeou, torceu a haste para fechar a vlvula e meteu um fsforo aceso por uma 
abertura para acender os saquinhos de rede suspensos no interior.
Ca...uuuch! Incendiou-se vapor de combustvel a mais e o calor explodiu-lhe na cara. Ela caiu para trs, levantando os braos, quase certa de que o cabelo estaria 
em chamas se no fosse estar to molhado. Meu Deus. A ideia no era incendiar o local, com uma mo paralisada, ajustou a vlvula de combustvel. O brilho explosivo 
diminuiu, tornando-se numa luz suave.
Voltou a correr para Rafe. Quando se ajoelhou a seu lado, viu que o peito subia e descia. Velhos hbitos custam a morrer. Tocou-lhe com as pontas dos dedos na garganta, 
apenas para ter a certeza de que os olhos no estavam a engan-la. Sentiu-lhe a pulsao forte e firme nos dedos. Que disparate. Mas depois de viver com uma pessoa 
que tinha graves problemas cardacos, no podia deixar de sentir um medo doentio por ele.
Apenas exausto. Era tudo. Em breve estaria bem. Claro que estaria.
Esforando-se por se pr de p, examinou cuidadosamente o abrigo temporrio. Junto a uma parede, havia um div de madeira, com um colcho de tecido riscado e uma 
nica almofada. Piscou os olhos para focar as riscas. O colcho mal tinha largura suficiente para uma pessoa dormir confortavelmente. Por cima, em duas prateleiras 
de madeira, havia um sortido de roupa velha mas lavada - jeans desbotados, o que parecia ser uma pilha de pijamas vermelhos, algumas meias para botas enroladas e 
um par de velhas camisas de trabalho, a habitual cambraia azul que se usava nos ranchos. Tambm havia uma pilha de cobertores de l que iam dar jeito.
Rafe tinha dito que o local era mantido para emergncias. Maggie estava a ver que sim. Decididamente, no era luxuoso, mas parecia um palcio.
Virou-se para um velho fogo de ferro, to aliviada por ver a enorme pilha de lenha cuidadosamente arrumada ao lado dele que quase chorou.
Nunca tinha usado um fogo a lenha, mas tambm nunca tinha usado uma lanterna e j tinha luz.
Numa corrida frentica, atirou-se ao trabalho, com o nico pensamento de aquecer Rafe.
Quando j tinha lume no fogo, voltou para junto dele. O simples despir-lhe o casaco de cabedal molhado foi um trabalho esgotante. Ele era pesado e estava sem energia, 
o mesmo acontecendo com o casaco. Mas conseguiu porque tinha de conseguir.
- Eu consigo, Maggie - murmurou ele. - Eu consigo. Lgrimas escaldavam-lhe os olhos quando ps o casaco para o lado.
Inclinou-se para lhe pr as mos em volta do rosto, lembrando-se das muitas vezes que ele lhe tinha feito o mesmo, a olhar para ela como se quisesse memorizar cada 
trao das suas feies. Bem, a face dele estava esculpida no corao dela. O mpeto inflexvel do seu queixo quadrado. A salincia muscular ao longo do maxilar. 
O nariz ligeiramente arqueado com a cana saliente. O arco das suas sobrancelhas grossas e pretas. A luz do riso nos seus olhos azul-acinzentados.
- Tu j conseguiste. Trouxeste-nos at aqui, Rafe. Tu trouxeste-nos at aqui.
As pestanas morenas dele bateram. - Amo-te, Maggie, amo-te mesmo.
As lgrimas nos olhos dela tornaram-se um dilvio. - Eu sei. Eu sei, Rafe. Agora descansa. No precisas de falar. No h nada que precise de ser dito. 
- No te importes. - Tentou tocar-lhe na face. O brao caiu-lhe antes de l chegar. Piscou os olhos, para focar avista. - Quanto ao Lonnie. No tem importncia.
- Eu sei.
As plpebras fecharam-se-lhe. - Amo-te, acontea o que acontecer.
Maggie j no duvidava. Se o que ele tinha feito naquela noite no fosse prova suficiente, nada seria. 
- Eu tambm te amo. Acontea o que acontecer.
Quando disse aquelas palavras, Maggie sabia que estava a dar o passo final para um compromisso que duraria a vida inteira e esse passo no foi to fcil para ela 
como tinha insinuado a Rafe quando estavam a discutir no Ford. Ela amava-o, sim. E j no a aterrorizava ter sexo com ele. Mas isso tambm no significava que estivesse 
exactamente ansiosa por faz-lo. Os terrores antigos no eram muito fceis de vencer.
No importava. Seguiria simplesmente o exemplo de Rafe pondo de lado as suas necessidades e as suas vontades, em favor das dele. Quando ele quisesse fazer amor, 
ela faria e, se a experincia fosse uma provao, suport-la-ia de algum modo e fingiria que gostara. Por ele.
A boca dele retorceu-se num fantasma de sorriso e depois o rosto relaxou-se quando Maggie se aplicou na tarefa de lhe tirar as roupas molhadas.
Ela teve de se levantar e puxar para lhe tirar as botas. Quando ele e a segunda bota se separaram, isso aconteceu com tanta rapidez que ela caiu contra a porta.
Uns minutos depois, quando comeou a mexer-lhe no fecho clair dos jeans, ele deu uma sacudidela, ps a mo nos rgos genitais e abriu os olhos para olhar bem para 
ela. - Maggie? - disse com ar de censura, a tremer de frio.
- Sou eu.
Os olhos fecharam-se-lhe outra vez. Ela sorria tremulamente.
Evidentemente, ele confiava nela, pois tirou a mo e assentou-a no cho.
Quando lhe despiu os jeans e as boxers molhadas, ficou igualmente a saber que ele era to atraente nu como completamente vestido. A pele era da cor do carvalho envelhecido. 
Grossas camadas de msculo preenchiam-lhe a estrutura. Na juno das coxas, o sexo repousava em flcida glria encostado a uma farta cabeleira de bano brilhante. 
Quando lhe desabotoou a camisa, descobriu que uma faixa de plos que se ia estreitando ia desde l de cima at  barriga chata e estriada.
No podia perder segundos preciosos a admir-lo devidamente, mas, oh! como desejava faz-lo. Ele era lindo, como uma escultura de madeira com o lustro bem puxado.
Afastou o olhar e foi buscar um par de calas de pijama e camisola interior. Depois de lhe ter enfiado as calas de pijama, sentou-se nos calcanhares, to esgotada 
que era tudo o que podia fazer para no cair ao lado dele. Ele conseguia sobreviver sem camisa. Punha-lhe os cobertores todos em cima logo que o metesse na cama.
- Rafe? Ele gemeu. - Rafe, no consigo levar-te para a cama. Tens que acordar. Deu-lhe palmadinhas nas faces, conseguindo dele um gemido. - Eu sei que ests exausto, 
mas tens que me ajudar. - Meteu-lhe um brao por baixo dos ombros e esforou-se por levant-lo. - Anda. So s uns passos.
- Oh, meu Deus. - Esforou-se por se sentar e depois afastou-a. - Eu consigo.
Virou-se para se pr de joelhos e arrastou-se. Ela pairava ansiosamente por cima dele. Uma vez ao lado do div, agarrou-se  estrutura e atirou uma perna para cima 
do colcho como um bbedo a tentar montar um cavalo.
Ela veio por trs e empurrou. Aps algumas tentativas falhadas, finalmente ele conseguiu, estendendo-se de cabea para baixo na almofada.
- Desculpa - murmurou virado para o riscado. - Desculpa, querida.
Maggie tirou toda a pilha de cobertores da prateleira e cobriu-o com mltiplas camadas de l.
- Eu  que peo desculpa, Rafe. Fugir daquela maneira. Que coisa estpida. Desculpa.
Ele ficou ali deitado por um momento. Maggie pensou que ele no ia ripostar. Ento, murmurou: - Maggie?
- Que ? - perguntou ela, ansiosa por ouvi-lo dizer que lhe perdoava.
- Cala-te.
Dito aquilo, voltou ao sono. Maggie estava de p, por cima dele, a sorrir como uma louca. No era exactamente uma absolvio, mas servia. Cala-te.
No queria ouvir as desculpas dela. E tinha razo. Ela tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar ali a pedir perdo quando sabia muito bem que ele nunca 
lhe atiraria a tolice  cara, desde logo.
Percebeu a maneira de pr a velha bomba de gua a trabalhar no lava-louas enferrujado. Depois disso, aprendeu a lidar com as chapas de aquecimento do fogo a lenha 
e fez caf numa cafeteira de estanho que parecia que tinha sido espezinhada por um cavalo. Em prateleiras por cima do lava-louas, havia pratos de toda a espcie, 
loua, talheres, tachos e panelas, mais uma variedade de comida enlatada. Maggie pegou num tacho, num abre-latas, numa colher e em duas latas de feijo em chili 
em cujos rtulos se lia: Picante.
Estava to enregelada que qualquer coisa que se assemelhasse a calor lhe soava divinalmente.
Quando levou a Rafe uma caneca de caf a fumegar, ele estava a tremer to violentamente que ela no confiou que ele se governasse sozinho sem se escaldar. No era 
que as mos dela estivessem muito mais firmes.
Lembrando-se da maneira como ele a tinha alimentado uma vez quando estava doente, retribuiu o favor. - Acaba de sair do fogo.
Ele sorveu ansiosamente o caf e praguejou quando queimou a lngua.
Depois, ps a mo a tremer na dela para levar outra vez a caneca  boca.
Desta vez, bebericou com mais cuidado. Quando caiu para trs, demasiado exausto para beber mais, ela conseguiu meter-lhe um pouco de chili na boca, com uma colher, 
antes que adormecesse.
Agora que podia tratar das suas prprias necessidades, tudo o que queria era deitar-se e dormir. A lanterna podia apagar-se por si. Estava demasiado cansada para 
ir outra vez  mesa apag-la. De p ao lado do div, tirou os tnis e despiu a roupa molhada, deixando-as no cho aos seus ps. Depois, pegando numas calas de pijama 
e numa camisola interior demasiado grandes, vestiu-os e meteu-se debaixo dos cobertores com o marido. O div mal tinha largura para acomodar os dois, o que lhe calhou 
bem. Estava gelada.


Ele deu um salto quando o seu corpo gelado lhe tocou. Ela pegou-lhe no brao, p-lo  sua volta e aconchegou-se o mais que pde. Atirando uma perna para cima da 
dele e semideitando-se no seu peito. Debaixo dos cobertores, ele tacteou desajeitadamente com a mo livre, sentindo-lhe o ombro, o brao e, depois, o rabo.
O calor que emanava dele era maravilhoso e assentou a face fria na cavidade do seu ombro. No instante seguinte, estava a dormir.

Captulo Dezoito
Um apito intermitente acordou Maggie. Quanto se virou, viu Rafe de p no meio da sala, com um aspecto incrivelmente atraente, com uma camisola interior vermelha, 
de mangas compridas, e uns jeans desbotados "Wrangler" que lhe ficavam como uma segunda pele, as pernas a destacarem-se das botas ainda molhadas por cima.
Estava junto do lava-louas, de frente para o balco, as largas costas a fazerem pequenas ondas debaixo da camisola interior, que lhe assentava bem. Parecia estar 
a falar baixinho ao telefone. Maggie franziu o sobrolho. Ainda estavam no abrigo. O brilho da lanterna dizia-lhe que ainda devia ser de noite. Onde  que ele teria 
descoberto um telefone?
- Como disse, Ryan, estamos bem. - Uma pausa. - Logo de manh seria ptimo. Que diabo, ser melhor por volta do meio-dia. Assim poderemos dormir. Temos muita lenha 
e comida.  simptico e acolhedor, na realidade. Tiraremos o melhor partido disto e descansaremos. Foi uma noite infernal. Se no fosse a Maggie, eu teria passado 
 histria. Ca  porta. No sei como, mas ela trouxe-me para dentro.
Estava com a mo apoiada no rebordo do lava-louas, formando a salincia da anca e uma perna estendida para trs uma postura muito masculina.
Maggie estava meio  espera que ele informasse o irmo de que a razo pela qual tinha cado fora ter carregado com ela de to longe atravs de neve alta. Mas, como 
era tpico, no disse nada, deixando Ryan tirar as suas prprias concluses. Ningum podia acusar Rafe de ser fanfarro.
De repente, riu-se.




 - No te atrevas. Se no estiveres aqui ao meio-dia. Arranco-te a cabea. Se quiser lev-la de lua-de-mel, ser para um local mais simptico do que este. Como est 
o Jaimie, a propsito? Essa ser a primeira coisa que ela perguntar. - Silncio. - Ah, sim? A Becca tem a certeza de que no eram gases? - Deu uma gargalhada. - 
Eu digo-lhe. Olha, Ryan, no te esqueas de dizer  Heidi que no se preocupe, est bem? Sim. Aqui tambm.
Quando acabou a comunicao e reps o telefone no estojo de cabedal preto em cima do balco, Maggie puxou os cobertores at ao queixo, terrivelmente consciente, 
como estava, de que sentia a l molhada no stio onde tinha estado deitada com a camisola interior. H muito que no usava a bomba dos seios. Se no fossem para 
casa antes do meio-dia do dia seguinte, o que  que havia de fazer?
- Ests acordada - disse Rafe baixinho quando se virou. O bater das suas botas ressoou no cho quando se encaminhou para ela. 
- Era o Ryan. Entrei em contacto com ele exactamente a tempo de impedir que lanasse uma busca. Felizmente, ele imaginou que tivssemos ficado na cidade para jantar 
e ir ao cinema e que nos tnhamos esquecido de avisar a Becca. At h cerca de uma hora, no estava preocupado.
- Que horas so?
Olhou para o relgio.
- Meia-noite e meia. S dormitei um bocadinho. - Piscou-lhe o olho. - A Becca diz que perdemos uma estreia esta tarde. O Jaimie sorriu e ela jura por deus que no 
foram apenas gases, que foi um honesto sorriso. Disse ao Ryan que ele faz uma covinha como os Kendrick.
Ao ouvir aquilo, a prpria Maggie sorriu. -  uma simpatia da parte deles fingirem que  realmente um dos vossos.
- Ele  meu. Se acabar por ser parecido comigo, no fiques surpreendida. Isso acontece, como sabes. Maneirismos, acho eu, e caractersticas de personalidade. Eu 
conhecia dois rapazes que tinham sido adoptados. No eram irmos biolgicos, mas agiam de modo to parecido que se assemelhavam um ao outro.
- Espero que ele venha a ser exactamente como tu.
Ele esfregou o queixo.
 - Obrigado, Maggie. Isso  praticamente a coisa mais simptica que algum alguma vez me disse.
- Bem, e  dito com sinceridade. - Aconchegou-se mais ao cobertor. - J tenho saudades daquela pestinha.
- J no falta muito tempo para irmos para casa. - Passou uma mo pelo cabelo, o seu olhar  procura do dela durante um longo momento. Depois, inclinou a cabea 
e assentou o taco da bota numa tbua do cho, a testa franzida e um ar pensativo. Quando voltou a levantar o olhar, tinha uma expresso solene. - Precisamos de 
ter uma longa conversa. Quanto mais cedo, melhor.
Maggie concordou mas isso no significava que estivesse ansiosa por ela.
Ele inspirou fundo e depois expirou lentamente.
 - Acho que agora no  a altura ideal, pelo que podemos adiar por uns minutos, enquanto vais  casa de banho e - fez um gesto vago com a mo - fazeres outras coisas.
Tenho a certeza de que gostarias de comer e de tomar caf. Mas eu quero mesmo dizer frontalmente umas coisas para que fiques descansada. A primeira  que te AMO. 
- A sua voz passou a ser spera e profunda. - Se me disseres que te ligaste ao Lonnie e brincavas com o corpo dele trs vezes por dia continuo a amar-te.
Ela dirigiu-lhe um olhar aterrorizado.
Ele encolheu os ombros.
-  verdade.  parte o modo como ele te feriu, no me importo com o que aconteceu no teu passado. No ter efeito no que sinto por ti. Entendido? Independentemente 
do que me disseres, ou do mau que achares que , querida, no vai mudar os meus sentimentos por ti.
Maggie sentiu lgrimas a arderem-lhe na parte de trs dos olhos.
- A segunda coisa que quero dizer  que estou a instituir uma nova regra nesta relao, a partir de agora.
- Qual ?
- Hoje, aprendi uma lio importante. Nenhum problema se resolve fingindo que no existe. Isso s complica as coisas, transformando em problemas enormes o que deviam 
ter sido pequenos problemas.
Ela no conseguia discutir muito bem a questo, pelo que acenou afirmativamente com a cabea.
- Quase desde o primeiro momento, percebi que Lonnie era o pai do Jaimie. No te forcei a falar nisso porque achava na altura que te estava a poupar  humilhao. 
Foi o pior erro da minha vida e hoje quase te custou a tua.
Maggie levantou os joelhos e olhou para o cobertor cinzento que os tapava.
- Todo este tempo - continuou ele - estive na presuno de que achavas difcil dizer-me a verdade acerca do Jaimie por o Lonnie ser o teu padrasto. De que talvez 
tivesses medo de que eu te pressionasse para me contares pormenores de que terias relutncia em falar. Agora, percebo que isso  apenas uma parte, que no  s o 
que o patife te fez,  ele ter-te confundido as ideias de tal maneira que te culpes por isso.
Maggie fechou os olhos.
- Bem, acabou-se - disse ele, num tom que soava peremptrio. No h mais segredos. No h mais que andar em bicos de ps. No h mais presunes da minha parte. 
Pequenas coisas, grandes coisas. Daqui em diante, vamos ser abertos um com o outro acerca de tudo. Pode haver alturas em que eu te embarace. Esquece isso. Sem dvida 
que o farei e peo-te desde j desculpa por isso. Tendo a ser frontal e sem papas na lngua e no h muita coisa que eu sinta timidez em discutir.
Tu ests cento e oitenta graus fora disso. Mas eu preferia embaraar-te a ferir-te, querida, e ferir-te foi exactamente o que fiz. A partir de agora, nada  sagrado. 
Entende isso.
Ela levantou as pestanas. Tentando injectar uma nota de leveza na voz, disse:
 - Isso quase parece uma ameaa.
- Um aviso - corrigiu ele. - Quando, dentro de alguns minutos, tivermos a tal conversa, tornar-te-ei as coisas o mais fceis possvel. Mas no haver mais segredos 
entre ns, ponto final. Portanto, prepara-te para isso.
- Ests zangado.
- Estou, mas no  contigo. Estou louco comigo por ter deixado isto andar durante tanto tempo e por ter permitido que ficasse to fora de controlo. - Fez uma pausa 
e, depois, disse: - Isto  uma conversa que devamos ter tido h semanas e o facto de no a termos tido  inteiramente culpa minha.
-  tanto minha como tua.
Ele deu uma pequena gargalhada.
- Vamos guardar esse debate para a nossa discusso, est bem? Agora, tenho a certeza de que tens preocupaes mais prementes. - Fez um gesto na direco de uma lata 
de caf de quilo e meio que estava ao lado da cama. - Andei  procura de um bacio. No  muito conveniente, mas  melhor do que enfrentar a neve l fora.
Maggie concordou. J tinha neve que chegasse para uma noite.
- Eu... - Fez sinal com o polegar por cima do ombro para indicar outra lata que estava em cima da mesa, virando o olhar para os seus seios. - Achei que essa era 
outra das tuas necessidades. - Apoiou-se no outro p.
- Tenho que fazer uma coisa l fora. Ficars com alguma privacidade enquanto eu l estou a tratar daquilo. Antes de voltar a entrar, bato  porta.
Maggie acenou afirmativamente com a cabea. Quando ele se virou para apanhar o casaco do stio onde ela o tinha posto com a outra roupa molhada, em cima de uns tocos 
cruzados,  frente do fogo, ela deitou um olhar admirado  lata que ele tinha deixado em cima da mesa. No havia dvidas na sua mente quanto ao que ele quisera 
dizer com as suas "outras necessidades". Grande problema. Tinha apenas uma vaga ideia do modo de
tratar dessas necessidades sem a sua bomba, e a bomba estava em casa.
Uma rajada de ar frio varreu a casa quando ele abriu a porta para sair.
No momento em que a porta de madeira se fechou, Maggie saiu da cama e pegou num cobertor para pr  volta dos ombros.
Rafe praguejou em surdina, chamando a si mesmo mil vezes parvo. Ela no fazia a mnima ideia. Tinha visto perplexidade escrito na cara dela. E o que  que tinha 
feito? Tinha corrido diabolicamente.
No  que ele se sentisse pouco -vontade a discutir as funes do corpo feminino. Educado desde a infncia num rancho que lida com gado e cavalos, no havia muita 
coisa que o embaraasse. Ela era apenas dolorosamente tmida.
Enquanto essa ideia se consolidava, Rafe hesitava, inclinado sobre o gerador a fazer afinaes do obturador de arranque e do carburador.
Diabos o levassem se no voltasse a fazer a mesma coisa, andar em pulgas  volta dela e recuar com medo de a embaraar. Pior ainda, tinha acabado de lhe jurar que 
nunca mais faria aquilo. Se isso era uma indicao, no estava no bom caminho.
Pegou num trapo para limpar as manchas de gordura das mos. Bastava. A partir de agora, no ia recuar em relao a nada. Ela era sua mulher e, para todos os efeitos 
que importavam, aquele beb era dele. Era tempo de comear a agir como marido em vez de actuar como um estranho demasiado educado.
No era como se o corpo da mulher viesse com manual de instrues.
Lembra-se perfeitamente da frequncia com que Susan procurava conselhos enquanto me sem experincia, telefonando quase todos os dias ao mdico a fazer perguntas 
ou indo ter com a me de Rafe, que fora enfermeira diplomada. Seria isto normal? Seria aquilo normal?
Maggie no tinha ningum para quem se virar - a no ser ele.
Deitou fora o trapo, desligou a luz, saiu do alpendre e deu a volta at  frente da cabana para bater  porta.
- Entra - disse ela com voz desmaiada.
Rodou o fecho e abriu a porta. Ela estava sentada num mocho,  mesa, com um cobertor por cima dos ombros, as pernas compridas de um par de calas de pijama vermelhas 
demasiado grandes caam-lhe aos tornozelos por cima do topo de umas meias prprias para botas tambm demasiado grandes.
Olhando para a lata que estava em cima da mesa,  frente dela, Rafe fechou e trancou a porta.
Agora que ali estava, no tinha a certeza absoluta do que dizer. Optou por ir direito ao assunto. 
- No sabe fazer isso, pois no?
Ela dirigiu um olhar espantado  lata. As faces adquiriram um espantoso sombreado vermelho. Ele disse para consigo que a cor dava bem com o pijama.
- Bem, estou a chegar l... Acho eu.
Enquanto despia o casaco, aproximou-se para olhar para dentro da lata.
No havia grande coisa l dentro.
Deixou cair o casaco, pegou na vasilha e dirigiu-se ao p da mesa.
- Anda c, querida - incitou-a, enquanto centrava a lata no rebordo.
Ela dirigiu-lhe um olhar cheio de suspeita. - Porqu?
Rafe achou que as suas razes eram bvias. - No sejas tmida. Nem sequer te toco, vou apenas dar-te algumas dicas.
Ela agarrou bem o debrum da l. - Oh, no, no  necessrio. Eu c me arranjo. A srio.
Chamou-a com o dedo: - Maggie, no  nada de especial. Confia em mim. No te ponho uma mo em cima, prometo, e podes continuar enrolada no cobertor.
- Tu estiveste a observar? - perguntou ela, com ar escandalizado. 
Rafe evitou um sorriso e coou-se ao lado do nariz. Aquela tinha-lhe corrido mal! 
- Bem, no, no  exactamente um desporto-espectculo. Simplesmente... a minha me era enfermeira. A Susan estava toda zangada porque estvamos a planear irmo-nos 
embora no dia seguinte. Era tarde de mais para ir  cidade comprar outra bomba, pelo que a minha me a ensinou a espremer o leite sem bomba.

- Elas discutiram isso  tua frente?
- Ficavas igualmente horrorizada se tivessem falado acerca de cotovelos?
- No, claro que no.
- E ento?
- Cotovelos so coisas ligeiramente diferentes.
- Diferentes de... - Inclinou a cabea, incitando-a a dizer a palavra.
- De outras partes do corpo.
Ele riu-se contra vontade. 
- Nem sequer consegues diz-lo.
- No sejas parvo. J disse montes de vezes.
- Quando?
Ela encolheu os ombros, fazendo o que podia para no o olhar nos olhos. 
- No sei. Montes de vezes, pronto.
- Bom. Ento, no  nada de especial e podes voltar a dizer agora. - Inclinou-se para o lado para a olhar nos olhos, que se viraram imediatamente para a direco 
oposta. Ele seguiu-os, no lhe dando a hiptese de no olhar para ele. - V l. Depressa. Deita isso c para fora. Prometo no bater com a mo na testa nem cair 
desmaiado, fazendo corpo morto.
Ela rolou os olhos. - Isso  a coisa mais parva que j ouvi.
- , no ? Desculpa, mas no me parece que seja um plano vivel para ns passarmos os prximos cinquenta anos a fingir que no tens... - Parou e suspirou. - Querida, 
eu vou ser o tipo que te segura a cabea quando estiveres enjoada, e vice-versa. O que  que acontece se apanhares uma infeco prpria das mulheres e precisares 
de ir ao mdico? Tens que ser capaz de me dizer coisas dessas. O que  que vais dizer, que tens um problema l em baixo? A menos que consigas falar abertamente comigo, 
posso pensar que tens uma unha encravada no dedo do p e adiar uma ida  cidade.
- Eu sei conduzir e marcar as minhas prprias consultas. No sou uma criana.
Ele concedeu naquela matria e disse que sim com a cabea. 
- No estou a insinuar que precisas de quem tome conta de ti, mas... - Deus, ele odiava aquilo. Se j estavam a ficar ntimos, no era to difcil como isso. Mas 
no estavam e ele sentia-se uma lesma. Apoiou os pulsos no rebordo da mesa e olhou pensativamente para a lata. Para a lata quase vazia. Merda.
- Uma infeco vaginal pode fazer com que ter relaes sexuais seja horrivelmente doloroso - ocorreu-lhe dizer. - J para no dizer que algumas infeces so contradas 
pelo homem sem que ele tenha sintomas e ele tem que tomar antibiticos para no infectar a mulher outra vez sempre que lhe tocar. O que  que vais fazer? Dar-me 
comprimidos sem me dizer porqu?
- No consigo perceber o que  que isso tem a ver...
- Acredita em mim: tem a ver. Daqui em diante, o teu corpo e qualquer coisa que haja de errado com ele diz-me respeito. s minha mulher e eu amo-te. A tua sade 
e bem-estar so extremamente importantes para mim. Consegues entender isso?
- Claro - concordou ela, num tom derrotado.
- Estamos aqui presos. Sero mais doze horas, pelo menos, at chegarmos a casa. Devias espremer o teu leite de quatro em quatro horas. J no o fazes desde ontem 
antes do meio-dia, quando fomos para a cidade.
- No - confessou ela, desolada.
- Se no o fizeres j, podes arranjar grandes problemas.  possvel, embora provavelmente no arranjes. Mas porqu desafiar a sorte? Ingurgitamento, inflamao. 
O que quiseres. Extraste o leite durante este tempo todo,  espera de poderes voltar a amamentar o Jaimie. J acabaste de tomar os medicamentos. Queres correr o 
risco de estragar tudo agora, apenas por estares embaraada?
- No.
Ela ps-se em p e foi relutantemente pr-se ao lado dele. Rafe sabia que apenas tinha ganho uma batalha e no a guerra. Era preciso usar estratgia, sendo o seu 
objectivo tornar aquilo o mais fcil possvel para ela enquanto ele lhe transmitia a informao necessria. Decidiu que misturar um pouco de brincadeira no faria 
mal. Uma gargalhada aqui e ali, algumas provocaes. Se mantivesse um tom descontrado, talvez ela conseguisse descontrair-se melhor.
- A minha me dizia que, na realidade, isto era melhor do que usar a bomba - disse-lhe ele. - E depois de experimentar, a Susan nunca mais quis o aparelho. Assim 
 mais rpido.
- Vou experimentar  tua responsabilidade.


Rafe deixou passar aquela. Colocou-a de frente para a mesa e depois ps-se ao lado dela, ligeiramente dobrado pela cintura para a frente, e ps as mos em concha 
 frente do seu prprio peito. - Segure a sua - ela dirigiu-lhe um olhar de aviso - coisa assim. - Viu-a rolar outra vez os olhos. - Bem, ento como  que lhe chamo? 
Geringona?
A boca dela retorceu-se nos cantos. 
- Tu s incorrigvel.
- Mas tu amas-me de qualquer maneira. - Olhou para as mos dela. - Vais fazer isto ou no? Ou vais ficar a em p, a arranjar interessantes sombras vermelhas?
Ela inclinou-se para a frente e colocou as mos bem longe do peito.
- E agora?
- Vais entrar num concurso de pastilhas elsticas?
Ela fez um som no fundo da garganta que ele esperava que tivesse sido uma risadinha abafada. Viu-a colocar as mos mais perto do corpo.
Acenou afirmativamente com a cabea.
- A est. Agora, massajas na base com um movimento para a frente. A minha me dizia que eram umas dez vezes. Delicadamente, Maggie. No estamos a amassar po, por 
amor de Deus.
Escapou-lhe uma gargalhada de espanto. Ele sorriu e piscou-lhe o olho. 
- Bem. Agora, mais  frente, mais perto do... - Hesitou. Como  que vamos chamar ao bico?
- Bico - respondeu ela, a voz tensa por causa do riso reprimido. - s assim com toda a gente, ou sou eu que estou a ficar com sorte?
- s tu que ests a ficar com sorte. Achas que faria uma figura de parvo destas por qualquer pessoa?
- Sinceramente, espero que no.
-  uma coisa danada de boa. Diz ao Ryan que eu fiz isto e toro-te o nariz. Um tipo tem uma imagem a defender e ele nunca mais me deixaria esquecer isto.
- Garanto-te que nunca terei ocasio de discutir isto com o Ryan.
Pelo menos, tinha-se descontrado. Ele deu a si mesmo uma palmada nas costas como merecia um puro gnio como ele. - Agora, espremes mais umas dez vezes.
- Nove serve?
Semicerrou-lhe um olho.
 - Vais levar isto a srio, ou tenho que o fazer por ti?
- Toca-me e s um homem morto.
Ele riu-se em surdina. - Para uma mulher que no tem nenhum, s danada com o teu territrio.
- Eu nunca disse que no tenho. Prefiro  no andar a propagande-lo.
Olhou-lhe para a frente envolta no cobertor. - Se  a isso que chamas baixo perfil, minha querida, ests com problemas.
Ela ignorou a observao. - E agora?
Deu-lhe instrues explcitas, acabando com: - E v se apontas para a lata. Quando voltar para dentro, vou verificar.
- Verificar o qu?
- A produo. - Inclinou-se para a beijar na face, que estava to quente do embarao que quase receou que se incendiasse. - Alguma pergunta?
Ela manteve o rosto um pouco afastado.
- No. Acho que consigo fazer isto com bastante facilidade. Obrigada. - Por um breve momento deu-lhe a graa de um olhar olho-no-olho. - Quando  que volta a tua 
me?
Ele voltou a rir-se, fosse a reaco apropriada ou no.
- Acredita em mim. Eu sou melhor confidente. Pede-lhe um conselho e ela pe tudo em pratos limpos  mesa do jantar, com o pai e o Ryan a darem as suas opinies. 
Podes contar comigo para ficar de boca calada.
- O teu pai e o Ryan? - repetiu ela, outra vez com uma expresso espantada.
- Na minha famlia, nada  sagrado. Protege bem os teus segredos ou eles sero os segredos mais bem guardados deste lado do Texas. Na realidade,  simptico. - Desviou 
outra vez dele o olhar. - Maggie,  uma parvoce estares embaraada com isto. Achas que nunca reparei que tens seios? Ests a brincar, decididamente. Foi uma das 
primeiras coisas em que reparei em ti.
Dirigiu-lhe outro daqueles olhares espantados. 
- Foi?
- Absolutamente.
- E que mais?
- Que mais o qu?
- Em que mais reparaste em mim?
Piscou-lhe o olho. - Nesses olhos lindos. Eles  que foram a primeira coisa. Um olhar e fiquei liquidado. No tive o bom senso de parar de olhar.
- E? De que mais... gostaste em mim?
- Nem queiras saber.
- Quero, sim.
- Desse teu rabo ptimo - sussurrou ele. - E dessas pernas fantsticas. - Pegou no casaco que estava em cima do banco. Parou  porta, dirigiu-lhe um olhar lento 
e devastador e sorriu. - Se tiveres problemas, chama-me. Estou l fora.
- No vou precisar de ti - garantiu-lhe ela outra vez.
Rafe esperava que assim fosse. Se precisasse, no tinha a certeza de quem sofreria mais, se ela ou ele.

Captulo Dezanove
Trinta minutos depois, Rafe voltou a entrar na cabana. Maggie estava sentada no div ainda com um cobertor pelos ombros. Agora, porm, via-se a manga vermelha de 
uma camisola interior e adivinhava-se que estava outra vez tapada, da cabea aos ps. Aleluia.
- Tudo bem?
Ela disse que sim com a cabea e, quando ele olhou para a lata, disse: 
- No te incomodes a olhar. Deitei tudo para a pia. - Esperou um pouco e depois, numa bvia tentativa de mudar de assunto, disse: O que  que estiveste a fazer l 
fora?
Tinha passado os ltimos quinze minutos de exlio sentado no gerador a gelar o rabo. 
- Vrias coisas. Principalmente, estive a tratar do gerador. - Foi at  pia, deitou gua no lava-louas e lavou as mos. Precisava de leo e de umas pequenas afinaes. 
Achei melhor tratar dele para o caso de precisarmos de voltar a telefonar. A sada de corrente  a nica maneira de o ligar.
Tirou uma toalha da prateleira por cima do lava-louas, virando-se enquanto secava as mos. Estudando a mulher, decidiu que ela parecia miseravelmente nervosa, ou 
por causa da conversa que iam ter ou porque receava que ele quisesse tirar partido do isolamento em que estavam para fazer amor. Tirou o casaco e perdurou-o  frente 
do fogo, ao lado do dela, para o deixar acabar de secar. Depois, ps mais alguma lenha na fornalha.
- Maggie, no te vou saltar para cima s por teres dito que j no te aterrorizava a ideia de ter sexo comigo.


Ela piscou os olhos. - Eu disse isso?
Ele esfregou as mos nos jeans e dirigiu-se lentamente para ela. 
- Sim, disseste isso. Quando estvamos a conversar no carro. Lembras-te?
Ela comeou a remexer nas dobras do cobertor.
 - Acho que disse, no disse?
- Lamentas t-lo dito?
- No. Essencialmente, estou...
- Essencialmente ests o qu? Arrependida?
- No, pronta.
Rafe sentou-se na borda do div e apoiou os antebraos nos joelhos.
Essencialmente? Que diabo queria ela dizer?
- Antes de nos preocuparmos com fazer amor e quando vamos fazer, acho que precisamos de ter aquela conversa - disse-lhe ele.
Ela disse que sim com a cabea.
- Principal tema, Lonnie, por mais desagradvel que possa ser. Quero que me contes tudo, Maggie. Acabaram-se os segredos, por favor. Gostaria de saber especificamente 
por que diabo achas que ele no te violou. Sei perfeitamente que violou.
Os olhos dela escureceram e a cor desapareceu-lhe do rosto.
-  por isso que no te importas com o que te disse, por no acreditares que seja verdade?
Rafe deixou escapar uma expirao cansada. 
- No, o que disse anteriormente  exactamente o que penso. Desde que o nosso casamento prossiga, as tuas relaes sexuais do passado no me interessam, realmente. 
Se fornicaste com toda a equipa de futebol americano dos Seattle Seahawks, incluindo o treinador e o aguadeiro, honestamente, no me importo. Isso no pesa nos meus 
sentimentos por ti, nem nos teus por mim. A razo por que te estou a fazer perguntas acerca do Lonnie, especificamente, no  por me fazer diferena que tenhas dormido 
com ele, de tua livre vontade ou no.  porque te est a incomodar.
Eloquente, decididamente ele no era. Ser directo em relao a tudo, estava a revelar-se um verdadeiro caso srio. Apertou a cana do nariz com dois dedos.
- Isto fez algum sentido?
Ela fechou os lbios, no dizendo nada por um momento. 
Depois, os olhos encheram-se e o queixo comeou a tremer.
- No te importas mesmo nada, nada? Isto , ele no era uma pessoa qualquer. Era meu padrasto. Tal como tu s do Jaimie.  to feio, quase incestuoso, mesmo que 
no tenhamos verdadeiros laos de parentesco.
- No me parece que haja qualquer comparao entre os meus sentimentos pelo Jaimie e os do Lonnie por ti. Eu amo o Jaimie e no posso acreditar que o Lonnie Boyle 
tenha sentimentos por algum que no seja ele. Incestuoso, sim. Segundo os meus princpios, foi. Ele violou todos os cdigos de decncia quando te tocou. Mas o pecado 
foi dele, nunca teu. - Ps-lhe a mo no queixo.
 - Querida, tu s a melhor coisa que jamais me aconteceu, sem excepo nenhuma. Amo-te, a ti e no  tua histria passada. No sou propriamente terreno virgem. Vais 
rejeitar-me por eu ter estado com outra mulher?
Uma lgrima rolou pela face dela e reflectiu a luz da lanterna como um diamante sobre cetim cor de marfim. 
- Claro que no. - Engoliu em seco. - Tens estado com muitas?
Ele riu-se. - Prometes no usar isso contra mim? - Perante a promessa dela, disse: - Ento, a verdade  que no tenho muitos riscos no cabo da minha espingarda. 
Conheci a Susan quando ainda era bastante jovem e mesmo antes de nos casarmos nunca lhe fui infiel. Depois de ela morrer, nunca olhei para outra mulher at te conhecer.
- Piscou-lhe o olho. - Sou quase virgem, portanto, v se tens cuidado comigo.
Ela deu uma gargalhada de espanto que terminou com um soluo de choro e depois, antes que ele percebesse o que ia fazer, atirou-se a ele. Rafe apanhou com ela no 
peito, o corao a partir-se-lhe um pouco com o modo desesperado como ela se lhe agarrou ao pescoo.
- Diz-me l outra vez - sussurrou ela. - Que o Lonnie no tem importncia.
Ele estreitou-a nos braos. 
- No tem importncia. Nunca teve nem nunca ter. Amo-te, Maggie. No h nada, nada, que possas dizer-me que alguma vez me faa deixar de te amar. A srio.
Ela estremeceu e encostou-se mais. - Nunca estive com os Seahawks.
Ele riu-se e ps-lhe a mo por trs da cabea. Meu Deus, como a amava. Os seus sentimentos por ela eram to profundos que at os ossos pareciam doer-lhe quando a 
abraava. - A srio? Nunca teria imaginado.
- S o Lonnie - sussurrou ela - e odiei. 
Aquilo tambm no foi surpresa.
- Ele magoou-me sempre e eu... - Interrompeu e virou a cara para o pescoo. - Eu nunca queria. Nunca.
- Mas deixavas? - perguntou Rafe cautelosamente.
O corpo dela ficou rgido e, por um momento, parou de respirar.
- Sim - acabou por confessar intermitentemente. - Tinha medo. Tinha tanto medo. Ficou louco quando o rejeitei. Disse que eu era dele. Dele. - A respirao prendeu-se-lhe 
e ela aconchegou-se mais a ele. Era to obsessivamente ciumento que nem me deixava tomar a plula para no ficar grvida. Pensava que, se me sentisse segura, podia 
andar por a com homens que conhecesse no trabalho, e essa ideia deixava-o louco. Uma vez, nas costas dele, fui arranjar uma receita. Quando descobriu, pensei que 
me mataria. Levou-me para junto do rio, para um local isolado que ele conhecia, e... - Emitiu um som estrangulado. - Estava to furioso que me sufocou. Eu no podia 
fugir. Finalmente, desmaiei. Quando voltei a mim, ele estava encostado ao carro, a fumar um cigarro. Disse que foi bom eu ter acordado porque estava a preparar-se 
para me atirar  gua. No agiu como se se preocupasse comigo, pensando que talvez eu morresse. Teria preferido isso, acho eu, a deixar que outra pessoa me tocasse. 
Depois disso, nunca ousei tomar nada para me proteger.
Rafe afagou-lhe o cabelo. - E foi assim que apareceu o Jaimie.
Disse que sim com a cabea. -
- Tenho sorte por no ter acontecido muito mais cedo do que aconteceu. Foi h trs anos que ele acrescentou a parte de trs da casa, pelo que fiquei com o meu prprio 
quarto.
- O teu prprio quarto? - Rafe notou aquilo, sem ter bem a certeza do que queria dizer.
- Antes, partilhava o quarto com a Heidi. At ento, ele olhava para mim de um modo estranho, mas nunca fez nada. Foi s quando passei a dormir nas traseiras da 
casa, onde ele sabia que a minha me no podia ouvir, que comeou... a acordar-me de noite.
Rafe sentiu um n no estmago. Apertou os braos  volta dela.
- E depois de teres o teu prprio quarto... acordou-te muito?
Ela tremeu. - Sim. - Ficou calada durante alguns segundos. - Suponho que achars nojento eu no me ter vindo embora. Provavelmente, pensas que sou uma dessas pessoas 
fracas que se deixam vitimizar.
Ele fechou os olhos. 
- No, Maggie. s uma das pessoas mais fortes que conheo. Se ficaste, sei que tinhas uma razo, e acho que sei qual era.
- Ele disse que se eu me fosse embora a Heidi estaria a seguir. Que tinha quase idade suficiente. - A voz dela tornou-se estridente. - Nessa altura, fui ao apoio 
judicial. Tentei obter a custdia dela. Mas o advogado disse que eu no tinha possibilidade nenhuma at conseguir provar que, realmente, Lonnie lhe tinha feito alguma 
coisa. Provar. Precisavam de prova. Era a minha palavra contra a dele. Quando eu tinha ndoas negras, at me obrigava a ficar em casa, impedindo-me de ir ao trabalho. 
Como  que arranjava provas?
- Portanto, ficaste, sujeitando-te ao abuso em vez de o deixares fazer da Heidi outra vtima. - Rafe sentiu-se fisicamente doente.
- Depois de ir ao advogado, peguei na Heidi e tentei ir-me embora. Nessa altura, usei o carro. Estava em nome da minha me e do Lonnie, mas fiz os pagamentos, pelo 
que no era, realmente, como se o tivesse roubado, nem nada.
- Que aconteceu?
- O Lonnie participou o desaparecimento do carro e os polcias mandaram-me parar. O Lonnie veio e levou-nos de volta para Prior. Estava to fulo que pensei que daquela 
vez ia matar-me. Parte de mim quase desejava que o fizesse.
Rafe tinha experimentado uma vez ou duas aquela sensao. E estava exactamente no ponto de partida.
- Com o Lonnie a visitar-te no quarto?
- Sim. Comeou a vir outra vez e, tal como antes, quando lhe dizia que no, ficava to enraivecido que me batia. Eu no podia gritar. Ficava aterrorizada com a ideia 
de a minha me ou a Heidi poderem ouvir, e tinha medo de que ele matasse uma delas se entrassem por ali dentro.
Voltou a fechar os olhos, o corao a partir-se por ela. Recordando as ndoas negras que lhe tinha visto no corpo, sabia que Lonnie no fazia cerimnia a esmurr-la.
- Ah, Maggie. Como  que no gritavas?
- Punha a almofada em cima da cara.
- O qu?
- A minha almofada, para abafar os rudos que fazia.
O estmago revirou-se-lhe e a nusea veio-lhe at  garganta.
- E depois de te bater? - conseguiu perguntar. - Violava-te?
Ela continuou com uma calma que no era natural. 
- No - sussurrou. - Depois, deixava-me.
Rafe tinha a certeza de que no a tinha ouvido bem. - Deixava-te?
- Voltava sempre. Por vezes, na mesma noite, outras vezes, na noite seguinte. Disse-me que nunca tinha tido que violar uma mulher e no ia comear por mim. Que era 
melhor, quando voltasse, que a minha atitude fosse outra; ou ele dar-lhe-ia outra afinao.
Rafe sentia as lgrimas dela a carem-lhe no pescoo. Comeou a embal-la e a massaj-la nas costas. 
- E quando ele voltava, em vez de apanhares outra tareia, fazias o que ele queria.
No era uma pergunta. Rafe estava a ver as coisas com tanta clareza que as imagens que se lhe formavam no crebro lhe davam vontade de cometer homicdio. Sempre 
que ele quis, como ele quis. Chame-lhe o que quiser, mas eu fi-lo, tinha-lhe dito ela nessa tarde. Nunca tinha percebido como aquilo tinha sido possvel, sobretudo 
com Maggie. Mas agora entendia.
Imagin-la a pr a almofada contra a boca para abafar os gritos... Oh, Deus. Queria abra-la muito e nunca mais a deixar sair dali. At quele momento, Rafe sabia 
que Lonnie era doente, mas no sabia at que ponto.
- Eu tinha que fazer o que ele queria ou ele magoava-me outra vez. Nunca parava at eu ceder. A pior parte era que, se bater-me no funcionasse, ameaava ir ao quarto 
da Heidi. Ela era to pequenina. Eu tinha tanto medo de que ele o fizesse.
Toda aquela histria feia lhe saiu nessa altura, sendo os pormenores to srdidos que Rafe arrepiou-se.
Violar uma mulher j era suficientemente horrvel. Rafe no conseguia lembrar-se de muitas coisas piores. Mas aquele filho da me bater-lhe para a subjugar e depois 
voltar mais tarde de modo a poder fingir que ela o queria...
Um soluo saiu de dentro dela, com lgrimas e tremendo, vindo o som de to fundo que o assustou.
- Oh, querida. No. Por favor, no. No foi culpa tua.
Se o ouviu, no deu sinais disso. Rafe aconchegou-a a ele, embalando-a com mais fervor, ansioso por fazer com que parasse o sofrimento dela, mas sem saber como. 
Portanto, deixou-a chorar. At que se encostou a ele, sem energia. At ficar sem lgrimas. At se ter instalado um horrvel silncio... a exigir que ele dissesse 
alguma coisa. Mas, Deus o ajudasse, no conseguia encontrar palavras.
Quando finalmente falou, estava to concentrado nela e na sua dor que as palavras saram-lhe instintivamente.
- Amo-te, Maggie. Nunca pensei que alguma coisa me fizesse amar-te mais do que j amava, mas isto fez. Fazes alguma ideia de como s extraordinria?
- Extraordinria? - repetiu ela baixinho.
- Extraordinria. Maravilhosa. Espantosa. Teres ficado l... pela Heidi. E nunca teres deixado o filho da me vergar-te. Estou to orgulhoso de ti, por saber isso. 
A maioria das pessoas no teria aguentado as tareias repetidamente. Ele tentou desalmadamente vergar-te o esprito, para te despir da tua dignidade e te pr de joelhos... 
e tu nunca lhe permitiste que vencesse.
Sentiu-a ficar quieta de forma que no era natural. Passado um momento, cerrou os punhos contra a sua camisa. 
- Oh, Rafe. Ele ganhou sempre. Aquilo era um pesadelo.
Encostou-lhe o nariz ao cabelo, que cheirava a fumo de madeira, a galhos de folha persistente e ao odor que era exclusivamente de Maggie.
- No minha querida, no. Ele nunca ganhou, na realidade, pelo menos das maneiras que contam.
O modo como ela o abraava tornou-se quase frentico.
 - Sinto-me to enjoada por dentro. Quando penso nas coisas que fiz, sinto-me como se andassem vermes a passear dentro de mim. Uma sensao horrvel, suja, que no 
posso lavar.
- Ah, Maggie. - Rafe sentia-se como se lhe tivessem enfiado uma meia pela traqueia abaixo. A laringe recusava-se a mexer-se quando tentava engolir. Quase sufocou 
a tentar aclarar a garganta. - No se consegue lavar esse tipo de sensaes com gua e sabo.
- Eu sei - disse ela em surdina. - J tentei. Esfregava at a pele ficar em carne viva. Nunca funcionou.
Lgrimas encheram-lhe os olhos. Ele virou-se para se deitar de costas, trazendo-a para baixo com ele. Puxou os cobertores para cima deles, com a mo metida nos cabelos 
dela para lhe aconchegar a cabea ao ombro. 
- Quando estiveres pronta, lavamos juntos essa sensao.
- Com qu? - perguntou ela, receosa.
Ele sorriu, consciente, como ela de que as lgrimas estavam a correr-lhe pelas faces e a ir para o cabelo. 
- Confia em mim. J tenho a cura. S h uma maneira de te veres livre dessas ms recordaes, Maggie, e essa  criar novas recordaes maravilhosas.
- Oh, Rafe, tomara eu poder acreditar nisso.
O corao apertou-se-lhe ao ouvir o desespero da voz dela. 
- Bem, ento, acredita que sim. Alguma vez te menti?
- No.
- Ento? O que parece sujo, ou feio, ou assustador com outra pessoa qualquer parece mgico e perfeitamente certo com a pessoa que se ama, Maggie. Tu amas-me. No 
amas?
- Oh, sim.
- Ento, ser assim para os dois: pura magia. To belo, to bom e to doce que no haver espao na tua cabea para quaisquer ms recordaes. Elas sero expulsas 
pelas novas e fantsticas e nada mais ficar seno uma sensao maravilhosa, mgica.
Ela enganchou-lhe um calcanhar por cima da perna para chegar mais o corpo ao dele. Rafe acomodou-a estreitando o seu abrao. Sentiu o punho dela fechar-se-lhe outra 
vez contra a camisa. 
- Ento, vamos faz-lo - sussurrou ela, decididamente. - J.
Era a ltima coisa que ele esperava ouvir-lhe. Ficou ali deitado por um momento, o corpo tenso, o corao a bater.
- Maggie - disse ele bruscamente, por fim -, no me parece que agora seja a melhor altura.
Onde a mo dela se tinha fechado por cima da camisa, ele sentiu um puxo nos plos do peito.
- Por vezes - sussurrou ela com voz tremente -, depois de adormeceres, toco-te quando no ds por isso e... interrogo-me acerca disso.
Ele sabia a que vezes ela se referia, pois no estava a dormir. Tinha-lhe reconhecido as feies, desenhado a forma da boca com a ponta de um dedo e percorrido levemente 
os seus braos com as mos.
- Interrogas-te acerca de fazer amor, queres tu dizer?
- Sim - disse ela com foz fina. - Acerca de como ser. 
Ps-lhe uma mo no ombro. - Como  que achas que ser?
Foi a vez em que demorou mais a responder.
- Espero que seja bom. Gosto quando me tocas. Como agora. Sabe bem.
Ele percebeu que estava a acariciar-lhe delicadamente o ombro por cima do algodo da larga blusa e parou. Depois, lembrando-se de que ela acabara de confessar que 
estava a gostar, recomeou, desta vez deliberadamente. - Gostas disto?
- Hummm. - Arrastou um flego trmulo. - Faz-me vibrar a pele. Saber que ela estava a gostar, fez os jeans emprestados parecerem-lhe um tamanho abaixo do seu. Aquilo 
era perigoso. Ela estava a encoraj-lo a fazer uma coisa para que no sabia se ela j estava pronta.
E ele estava um pouco pronto de mais.
- Mesmo esperando que seja muito bom, continuo a ter medo confessou. - J no  de ti.  apenas medo. De que talvez no seja bom. De que talvez at seja... terrvel. 
E nunca te acordei porque tinha medo de descobrir.
- Juro-te, Maggie, que no ser terrvel.
- Que  que disseste da magia? - De repente, levantou um ombro para o olhar nos olhos. Ele sentiu-se como se estivesse a afogar-se em seda molhada. - Se tu... - 
Parou e engoliu. - Se queres fazer magia e expulsar esta sensao terrvel de dentro de mim, quero que o faas.
Rafe estudou-lhe o rosto mido, que tinha sido devastado pelo choro.
Riscas de lgrimas orlavam-lhe as faces plidas. As plpebras estavam inchadas e vermelhas. A ponta do nariz estava cor-de-rosa. E a boca. Oh, Deus. Estava inchada 
e brilhante e com um ar macio... e a pedir para ser beijada. Estendeu o brao para lhe tirar uns cabelos escuros da face e, de algum modo, a mo acabou atrs da 
cabea dela.
- Querida, ests nervosa. Falmos acerca do Lonnie. Est tudo fresco na tua mente. Acho que devamos deixar para outra vez.
- No me queres?
Oh, Deus. Nunca tinha querido tanto ningum ou nenhuma coisa. Mas tambm queria que fosse no momento certo. E se no conseguisse fazer com que, para ela, fosse mgico? 
Desapont-la?
- Oh, querida, quero-te. Claro que te quero. Mais do que consigo dizer.
- No quero forar.  apenas...  como ter um monstro no armrio, sabes?
Donde aquilo tinha vindo, no fazia ele ideia. 
- Um qu?
- Um monstro no armrio. Quando eras pequeno, nunca acreditaste que havia um monstro no teu armrio?
Nunca tinha visto olhos to belos como os dela. Cada ideia, cada sentimento dela reflectia-se naquelas profundezas transparentes castanhas, e a mistura de emoes 
aterrorizava-o. Obviamente, ela queria enfrentar os seus demnios e, obviamente, na mente dela, ele era um deles.
- Nunca acreditei que houvesse um monstro no meu armrio. Mas costumava pensar que havia fantasmas no estbulo depois de escurecer.
- Como  que percebeste que no havia?
- Quando tinha cerca de doze anos, peguei num saco-cama e dormi na arrecadao. Foi uma cura dos diabos, mas quando se fez dia, j no tinha medo.
- Bem, quando era mida, pensava que havia um monstro no armrio. Noite aps noite, ficava na cama a olhar para a porta do armrio, com medo de adormecer. Finalmente, 
uma noite, no aguentei mais, saltei da cama e abri a porta. Sabes o que aconteceu? No havia monstros. Nunca mais voltei a ter medo.
- Maggie, ests a dizer que sou um monstro do teu armrio?
O olhar dela cruzou-se com o dele quando abanou a cabea. No agora, o meu monstro  o Lonnie e tu s a porta que tenho medo de abrir. - Mordiscou o lbio, os olhos 
a implorarem-lhe que entendesse. - Eu sei que  uma estupidez. No fiques magoado. ...
Rafe ps-lhe a ponta de um dedo em cima dos lbios.
- No tens que explicar. Eu entendo e no estou magoado. No h nada dentro de mim que no tenhas visto, Maggie. No h monstros escondidos. Nada de Lonnie dentro 
de mim.
- Eu sei. J sei h algum tempo - confessou ela, trmula. - Mas preciso de provar isso a mim mesma. Sabes? Infelizmente, desta vez no  to simples como deitar 
a mo a um puxador e rod-lo. - Sorriu de modo trmulo. - Tu no tens puxador.
Podia pensar noutras coisas que ela podia agarrar que resolveriam o problema em pouco tempo. Aproximou-lhe o rosto do seu. Nunca tinha pensado em fazer amor com 
ningum que parecesse to assustado e tambm o assustasse quele ponto.
- Se queres mesmo fazer amor, Maggie, basta beijares-me - disse-lhe ele. - Comea por a.
Para sua vergonha, esperava que ela recuasse. Que desse algum tempo a si mesma. Que esperasse at estar com melhor disposio. Em vez disso, o olhar dela fixou-se-lhe 
na boca. Lambeu os lbios, depois premiu os cantos com a ponta rsea da lngua. Sentiu um n nas entranhas e o fogo subiu-lhe pelo corpo acima, fluido e rpido.
- Nunca fui eu - murmurou ela. - A comear, quero dizer.
Baixou a cabea, depois afastou-se e virou a cara na direco oposta.
Vrias falsas partidas depois, os seus lbios sedosos roaram, finalmente, nos dele, to levemente, to timidamente e to a medo que ele agarrou-lhe o cabelo, ansiando 
por a aproximar mais. Mas no. Tal como ela muito bem tinha dito, aquilo era uma porta para ela abrir, o monstro dela que precisava de ser derrotado. E tinha de 
a deixar faz-lo  sua maneira e ao seu ritmo.

Captulo Vinte
Maggie mal tinha comeado a beijar Rafe quando percebeu que ele se preparava para ficar ali deitado, deixando-a tratar de tudo. Por um instante, achou a ideia atraente. 
Era uma nova experincia, sentir-se no comando - ser a agressora e saber que nada aconteceria a menos que ela quisesse que acontecesse.
Mas essa sensao desvaneceu-se rapidamente. Lembrou-se de como se tinha sentido naquele dia no avio quando ele a beijara, da sensao de ansiedade, de excitao, 
de arrebatamento que se tinha apoderado dela.
Agora, no estava a experimentar a mesma sensao. Era nova naquilo e no tinha a certeza de como proceder. Sempre achara os lbios de Lonnie repugnantes e tentava 
afastar a cara, escondendo-os da vista, com os nervos a apertarem-lhe o corao, tocou com a ponta da lngua nos lbios de Rafe,  espera de que isso o inspirasse 
a tomar a iniciativa.
Mas ele continuava ali deitado, a retribuir-lhe o beijo - mais ou menos - mas sem lhe tocar e fazendo as suas extremidades nervosas cantar, como da outra vez. Ela 
queria aquilo, precisava daquilo. Assim, sentia-se desajeitada, para no falar nos nervos. Depois de o beijar, o que  que devia fazer a seguir? Tocar-lhe? Despi-lo? 
Se ele tencionasse continuar a segui-la, podiam ali ficar toda a noite com os lbios colados.
Completamente insatisfeita com os progressos que tinham feito at ali, afastou-se para ver o olhar dele. Os seus olhos brilhavam de forma estranha, sem o calor cintilante 
a que estava acostumada. Ele estava excitado, decidiu ela. Queria-a. Ento, porque  que no fazia alguma coisa?
- Disseste que a partir daqui era contigo - recordou ela, a tremer.
Os seus lbios acetinados contraram-se e as suas longas pestanas pretas baixaram, tapando-lhe momentaneamente os olhos. - Mudei de ideias.  melhor tu marcares 
o ritmo. No quero apressar-te.
- Talvez eu preferisse que me apressasses. Os olhos dele encheram-se de perguntas.
Ela encolheu os ombros, com o olhar atrado pela boca dele.
- Da ltima vez que me beijaste, mal conseguia pensar.
- Ah, sim? - Ele parecia surpreendido por ouvir aquilo. - Pensei que estavas assustada de morte.
Deu uma gargalhada nervosa. 
- E estava. - Prendeu o interior da bochecha com os dentes at a dor a obrigar a larg-lo. - Preciso que inicies isto - deixou escapar. - Eu... sinto-me inibida 
ao faz-lo.
Sem aviso, ele tirou-lhe o cotovelo em que estava a apoiar-se. No instante seguinte, viu-se deitada de costas com ele a agigantar-se por cima dela. 
- Inibida, hein? Bem, Maggie, no podemos ter isso. - O calor voltara-lhe aos olhos. Inclinou a cabea para lhe beijar a ponta do nariz. - Sinto-me como se tivesse 
estado a vida inteira  espera disto sussurrou ele com a voz tomada. -  difcil decidir que parte de ti quero provar primeiro.
- A minha boca? - sugeriu ela, com esperana.
Ele abanava lentamente a cabea e sorria. - Posso escolher?
Maggie comeou a sentir o corao a bater-lhe violentamente na garganta.
Contava que ele a beijasse e a fizesse sentir-se relaxada antes de comear a explorar-lhe o resto do corpo. 
- Acho que sim - concordou ela relutantemente.
- As tuas orelhas - sussurrou ele.
- As minhas qu?
Ele arqueou a sobrancelha preta e brilhante. 
- Tenho esta coisa com as tuas orelhas. No sei explicar. Andam h semanas a pr-me doido. J sonhei que estava a beij-las. Fantasiei acerca disso. Essas tuas orelhas 
j foram responsveis por eu ter tomado pelo menos uma dzia de duches gelados. - O olhar dele dirigiu-se lentamente para os cabelos dela. - Gosto de um pouco de 
conversa disparatada antes de provar realmente a entrada. H alguma possibilidade de te convencer a puxar o cabelo para trs?
- Queres ver a minha orelha? Ests a brincar, no ests?
- Estou a falar muito a srio. No tens restries tambm em relao a isto, pois no? - Como ela no ps logo o cabelo para trs, ele fingiu carregar o sobrolho. 
- Maggie - disse ele em tom baixo e de censura. - S estou a pedir para te beijar a orelha. Prometo que no te violo o canal auditivo.
Ela teve de se rir. Ao pr as coisas naquele p, f-la sentir-se parva.
- Por favor? - adulou-a. - Estou no limite da minha resistncia. Se no conseguir beijar uma dessas orelhas muito depressa, vou apanhar uma pneumonia por causa dos 
duches frios, juro por Deus.
Ela sorriu e levantou os braos para puxar o cabelo para trs. Era uma loucura, mas sentia-se tmida. Estupidez, mas que estupidez. Ele no estava a pedir-lhe que 
se despisse. S queria ver-lhe a orelha, que diabo! Quando baixou a mo, olhou para ele e viu-o a contemplar a parte lateral da sua cabea como um homem a morrer 
de fome que tivesse acabado de avistar uma mesa de banquete completamente cheia de iguarias.
- Isto , sem dvida nenhuma, a orelhinha mais bonita em que jamais pus os olhos. - Com um golpe de cintura, saiu de cima dela e sentou-se, encostando os largos 
ombros  parede. - Venha c, Senhora Kendrick - disse baixinho.
Maggie dirigiu-lhe um olhar desconfiado. Ele riu-se e agarrou-lhe o brao. - V. Vou s mordiscar essa orelha, no vou com-la.
Quando se ps de joelhos, ele largou-lhe o brao, esticou as pernas e deu uma palmadinha na coxa.
- Isto parecem preparativos de mais s para me beijares a orelha - resmungou ela, tentando injectar um tom seguro na voz, ainda que interiormente estivesse a tremer.
- S? - O peito dele ribombou com uma profunda e vibrante gargalhada. - Maggie, Maggie. Beijar a orelha  uma arte e eu sou mestre.
Ela acreditou.
Aps um bom bocado a enrolarem-se, a resmungarem e a acotovelarem-se, conseguiram finalmente instalar-se confortavelmente com ela escarranchada em cima das rijas 
coxas dele. Silncio. Olharam-se um ao outro.
- Posso fazer uma pergunta? - arriscou ela.
- Chuta.
- O que  que a minha orelha tem que achas to atraente?
- O que sei que vais sentir quando a beijar - disse ele com um sorriso malicioso.
Maggie no podia acus-lo de falta de honestidade. - O que  que vou sentir?
- Deixa-me beij-la e descobrirs por ti mesma. - Estendeu o brao para afastar um caracol do caminho. - Alguma vez fizeste isto?
Ainda mal lhe tinha tocado, j ela estava com dificuldade em pensar.
- No, nunca fiz.
- Bem, sinto-me obrigado a dizer-te que ests a participar numa experincia. - A sua boca quente e aveludada estava na tmpora dela. - Meu Deus, cheiras maravilhosamente.
- Cheiro? - perguntou ela, o corao a palpitar enquanto os lbios dele lhe tocavam os pontos sensveis ao longo da raiz dos cabelos.
- Absolutamente - respondeu ele num sussurro que lhe fez reagir todas as extremidades nervosas. - A sabonete e champ e outro cheiro que  exclusivamente teu.
Provavelmente, precisava de um duche.
- Oh, Maggie, fazes alguma ideia de como me pes?
Os lbios dele encontraram-lhe a orelha. Maggie ps-lhe as mos nos ombros, fosse para o agarrar, fosse para o afastar, no tinha a certeza.
Fez-se-lhe no abdmen um calor que provocava formigueiro e a respirao dele deslizava-lhe suavemente para dentro do canal auditivo. O formigueiro transformou-se 
em choques elctricos de um calor trrido quando ele meteu o lbulo da orelha na boca e o provocou ao de leve com a lngua.
Ela no conseguia mexer-se. A sensao era paralisante. Libertava-se dela uma respirao contida.
- Oh, Maggie... Maggie... Amo-te tanto.
A voz dele parecia irradiar por toda ela. Agarrou-se-lhe  camisa, de punhos fechados, virando a cabea para se pr mais a jeito da boca dele, to concentrada nas 
sensaes que ele lhe provocava que nunca mais se sentiu sequer nervosa.
Cus. Nunca ningum lhe tinha beijado uma orelha. Ao longo dos anos, olhara aquelas partes gmeas do corpo principalmente como coisas que precisavam de ser lavadas 
regularmente.
Agora, de repente, aquela orelha parecia fundamental para o seu ser, o sem-nmero de extremidades nervosas provocando-lhe um formigueiro que lhe percorria o corpo 
todo.
Esqueceu tudo. Lonnie. O medo do sexo. At o seu nome. A boca dele movia-se por baixo da orelha, os dentes a mordiscarem e a provocarem aquela zona, os lbios a 
roaram-lhe na pele como cetim quente e hmido. Oh, cus. Ele f-la querer. L em baixo, na barriga, comeou a sentir uma dor, uma dor latejante que se lhe transmitia 
 pele e aos seios, fazendo com que os dedos dos ps se encaracolassem dentro das meias folgadas que tinha caladas.
Tudo isto apenas por lhe beijar a orelha?
Piscou os olhos quando o sentiu percorrer-lhe levemente os braos com as mos, voltando depois para cima at lhe agarrar os ombros. Deixou cair a cabea para trs 
quando ele comeou a beijar-lhe a garganta. - Oh, Rafe...
Uma sbita sensao de tontura ps-lhe a cabea  roda, precisando de um momento para se dominar. Ele no fez qualquer tentativa para a refrear, apenas lhe permitiu 
que se afastasse e depois olhou para ela com os seus olhos fumados e quentes.
- Medo, Maggie?
Foi uma surpresa perceber que no estava com medo. Ainda com as mos apoiadas no peito dele, disse: 
- No, no mesmo.
- Vai a algum lado?
- No -  respondeu ela a tremer e sabendo que era isso mesmo que queria dizer.
Olhou para a boca dele, ansiando por que a beijasse. Como ele no fez nenhum movimento nesse sentido, ela aproximou-se hesitantemente at que os lbios ficaram a 
um escasso centmetro dos dele. O corao palpitava-lhe dentro do peito. O estmago apertava-se-lhe, dificultando a respirao.
Desta vez, quase no pensou em como beij-lo. Apenas comprimiu a boca contra a dele.
No querendo que este beijo acabasse como tinha acabado o anterior, Rafe ps-lhe a mo por trs da cabea, apercebendo-se quando a apertava contra si de que at 
o crnio dela lhe parecia pequeno. Inclinou a boca sobre a dela, assumindo o controlo. Quando lhe tocou pela primeira vez com a ponta da lngua nos lbios, ela firmou-se. 
Mas passado um momento, abriu a boca ligeiramente.
Era o encorajamento de que Rafe precisava. Doura. Parecia-lhe que esperara desde sempre para provar outra vez o sabor dos seus lbios e no ficou desapontado. Lembrando-se 
de uma velha cano, pensou: Beijos mais doces do que vinho. No era exagero. Ela era inebriante.
O desejo atingiu-o depressa e com toda a fora. Queria pr-lhe as mos na pele de cetim, percorrer lentamente cada curva e cada plano do seu corpo, chupar-lhe os 
seios. Maggie. Isto era mais do que desejo. Ardia com uma necessidade to feroz de a possuir que se sentiu incendiado.
Ela encostou-se a ele, com o seu corpo magro, macio e deliciosamente quente a tremer de desejo, esperava ele. Maggie. Meteu as mos por baixo da bainha do top dela 
e descobriu pele nua. Tocar-lhe era uma sensao to maravilhosa que se lhe deu um n nas entranhas.
Na sua mente, soaram campainhas de aviso. Tinha de ir devagar. Mas era to difcil, quando a desejara tanto durante tanto tempo. Nunca sonhara, nem por um minuto, 
que ela pudesse reagir assim, ou com tal abandono.
Abranda. No a apresses. Queria que a primeira vez deles fosse perfeita.
Ela j tinha tido demasiadas vezes experincias que no foram perfeitas.
Reprimiu a sua crescente paixo, com medo de perder o controlo e de a assustar. Como se sentisse a tenso dele, de repente ela afastou-se, os seus belos olhos ligeiramente 
desfocados e as pestanas a bater.
- O que ? - sussurrou com voz rouca.
Ps-lhe as mos na cintura, passando-lhe as pontas dos dedos pela pele com a leveza de uma pena; a nsia de fazer deslizar as palmas das mos para cima era to intensa 
que cerrou os dentes. Com uma respirao irregular, obrigou-se a descontrair-se. Honestidade. A sua regra. No havia mais segredos entre eles, dissera-lhe ele.
- Estou a morrer de medo - confessou.
Um desnorteamento incrdulo apoderou-se dos olhos dela. 
- Medo? De mim, queres tu dizer?
- Por ti - sussurrou ele. - Medo por ti. E por mim. Receio estragar isto. Fazer alguma coisa errada. - Tirou-lhe as mos da cintura para lhas pr a envolver o rosto, 
com os polegares, percorreu-lhe as faces, deleitando-se com a macieza sedosa, sabendo perfeitamente que ela era assim macia em toda a parte, seno ainda mais. - 
Amo-te tanto, Maggie. Quero tornar isto perfeito para ti e tenho medo de no conseguir. De estragar tudo e nunca mais voltares a querer-me. De... - Soltou outro 
trmulo suspiro e deu uma gargalhada de autodepreciao. - Estou to nervoso que no conseguia nem cuspir se gritasses fogo. Consegues acreditar?
Sentou-se com o rabo macio assente nas coxas dele, imediatamente acima dos joelhos. Mesmo nisso ele encontrou uma doce tortura. O calor dela. O modo sedutor como 
as suas curvas se moldavam  firmeza dele. Agarrando-lhe os pulsos com as mos, olhou para ele durante um longo momento, sem dizer nada. Depois, os olhos encheram-se-lhe 
de lgrimas e um sorriso trmulo tocou-lhe os lbios inchados.
- Pensei por um momento que tinhas decidido que no me querias.


- Oh, quero-te - garantiu ele. -  esse o problema. Quero-te muito,  assustador, e eu... - No queria alarm-la, mesmo com palavras. - Receio perder o controlo 
e... - Engoliu em seco. - No quero fazer nada que te recorde o Lonnie, sabes? - Tentou injectar uma nota de humor na voz trmula. - O velho monstro do armrio, 
a saltar-te para cima.
Maggie nunca o tinha amado tanto como naquela altura. Procurou os olhos dele e verificou que, realmente, ele estava com medo. Cheio de medo.
Estava a tremer ligeiramente, se era de nervos ou da tenso de estar a conter-se, ela no tinha a certeza. E, na realidade, no tinha importncia pois, de qualquer 
maneira, dizia-lhe como ele a amava. Pensou nas noites todas em que a tinha abraado, a dureza da sua necessidade comprimida rigidamente contra ela. Agora, quando 
podia finalmente t-la, ainda se continha? Maggie no tinha palavras para dizer o que isso significava para ela. De facto,  parte todas as coisas que ele pudesse 
ter dito ou feito para lhe tornar aquilo o mais fcil possvel, no fazer nada era o mais desarmante. Quase lhe partia o corao.
O velho monstro do armrio. Palavras dela, e percebia agora que tinha sido inadvertidamente cruel ao dizer-lhe que tinha um medo profundamente enraizado de que houvesse 
um pouco de Lonnie dentro dele. Agora, ele tinha medo de ser ele mesmo com receio de que ela estabelecesse comparaes. Mas este homem, no. Nunca. Era to doce 
e to querido, a prpria anttese de Lonnie Boyle em todos os aspectos. Est bem, Rafe era grande... e era decididamente forte, com um corpo cheio de tendes e msculos 
de ao. Incorporava tudo o que era masculino e tudo o que Lonnie a tinha ensinado a recear. Mas Rafe Kendrick era mais do que apenas isso, muito mais. Por mais duro 
que fosse exteriormente, l no fundo era um doce, o homem mais delicado e atencioso que alguma vez conhecera.
E amava-a. Para sempre. No era apenas uma atraco fsica, embora isso se entrelaasse inegavelmente com os sentimentos que nutria por ela. Mas amava-a para alm 
disso, mais profundamente do que isso, de um modo que transcendia o fsico e que preservaria mesmo que ela lhe negasse o fsico. Podia parar com aquilo imediatamente, 
dizer-lhe que no estava pronta e talvez nunca viesse a estar, que ele aceitaria. Via nos olhos dele. Mais, sentia no corao.
Saber disso proporcionava-lhe a mais incrvel das sensaes. Era loucura, ela sabia, mas sentia-se como um prisioneiro miraculosamente libertado das algemas e das 
grilhetas. Um peso enorme tirado de cima dos seus ombros. 
Uma sensao tremenda, estonteante de leveza. Nada a temer. Nada que a prendesse. Conhecer Rafe, am-lo... de algum modo, ele tinha-a libertado, mas, ao faz-lo, 
tambm a tinha ligado a ele.
Maggie no se permitia pensar nisso. Apenas tirou as mos dos pulsos largos dele e pegou na bainha da camisola interior. Quando ele viu o que ela se preparava para 
fazer, ficou tenso, os antebraos tornaram-se duros como rocha e as mos apertaram-lhe mais o rosto.
- Maggie - disse ele solenemente, num sussurro -, no te metas em cavalarias altas. Por favor, primeiro, certifica-te de que ests pronta. 
Com os braos dele no caminho, apenas conseguia puxar a camisola para cima. - Deixa-me tirar, Rafe. Por favor.
Ele olhou para baixo, viu-lhe os seios nus e disse:
- Jesus. No me ouviste? Estou a centmetros de distncia de... - Fechou os olhos, a laringe para cima e para baixo, os tendes ao longo da garganta distendidos. 
- Santo Deus.
Maggie contorceu-se para escapar ao abrao dele e tirou a camisola pela cabea. Quando a atirou para o lado e sentiu ar frio na pele, atingiu-a uma onda de embarao 
e imediatamente a seguir veio uma erupo de inseguranas. Que talvez ele lhe achasse defeitos. Que podia no ser o que ele esperava. Que uma vez que a visse, podia 
no a querer.
Prendeu a respirao,  espera da reaco dele e tudo o que ele fez foi continuar ali sentado com os olhos fechados e os ombros encostados  parede. As tmporas 
comearam a palpitar-lhe, por falta de respirao.
Esperou. Esperou. Finalmente, teve de inspirar oxignio.
- Rafe? - disse ela a tremer, com medo de que ele no tivesse gostado do que viu quando olhou para baixo. - No v-vais o-olhar para mim?
Um msculo fez uma ondulao ao longo do queixo dele. Num sussurro conciso e impaciente, perguntou:
- Queres que perca isso? Que diabo. Maggie. Eu no sou de pedra. Um simples olhar e num segundo ests de costas, estendida ao comprido.
- Desde que tu l estejas comigo...
Por um momento, no disse nada. Depois, abriu um pouco um dos olhos. - O qu?
Maggie riu-se, trmula. - Ests a torturar-me. Fazes o favor de olhar e de acabar com isto? Estou com um medo de morte de que no me queiras.
O olho abriu-se-lhe mais um tudo-nada. Olhou para baixo: - Jesus, Maria e Jos.
Maggie cruzou os braos sobre si mesma. - Estou como que flcida.
Abriu os dois olhos. - Ests como que o qu?
- Hummm... flcida. E tenho estrias. Odeias estrias?
Procurou o olhar dela como se no pudesse acreditar que ela estivesse a falar a srio. De repente, a sua expresso suavizou-se. 
- Ests preocupada por eu poder no... - Riu-se embora um pouco nervoso. - Querida, no me odeies, est bem? Mas j fiz o reconhecimento do terreno.
- J? Quando?
Sorriu ligeiramente. - No motel, quando estavas muito doente.
- Oh. - Maggie abraou-o com mais fora. - E?
- E o qu?
- Bem... gostaste do que viste?
A, riu-se a valer; uma saraivada de boas gargalhadas que lhe fizeram balanar os ombros. - Gostar? Se gostei do que vi? Estou aqui, no estou? Maggie, tu s lindssima. 
Deslumbrante. Perfeita. No vi nenhuma estria.
- Ento no viste com muita ateno. Deve ter sido uma espreitadela rpida e no deste pelas coisas ms.
Ele suspirou. - Coisas ms? - Baixou o olhar para os braos dela. - Chegou a altura de pensar. Deixa-me ver.
Maggie obrigou-se a baixar os braos. Foi o momento mais horrvel da sua vida, estar ali sentada com ele a olhar para ela. Em todos os pontos onde o olhar dele tocava, 
a pele ficava-lhe a arder. E porque  que ele no dizia alguma coisa? Ela imaginava que estivesse a pensar toda a espcie de coisas horrveis, que tinham a forma 
de bales que tivessem perdido ar, talvez. E que as estrias, brancas prateadas, eram feias. Oh, Deus. Se no gostasse dela, morria.
- Ento? - disse ela, apercebendo-se do tremor da sua prpria voz.
Voltou a olhar para ela, com uma cara to solene que ela viu logo que ia dizer uma coisa terrvel. 
- Esses - disse lentamente - so, sem dvida nenhuma, os mais belos, perfeitos, deslumbrantes coisos que vi em toda a minha vida.
No instante seguinte, ps-lhe um brao  volta da cintura e, antes que Maggie percebesse o que estava a acontecer, estava deitada de costas, com ele apoiado nos 
seus braos, em cima dela.
- Eu avisei-te - disse ele com a voz tomada. - No podes dizer que no. - Inclinou a cabea morena para a mordiscar por debaixo da orelha. - Oh, meu Deus, Maggie, 
perdoa-me. Eu sei que precisas que eu v devagar.
Nessa altura, Maggie queria era que ele avanasse, fosse a que velocidade fosse. 
- Acho que devia avisar-te. Tenho algumas estrias na barriga, tambm. E um par delas em cada anca. - Como ele continuava apenas a beijar-lhe o pescoo, acrescentou: 
- No so das piores. So pequenas linhas brancas, como as que tenho c em cima.
- Quer isso dizer que provavelmente nunca usars um biquni tipo fio dental em pblico?
Maggie no usaria um biquni tipo fio dental em parte nenhuma. S a ideia fazia-a encolher-se. 
- Oh, no. No conseguia.
- Est bem - resmungou, parecendo que o timbre profundo da sua voz ressoava por todo ele. - Mataria o primeiro homem que olhasse duas vezes para ti. Tu s minha, 
Maggie. - Espalhou-lhe beijos febris ao longo da garganta, chupando-lhe a pele como se quisesse tomar-lhe o gosto. - Minha - repetiu com veemncia.
Tu s minha. As palavras ecoaram-lhe na mente, invocando recordaes. Por um instante, tudo dentro dela foi rebobinado. Mas depois virou o olhar para o homem que 
as tinha dito. O moreno indistinto do seu perfil, o reflexo da luz da lanterna no cabelo preto-azeviche. Rafe. No era Lonnie. Rafe. Ela queria pertencer-lhe. Precisava 
de lhe pertencer. E o simples ouvi-lo dizer aquelas palavras enchia-a de alegria. Agora, era dele, no do Lonnie. Dele. E isso fazia-a sentir-se absolutamente segura.
- Sim, tua - murmurou ela.
Bem do fundo da garganta, saiu-lhe um murmrio. - Diz l outra vez.
- Tua - disse ela mais alto. - Tua, Rafe.
A boca dele fez um percurso abrasador pela clavcula dela, com os dentes a mordiscarem-lhe levemente a pele. No seu tom vibrante de necessidade, disse: - Se eu fizer 
alguma coisa que no queiras que eu faa, diz. Dou-te a minha palavra que tentarei tudo para parar.
Tentarei? Aquela palavra devia t-la alarmado mas, estranhamente, no alarmou. Ele tentaria. Nada de garantias. Nada de promessas. Ele queria tanto que ela sentia-o 
tremer. Mas se lhe pedisse que parasse, ele tentaria.
Passou-lhe as mos pelos ombros, desejando sentir a sua pele e o funcionamento dos seus msculos de ao, por baixo dela. 
- Rafe, podes despir a camisola?
Ele recuou, pegou na bainha da camisola interior e despiu-a pela cabea.
Estava ajoelhado por cima dela e quando atirou a camisola para o lado, Maggie viu-lhe o esplendor de bronze da parte superior do dorso - os ombros largos, bem almofadados, 
a barriga estriada, os peitorais e os bceps salientes. A pele da parte superior do corpo, mais frequentemente exposta ao sol, era da cor de um dos seus caramelos 
favoritos e olhar para ele fazia-a desejar provar o seu sabor tal como ele tinha feito com ela.
Ele passou a mo pelo cabelo para arrumar as ondas despenteadas e, quando voltou a olhar para ela, os olhos azul-metlicos cintilavam. 
- Queres que tire mais alguma coisa? - Piscou-lhe maliciosamente o olho. - Tem cuidado com o que pedes porque eu defendo a igualdade de oportunidades.
Maggie deu uma risadinha. Este homem era imprevisvel, torridamente apaixonado num segundo e provocador no segundo seguinte. 
- Quer isso dizer que tiras qualquer pea de vesturio que eu te pea que tires?
- Imediatamente.
Ela fingiu estar a pensar. 
- Isso no  equitativo. Tu no tens coisos.
Ele riu-se e passou uma mo pelo peito, despenteando a ligeira camada de plos pretos em que ela ansiava por meter os dedos. - Graas a Deus.
Caiu para a frente, aparando o prprio peso nas mos, o peito a um escasso centmetro do dela. Maggie deu um gritinho de espanto. Ele sorriu e inclinou a cabea. 
A sua boca sedosa colocou-se em cima da dela. Maggie gemeu, a respirao dela a entrar nele de jacto quando o peito dele roou ligeiramente no dela. A sensao expandiu-se 
a partir dos bicos dos seios como raios de luz e levou-lhe como que um fogo  barriga.
Os lbios dele moldaram-se delicadamente aos seus. Calor hmido.
Percorreu-lhe o lbio inferior com a lngua e depois prendeu a carne sensvel entre os dentes para a mordiscar e chupar. O fogo no seu interior tornou-se trrido. 
Agarrou-se-lhe aos ombros, vencida pelas sensaes.
De repente, ele tirou a boca da dela, pegou numa das mos e comeou a beijar-lhe as pontas dos dedos, o olhar fixo no dela. Quando ele meteu a ponta do seu dedo 
indicador na boca, ela teve a certeza de que nunca tinha sentido nada como aquela impresso quente, hmida, incrivelmente macia na carne. Ele percorreu a parte debaixo 
do dedo at  palma da mo com a lngua. Depois, foi para o pulso. Depois, at  curva do cotovelo. Cada contacto da sua boca tocava-lhe l dentro numa corda sensvel, 
dando vida e torturando extremidades nervosas que ela nem sequer sabia que existiam. Sentia-se como um delicado instrumento de cordas a ser tocado por um maestro.
Oh, sim. Tinha um formigueiro pelo corpo todo e queria experimentar a sensao da boca dele na sua pele noutros stios. Em toda a parte. Ele afastou-lhe o brao 
e comeou a mordiscar pelas costelas acima. Ela aspirou a prpria respirao e ficou com o estmago to cncavo que o sentiu colar-se  espinha. Como carcias de 
penas, fios do seu cabelo preto provocavam-na nos seios. Oh, Deus. Ela queria a boca dele ali, ansiava por sentir os lbios dele ali.
Em vez disso, ele foi-a mordiscando at ao espao sensvel por baixo da axila. Fazia ccegas e ela tentou fechar o brao para proteger aquele local. Ele agarrou-lhe 
no pulso e prendeu-lhe a mo  cama.
- Oh, no. No faas isso. Tenho sonhado com fazer isto. Em cada doce centmetro teu, Maggie. Finalmente, toda minha. No vou esquecer-me de um nico ponto.
De um nico ponto? Ela tentou rir-se, mas at respirar parecia ser superior s suas foras. Isto era... Oh, Deus. Ele abriu-lhe completamente o brao para ter melhor 
acesso. Debaixo do brao? Mesmo nas suas mais arrojadas fantasias - no que tivesse percorrido muitas vezes esse caminho - nunca tinha pensado nem por um momento 
que a sua axila fosse uma zona ergena.
- Faz... ccegas - disse, ofegante, contorcendo-se para fugir  deliciosa tortura.
Ele percorreu-lhe com a ponta da lngua o lado do seio, lambendo-o como se fosse um cone a derreter-se do seu gelado favorito. O mamilo endureceu e espetou-se desavergonhadamente, 
ansiando por que ele l chegasse. Quase l. Maggie estava perdida na necessidade que crescia dentro dela. Virou-se ligeiramente para lhe pr o bico palpitante mais 
perto da boca.
Em vez disso, ele foi beijar-lhe a parte debaixo do seio, constituindo o raspar do cabelo dele na sua pele esplndida um tormento requintado. Para cima. Calor hmido. 
Os dentes dele a mordiscarem e a provocarem. No limite da aurola cheia de pele de galinha, ele recuou e recomeou a beijar-lhe a parte debaixo do peito. Maggie 
soluava. 
No fundo da mente, ouvia o eco da voz de Lonnie. Pede-me. Diz por favor. Mendiga. Tinha sempre jurado que nunca mais o faria. Mas agora as splicas ali estavam no 
fundo da garganta, ansiosas por sair c para fora.
Comeou por engoli-las. Mas queria. E aquele era Rafe. No havia vergonha. Nada de errado. Nada de degradante. - Rafe, beija-me - sussurrou com uma voz irregular. 
- Por favor, beija-me a.
Numa zona distante da mente, Rafe apercebeu-se de que ela lhe tinha metido os dedos finos da mo que estava livre no cabelo e estava agarrada a ele para o resto 
da vida. Ela arqueou a espinha e deixou cair a cabea para trs, oferecendo-se-lhe de um modo que nenhum homem no estado normal podia recusar.
Quando lhe molhou o mamilo espetado com a lngua, ela deu um solavanco e gritou. Sentia cada batida do corao dela naquele bico inchado e erecto.
Meteu-o delicadamente na boca, a mente a girar com mltiplos tons de vermelho que o cegavam.
Maggie. Ela soluava, percorrida por um tremor to violento que at o corpo dele balanou. Dele. Ela era dele. A necessidade de a possuir crescia avassaladoramente 
dentro dele, sobrepondo-se a tudo o resto.
Atirou-se desesperadamente a ela. O gosto doce, estonteante dela incendiava-o. Agarrou o bico trgido entre os dentes e provocou-lhe a carne capturada com leves 
pancadinhas da lngua at ela estremecer e gemer, pedindo-lhe com gritos no articulados que lhe aliviasse a dor.
Ele, mais do que feliz, fez-lhe a vontade, pressionando bem com a lngua e depois chupando. Ela arqueava as costas e soluava. Quando lhe soltou a mo, agarrou-se-lhe 
prontamente ao cabelo. Era to doce e infinitamente preciosa... Ao mesmo tempo que a mantinha fora de si com as prestaes da lngua, puxou-lhe as calas para os 
joelhos e depois tirou-lhas, juntamente com as meias e tudo de uma vez s.
Percorreu-lhe a perna elegante com a mo, meteu-lhe os dedos entre as coxas e depois tirou a mo, de modo que a largura da palma lhe afastasse os joelhos. Ela estremeceu 
quando as pontas dos dedos dele lhe acariciaram a camada de apertados caracolinhos que ele procurava. Afastou os rebordos sedosos, metendo os dedos no calor escorregadio 
para lhe invadir a vagina aveludada da sua feminilidade. Entrando at ao fundo, depois saindo, a um ritmo lento.

Ela soluou outra vez e ergueu as ancas, batendo-lhe desajeitadamente contra a mo. Ele abandonou aquele seio para prestar alguma ateno ao outro. O mamilo deu-lhe 
doces boas-vindas, to inchado e ansioso, a pedir o puxo da sua boca. Satisfez o pedido, esperou um pouco e depois meteu-lhe os dedos na zona hmida, no vrtice 
das coxas. Acariciando-a ao de leve. O ndulo de carne vulnervel que estava debaixo das pontas dos seus dedos tornou-se instantaneamente trgido. Aumentou a presso 
e a velocidade das carcias. Mais depressa, mais fora. O seu corpo esbelto ficou repentinamente rgido. A respirao parou.
Depois, emitiu um pequeno grito, os msculos a tremerem e a sobressaltarem-se a cada passagem dos seus dedos. Ele exultava na investida quente e hmida.
Quando ela ficou sem energia, ele abafou-lhe os suaves soluos com a boca, beijando-a profundamente enquanto mexia desajeitadamente na fivela do cinto e nos jeans. 
O fecho clair encravou. Frustrado, deu-lhe um grande puxo. Quando as calas se abriram, subiu para cima dela e depois ajoelhou-se entre as suas pernas abertas.
Agarrado s suas ancas, penetrou-a lentamente. Os olhos dela rodopiavam abertos. Ela gemia, com o primeiro impulso dele, soluou outra vez, a respirao a ficar-lhe 
na garganta delgada.
Cus. Uma necessidade explosiva estava a causar-lhe incmodo no abdmen e a nsia de alvio era to acentuada que era quase insuportvel. Aguentou-se, determinado 
a no perder o controlo at a levar outra vez ao xtase.
Trrido. Depois, formou-se perante os seus olhos uma neblina vermelha, em turbilho. Maggie. No lhe via o rosto.
- Rafe! - gritou ela.
Sentiu o retesamento dela em convulso  sua volta. Era o que faltava para vencer o seu autocontrole. Deu um impulso final e deixou-se ir, o corpo aos solavancos, 
tenso, quando entrou em xtase com ela.
Depois, ficaram deitados, entrelaados, na cama como duas figuras de cera que se tivessem fundido e ficado juntas. Exaustos, saciados, to esgotados que at o pensamento 
coerente os abandonou. Rafe segurava Maggie encostada a ele, satisfeito como nunca. Ela estava aconchegada a ele como uma gata bem alimentada a quem tivessem feito 
festas para dormir, a face assente no seu ombro.
Cheio de sono e incoerentemente, ele tentou recordar tudo o que se tinha passado, pretendendo analisar e classificar o seu desempenho. No conseguiu coordenar as 
ideias. Quis tanto que fosse tudo perfeito para ela naquela primeira vez!
Incapaz de sucumbir ao cansao enquanto no se tivesse certificado de que tinha atingido o seu objectivo, pairava entre o estado consciente e a inconscincia. Imagens 
toldadas dela a passarem-lhe em espiral pela cabea. Um sorriso aflorou-lhe  boca quando se lembrou de como ela se tinha desfeito nos seus braos quando aquele 
primeiro orgasmo a fizera tremer.
Perfeito? O sorriso tornou-se mais largo. Provavelmente, no. Mas tinha ficado muito perto.
O seu ltimo pensamento quando mergulhou na escurido do sono foi: a prtica gera a perfeio. Estava mais do que disposto a repetir o seu desempenho at ficar perfeito.

Captulo Vinte e um
Maggie acordou com o crepitar do fogo no fogo de lenha, o som mudo das brasas a saltar enchendo-a de uma sensao de calor acolhedor. Piscou os olhos, viu o riscado 
da almofada debaixo da cara e despertou completamente, muito consciente do homem que a tinha nos braos, com o seu largo peito a constituir uma forte parede de msculo 
vibrante encostada s suas costas.
O corao bateu-lhe mais depressa quando percebeu que ele tinha uma das suas grandes mos calejadas sobre o seu seio nu. Nunca tinha acordado nua nos braos de um 
homem. Ao contrrio da noite anterior, em que s a luz tnue da lanterna iluminava o quarto, agora o brilho berrante de uma manh clara de neve espalhava-se por 
cima da cama.
Estava ali deitada a olhar para a parede, sem ter a certeza do que fazer.
Se se mexesse, acordava-o. E depois?
- Bom dia.
O timbre rouco da sua voz junto do ouvido dela espantou-a. Os seus dedos longos fecharam-se um pouco mais sobre o seio dela, com o polegar a massajar-lhe o mamilo 
de um modo que os msculos dela mexiam-se involuntariamente. Quando ele fez outro avano, o estmago revirou-se-lhe.
- Isto  como acordar com os braos cheios de paraso - sussurrou ele.
Ela respirou fundo, com uma sensao de vertigem. Depois, sentiu a boca dele a mordiscar-lhe o ombro nu. A sensao, juntamente com os seus toques provocantes no 
mamilo, eliminou-lhe da mente qualquer pensamento racional.
Magia. Tinha-lhe prometido magia e foi isso que lhe deu. Pura e doce magia que a fez sentir-se fora de si...
Ryan e outro homem chegaram ao abrigo cerca da uma e meia da tarde e Rafe saiu para os ajudar a encher os depsitos das motos de neve e verificar o leo. Ao observar 
tudo de dentro da cabana, por uma janela, Maggie s tinha olhos para o marido que trazia uma grande lata de gasolina do alpendre. Adorava o modo de caminhar dele, 
o seu passo longo e solto, os ombros largos a balanar a cada passo. Ao sol gelado de Inverno, parecia to rude e to deliciosamente masculino, com o casaco de cabedal, 
todo manchado, aberto a revelar a camisola interior vermelha desbotada que lhe cobria as protuberncias musculares do peito. Sem o seu Stetson, que deixara na vspera 
no carro, o cabelo cintilava como azeviche polido  luz brilhante do sol que atravessava em feixes os ramos de folha persistente cobertos de neve.
Ryan e o outro homem ofereceram-se para ir na mesma moto de neve, deixando a outra para Rafe e Maggie. Depois de apagar o fogo no fogo e de a ajudar a arrumar o 
quarto, Rafe levou-a para o exterior, agarrando-lhe um brao para que no escorregasse no gelo. O seu comportamento protector f-la sentir-se estimada.
- Alguma vez montaste um cavalo de neve? - perguntou Ryan. Maggie abanou a cabea, olhando com preocupao para a moto de neve. Tinha visto como Ryan e o outro homem 
conduziam aquilo - os corpos flectidos  procura de equilbrio enquanto traziam as mquinas aos ziguezagues atravs do arvoredo denso, saltando por cima dos sulcos 
profundos.
Nunca lhe largando o brao, Rafe passou uma perna por cima do assento e depois chegou-se  frente para arranjar espao para ela, atrs dele. - Sobe, querida - incitou 
ele, ajudando-a depois, quando ela se disps. - Agora... abraa-te  minha cintura.
O homem no tinha cintura. Tinha uma constituio em cunha. Maggie ps os braos  volta dele, apesar de tudo, mal conseguindo que as pontas dos dedos se tocassem. 
Ele olhou por cima do ombro, com os olhos a cintilar.
Em voz baixa, para s ela ouvir, disse: - Eu sei que no sou assim to largo. O que  que est a estorvar-te, fofinha?
Maggie corou. -  a parka.
- Conversa fiada. Mas eu resolvo essa discusso mais logo. - Piscou-lhe o olho quando embalou o motor fazendo um barulho ensurdecedor. - Ests pronta?


Maggie disse que sim com a cabea e, no segundo seguinte, estava agarrada a ele com toda a fora enquanto voavam por cima da neve gelada. Quando fizeram a primeira 
curva apertada, Rafe gritou:
- Inclina-te como eu! - Maggie inclinou-se e ficou sem estmago no auge da curva, subindo-lhe o corao  boca. O enftico "Segura-te bem!" dele era um aviso desnecessrio. 
Ela at tinha as coxas a apertar-lhe as ancas.
Ryan aproximou-se deles a grande velocidade com a sua moto de neve, virou o Stetson que trazia na cabea e, com o rosto moreno franzido num sorriso, gritou: - Comam 
o meu p! - passando-lhes  frente.
Maggie sentiu as costas de Rafe darem um solavanco por causa do riso.
Quase esperava que aceitasse o desafio, mas ele ficou para trs, mantendo a velocidade dentro de limites razoveis. Para sua surpresa, comeou a gostar da corrida. 
Era emocionante e quase ficou desapontada quando viu a estrada  sua frente. Ryan e o ajudante j tinham desmontado da sua mquina e estavam  espera que Rafe chegasse, 
a atitude deles revelando grande enfado.
Quando Rafe estacionou na berma da estrada perto do carro, Ryan gritou: 
- O que  isto? Nos ltimos dois anos, transformaste-te num palerma?
Rafe segurou Maggie para ela sair do assento e depois saiu atrs dela. - Trazia carga preciosa. Desafia-me para uma corrida quando eu vier sozinho que logo vs o 
que te acontece.
Ryan assobiou. - H-de ser verdade. Casamento! Faz um homem perder a graa toda.
Rafe ps um brao  volta dos ombros de Maggie. - Ciumento, maninho? 
Ryan fixou um olhar cintilante em Maggie. - Se estivesse, nunca confessaria. Bem, mana, o que  que achas de cavalos de neve?
- Foi divertido - disse Maggie, quase sem poder respirar. - Gostava de experimentar outra vez.
A Rafe, Ryan disse: - Queres continuar? Eu posso conduzir o Ford. 
Rafe sorriu. - Acho que a Maggie j teve emoes que chegassem nos ltimos dois dias. Vamos de carro. Vais ter connosco  casa principal?
Ryan olhou para o relgio. - Tenho coisas marcadas. Ao contrrio de alguns tipos mandries, no posso passar o dia a brincar. - Semicerrou um olho para o irmo. 
- Aquelas frias que me prometeste esto a soar-me cada vez melhor.
- Vai quando quiseres. Eu trato das coisas.
- Talvez faa isso. Uma ilha tropical quente caa-me bem agora. 
Rafe encaminhou Maggie para o Ford. - Vemo-nos mais tarde - disse ao irmo, por cima do ombro. - No trabalhes de mais. Eu tirei o resto do dia.
- Recm-casados - disse Ryan com uma nota provocante de averso na voz. - O mundo est a parar de modo gritante.
Eram quase quatro horas da tarde quando finalmente entraram no caminho para a casa principal. Enquanto Rafe conduzia pela longa e sinuosa estrada, Maggie olhava 
para a casa irregular de tijolo no cimo do monte, l longe. Pela primeira vez desde que se casara com Rafe, tinha razes para acreditar que, na realidade, talvez 
pudesse passar ali o resto da vida com ele.
Lembrou-se de como ficara intimidada da primeira vez que viu a casa.
Agora, parecia-lhe familiar e reconfortante - um paraso seguro a que podia chamar lar. Lar.
Se tudo corresse bem, Heidi tambm lhe chamaria lar, e seria ali que o filho ia crescer. Um dia brincaria naquele monte e correria  vontade pelos bosques circundantes, 
menino feliz e saudvel com todas as vantagens.
Se tudo corresse bem... Era essa a questo. No havia garantias na vida.
Oh, como ela desejaria que houvesse.
- Um tosto por eles.
Acordada dos seus sonhos, Maggie olhou para o marido. O seu cabelo negro, ainda hmido e batido pelo vento da viagem de moto de neve, assentava-lhe em ondas soltas 
sobre a testa. O seu olhar esfumado tinha agora um ar possessivo diferente e uma familiaridade ousada quando olhava para ela, resultado, tinha a certeza, da recente 
intimidade.
Com medo de que ele pudesse ach-la parva, Maggie quase disse uma mentira sem importncia acerca do que lhe ia na mente. Mas depois olhou-o profundamente nos olhos 
e no conseguiu mentir-lhe, pela vida dela.
- Estava a pensar que esta , realmente, a minha casa, agora confessou. - At ontem  noite, tinha sempre presente que podia ter que sair em breve.
Vislumbrou-lhe nos olhos um doloroso pesar antes de ele ter voltado a concentrar a ateno na estrada. - Nunca te teria pedido que te fosses embora. Espero que percebas 
isso agora.

Abraada  cintura dele, Maggie sorriu. - Sim, agora percebo.  que... No sei muito bem como explicar. Mas h uma parte de mim que quase tem medo de se sentir assim 
feliz. Oh, Rafe.  mgico, exactamente como prometeste. E sabes o que dizem da magia: pode desaparecer num rolo de fumo.
-  com o Lonnie que ests preocupada?
Depois de tudo o que ele tinha feito para a proteger e aos seus entes queridos, Maggie detestava confessar que ainda se sentia ameaada por Lonnie, mas a verdade 
 que sentia.
-  to difcil acreditar que ele est fora da minha vida para sempre, sabes? - Olhou por cima dele, bastante segura de que o corao e todos os seus receios estavam 
a brilhar-lhe nos olhos. - Oh, Rafe, amo-te tanto. E estar aqui tem-me feito to feliz. A maior parte do tempo, tento nem sequer pensar no Lonnie, mas por vezes, 
como agora, tenho esta sensao horrvel e assustadora e no consigo afast-la. Tenho tanto medo de que possa acontecer alguma coisa que deite tudo a perder. Achas 
isto uma parvoce?
- No, no  uma parvoce. Mas, querida, acho mesmo que o perigo j passou. E se acontecer alguma coisa, eu trato disso. Prometo-te. - ele nunca voltar a magoar-te. 
- Dirigindo-lhe um daqueles sorrisos que sempre lhe faziam acelerar o corao, levantou o p do acelerador e ps o carro a passo de caracol. - O cu no vai cair 
pelo simples facto de estares feliz, Maggie. E esta marca de magia, em especial, no vai desaparecer num rolo de fumo. Eu sou real. O meu amor por ti  real. Se 
no conseguires confiar em mais nada, confia nisso.
- Estou a tentar.
Sentindo-se quase zonza de felicidade quando se aproximavam de casa, Maggie reparou num veculo desconhecido que estava estacionado perto da porta lateral, onde 
normalmente ficava o carro. - Est c algum.
Quando o Ford deu a ltima curva, Rafe estudou o Cadillac azul-escuro, desportivo, estacionado junto  porta do trio. Depois, sorriu.
- Diabos me levem. Aposto dez dlares em como  a minha gente. O Ryan disse-me que eles compraram um Cadillac novo mesmo antes de partirem. S estava  espera deles 
para a semana. Acham que no conseguiam vir para o Dia de Aco de Graas.
Maggie sentiu um sobressalto no estmago. A gente dele? Desde o casamento com Rafe que temia o regresso deles ao Oregon. A menos que fossem, na verdade, pessoas 
raras, no era provvel que ficassem muito felizes por o filho se ter casado to repentinamente.
- Querida, pareces assustada de morte. A me e o pai no mordem. Maggie engoliu em seco e dirigiu-lhe um olhar suplicante.
- Posso entrar por outra porta? Estou num farrapo. Gostava de me refrescar um pouco antes de os conhecer.
- No sejas parva. Pareces lindamente. Se fugires para o quarto sem sequer dizeres ol, isso ferir os sentimentos deles. Desculpa-te depois das apresentaes e 
vai mudar-te. Tenho a certeza de que a Becca lhes disse que te perdeste ontem. No estaro  espera de que pareas um modelo. Tenho a certeza.
Maggie ps a mo no puxador da porta e cerrou o punho. - E se eles no gostarem de mim?
- Vo adorar-te. - Desligou o motor, tirou as chaves da ignio e inclinou-se para a beijar. - Querida, no faas isso. Descontrai-te e s tu mesma.
Com uma sensao de ir afundar-se, abriu a porta e desceu do veculo.
Rafe ps-se ao lado dela quando caminhavam para a casa, com um brao forte a rodear-lhe os ombros. Maggie tentou afastar-se dele quando entraram no trio, mas ele 
segurou-a com mais fora. - Apresentar sempre uma frente unida.
A cozinha estava cheia de actividade quando entraram pela porta de correr de vidro. O corao apertou-se-lhe com ansiedade, e Maggie sentiu um cheiro a peixe. Estava 
to nervosa que aquilo f-la sentir-se um pouco enjoada do estmago. Encostou-se mais a Rafe, subitamente contente com a fora e o calor do brao dele.
Do outro lado do compartimento, Becca e uma loira minscula vestida de calas largas cinzentas e camisola cor-de-vinho estavam a preparar o jantar. Em frente  lareira, 
estava sentado numa das cadeiras de baloio um homem de pele morena e cabelo cinzento-metlico. Vestido com o traje habitual de rancheiro, uma camisa azul de cambraia 
e jeans "Wrangler", parecia uma verso mais velha de Rafe. Com Jaimie na dobra do brao, estava a tentar ler o jornal da tarde apenas com uma mo, tarefa muito complicada 
pelos movimentos constantes do beb e pelo movimento rtmico da cadeira.
Maggie no conseguia parar de olhar para ele. A semelhana com a famlia era grande, no podia toma-lo por mais ningum a no ser o pai de Rafe.
Tinha o perfil cinzelado dos Kendrick e, mesmo com ele sentado, via aonde os filhos tinham ido buscar a altura e a constituio musculosa.


Como se sentisse o olhar dela em cima, olhou por cima do ombro. Maggie deu consigo a olhar para uns olhos cintilantes, azul-acinzentados, muito parecidos com os 
do marido.
- Bem, ento - disse ele, enquanto se punha em p - olha o que o gato nos trouxe! - Largou o jornal e abanou levemente Jaimie para lhe pegar melhor. Ento, numa 
voz explosiva que fez os nervos de Maggie darem um salto, berrou: Annie, os midos chegaram, finalmente!
Com uma alface nas mos magras, Ann Kendrick virou as costas ao lava-louas. Deu um grito de alegria quando viu o filho e os seus grandes olhos cinzentos ficaram 
brilhantes das lgrimas. - Rafael! - Atirou a alface para o lava-louas e atravessou a cozinha a correr. - Oh, Rafael!
Rafe afastou-se de Maggie no momento de apanhar a me nos braos. Riu-se e levantou-a no ar, dando uma volta circular com ela. Ann abraou-se ao pescoo dele, rindo-se 
e chorando ao mesmo tempo.
- Nunca fiquei to contente por ver ningum na minha vida! - disse-lhe.
- O sentimento  mtuo - garantiu-lhe Rafe quando a pousou. Que diabo, me, tive saudades tuas! No te esperava hoje. Pensava que o pai tinha um exame  tenso para 
fazer no princpio da prxima semana.
- Eles tiveram um cancelamento e f-lo mais cedo. No telefonmos porque ele queria fazer-te a surpresa para o Dia de Aco de Graas.
- E os resultados do exame?
- No h nada errado com ele que algum bom senso no cure. A dor no peito no  do corao.  indigesto por comer demasiados alimentos gordos. Ento, o que  que 
o teu pai fez? Celebrou o certificado de sade limpo comendo um bife frito com bolachas e molho de carne num restaurante com mau aspecto.
- E, no fim, um cigarro, aposto. - Rafe sorriu para o pai. - Embirrento como tudo. Porque  que o aturas?
- No sei. Acho que gosto dele. - Ann fez uma festa com as mos na cara do filho. - Oh, Rafael.  to bom ter-te de volta.
Rafe inclinou-se para lhe beijar a face. - Agora, estou para ficar, prometo.
Ann deu-lhe outro abrao. -  melhor que sim - disse ela, quando se afastou para o deixar cumprimentar o pai.

Rafe virou-se e trocou um olhar com o pai. O compartimento ficou repentinamente em silncio e durante aquilo que pareceu a Maggie um momento interminavelmente longo, 
os dois homens limitaram-se a olhar um para o outro. Depois, como que por deciso mtua, percorreram a distncia que os separava.
Ainda com Jaimie ao colo, Keefe retribuiu o abrao exuberante de Rafe apenas com um brao. Fungou, deu uma palmada nas costas do filho e disse:
- Cuidado com o meu neto. No queremos esmagar o mido.
Rafe afastou-se ligeiramente para olhar para o beb. - O que  que achas dele, pai? Achas que passa na inspeco?
Keefe sorriu. - A tua me jura por tudo que ele  praticamente to bem-parecido como eu, pelo que conto que seja um tipo s direitas.
Ann, que estava ligeiramente  parte a observar o marido e o filho, sorriu e intrometeu-se: 
- Realmente, eu disse que era mais bem-parecido do que tu.
- No digas coisas sem importncia. - Keefe entregou o beb a Rafe e depois virou-se para Maggie. Ainda junto  porta, sentiu-se empalidecer com aqueles olhos azuis 
cor de ardsia. Tal como Rafe, Keefe Kendrick parecia no perder nada quando a percorria lentamente com o olhar, com uma expresso sbria e impenetrvel, encaminhou-se 
para ela, parando a meio brao de distncia. Absolutamente da mesma altura e da mesma largura de peito que o filho, parecia agigantar-se para ela.
- E esta deve ser a Maggie. - Agarrou-lhe pelo ombro, afastou-a da parede e depois descreveu um crculo  volta dela. Maggie sentiu-se como uma gua na cerca de 
leiles. -  um pouco magricela, filho.
Maggie dirigiu um olhar horrorizado a Rafe. Ele contorceu a boca e deu-lhe uma piscadela tranquilizadora. Depois, disse ao pai:
 - Tenho andado a tentar engord-la. No entanto, independentemente do que lhe der para comer, parece que no consigo pr-lhe qualquer carne em cima dos ossos.
- Hummmm - foi a resposta de Keefe. - Eu tenho o mesmo problema com a tua me. - Completando o crculo que descreveu  volta de Maggie, Keefe parou  frente dela 
e ps-lhe a mo grande e forte por debaixo do queixo. Depois de lhe virar a cara para c e para l, acenou afirmativamente com a cabea. - Do lado positivo,  uma 
coisinha linda. Bonita, linhas perfeitas. Qualquer trapinho lhe ficar bem. O nico problema que consigo ver  que vais ter que afastar os outros  paulada.
- Eu trato disso. - Rafe fixou o olhar risonho em Maggie. - Qualquer outro homem que olhar duas vezes para ela  um homem morto.
- Como esto os dentes dela?
- Morde, por isso no consegui ver. No entanto, no tenho visto nenhuma cavidade quando rosna, pelo que espero que no me leve  falncia com contas do dentista.
Keefe assentiu com a cabea. - Acho que serve.
Ann Kendrick deu um estalo com a lngua. 
- Keefe, pra com isso. Ele est s a provocar-te, Maggie. No lhe ligues nem por um segundo.
Keefe riu-se e, antes que Maggie adivinhasse o que ele tencionava fazer, estreitou-a nos braos para lhe dar um delicado abrao e inclinou a cabea para lhe beijar 
a face.
- Bem-vinda  nossa famlia, Maggie.
Maggie procurou freneticamente uma resposta adequada, mas estava to surpreendida com a entrada de Keefe Kendrick que lhe deu uma branca total. Ele manteve um brao 
forte  volta dos seus ombros enquanto a encaminhava para a mulher.
- Bem, Annie, o que  que achas da nossa nova filha?
Ann aproximou-se e ps a cara de Maggie entre as suas mos de ossos delicados.
-  linda, Rafael - disse calorosamente. E a nica coisa que Maggie sabia era que a seguir estava a receber outro abrao afectuoso.
Quando se afastou, Ann disse: - Estou contente por ter outra vez mais uma mulher na famlia! Preciso de todo o apoio que puder arranjar, com estes maljeitosos. E 
o Jaimie! Passei a tarde toda a fazer-lhe festinhas.  adorvel! Que alegria ter outro neto para mimar.
- Tens que desculpar os meus pais, Maggie - disse Rafe com voz divertida. - Eles esquecem-se de que nem todas as famlias so to expansivas. Pode levar algum tempo, 
mas hs-de te habituar a eles.
Maggie sentiu lgrimas a queimarem-lhe o fundo dos olhos. Ser instantaneamente aceite daquela maneira... ser abraada e tratada por filha... Oh, Deus. Maggie estava 
horrorizada por pensar que estava quase a chorar.
O peso do brao do sogro  volta dos seus ombros fazia lembrar-lhe o pai.
Olhou para o rosto moreno de Keefe. Ele disparou-lhe um sorriso que era to parecido com o de Rafe que no pde deixar de retribuir com outro sorriso. Apertou-lhe 
afectuosamente o ombro.
- Vocs chegaram a casa mesmo a tempo do jantar - informou-os Ann.  Maggie, disse: - Depois da prova difcil por que passaste, tenho a certeza de que queres arranjar-te. 
- Olhou para o relgio da cozinha. - Tens cerca de trinta minutos. Podemos tomar conta do Jaimie enquanto vais tomar um duche.
Maggie sentia a necessidade premente de uma boa barrela. Olhou para o beb nos braos de Rafe. - Eu posso lev-lo comigo. Tenho a certeza de que queres ficar algum 
tempo sozinho com os teus pais.
- No sejas tonta - disse Ann com um sorriso. - Podemos estar juntos e tomar conta do beb. O Keefe e eu gostamos tanto dele que cada minuto  um prazer.
Maggie olhou insegura para Rafe. Ele fez um ligeiro, quase imperceptvel sinal com a cabea. - Bem, se tm a certeza disso. Realmente, queria refrescar-me.
- E se eu trouxesse o bero para dentro, querida? - perguntou Rafe quando ela comeava a abandonar a cozinha. - Assim, podemos ficar com o Jaimie aqui esta tarde 
enquanto conversamos.
At quele momento, Maggie tinha-se esquecido completamente do bero que estava na parte de trs do carro. Teve uma ideia. 
- Oh, meu Deus. Eles devem entregar aquilo tudo hoje antes das cinco, no ?
Rafe olhou para o relgio. - Diabos.  verdade.
- Aquilo tudo, o qu? - perguntou Keefe.
- Ontem, estive quase a comprar uma loja para bebs inteira - explicou Rafe. Olhou para Maggie, os olhos a danarem com malcia. Fiquei um pouco impaciente com a 
Maggie porque ela estava preocupada com os preos, pelo que assumi o comando e comprei praticamente um exemplar de cada coisa que l havia.
- Ests doente, filho? Quando uma mulher se preocupa com os preos, deix-la preocupar-se. - Keefe riu-se e dirigiu o olhar para Maggie. - Seja o que for que tens, 
querida, espero que a Ann contraia a mesma doena. - Para Rafe, acrescentou: - A tua me consegue gastar dinheiro mais depressa do que qualquer mulher que eu j 
tenha visto. E sabes a melhor? Depois, diz-me quanto  que me poupou. Nunca consegui acompanhar essa linha de raciocnio.
- Isso  porque s homem e pensas principalmente com a parte esquerda do crebro. - Ann encolheu os ombros. - Para mim, faz todo o sentido. Se comprar em saldos, 
poupo.
Maggie estava to entretida com os gracejos provocantes deles que quase se esqueceu da razo por que estava para sair da cozinha.
Meia hora mais tarde, quando regressou  cozinha depois de se refrescar, a zona anexa de estar e de comer estava cheia quase de parede a parede de moblia de beb 
acabada de entregar. A Heidi tinha chegado a casa, vinda da escola, e estava a examinar tudo como uma criana no meio de uma loja de brinquedos. Rafe e o pai estavam 
a abrir um carto para verem um bero desmontado.
- Porque  que no pagaste para eles virem montar? - perguntou Keefe. - Vamos passar a noite inteira a ver se percebemos como  essa maldita coisa.
- Oh, v l, pai. Onde  que estaria a graa?
Os dois homens tiraram as peas do bero da caixa, puseram-nas no cho e depois ficaram a olhar para elas como se fosse uma criao de outro planeta.
- L as instrues! - disse Ann, do lava-louas. - S desta vez Keefe.
Rafe resmungou. - No precisamos de instrues.  uma montagem bastante simples, me. Achas que somos totalmente imbecis? 
- J ouvi isso antes.
- Nada de palpites de quem no sabe a diferena entre uma chave Phillips e uma chave de parafusos normal - avisou Keefe.
- Eu sei o que  uma chave Phillips, do mesmo modo que sei o que  um cepo quando vejo um.
Sorrindo perante as provocaes deles, Maggie deu um grande abrao  Heidi e depois andou pelo meio daquela confuso  procura do filho.
Alimentado h pouco tempo, Jaimie estava a dormir em paz no seu novo bero. Algum tinha posto uma manta por cima da almofada revestida de plstico para ele se deitar 
em cima e estava quente, envolvido noutro cobertor. Maggie tocou com a mo na cabea morena do beb, lembrando-se da altura ainda no muito distante em que se sentia 
esmagada perante a perspectiva de o criar sozinha. Agora, tinha uma ama na dedicada Becca, um pai extremoso e avs para ajudarem a tomar conta dele.
- O jantar est pronto - chamou Ann. - Vocs podem amarrar essa coisa e perder os parafusos todos mais tarde.
- Ns no perdemos os parafusos - disse Rafe, zangado. Nenhum dos homens tirou os olhos do que estava a fazer. Tambm nenhum deles tinha ainda ido buscar as instrues. 
Keefe tinha na mo uma pea. - Oh, sim - disse ele, num tom cheio de confiana. - Isto  evidente.  uma brincadeira.
Dez minutos depois, os homens ainda no tinham respondido  chamada para a mesa e Ann atirou-se a eles, com as mos nas ancas:
- Isso no pode esperar, rapazes? - perguntou, mas sem obter resposta na medida em que os dois homens estavam com a cabea no que estavam a fazer.
Ann sentou-se na cadeira de baloio, a olhar, furiosa, para o filho e para o marido. - Tm vinte segundos. Temos uma menina de dez anos com fome e o jantar est 
a arrefecer. O seu olhar inflexvel acabou por convencer os Kendricks a deixar para mais tarde a montagem do bero.

Captulo vinte e dois
Eram dez e meia da noite quando os pais de Rafe foram para a sua vivenda do outro lado do lago e, mesmo assim, Ryan, que tambm tinha aparecido de visita, ficou 
para trs para ajudar Rafe a acabar de montar o bero.
Enquanto os homens trabalhavam, Maggie instalou Jaimie confortavelmente na cama, para passar a noite, viu de Heidi e depois decidiu tomar um banho quente. Antes 
s tinha tido tempo para tomar um duche rpido e depois da fuga para o bosque sentia a necessidade de uma boa barrela.
Tinha acabado de se recostar numa deliciosa banheira cheia de gua quente e de fechar os olhos quando ouviu abrir-se a porta da casa de banho.
Espantada, virou-se e viu Rafe a atravessar lentamente o cho de azulejos. Ele tinha-se lavado mais cedo e posto uma camisa branca, com o colarinho aberto a revelar 
um V do peito de bronze, mangas arregaadas at aos antebraos musculados.
Fez um leve sorriso perante o seu ar de surpresa e os olhos azuis adquiriram uma cintilao maliciosa quando espreitou por cima do rebordo da banheira  procura 
de uma toalha ou de outra coisa qualquer que pudesse utilizar para se tapar. Teve de acabar por se servir do seu toalhete, que ps por cima do peito. Infelizmente, 
cobria apenas os pontos principais, deixando o resto exposto.
Metendo uma mo entre as coxas para esconder as partes baixas, conseguiu emitir um som agudo: - Ol. Pensei que estavas a trabalhar no bero.
- Decidimos deixar o resto para amanh depois do jantar.
- Oh, esperava que demorasses um bocadinho.
- Estou a ver. Apanhei-te, no foi?
Maggie decidiu ignorar aquilo.
- Hummmm... queres alguma coisa? Posso sair num instante.
Ele sentou-se no degrau de azulejos que levava  banheira do jardim.
Maggie no achou que fosse um bom sinal quando ele puxou as mangas da camisa mais para cima. Engoliu em seco e dirigiu-lhe um olhar admirado que ele recebeu com 
um sorriso. 
- No pareces muito feliz por me ver - disse ele numa voz spera e baixa. - E sim, quero uma coisa.
Ela engoliu outra vez convulsivamente. - Ah, sim? O qu?
A sua boca firme fez um trejeito nos cantos. - Sabes muito bem o qu. - Pousou os olhos no toalhete, que parecia estar a encolher sob o seu olhar. Maggie ps a mo 
livre numa das pontas. Ele reagiu, inclinando-se ligeiramente para ver a protuberncia descoberta do seu outro seio.
Com os olhos a brilhar, meteu uma mo na gua, passeando as pontas dos dedos pela superfcie. Maggie no sabia se ele pretendia invocar imagens que ela tinha na 
mente; no entanto, era isso que ele queria. Ela no podia deixar de se lembrar de como ele lhe tinha acariciado a pele daquela maneira, e essa recordao fazia-lhe 
pele de galinha. Pior ainda, ela tinha uma m sensao de que, de repente, o toalhete tinha desenvolvido picos.
- Eu... - Os dedos dos ps encaracolaram-se-lhe quando o olhar dele assentou na mo que tinha entre as pernas. - Eu posso sair daqui num instante. Porque  que no 
sais da que j vou ter contigo?
- E perdia a minha oportunidade? - Abanou lentamente a cabea. - A minha me no criou nenhum tolo. Sabes que no h nada to agradvel como uma mulher bela que 
acabou de tomar banho, no sabes? A no ser uma mulher bela ainda dentro do banho. Pele limpa, rosada... com gotas de gua para bebericar. Todas as partes do corpo 
doces e apenas  espera de serem beijadas ou mordiscadas. Era preciso uma equipa de cavalos de tiro para me tirarem daqui.
- Oh - disse ela sem convico.
Ele riu-se, o som profundo e quente a enrolar-se  volta dela como um abrao. - Querida, no fiques nervosa.
Fcil de dizer. Maggie nunca tinha tomado banho  frente de um homem.
Sentia formigueiro na pele como se a gua estivesse electrificada.
- No estou propriamente nervosa. - Momentaneamente, esqueceu o toalhete e levantou a mo para fazer um gesto um pouco irreflectidamente. - De modo nenhum.  apenas... 
Ests a olhar para mim pasmado. - Voltou a agarrar o toalhete turco.
A face inclinada dele contraiu-se num lento sorriso. 
- Desculpa. No consigo evitar. s to bonita como o nascer do Sol e o pr do Sol, e tudo o que houver pelo meio.
Apanhou gua com a mo em concha e salpicou-lhe o peito com um gotejar lento que fazia ccegas. A ponta solta do toalhete ficou a flutuar.
Maggie procurou agarr-la com as duas mos, deixando as partes baixas desguarnecidas por um brevssimo momento. Era a oportunidade de que ele precisava. Antes que 
Maggie adivinhasse o que ele queria fazer, j tinha a mo em cima do seu tufo de caracis.
Sobressaltou-se e agarrou-lhe o pulso. - O que  que ests a fazer?
- A ajudar-te a manter tudo escondido - respondeu ele provocatoriamente. - Com trs mos para fazer o servio, ficas com as tuas duas para lutar com o toalhete. 
-Os seus longos dedos flectiram-se no local onde a agarrara.
Maggie reagiu com um puxo. 
- No tenho boas ideias?
Agarrou-lhe o pulso com mais fora, o estmago tomado por um turbilho de calor quando ele pressionava firmemente aquele ponto com a parte anterior da mo e depois 
aliviava a presso. Com a respirao presa, a garganta teve uma convulso para abafar um gemido. Ele torceu-se pela cintura, ps-lhe a mo por trs da cabea e ergueu-a 
ligeiramente, aplicando a boca  dela, a cabea de Maggie entrou em espiral. Agarrou-se com as mos molhadas ao peito da camisa dele, esquecendo-se completamente 
do toalhete.
Esquecendo-se completamente de tudo. Rafe. Num canto distante da mente, estava chocada consigo mesma. Mas interromper o contacto das suas bocas j era to impossvel 
como deixar de respirar.
Deu um grito de espanto quando, de repente, ele lhe pegou por baixo dos joelhos e a tirou da gua. Piscou os olhos, tentando orientar os sentidos entontecidos enquanto 
ele a levava da casa de banho bem iluminada para o quarto sombrio. Ao chegar  cama, pousou-a delicadamente em cima do colcho.
- Vou molhar a cama - protestou ela.
- Como eu gosto? - Tirou a camisa e abriu os jeans. No instante seguinte, ps-se em cima dela, com o pau duro a investir rpida e profundamente.
Maggie pensava que no conseguiria sentir nada mais intenso do que o que tinha experimentado naquela noite. Mas estava errada. Rafe. O nome dele era quase como um 
doce refro na sua mente e, mais uma vez, a ddiva que lhe fizera fora absolutamente mgica.
Muito mais tarde, Maggie acordou e encontrou Rafe inclinado sobre ela com o Jaimie nos braos. Tinha voltado a vestir os jeans, mas estava de tronco nu, a sua forma 
em cunha reluzindo como carvalho seco ao luar. - J est outra vez com fome?
Maggie comeou a sentar-se, recordando-se de que no tinha roupa, e estendendo-se para o lado da cama para apanhar a camisa que ele tinha tirado. Tapou os seios 
com os cobertores quando se endireitou e enfiou os braos nas mangas.
Dando palmadinhas no beb ansioso, Rafe disse: - Preocupada com que eu veja alguma coisa que ainda no tenha visto?
Encolheu os ombros e saltou da cama. - Talvez tudo isto para ti seja histria antiga, mas para mim no .
- Acredita em mim. Ver-te com essa camisa no  histria antiga. Ps o beb ao ombro e comeou a andar de um lado para o outro enquanto ela foi  casa de banho. 
Quando voltou, da a uns momentos, seguiu-a at  cama.
- Depressa, me. Ele est a preparar um grande berreiro. Estou a senti-lo chegar.
Maggie ajeitou uma almofada e sentou-se encostada  cabeceira. Depois de pegar no beb, olhou expectante para ele. Ele devolveu-lhe o olhar, com um sorriso. Em vez 
de se virar, como ela esperava, ps-se ao lado dela em cima do colcho. Jaimie esperneou e desatou num choro zangado.
-  melhor dares-lhe de comer. Ele est a ficar zangado. O temperamento dos Kendricks est a apoderar-se dele.
Maggie desabotoou a camisa, esperando manter-se tapada pelos bolsos da frente. S quando tentou pegar-lhe para o amamentar  que Jaimie virou as costas, fez corpo 
teso e comeou a berrar. Partiu-se-lhe o corao. O filho queria, obviamente, o bibero.
Ao ver a cara de Maggie, Rafe percebeu como ela estava a ficar preocupada.
- Ele quer o bibero - disse ela, desolada, tentando mais uma vez interessar o beb furioso. Jaimie fez uma careta horrvel e gritou ainda mais alto.
- Ele j no se lembra, querida. - Rafe ps a mo na parte lateral da cabea de Jaimie, obrigando-a a virar outra vez a cara para a me. Quando o beb provou o leite, 
abrandou o choro e percebeu do que se tratava, mamando ansiosamente. Maggie deu um gritinho de espanto.
- Ests a ver? - disse Rafe com uma gargalhada. - Que tal esse entusiasmo?
Maggie sorriu e tocou na bochecha do beb. Quando Rafe lhe ps o brao por cima dos ombros, encostou-se a ele. Olhando para ela e para o beb, sentiu o peito apertar-se, 
pois nunca tinha visto nada to belo como Maggie com o cabelo moreno do filho no peito. Passou, leve como uma pena, com as pontas dos dedos pelo cabelo sedoso do 
beb, pensando para consigo que amor era aquilo - os tempos calmos, a partilha. No tinha palavras para exprimir a sua gratido por Maggie ter posto de parte o seu 
pudor para lhe permitir ter aquela experincia com ela.
- Obrigado - sussurrou.
Virou para ele o seu olhar luminoso. Ao luar, parecia um anjo, o cabelo preto a cair-lhe  volta dos ombros como uma nuvem escura de caracis despenteados. - Porqu?
Deu-lhe um beijo na ponta do nariz. - Por me teres deixado ficar.
Suspirou e assentou a face no ombro dele. - Parece-me perfeitamente bem, no achas? Ns os trs aqui, juntos.
-  porque est perfeitamente bem.
Quando o beb tinha acabado de mamar e estava a dormir pacificamente no seu novo bero, Rafe fez amor com a mulher mais uma vez, desta vez devagar, e com infinito 
cuidado. Era o fim perfeito de uma noite perfeita.
De manh cedo, Maggie entrou no escritrio com Jaimie nos braos e encontrou Rafe ao telefone, a andar de um lado para o outro. Encostando a anca  secretria, embalava 
o beb enquanto ouvia o que o marido dizia ao telefone que, como imediatamente deduziu, dizia respeito  obteno da custdia de Heidi.
- Se  isso que  preciso,  isso - disse Rafe. - No quero que haja qualquer hiptese de o Boyle no-la tirar, o que poderia acontecer se ele convencesse a Helen 
a pr um processo. - Deu uma volta e parou quando viu Maggie. Aflorou-lhe aos lbios um sorriso fugaz. Depois, passou uma mo pelo cabelo. - Metade  cabea? - Riu-se 
sem vontade. - No me parece. Nunca mais de um quarto. D-lhe de mais agora e ele faz uma velhacaria. No se pode confiar num filho da me.
O corao de Maggie apertou-se. Rafe estava outra vez a oferecer dinheiro a Lonnie. Ela s tinha servido de escoadouro da conta bancria desde o dia em que a tinha 
conhecido.
- Diz-lhe que  essa a minha proposta, um quarto  cabea, mais um quarto quando ele conseguir que ela assine os papis e o resto quando tiver os documentos nas 
minhas mos.
 A Maggie pode ser irm dela e mais capaz de lhe proporcionar um ambiente estvel, mas mesmo assim estou essencialmente a tentar comprar uma criana, sabes? No 
 como se pudesse lev-lo a tribunal se ele voltasse atrs. - Rafe ouviu por um momento e depois dirigiu o olhar para o tecto, numa verdadeira imagem de frustrao. 
- Ento, temos que nos chegar  frente. No me admirava que as coisas fossem por esse caminho. - Fez um aceno afirmativo com a cabea. - Eu sei. Mas, por outro lado, 
o que  mais importante, a criana ou darmos mais dinheiro? No tem discusso, Jameson. Se  esse o jogo dele, eu jogo.
Rafe acabou a conversa com um pedido de desculpas por ter telefonado no Dia de Aco de Graas e depois despediu-se com um seco adeus. Deu uma pancada no boto da 
base do porttil e p-lo em cima da secretria, desviando o olhar para Maggie. A boca rasgou-se-lhe imediatamente num sorriso. - Est no papo - disse-lhe, piscando 
o olho. - O Jameson falou com o Lonnie a noite passada. Mediante um preo, ele entra nisto. O nico obstculo  a tua me. Ele tem que a convencer a assinar os papis.
- Ests a dar ainda mais dinheiro ao Lonnie, desta vez por causa da custdia da Heidi? - disse ela, incrdula. - Quando  que decidiste fazer isso?
- Pus as coisas em marcha com o Jameson logo a seguir a termos chegado a casa, ontem. Telefonei-lhe enquanto estavas no duche. Piscou-lhe o olho.
- Pensava dizer-te depois do jantar... uma prenda especial para assinalar o nosso primeiro Dia de Aco de Graas juntos.
- Nunca falaste nisso antes. O que  que te fez decidir, de repente...
- Tu - disse ele com a voz tomada. - Ao ouvir o que ele te fez. Pensava que aquele filho da me tinha limites, Maggie. Mas j no penso. No descansarei enquanto 
no souber que ele no pode tirar-nos a Heidi. - Encolheu os ombros. - O homem  louco e muito.
Deu-se um n na garganta de Maggie. - Eu s queria que consegussemos faz-lo sem que te custasse ainda mais dinheiro. 
Ele sorriu. - No me posso dar a esse luxo.
- Muito obrigada, Rafe.
- No me agradeas. Ela  tua irm. E recordo-te de que nas ltimas duas semanas poupaste a este rancho milhares de dlares com as tuas competncias contabilsticas. 
Quando a Heidi estiver na faculdade, j ters pago mais de duas vezes a educao dela. - Sorriu. - Eu acho que ela gosta de c estar. E tu?
- Oh, sim - disse Maggie convictamente. Apertou mais Jaimie contra si. - Mas a me pode recusar-se a assinar os papis. Ela  lenta e facilmente manipulada, mas 
ama-nos, a mim e  Heidi, verdadeiramente.
Aproximou-se para lhe beijar a face.
- Eu sei que sim, querida. Mas a minha aposta  no Lonnie. Ele sabe trabalh-la e eu estou a dar-lhe muita motivao. Ele arranjar maneira de convencer a tua me 
e de a fazer acreditar que est a fazer um favor a Heidi.
Oh, como Maggie desejava que ele tivesse razo!
- Quanto  que lhe ofereceste? - perguntou ela, quase temendo a resposta.
- Interessa? - Puxou o cobertor do beb para beijar o filho que estava a dormir. - No se pode atribuir um preo  felicidade de uma criana e, possivelmente,  
sua vida. Onde  que traamos a linha? Quando  que o preo  demasiado alto? - Abanou a cabea. - Quero que ela esteja em segurana em relao a ele e consegui-lo-ei 
mesmo que nos custe todo o dinheiro que temos e eu seja obrigado a pedir  minha famlia que me ajude.
Maggie sabia que ele estava a falar a srio e encheu-a de serena alegria saber que ele a amava quele ponto. Essencialmente, era ao que aquilo se resumia, ao amor 
que lhe tinha. Agradecia a Deus que a situao financeira dele fosse tal que provavelmente a despesa no o afectaria muito.
- Nunca sabers como fiquei feliz por ter a Heidi aqui onde posso olhar por ela pessoalmente e mant-la em segurana.  uma menina com muita sorte por te ter na 
vida dela.
- Eu  que tenho sorte. - Ps-lhe um brao  volta dos ombros. De facto, sinto-me o mais feliz dos homens vivos. E antes que te apercebas, j teremos a custdia 
permanente dela, garanto-te.
- Tenho toda a confiana - disse ela com total honestidade. - Alguma vez decidiste fazer alguma coisa que no tivesses conseguido fazer?
Dirigiu-lhe um olhar suspeitoso. - O que  que isso quer dizer? Que eu sou autoritrio?
Maggie riu-se. - Tu tens tendncia para tomar os assuntos entre mos, incluindo as pessoas. E s extremamente determinado e incansvel quando metes uma coisa na 
cabea. No estou a queixar-me.
Surgiu-lhe nos olhos uma cintilao maliciosa. -  uma coisa ptima. Agora que te tenho na mo, no te vou largar. s minha, coisa doce. Centmetro por centmetro.
- Olhou para o beb que estava a dormir e depois fixou outra vez o olhar em Maggie. - Esta manh tomamos o pequeno-almoo na cama.
- O qu? - disse ela com uma gargalhada. - J estamos levantados e vestidos.
- E depois? O que entra pode sair. 
- J tomei o meu pequeno-almoo.
- Mas no tomei eu e no so os ovos mexidos da Becca que me esto a apetecer. Pensa nisso como uma prenda especial do Dia de Aco de Graas para mim.
Inclinou-se e sussurrou sugestivamente aos ouvidos de Maggie, descrevendo o que queria com pormenores to precisos que o rosto dela ficou vermelho.
- Oh, no posso. As pessoas, realmente, no... isso  indecente!
- Glorioso - contraps ele.
- Escandaloso,  o que !
- Incrvel - insistiu ele. - Vais pensar que morremos e fomos para o cu.
Ficou com os joelhos um pouco fracos. - Fizemos amor trs vezes, a noite passada.
- E depois?
- Corres as cortinas?
Parou de lhe mordiscar a orelha e disse, numa voz troante: - De maneira nenhuma.
- Desculpa?
- Tenho que correr?
- Tens!
- Ests a meter-te em cavalarias altas, Maggie Kendrick, mas apanho-te de qualquer maneira.
Amar Rafe. Ser amada por ele. Sentia-se como se a sua vida tivesse sido tocada por magia, tal como ele tinha prometido, e se havia alturas em que tinha uma sensao 
de uma fatalidade pendente, receosa de, que a felicidade deles pudesse esfumar-se, guardava para ela essas ideias. Enquanto respirasse, Lonnie Boyle constituiria 
sempre uma possvel ameaa, mas significaria isso que ela tivesse que deixar que os pensamentos acerca dele arruinassem a sua felicidade?
No, absolutamente no. Determinada a no deixar que ele estragasse a sua nova vida, Maggie afastou-o firmemente da mente e concentrou-se em ser uma boa esposa. 
Nos dias seguintes, acostumou-se ao rancho e comeou verdadeiramente a sentir que aquela era a sua casa.
No era s Rafe que a enchia de um sentimento de pertena, mas tambm a famlia dele. Um dia depois de conhecer os pais, Maggie recebeu ordens de Keefe para lhe 
chamar pai e, sempre que se esquecia, ele corrigia-a. Se a ordem viesse de outra pessoa qualquer, Maggie talvez tivesse manifestado relutncia, mas Keefe Kendrick 
era to irresistvel como o filho mais velho. Quando ele entrava na casa, Maggie sentia-se muitas vezes como se a sua casa tivesse sido invadida por um grande e 
cativante urso-pardo e via-se invariavelmente presa nos seus braos musculosos num delicado abrao.
- Como  que est esta manh a minha menina? - perguntava ele. Maggie aprendeu rapidamente que uma resposta normal como "ptima" no era o que Keefe queria ouvir. 
Que tal ia o Jaimie? Aquele seu rapaz estava a trat-la bem? Que planos tinha para o dia? Tinha descansado bem de noite? J sabiam alguma coisa acerca de quando 
ficariam com a custdia da Heidi?
Bombardeava-a com perguntas para as quais exigia respostas completas e, para espanto de Maggie, ouvia com toda a ateno, fazendo-a sentir-se uma das pessoas mais 
importantes do mundo.
Embora menos esmagadora, Ann Kendrick no era menos afectuosa. Gostava do Jaimie como se realmente fosse seu neto, indo busc-lo ao bero no momento exacto em que 
chegava  casa, mimando-o e beijando-o enquanto se dirigia para a cadeira de baloio em frente da lareira. Para deleite de Maggie, Ann tambm se interessava activamente 
pela decorao do quarto de beb, passando horas a desfolhar catlogos de decorao e a dar opinies.
Uma manh, levantou os olhos de uma determinada pgina e disse:
- Porque  que no vais a correr  cidade buscar o papel de parede e a tinta? Eu tomo conta do Jaimie. Quando voltares, comeamos logo com o quarto.
- Acho que o Rafe tenciona mandar fazer isso.
Ann franziu o sobrolho. - Que graa  que isso tem?
Maggie concordava secretamente, mas sempre que abordava Rafe acerca de pintar o quarto e pr o papel de parede ela mesmo, ele vetava a ideia, dizendo que podia muito 
bem dar-se ao luxo de contratar profissionais para o fazerem. 
- Rafe no quer que seja eu a fazer isso tentou explicar Maggie. E no sei se posso critic-lo. J pintei, mas nunca pus papel de parede. Provavelmente, arranjaria 
uma confuso.

- Oh,  fcil. Sentada na cadeira de baloio com o Jaimie aninhado, Ann sorriu e ps a cabea para trs. Sou perita em pinturas e colocao de papel de parede. Pega 
no livro de cheques do Rafe e vai buscar aquilo de que precisamos. Eu tomo conta do Jaimie enquanto l vais.
Maggie foi buscar o livro de cheques. Cheia de coragem depois de ouvir Ann, preencheu um cheque e levou-o ao estbulo para pedir a Rafe que o assinasse. Quando finalmente 
o encontrou com o pai na arrecadao, porm, a bravata j tinha comeado a vacilar. 
- Hum, Rafe?
Sentado num fardo de palha em frente ao pai, levantou os olhos de um estribo que estava a consertar. - Ol, querida. - O olhar dele caiu em cima do cheque que tinha 
na mo. - O que  isso?
- Um cheque teu; eu, bem, passei-o para levantar quinhentos dlares. Assina-lo e emprestas-me as chaves do carro?
Ps de lado o estribo e levantou-se. - Para que  que precisas de quinhentos dlares?
- Tinta e papel de parede para o quarto do beb.
Ele estremeceu. - Desculpa, querida. Passou-me de ideia. Eu telefono esta tarde e chamo uma equipa para vir fazer isso, prometo.
Maggie imaginou o olhar que Ann lhe deitaria seno conseguisse fazer a sua vontade. 
- Na realidade, Rafe, quero ser eu mesma a fazer isso. A tua me diz que me ajuda.
- Oh, merda - murmurou Keefe em surdina.
- A me? Ela no sabe pintar. Fica com tinta no rabo, no cabelo e em tudo o que estiver  volta. Acredita que  melhor no a deixar  solta no quarto do beb com 
um rolo de pintar.
O corao de Maggie apertou-se. O seu instinto dizia-lhe que concordasse em vez de discutir com ele. Mas Ann estava  espera. - Ela diz que  perita em pinturas 
e em colocar papel de parede.
- Oh, diabo - disse Keefe.
Rafe coou ao lado do nariz e empurrou o Stetson para trs para olhar para ela com o sobrolho carregado. - No podes esperar uns dias? Eu mando vir uma equipa, prometo, 
e fica feito num abrir e fechar de olhos.
- Quero ser eu a fazer.
- Estou ocupado, Maggie. Realmente, agora, no tenho tempo para te ajudar.
- Eu no estou  espera que me ajudes.
- Ai, ai - resmungou Keefe.
Rafe suspirou, tirou uma caneta do bolso da camisa e pegou no cheque.
Assentou-o em cima de um barrote da parede nua e rabiscou rapidamente a sua assinatura. 
- Tenho que pr o teu nome na conta. Isto  uma maada e, de facto, no gosto da ideia de andares por a com uma quantidade de dinheiro. No  seguro. - Devolveu-lhe 
o cheque.
- A me vai contigo  cidade?
- Hum, no. Fica a tomar conta do beb.
- Ento quem  que te vai l levar?
- Conduzo eu.
- O qu?
Maggie engoliu em seco. - Eu tenho carta de conduo.
- Sim, mas no conheces a regio. Crystal  uma grande cidade.
- J l estive algumas vezes. Acho que consigo dar com os stios. - Maggie estendeu a mo a pedir as chaves. - Vai correr tudo bem. 
Rafe olhou para o pai. - Eu volto daqui a umas horas, pai.
- No! - disse ela bruscamente.
Ele virou-se para trs e olhou para ela surpreendido. - No custa nada, Maggie. Eu vou l contigo.
Maggie endireitou os ombros. - Custa, sim. Ests a tratar-me como uma criana e, ainda por cima, como uma criana que no fosse muito brilhante.
- No  nada disso - contestou ele. -  s porque nunca foste sozinha  cidade. Podias perder-te.
- Se me perder, telefono-te para o telemvel mas, francamente, no creio que me perca.
- De qualquer forma, tenho que tratar de coisas no banco, de modo a poderes passar cheques.
- Podes fazer isso noutra altura. Hoje quero ir sozinha. Mais cedo ou mais tarde teria que ser, no ? Porque no j?
Procurou as chaves do carro dentro do bolso dos jeans e entregou-lhas com relutncia. Depois, foi atrs dela at ao Ford, como um co bem treinado.
- Quanta gasolina tem?
Maggie ligou a ignio. - Trs quartos de depsito.

Meteu a cabea l dentro para ler as indicaes computorizadas. Sabes utilizar o telefone?
Maggie pegou nele e estudou os botes. - Parece simples.
- Alguma vez usaste um telefone celular?
- Tu percebeste da primeira vez que o usaste, no percebeste?
 Ele irritou-se e esfregou a sola da bota na gravilha cheia de neve.
- Ests a ser um bocadinho irritante. No  crime eu preocupar-me contigo.
- No, at  uma doura. Mas eu tenho vinte e quatro anos. Lembras-te?
- E cresceste numa cidade em que quando se entra j se est a sair.
- Prior no  assim to pequena.
-  quase.
Ele continuava no mesmo stio, a seguir o carro com os olhos, quando Maggie fez a primeira curva e lhe saiu da vista.
Pouco depois de Maggie e Ann terem aberto a primeira lata de tinta, nessa tarde, Rafe e Keefe apareceram por artes mgicas no quarto do beb. Rafe inclinou-se para 
ver a tinta.
-  dessa cor que gostas?
Ann sorriu e ps as mos nas ancas.
-  perfeita - disse, olhando para o amarelo-beb.
- Mandaste-os agit-la? - perguntou Rafe a Maggie quando atirou o chapu para o lado e comeou a arregaar as mangas.
Puxando as mangas para cima, Keefe disse:
-  melhor mex-la, para termos a certeza.
O que Maggie sabe  que logo a seguir os dois homens estavam a pintar o quarto do beb. Ann entrou, vinda da cozinha, uns minutos depois de terem comeado, ainda 
bem vestida e penteada, com uma caneca de caf acabado de fazer, a fumegar, entre as mos magras. Depois de ver os homens a trabalhar por um momento, sorriu para 
Maggie.
- Ests a ver? Eu disse-te que era perita e conseguia ter um quarto pintado num instante.
Perfeitamente consciente do peso do brao de Rafe em cima dos seus ombros, Maggie olhou pelo vidro da janela, observando os faris traseiros do Cadillac dos pais 
dele, que se reduziam a umas cabeas de alfinete vermelhas no crepsculo. Suspirou quando o carro desapareceu numa curva.


Sorriu ligeiramente quando se lembrou da expectativa excitada dos olhos de Heidi quando foi convidada para passar a noite com os "avs". Maggie suspeitava que Keefe 
e Ann tratariam de que a sua recm-adoptada neta passasse, na vivenda deles, o melhor tempo da sua vida.
- Cansada? - perguntou ele com voz rouca, as pontas dos dedos a brincarem distraidamente com um caracol dela.
- Pintar  um trabalho duro.
Riu-se e inclinou-se para lhe dar um beijo. - A minha me  impossvel, no ? Ela sabia desde o primeiro momento que ns acabvamos por fazer tudo.
Maggie sorriu. - Acho-a maravilhosa. Tomara...
- O qu?
Ela encolheu os ombros. - Estar perto dela faz-me saudades da minha me. No de como ela est agora, mas de como era, esperta e divertida. Conseguia sempre fazer 
rir o meu pai. Quando ele chegava a casa,  noite, provocavam-se sempre e brincavam um com o outro. E aproveitavam todas as oportunidades para se beijarem, quando 
pensavam que eu no estava a ver.  to triste j no a ter comigo, sabes?
Ele ficou calado, os lbios encostados ao cabelo dela.
- Lamento - sussurrou. - Imagino como deve ser difcil.  uma pena o que lhe aconteceu, Maggie, mas agora apenas podes am-la por ser quem .
- Achas que ela podia, um dia, vir c?
-  difcil dizer-te. Ela ama-te a ti e  Heidi. Acho que  uma possibilidade.
- Provavelmente, ela d contigo em doido.  volvel e distrada. E fica muito nervosa com as coisas mais estpidas. Por exemplo, se se esquece de escrever na lista 
da mercearia uma coisa que acabou l em casa. Havias de pensar que ia acabar o mundo.
- Provavelmente fica frustrada por no se lembrar das coisas.
- Suponho que sim.
- Ela no d comigo em doido - assegurou-lhe. - Mas tu pes-me doido.
- Eu?
- No consegui tirar os olhos de ti toda a tarde. Meu Deus, Maggie, no me farto de ti. O Jaimie est a dormir. Anda fazer amor comigo.



Ela dirigiu-lhe um olhar incrdulo.
 - O que  que a Becca vai pensar se desaparecermos? - Olhou para a rechonchuda governanta, que andava muito atarefada de um lado para o outro na cozinha, ao lado, 
a preparar o jantar. -- H-de perguntar a si mesma o que estamos a fazer.
- H-de perguntar mas no h-de saber. A casa  grande. Estaremos no quarto. - A sua respirao remexeu-lhe o cabelo, aquecendo o couro cabeludo e incendiando-lhe 
a imaginao. - Por favor, Maggie. Preciso de te abraar.
Encostou-se a ele, dando a resposta sem palavras. Quando ele se virou para a levar para o quarto, o telefone tocou. - Diabos. Provavelmente  para mim. - Inclinou-se 
para lhe mordiscar a orelha e o espao que fica por baixo, provocando-lhe arrepios na espinha. - No te distraias. J volto.
Dirigiu-se ao balco e pegou no telefone. - Residncia Kendrick.
Maggie voltou a olhar pela janela para a escurido que caa rapidamente, j sem pensar nos sogros mas em fazer amor. Rafe. Estava to feliz. Por vezes, queria beliscar-se 
para ter a certeza de que no estava a sonhar.
- Helen?  a senhora?
Ao ouvir o nome da me, Maggie veio a correr da janela. Quando chegou ao p de Rafe, conseguiu ouvir os sons abafados de uma voz de mulher.
- Helen, acalme-se. Comece do princpio. O que  que o Lonnie fez?
Ouviu por um momento e depois tapou o bocal com a mo. - Diz que o Lonnie a deixou. Est terrivelmente preocupada.
O estmago de Maggie teve um sobressalto, no por ver o fim de Lonnie Boyle mas porque, no estado em que a me tinha o corao, a me no devia preocupar-se.
- Escreve-me a o endereo dela e o nome do mdico - sussurrou Rafe com ar de urgncia. Depois, disse a Helen: - Tenho a certeza de que ele voltar, Helen. Acalme-se 
Quando  que ele se foi embora? Pausa. - Sim. E no disse porqu, na nota?
Maggie estava freneticamente  procura de uma caneta. Finalmente, encontrou uma dentro da agenda dos telefones. Rasgando um pedao de papel, rabiscou rapidamente 
o endereo da sua casa de infncia. Quando passou o pedao de papel a Rafe, ele tapou outra vez o bocal com a mo. - Pensava que o Lonnie estava a dormir. Dorme 
na tua cama desde que te vieste embora, diz ela, e pratica horrios estranhos, ficando toda a noite levantado e dormindo durante o dia. Entrou para lhe dizer que 
o jantar estava pronto e ele no estava l. Encontrou um bilhete em cima da almofada a dizer que ia deix-la.
Maggie ps a mo na garganta. - Oh, meu Deus, Rafe, o corao dela! Pode ir-se abaixo. No est l ningum que chame uma ambulncia.
Passou-lhe o telefone. - Mantm-na a falar. Faz os possveis por acalm-la. Eu vou apanhar outra linha, ligar para o mdico dela e arranjar uma ambulncia para l 
ir.
Maggie disse que sim com a cabea. - Me? Me, sou a Maggie. Oh, me, no chore. O Lonnie volta. Provavelmente, zangou-se com uma coisa qualquer sem importncia. 
- Maggie teve de se esforar para que as palavras seguintes sassem. - Sabe que ele a ama.
- Ele diz que no! - lamentava-se a me. - Oh, Maggie, no suporto isto. O que  que fazemos? Agora vou ficar sozinha.
A me parecia uma criana abandonada, aterrorizada. Maggie fechou os olhos, lamentando do fundo do corao que no estivessem mais perto uma da outra.
- No vais ficar sozinha, me. Sabes que no te deixo ficar a sozinha.
- Vens c? Preciso de ti, Maggie. Estou assustada. Est a ficar escuro. Sabes que no consigo dormir se ficar sozinha depois de escurecer.
Maggie no fazia ideia nenhuma do tempo que demorava a chegar a Prior. Os preparativos de Becca para o jantar tinham terminado e ela veio pr um brao rechonchudo 
 volta dos ombros de Maggie, oferecendo-lhe conforto sem palavras.
- Me, escute. Est a ouvir-me? O Rafe est neste momento a falar com o seu mdico e algum vai ter consigo. Eu no a deixo ficar a sozinha. Vai correr tudo bem. 
E eu vou ter consigo o mais depressa possvel.
- Oh, Maggie, como  que ele me deixou?
Maggie quase conseguia ver os olhos castanhos da me, esbugalhados de pavor e perdidos na confuso. 
- Tenho a certeza de que ele volta no tarda nada. No sei porque  que ele se foi embora, mas ele vai reconsiderar. - A garganta de Maggie rebelava-se enquanto 
ela pronunciava as mentiras. Lonnie nunca fizera nada que no fosse calculado. Indubitavelmente, tinha deixado a me porque o que l restava deixara de ser atraente. 
Uma mulher mais velha, mentalmente incapacitada? Agora que ele tinha muito dinheiro e j no tinha uma boneca novinha para o entreter, quis dar o fora.


Praticando horrios estranhos e dormindo na tua cama, dissera Rafe. O estmago de Maggie deu uma volta. Lonnie estava obcecado com ela e ela estava contente por 
ele se ter ido embora. Contente. S rezava para que a perturbao emocional no acabasse por matar a me. 
- Por favor, me, pare de chorar. O seu mdico est a chegar a e, enquanto no chegar, eu fico consigo ao telefone. Rafe e eu estamos muito longe de si, mas estaremos 
a o mais depressa possvel.
Maggie estava a ouvir a me a tagarelar e a soluar mas tambm estava a prestar ateno ao rudo de fundo que vinha pela linha telefnica.
Parecia que finalmente ouvia o som de uma sirene.
- Est aqui uma ambulncia! - gritou Helen.
- Est tudo bem, me. O Rafe telefonou ao seu mdico. Lembra-se de eu lhe ter dito? Tenho a certeza de que foi o mdico que mandou a ambulncia.
- Mas eu no estou doente.
- Eu sei. O mdico quer ter a certeza de que no fica doente. Provavelmente, os paramdicos vo dar-lhe uma injeco para ficar mais calma. No  bom? Passe para 
o porttil e continue a falar comigo enquanto lhes vai abrir a porta.
Maggie ficou  escuta. Da a um momento, ouviu vozes masculinas. O telefone fazia-lhe barulho ao ouvido, indicando que Helen tinha deixado cair o auscultador. Acreditando 
que a me podia ter desmaiado, as pernas de Maggie fraquejaram. Ficou to aliviada quando ouviu Helen em fundo, um segundo mais tarde, que quase chorou.
- Al? - disse uma voz masculina. - Com quem estou a falar?
- Com a filha, no Oregon. Faz parte da equipa da ambulncia?
O homem garantiu-lhe que sim e que a me estava muito enervada mas bem.
Rafe voltou  cozinha. Maggie dirigiu-lhe um olhar muito angustiado, pegou no telefone, falou rapidamente com o mdico e depois disse:
- Esto a dar-lhe uma injeco, Maggie. Os sinais vitais parecem bons.
- Por enquanto, tudo bem. - Esteve  escuta por um momento. Depois, desligou. - Agora, vo lev-la para o hospital. L podem observ-la e mant-la calma at ns 
chegarmos.
Rafe aproximou-se para a abraar. Sentir a fora e o calor dele acalmou-a e deu-lhe fora. Encostou-se a ele, fazendo-o suportar o seu peso.
 - Oh, Rafe, como  que ele pde fazer uma coisa to cruel?
- Pensa mais longe do que isso, querida. Ao ir-se embora, deixou-nos a porta aberta para a trazermos para aqui. Estar contigo, com a Heidi e com o Jaimie. E ter-me- 
a mim, ao meu pai e ao Ryan para a fazermos sentir-se segura. Por pior que isto seja agora, a longo prazo ficar muito melhor.
Maggie levantou os olhos para ele. - Quanto tempo demoramos a chegar l?
- Tenho que chamar o Ryan. Ele ter que organizar as coisas para se fazer um pr-voo com o Cessna. - Olhou para o relgio. Provavelmente, chegaremos l durante a 
noite e logo de manh estaremos no hospital a v-la.
Maggie encostou-se a ele e fechou os olhos. Abraou-a por um momento e, depois, sussurrou: 
- No te zangues comigo. Est bem? Mas no posso deixar de me preocupar com a possibilidade de algo estar podre no reino da Dinamarca. No faz sentido o Lonnie ter-se 
ido embora assim. Quando o advogado falou com ele, na noite anterior ao Dia de Aco de Graas, parecia ansioso por resolver as coisas de modo que pudssemos ficar 
com a custdia permanente da Heidi. Estava com objeces em relao ao dinheiro e a tentar aumentar o preo. Porque  que, de repente, decidiria desaparecer sem 
primeiro deitar a mo ao dinheiro?
- No sei - disse Maggie em surdina. - Oh, Rafe, estou to preocupada com a minha me.
- Eu sei que ests e no vais gostar do que vou sugerir.
 Maggie olhou para ele. 
- Achas que eu no devia ir, no achas? 
Ele suspirou. - Acho, realmente, acho. Estarias a entrar no estado de Idaho. Tenho um mau pressentimento, sabes? E se isto  um ardil do Lonnie para te atrair outra 
vez para l? Pode ter o terreno preparado para te mandar prender por rapto ou por outra coisa qualquer. Ou para se encontrar connosco no avio com aqueles danados 
daqueles papis de adopo e ficar com o Jaimie.
- Mas eu preciso de ir estar com a minha me.
Estreitou os braos para a confortar.
 - Deixa-me telefonar ao Mark a ver o que ele acha. Se no for seguro tu ires, Maggie, no . Eu posso tratar da tua me. J nos conhecemos e falmos muito ao telefone. 
No  como se eu fosse um completo estranho para ela. Se a sade dela permitir, amanh estaremos aqui. Acho que depende de o mdico ser de opinio de ela poder voar 
ou no. Se no, terei que alugar um carro para a trazer. De qualquer modo, correr tudo bem. Neste momento, est em boas mos. Sedaram-na. Ela ultrapassar isto.
Maggie rezava para que ele tivesse razo quando ligou para casa de Mark.
Escutou atentamente o que Rafe dizia ao discutir a situao com o amigo e advogado. Antes de Rafe se despedir, Maggie j sabia o resultado da chamada telefnica.
- Ele acha que no  sensato eu ir, no ?
- Acha. Aqui no Oregon tens uma medida de proteco. Burocracia interestadual. Tm que te extraditar para seres processada. Mas se regressares ao Idaho... - Encolheu 
os ombros. - Em princpio, o Lonnie reembolsou os pais adoptivos e eles desistiram de ficar com o Jaimie. Mas at vermos isso documentado, coisa de que o Mark est 
a tratar, poderias estar completamente exposta a acusaes criminais. O Lonnie no pode faz-los valer. Eu fui indicado na certido de nascimento dele como pai e 
somos casados. Mas podia ser uma confuso dos diabos at termos tudo esclarecido.
Maggie disse que sim com a cabea e ps-lhe os braos  volta da cintura.
-  s um dia. S terei que esperar que voltes. - Tentou sorrir. - A minha me j gosta de ti. Tenho a certeza de que fica bem logo que tenha um rapaz grande e forte 
a quem se encostar. Acho que  esse o principal atractivo que encontra no Lonnie, pois tem muitas saudades do meu pai.
- Isso  como aconchegar-se a uma cascavel. Maggie concordou.
- Tenho que chamar o Ryan - disse-lhe Rafe. - Ainda no renovei a minha licena de piloto, pelo que ele tem que ir l levar-me. Olhou para o telefone, franzindo 
o sobrolho, pensativamente. - Acho que vou telefonar  minha me e ao meu pai para virem ficar aqui contigo.
- Tenho a certeza de que no  preciso. Isso estraga a dormida da Heidi e eu fico ptima aqui com a Becca.
- No entanto, sinto-me melhor se o meu pai aqui estiver. No faz sentido correr riscos e h nisto qualquer coisa que no me parece bem. - Sorriu ligeiramente. - 
Se o Boyle aparece com o meu pai a guardar o forte, dir mal do dia em que nasceu. O meu pai pode ter sessenta anos, mas est numa forma dos diabos. Ele fazia o 
Lonnie em picado e palitaria os dentes com os ossos dele.
- Eu sentia-me melhor com ele aqui, sem dvida - intromete-se Becca. -  Antes prevenir do que remediar, digo eu sempre. Diz  Senhora Kendrick que eu arranjo jantar 
para todos aqui.
Rafe fez as duas chamadas, a primeira das quais para os pais e a segunda para o Ryan. Depois de desligar, disse: 
- Vou meter alguma roupa numa mochila. - Olhou para o relgio. - O Ryan j a vem buscar-me. Diz que o avio foi revisto depois do ltimo voo. Vai preencher um plano 
de voo, fazer uma inspeco ao avio, reabastec-lo e estar pronto para descolar. A mam e o pap esto a preparar as coisas para ficarem uns dias, no caso de eu 
demorar mais do que espero a regressar. Estaro aqui dentro de cerca de uma hora.
Maggie forou um sorriso. - Tenho a certeza de que a Becca e eu ficamos ptimas sozinhas por um bocadinho.
Rafe inclinou-se para a beijar. - Tambm tenho a certeza; seno, no saa enquanto eles no chegassem.

Captulo Vinte e trs
Ver Rafe afastar-se foi a coisa mais difcil por que Maggie jamais passou. Queria tanto ir com ele ao Idaho. A me precisava dela. Ficar era a coisa mais sensata 
a fazer, mas o corao dizia-lhe que deitasse as cautelas para trs das costas.
Imediatamente antes de sair, ele tinha-lhe dado um beijo na palma da mo e fechado a mo. Agora, Maggie mantinha a mo fechada sobre o stio onde os lbios dele 
tinham tocado, agarrando-se a isso enquanto via as luzes traseiras desaparecer da vista pela segunda vez em menos de uma hora.
- Os seus sogros estaro aqui no tarda nada - assegurou-lhe Becca. - E o Rafael volta amanh. No fique to deprimida. Maggie percebeu a preocupao que a voz da 
governante revelava e conseguiu rir-se para consigo.
- Eu sei. Estou a ser parva. Acho que a minha me est acrianada? Agora, vejo o Rafe partir por uma noite e ajo como ela.
- Bem, agora,  um pouco mais do que isso. Eu sei que est muito preocupada com a sua me, e bem pode estar. No entanto, o Rafael tem bom corao. Vai dar-lhe um 
abrao e vai p-la bem num instante.
- Sim. - Maggie lembrou-se de como ele a tinha abraado quando a conheceu. O seu vaqueiro da ral. Num abrir e fechar de olhos, tinha-se tornado seu dedicado protector, 
apanhando os cacos do seu mundo desfeito e reorganizando-os num sonho mgico. Suspirou. - Tens toda a razo, Becca, com o Rafe l para tratar das coisas, tudo correr 
bem.
- Preciso de ir mudar a roupa da cama do quarto de hspedes - disse Becca. - Pode tirar uns bifes do congelador e p-los no microondas a descongelar?
Maggie saiu da janela. Recusava-se a ser como a me, desesperada e a descontrolar-se s porque o seu homem a tinha deixado. Rafe tomava conta da famlia dela. Enquanto 
esperava pelo regresso dele, seria a esposa que ele merecia, mantendo a sua perspectiva e tomando conta das coisas, o que, por acaso, de momento, significava ajudar 
nos preparativos do jantar.
Quando marcou o conta-minutos no microondas, sorriu com tristeza, lembrando-se de que a refeio favorita de Rafe era bife com uma batata no forno. Era uma pena 
no estar l para comer.
- Grita e rebento-te os miolos!
Maggie ficou paralisada com o dedo em cima do boto de ligar. Lonnie.
Tinha uma coisa fria encostada  orelha. Percebeu que era uma arma e as pernas quase cederam. - Lonnie?
- Lonnie? - imitou-a ele, numa voz cantada. - Cabra infiel. Pensas que est tudo resolvido, aqui com o teu vaqueiro rico? Que eu me punha a andar se ele me oferecesse 
mais dinheiro? - Bateu-lhe com o carregador do revlver na cabea, deixando-lha a latejar. - Pensa l melhor. Tu s minha, coisa doce, e o teu vaqueiro  um estpido 
de um filho da me. E esse  que vai ser o nosso bilhete para sair daqui. Vamos para onde ele nunca conseguir encontrar-nos. Oh, gosto do som disto. Irmos embora 
sozinhos, s tu e eu e o fedelho. Se no fazes o que te digo, os miolos do mido ficam a decorar a parede.
Empurrou-a outra vez com a arma, desequilibrando-a ligeiramente. Mordeu com fora a parte interior da bochecha quando lutava para manter o equilbrio. Becca. Estava 
mesmo ao fundo do trio, no quarto de hspedes.
Talvez ouvisse a voz do Lonnie e telefonasse a pedir socorro.
- Vamos buscar o Jnior. Temos que sair daqui antes que o teu sogro chegue. - Riu-se demoniacamente. - No pensavas que eu soubesse disto, pois no?
Maggie percebeu que ele estivera dentro de casa, a ouvir tudo o que tinham dito. Durante quanto tempo? Mesmo antes de Rafe partir? Oh, meu Deus. Pensa. No podia 
sair dali com ele. Tinha que o empatar, que o prender. Uma vez que o pai de Rafe chegasse, tudo correria bem. Lonnie era um cobarde, segundo Rafe. Lembra-se de ele 
lho ter dito claramente.

Quando tem medo, vai-se embora, disse ele. No se mete com uma pessoa do tamanho dele ou maior. S com os mais fracos, ou com pessoas que no reajam ou no possam 
reagir. A cabea de Maggie dava a impresso de andar  roda. Quando tem medo, vai-se embora. Poder  o argumento supremo.
Agora, Maggie estava muito aterrorizada. Quando caminhava  frente de Lonnie pelo trio a caminho do quarto que partilhava com Rafe, sentia as pernas fracas. Jaimie. 
Oh, Deus. Os miolos dele a decorarem uma parede. A imagem que essas palavras lhe formaram na mente fez Maggie tremer. O seu beb. O seu doce e precioso beb. Chegaria 
Lonnie ao ponto de realmente o matar? Jaimie era a sua prpria carne e o seu prprio sangue.
Os braos de Maggie caram paralisados quando entrou no quarto e foi ao bero pegar no filho.
- Traz tudo de que precisas. No vamos voltar.
Maggie meteu rapidamente umas coisas no saco das fraldas que Rafe lhe tinha arranjado.
- Traz a carta de conduo. Vais ser minha motorista enquanto mantenho a pistola apontada ao Jnior. Um movimento errado e ele passa  histria.
Ainda tinha a carta de conduo no bolso dos jeans. 
- Tenho-a aqui - disse ela numa voz trmula. - Lonnie, porque  que ests a fazer isto? Eu amo o Rafe. Queres mesmo uma mulher que no te quer?
Ele riu-se, com um som que soava a insanidade.
 - Oh, vais querer-me. Hs-de pr-te de joelhos a pedir-me, rapariga. No vamos mais ter a tua me ao p de ns para termos que andar s escondidas, sabes? Ter-te-ei 
sempre que quiser. E tu tambm me querers. Percebes? Se no quiseres, mato-te o fedelho. Fez sinal com a arma na direco da porta. - Mexe-te. No penses que me 
consegues empatar at o teu sogro chegar para te salvar. Dou um tiro nesse filho da me e em qualquer outra pessoa que se nos atravessar no caminho.
Maggie lembrava-se de ter lido uma vez que at os manacos tinham limites. Como ela desejava que isso fosse verdade. Certamente Lonnie no era louco ao ponto de 
matar uma pessoa a sangue-frio.
Mas, oh Deus, no podia contar com isso. O saco das fraldas bateu-lhe na perna, lembrando-lhe passo por passo a noite em que tinha fugido daquele homem. Saiu do 
quarto e comeou a percorrer de novo o caminho para a cozinha, pelo trio. A meio do caminho, Becca apareceu vinda do quarto de hspedes, impedindo com a sua figura 
corpulenta que Maggie fosse mais longe.
- Pronto - disse ela, endireitando o avental. - Est tudo preparado.
Os olhos de Becca abriram-se quando viu Lonnie atrs de Maggie. No instante seguinte, Maggie viu a pistola no seu campo de viso: - Lonnie, no!
O estoiro da arma ensurdeceu Maggie. Becca agarrou-se ao peito, o olhar desorientado e descrente enquanto cambaleava para trs e ia de encontro  parede. Caiu com 
um baque no cho alcatifado, com uma mancha carmesim a alastrar-lhe pelo lado superior direito do peito. Sangue. Por toda a parte.
- Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Lonnie! Oh, meu Deus.
Maggie dirigiu-se a Becca. O padrasto puxou-a para trs pelo cabelo.
- Ele est a seguir - disse, empurrando a arma contra o beb que ela tinha nos braos. - Anda ou ele est morto.
Maggie passou a cambalear por cima do corpo de Becca, o horror a impedir qualquer pensamento racional. Aquilo no estava a acontecer. Era um pesadelo terrvel. Rafe 
no se tinha ido embora. Becca no estava morta.
Realmente, Lonnie no estava ali. Era simplesmente o seu pior medo a ganhar vida num sonho terrvel. A qualquer momento, acordaria e estaria segura nos braos fortes 
de Rafe.
Tudo parecia acontecer numa mancha indistinta. Atravessar a cozinha a correr. Sair para o trio. Vir para o exterior sem casaco e sentir a exploso da noite fria 
de Inverno a atravessar-lhe a roupa.
Lonnie tinha escondido um carro alugado no bosque. Tinha chegado ao rancho por uma estrada secundria - uma estrada rural que tinha sido aberta depois do incndio 
florestal quando Rafe e Ryan tentavam salvar o que pudessem da madeira ardida. Pareceu a Maggie que caminharam uma eternidade. Agora, nenhuma mo forte lhe segurava 
o cotovelo para a impedir de escorregar no gelo. Estava completamente sozinha com um monstro.
O brilho luminescente do painel de instrumentos banhava o cockpit, de um verde fantasmagrico. Rafe olhava em frente, incapaz de afastar a sensao de que no devia 
ter deixado Maggie. Por alguma razo, Rafe continuava a lembrar-se do pesadelo que tinha tido uma vez, de Lonnie na carrinha, a rir-se de modo manaco imediatamente 
antes de o veculo mergulhar do penhasco. A imagem gelou-lhe o sangue e rezou a Deus para que no tivesse sido alguma espcie de premonio.
- Um cntimo por eles - disse Ryan, quando ps o avio no piloto automtico.
- S estou preocupado com a Maggie e as crianas. Tenho uma m sensao de que no os devia ter deixado.
Ryan suspirou. - Por isso  que chamaste os pais. No foi? O pai j l est. Ele sabe tratar de qualquer coisa que acontea, Rafe. E sabes que mais?
- No. Mas tenho a certeza de que vais dizer-me.
- Pois vou. Acho que a Maggie tem muito mais garra do que pensava. No estou a dizer que alguma coisa v correr mal enquanto ests fora. - Ryan inclinou-se para 
a frente para ajustar os controlos. - Mas se acontecesse, acho que ela surpreenderia toda a gente com a maneira como lidaria com isso.
- Acredita em mim, ningum na terra acredita mais na garra da Maggie do que eu.  uma mulher de mente forte e o facto de estar preocupado com ela no significa que 
ache que lhe falte coragem. O que acontece  que ela j passou pelo suficiente, sabes? A minha tendncia natural  para a proteger de qualquer novo desgosto e seguramente 
no quero que tenha que voltar a enfrentar Boyle. Sentia-se to desesperada, sem sada. As recordaes disso afect-la-o para o resto da sua vida.
- Ela no estava indefesa. Podia ter-se ido embora para um abrigo.
- E abandonava a Heidi? Tem juzo.
- No estou a dizer que fez mal em ficar. Mas h uma diferena entre estar indefesa e decidir sacrificar-se para salvar outra pessoa.
-  verdade. - Rafe passou a mo pela cara. - Acho que no devo preocupar-me muito. Se acontecer alguma coisa, provavelmente ela trata de tudo sem mim. S tenho 
esse mau pressentimento, sabes? No se pode confiar no Boyle. A minha primeira ideia quando decidi vir buscar a Helen foi que talvez ele tivesse planeado assim as 
coisas. E se ele o fez, esperando -afastar-me de modo a poder apanhar a Maggie e os midos?
Ryan franziu o sobrolho. - Que diabo. Achas que ele  louco a esse ponto?
- Ele  completamente louco.
Ryan ficou em silncio por um longo momento. Depois, disse:
- Independentemente da volta que lhe deres, Rafe, algum tem que ir buscar a me da Maggie. Eu iria l em vez de ti, mas a mulher nem sequer me conhece.
- Eu sei. Obrigado, de qualquer maneira.
- A Maggie fica bem. Se acontecer alguma coisa, est l o pai, e do que ele no puder tratar, trata a me.
Rafe riu-se. - Nisso, tens razo. - No meio da escurido, olhou para o irmo. - Por falar em ao na espinha. Acho que ela est a tornar-se mais m a cada dia que 
passa. Juro-te, ela pica o pai para se divertir.
Na sinistra iluminao verde do cockpit, os dentes de Ryan pareciam fosforescentes quando ele sorria. -  um bocadinho atrevida, mas parece que o pai adora isso. 
Sabes o que ele me disse imediatamente antes de partirem da Florida? Que o sexo era to bom que tinha medo de morrer na cama. "Que diabo de maneira de ir", disse 
ele.
Rafe riu-se s gargalhadas. - Meu Deus, ele  mau. No devia contar aos filhos coisas dessas. Vai perverter-nos emocionalmente. De algum modo, no imaginas os teus 
pais... bem, tu sabes.
- Especialmente, a me.  uma espcie de... que diabo, sei l, sacrilgio, ou coisa parecida...
Um rudo esttico do rdio interrompeu-os. Ryan ligou o microfone para dar sinal de avanar. Um segundo depois, veio pelo ar a voz do pai.
- Rapazes,  preciso que voltem para c - disse ele. - Temos sarilhos.
O estmago de Rafe teve um sobressalto e deu-lhe a sensao de que tinha cado no cho do avio.
Maggie sentia as mos no volante como se estivessem congeladas. Tinha entrado na rampa de acesso  interestadual aproximadamente cinco minutos antes. Os faris do 
carro de aluguer iluminavam as linhas brancas divisrias, fazendo com que parecesse que vinham direitas a ela numa corrida estonteante. Tentava freneticamente pensar, 
mas o medo que se apoderara dela impedia que raciocinasse.
Lonnie estava sentado ao seu lado, no lugar do passageiro, com a arma apontada a Jaimie, que ia deitado atrs. Maldito. Conhecia-lhe o ponto fraco. Ameaando a vida 
do filho, tinha poder absoluto sobre ela.
Quando tem medo, vai-se embora. O medo estimula-o. A voz de Rafe continuava a ziguezaguear-lhe na cabea. O suor formava-lhe gotas no rosto. O Boyle  um fanfarro. 
Mete-se com os que so mais fracos. Para homens como ele, o poder  excitante. Do-se bem com isso e tendo o controlo.
Bem, tinha de ser estimulado j, pensou Maggie freneticamente. Ela estava assustadssima. Imagens de Becca, jazendo morta no trio, com o sangue esparrinhado na 
parede, atravessavam-lhe a mente. Fazer bluff! Oh, Deus, como ousaria ela? O homem era louco. Absolutamente louco. Se o contrariasse, ele matava o Jaimie.
Naquele momento, Maggie daria tudo para ter o filho em segurana, longe dali. Depois, no tinha nada a perder fazendo bluff com Lonnie. Aquele verme viscoso. Agarrava-se 
ao poder fosse como fosse, mesmo que para isso tivesse que utilizar um beb. No estaria to cheio de si se fossem s os dois. 
O resultado era que Maggie no tinha tanto medo de morrer como de estar viva sob o seu domnio. Se no fosse ele ter o Jaimie para utilizar como moeda de troca, 
arranjaria mais sarilhos a Lonnie do que ele aguentava.
A ideia fixou-se na mente de Maggie. Sem o Jaimie como moeda de troca. Um acesso de adrenalina atravessou-a. Lonnie era manaco, mas no era estpido. Continuava 
a ameaar matar Jaimie, mas se o fizesse, comprometeria a sua situao de poder.
O Boyle  um fanfarro. Quando tem medo, vai-se embora.
A voz de Rafe andava na cabea de Maggie. Ela lutava para se acalmar.
Pensa. Tinha de haver uma sada para aquilo. Precisava de arranjar ajuda antes que ele a levasse para algum local isolado. E, Deus a ajudasse, precisava de pensar 
nalguma maneira de afastar o filho dele com segurana.
Lembrou-se de ter lido algures acerca de uma mulher que tinha sido raptada e obrigada a conduzir o carro da fuga. Tinha mantido o sangue-frio e carregara discretamente 
no pedal do travo para fazer piscar as luzes traseiras, lanando um SOS. Maggie no conhecia o sinal, o que exclua essa hiptese. Mas se mantivesse a cabea fria, 
talvez conseguisse pensar noutra coisa qualquer.
Viu um sinal rodovirio azul: rea de descanso - 1 km. Logo  frente avistou s luzes  sua direita. Estavam vrios automveis de passageiros na zona de estacionamento, 
bem como trs camies. Subiu-lhe  garganta uma convulso de puro terror. Levantou o p do acelerador.
- Porque  que ests a abrandar?
Maggie engoliu em seco para tornar a voz firme. - Tenho que ir  casa de banho.
- Merda. Podes agachar-te na berma da estrada. No vamos parar junto de uma quantidade de gente.
Maggie riu-se sem vontade. - Meu Deus, Lonnie, s de todo. Queres que pare numa estrada movimentada? Esquece. Alm disso, tenho que ir. Percebes o que quero dizer? 
No vai ser coisa rpida.
- Acelera! - gritou ele. - No vamos parar, j disse. No me lixes, rapariga. Esse mido no significa nada para mim. Dou-lhe um tiro com a mesma facilidade com 
que olho para ele.



Maggie continuou a abrandar. -  melhor que esse mido suba na sua considerao, Senhor Boyle. Ele  o seu nico trunfo. - Dirigiu um olhar furioso ao padrasto. 
- V, Lonnie. D-lhe um tiro! Com ele morto, no tenho nada a perder. Nada. Ests a ouvir-me bem? Queres-me de joelhos, estpido? Bem, aqui vo as novidades. Mata 
o meu filho e podes dizer adeus a esse plano! Dou-te luta at ao meu ltimo alento e no minuto em que me virares as costas, s um homem morto. Percebeste?
Rafe chegou-se  frente no assento, com a voz do pai a ressoar-lhe dentro da cabea. Maggie e o beb desapareceram. A Becca foi alvejada a tiro. Acho que o filho 
da me estava escondido dentro de casa.
Olhando para Ryan, Rafe vociferou: - Despacha-te, que diabo! Esta  a velocidade mxima a que podes fazer isto voar?
Ryan suspirou. - Estou a dar a volta para aterrar, Rafe. Queres que venham apanhar os nossos bocados depois de um desastre? Calma, por amor de Deus. Nem tu nem ningum 
poder ajudar a Maggie nesse estado.
Rafe apoiou os cotovelos nos joelhos e ps a cara entre as mos.
- Oh, Jesus Cristo. Oh, Jesus Cristo. Nunca a devia ter deixado. Estava a cheirar-me. Porque  que no dei ouvidos ao meu instinto e no fiquei com ela? O filho 
da me. Meu Deus, Ryan, ele  um luntico. Deu um tiro  Becca! E tem a Maggie e o beb!
A voz de Ryan soou fina quando disse:
- Eles ho-de estar bem, Rafe. Eles ho-de estar bem. - Estendeu o brao para apertar os ombros de Rafe. - Hei, mano, controla-te!
- No posso perd-los - gritou Rafe, arrasado. - Desta vez, aponto uma pistola  cabea e puxo o gatilho, juro por Deus. No posso voltar a passar por isto. Oh, 
Jesus. Maggie. Prometi-lhe que ele nunca voltaria a pr-lhe a mo em cima. Prometi-lhe.
- Provavelmente, neste momento, esto em viagem. Ele no se meter com ela at chegarem ao destino. O pai chamou a polcia. Os estaduais lanam um alerta geral no 
tarda nada. Eles encontram-nos, Rafe. Tem um pouco de f, hein? J perdeste uma famlia. O raio no cai duas vezes no mesmo stio.
A magia pode desaparecer num rolo de fumo. Rafe lembrava-se de Maggie lhe ter dito isto. Rafe fez pouco da ideia. Jesus Cristo! Porque  que fazia sempre isso? Olhando 
para trs, sabia agora que Susan tinha sentido que no tinha muito tempo para viver quando lhe tinha feito aquele pedido, naquela noite junto ao lago. Promete-me, 
Rafe. Se me acontecer alguma coisa, promete-me que encontrars outra pessoa para amar. No quero que fiques sozinho. Ele tinha-se rido No a tinha levado a srio. 
Pouco tempo depois, estava morta. 
E agora Maggie, o seu doce anjo, o toque de magia da sua vida, a desaparecer num rolo de fumo. Ela sentira que a felicidade deles no podia durar e, em vez de dar 
ouvidos ao aviso, tinha-lhe dado palmadinhas na cabea e tinha-o ignorado. - Sabes o pior? - disse Rafe ao irmo.
- No, o que ?
- Quando estivemos juntos pela primeira vez, eu disse-lhe que homens como o Lonnie so estimulados pelo medo. Que ele era um fanfarro. E se ela me deu ouvidos?
- Bem,  verdade. Ele  um fanfarro.
- Sim, mas... - Rafe interrompeu-se e engoliu em seco. - Meu Deus, espero que ela no faa nenhuma estupidez. Quando lhe disse aquilo, pensei que estava livre dele. 
Nunca sonhei que pudesse voltar a estar perto dele sem mim para lhe enfiar os dentes pela garganta abaixo. E se ela comete alguma loucura, Ryan? Ser culpa minha.
- Ela no faz isso. A senhora no  estpida.
- Estpida, no. Mas com a vida de Jaimie em jogo, est desesperada.
Maggie parou o carro alugado num dos lugares de estacionamento da rea de descanso, engrenou o motor na posio de estacionamento e desligou-o.
Olhando para o fluxo constante de mulheres que entravam e saam da casa de banho das senhoras, rezou uma rpida orao. Depois, desviou o olhar para Lonnie. Por 
dentro, estava a tremer de terror, mas de algum modo conseguiu manter as mos firmes e enfrentar o olhar incrdulo dele sem vacilar. Ele ainda tinha a arma apontada 
a Jaimie.
- Liga o carro - disse ele com uma voz perigosamente sedosa. J. Ou juro por Deus que lhe espalho os miolos pelo banco.
- E perdes o teu nico trunfo, tudo por eu ter que ir  casa de banho? Brilhante ideia, Lonnie. - Atirou-lhe as chaves do carro para o colo. - S h uma entrada. 
Estas casas de banho nunca tm janela das traseiras. Aonde  que queres que v? Pelo esgoto abaixo? Se eu sair, vs-me. No h como fugir.
- Estou a avisar-te!
Maggie abriu a porta do seu lado. - Sim, estou a ouvir. E sabes que mais, Lonnie? Acho que ests a fazer bluff.
- Sai deste carro e logo vers!


- Sim, sim. O resultado  que, com o Jaimie fora disto, perdes a tua vantagem. - Sorriu para ele. S Deus sabia como conseguira faz-lo, mas, na realidade, estava 
a sorrir para ele. De algum stio no seu interior nasceu para a vida um ncleo duro impiedoso mas calculista. Um ncleo duro que lhe dava coragem suficiente para 
dar um ar de bravata.
- No h Heidi para me ameaares com ela, no h me, nem beb. S tu e eu. Essa ideia assusta-te, no ? Foi por isso que vieste buscar-me, porque sabias que estavas 
para perder a custdia da Heidi, que mesmo que lutasses contra ele, olho por olho e dente por dente, o Rafe tinha mais dinheiro, melhores advogados e a capacidade 
de resistir at obter o que queria.
A arma comeou a tremer. O corao de Maggie apertava-se, pois se puxasse acidentalmente o gatilho, na sua agitao, Jaimie podia pagar com a vida.
Engoliu em seco, determinada a continuar a falar. Tinha feito o contrrio durante sete anos interminveis, deixando aquele homem intimid-la. Esse caminho levara-a 
ao inferno e desta vez arrastaria o filho com ela.
Maggie no podia deixar que isso acontecesse. Tinha pouca esperana de escapar a Lonnie, mas havia uma possibilidade para Jaimie.
- Se no recuperasses a custdia da Heidi e no a tivesses de novo nas tuas garras, sabias que no terias maneira de me coagir a voltar para ti e esse  que era 
o teu plano, no era? Sacar o dinheiro ao Rafe e esperar a tua oportunidade. Depois, ameaavas-me com a vida da Heidi se eu no voltasse para casa.
Ele no disse nada.
-  isso. No , Lonnie? A tua obsesso doentia por mim. A tua ltima possibilidade de me agarrares acabaria se perdesses definitivamente a custdia da Heidi. Por 
isso, fingiste estar interessado na proposta do Rafe e depois abandonaste a minha me, sabendo que ela se descontrolaria. Ento, dirigiste-te ao Oregon para me apanhares, 
sabendo entretanto que o Rafe no teria outra opo que no fosse ir ao Idaho.
- Cala a boca.
- Sabias que o Rafe no me permitiria que pusesse os ps no estado do Idaho, no sabias? Que ele se sentiria na obrigao de ir buscar a minha me, mas que iria 
sem mim. Muito esperto, Lonnie. Estou impressionada. No estragues tudo ameaando matar o Jaimie. Ambos sabemos como isso seria estpido!
- Cala-te! - Apontou a arma  testa de Maggie. - Cala-te, minha cabra! Eu  que tenho a arma.
- Sim, e com todas estas testemunhas. - Fez um gesto apontando os carros que tinham  volta. - Calo-me com todo o gosto se deixares de ameaar matar o meu filho.
- Eu fao as ameaas que quiser.
Ela soltou um suspiro de saturao. - E  tudo, uma ameaa. Mata-o e perdes o teu poder sobre mim. Eu porto-me bem para o manter em segurana. No h dvidas. Ambos 
sabemos disso. Portanto, pra de lhe apontar a arma e de ameaar. A uma certa altura, torna-se repetitivo.
Maggie saiu do carro, fazendo preces febris e desarticuladas a Deus.
Bateu com a porta do lado do condutor e depois abriu a porta de trs para tirar Jaimie do banco. Graas a Deus a porta no estava trancada.
- O que  que ests a fazer? - gritou Lonnie.
Maggie pegou no saco das fraldas. - O que  que te parece que estou a fazer? Enquanto l estou, posso matar dois coelhos de uma cajadada e mud-lo. Ou queres perder 
ainda mais tempo voltando a parar daqui a uns quilmetros?
- No o levas l para dentro contigo. Pensas que sou estpido? Abriu a sua porta e saltou do carro. Enquanto corria para o lado de Maggie, meteu a arma no bolso 
do casaco mas manteve-a apontada a ela. - Pe-no l outra vez. J.
- No sejas parvo - disse Maggie, comeando a andar. - Achas que consigo atravessar paredes de cimento? Se ests to preocupado, pe-te do lado de fora a guardar 
a porta. Eu vou  casa de banho e mudar a fralda do meu filho.
A cada passo que dava, Maggie encolhia-se, quase  espera de receber uma bala nas costas. No aconteceu nada.
- Eu estou a olhar para a porta - disse ele baixinho. - No penses que no estou. Tenta fazer alguma habilidade e abro fogo. Juro por Deus. E estarei do lado de 
fora. No haver tempo para pedir socorro. F-lo e mato toda a gente que l estiver. - Ela ouviu um som estridente. - Ests a ouvir isto? So balas. Tenho muitas 
nos bolsos.
Obrigado, meu Deus. Obrigado. Maggie quase chorava de alvio. Ele ia deix-la entrar. 
- No sou estpida, Lonnie - respondeu. - E sabes que mais? No tenho batom para escrever uma mensagem no espelho! Ests seguro. Fica a fora. Mantm um ouvido  
escuta e os olhos  espreita. Demoro s uns minutos.


Rafe no esperou que a pickup de Ryan parasse para saltar do veculo. As suas botas de montar escorregaram na neve da berma do caminho quando correu para a casa. 
Carros da polcia por toda a parte. As luzes relampejavam, lanando uma mancha rotativa de azul sobre a casa e os anexos.
Encontrou o pai e a me sentados no banco junto da fonte do trio, abraados  Heidi, que estava entre eles. Os ombros de Ann Kendrick estavam arqueados em torno 
da criana. Keefe tinha um brao  volta da mulher e da menina, e estava com uma expresso triste. A pele estava acinzentada e os olhos pareciam assombrados quando 
encontrou o olhar de Rafe.
- Acabaram de levar a Becca na ambulncia.
Rafe tentava coordenar as ideias. Para sua vergonha, gostando to profundamente da governanta, s conseguia concentrar-se no medo por Maggie e Jaimie. - Como est 
a Becca, pai? Sobrevive?
-  uma ferida no ombro, portanto, h esperana. No entanto,  grave, filho.
Rafe fechou os olhos por um momento, o corao a apertar-se-lhe perante o som da me a chorar baixinho e dos soluos roucos de Heidi. Agachou-se  frente da criana 
e ps-lhe uma mo em cima da cabea.
- Hei, querida. Como est a minha menina?
Heidi ps os braos  volta do pescoo de Rafe. - Ele levou a Maggie e o Jaimie! - disse a chorar.
- Eu sei, querida. - Oh, meu Deus. Era o mximo que Rafe conseguia fazer para no se ir abaixo e comear ele prprio a soluar. - Vai correr tudo bem, Heidi. S 
temos que rezar realmente muito e ter pensamentos positivos. Deus olhar por eles e tr-los- para casa em segurana. - Passando a mo pelos cabelos da menina, Rafe 
encontrou o olhar do pai. - Leva-a daqui, pai. Leva-a para a tua casa e... - completando a mensagem com os olhos, Rafe tirou os braos de Heidi do pescoo, limpou-lhe 
as lgrimas e devolveu-a ao abrao da me. - Vais com a me e o pai, Heidi. Est bem? Eu fico em contacto contigo pelo telefone e dir-te-ei no minuto exacto em que 
a Maggie voltar.
A menina disse que sim com a cabea e depois virou-se para se agarrar outra vez a Ann. Rafe endireitou-se, deu um abrao de despedida ao pai e depois atravessou 
o trio em direco  porta de correr de vidro. Quando entrou na cozinha, observou tudo. Dois agentes da polcia estavam a conversar no corredor que levava ao resto 
da casa. Rafe dirigiu-se a eles, com o olhar fixo como um man nas manchas de sangue na parede por trs deles.
- Oh, Jesus - sussurrou Ryan.
At aquele momento, Rafe no tinha percebido que o irmo j estava ao p dele. Aproximaram-se os dois dos polcias. Rafe ouviu o agente mais jovem dizer algo acerca 
dos Vaqueiros de Dallas. Depois, viu Rafe e Ryan e interrompeu-se a meio de uma frase.
- Sou o sargento Hall - disse o agente mais velho. Apontando para o companheiro com o polegar, acrescentou: - Este  o agente Townsend.
Presumo que seja o Senhor Kendrick mais novo?
- Sim - disse Rafe. - Sou Rafe Kendrick. Esta  a minha residncia. Foi a minha mulher e o beb que foram raptados. O que  que j foi feito para os encontrar? H 
alguma coisa sobre o paradeiro deles?
Em vez de responder  sua pergunta, os dois agentes comearam a exprimir as suas condolncias.
Rafe levantou uma mo. 
- Eu sei que os senhores lamentam. Est bem? Mas agora o que quero  saber o que esto a fazer para encontrar a minha mulher e o beb.
O sargento Hall, um homem de cabelo grisalho, tipo av, barrigudo, acenou afirmativamente com a cabea manifestando compreenso. 
- Lanmos imediatamente um pedido de localizao para obter a marca e a matrcula do carro de Boyle. Depois, lanmos um alarme geral, esperando que outro agente 
pudesse avistar o carro.
Rafe podia dizer, pela expresso dos olhos azuis do homem, que as notcias no eram boas. - E?
O sargento suspirou. - Localizmos o veculo quase imediatamente. A polcia do Idaho encontrou-o abandonado no limite de Prior h dez minutos. - Limpou a garganta. 
- Ns... achamos que Boyle alugou um carro antes de sair da cidade e que o deve ter feito sob um nome falso, usando identidade falsa.
- No conseguem que o empregado que estava de servio faa um reconhecimento fotogrfico?
- Claro - garantiu o polcia a Rafe -, mas primeiro temos que arranjar uma foto. A polcia local foi a casa dele. No estava l ningum. Neste momento, a polcia 
do estado do Idaho est a proceder a uma busca por computador da fotografia da sua carta de conduo. Logo que a obtenham, tero alguma coisa para mostrar ao empregado 
da agncia de aluguer de automveis. Estas coisas levam tempo.
- No temos tempo - disse Rafe. - Lonnie Boyle  um luntico. Tem a minha mulher e o beb! Pode mat-los.
- Estamos a fazer tudo o que  humanamente possvel, Senhor Kendrick. Eu sei que  difcil ter pacincia, mas tudo isto leva tempo. No temos andado a pisar ovos.
Rafe passou uma mo pelos olhos. Sentiu a mo de Ryan a agarrar-lhe o brao.
- Desculpem. Eu... sem uma descrio do carro alugado, como, diabo,  que vai encontr-los?
- Rafe - disse Ryan baixinho. - Hei, mano. Que tal um caf? Hein? Deixemos estes homens fazerem o trabalho deles.
- No quero caf nenhum - vociferou Rafe, libertando o brao da mo do irmo. - Quero  que eles encontrem a minha mulher! Estes estpidos esto aqui parados a olhar 
para ontem e a discutir os resultados do futebol!
O agente mais novo corou at  raiz dos seus cabelos louros.
- Faz tudo parte do trabalho, no ? - Rafe dirigiu-lhe um olhar contundente e virou-se de repente para voltar  cozinha. Ao entrar no compartimento, apoiou a parte 
anterior das mos no balco e deixou cair a cabea. Quando fechou os olhos, s conseguiu ver o rosto doce de Maggie. Sentindo Ryan a seu lado, sussurrou:
- Nem sequer sei em que direco ele foi, Ryan. Ela est a algures, assustada de morte, a rezar para que eu os descubra a tempo. E no sei o-onde p-procurar.
Soltou-se um soluo de Rafe, que sacudiu os ombros. Comeou-lhe a tremer o corpo e por mais que fizesse para o controlar, no conseguia fazer parar o tremor. Sentiu 
o brao de Ryan  sua volta.
- Rafe, meu Deus, no faas isso. No te podes descontrolar. 
Rafe respirou fundo vrias vezes, estremecendo. - Eu sei. Tenho que me manter calmo. Mas interiormente estou a descontrolar-me. Ela e o Jaimie podem acabar mortos. 
Mortos, Ryan!
- Mas no acabam. Vai acabar tudo bem. Tenho a certeza, Rafe. Deus no os teria trazido at ti e permitido que comeasses a am-los para depois tos arrancar bruscamente. 
Tens que acreditar nisso. Tem f.
A f de Rafe tinha sofrido um srio revs pouco mais de dois anos antes, numa tempestuosa noite de Outono. 
- Estou a tentar, Ryan. Mas estou com um medo de morte.
A casa de banho das senhoras estava vazia quando Maggie entrou. Que pouca sorte. S podia rezar para que entrasse rapidamente outro grupo de mulheres. Atirou o saco 
das fraldas para o cho e abriu a gua, falando alto com Jaimie e tentando fazer todos os sons que faria se quisesse realmente mudar-lhe a fralda. Por favor, meu 
Deus. Por favor. Faz entrar algum.
- Hei, rapago - conseguiu dizer numa voz relativamente firme - Quem  o amorzinho da mam?
Puxou uma toalha de papel. Fechou a gua. Bateu com a parte anterior da mo na lata do lixo. Andando de um lado para o outro. Virando-se. Falando com o filho.
Sentiu-se inundada de alvio quando a porta se abriu de repente e entraram trs mulheres, uma com ar de me de famlia e cabelo grisalho e as outras duas, mais jovens. 
Maggie abordou-as, continuando sempre num monlogo disparatado com o filho, como se estivesse a mudar-lhe a fralda.
- Oh, sim, s uma doura querida. O homenzinho da mam, e olha para a confuso que fizeste!
As mulheres pararam e olharam para Maggie como se ela fosse maluca.
Transformando a voz num sussurro de aflio, disse:
- Preciso da vossa ajuda. Est l fora um homem. Raptou-me a mim e ao beb. Tem uma arma.Com medo de que Lonnie notasse a falta de barulho, Maggie abriu uma porta 
e fez a descarga do autoclismo, deixando depois a porta bater.
Aproximando-se da pia, remexeu na gua.
- Oh, meu Deus! - disse ela num arrulho. - Vou ter que te mudar todo, Jaimie! Virando-se de novo para as mulheres, que estavam a olhar para ela com expresses de 
espanto, Maggie baixou uma vez mais a voz para um nvel que mal se ouvia. - Por favor, ele vai matar o beb. Peo-lhes. Uma de vs leve-o. Podem escond-lo debaixo 
de um casaco e sair em grupo. - Lgrimas enchiam os olhos de Maggie quando procurou o olhar de cada uma das mulheres. Tirou algumas toalhas de papel, amachucou-as 
para fazer barulho e depois atirou-as para o cesto dos papis. - Por favor! - sussurrou. - Levem-no, metam-se no vosso carro e vo-se embora. Vo  esquadra de polcia 
mais prxima. Por favor.
A mulher mais velha despiu a parka azul e abriu os braos para receber o beb. As pernas de Maggie quase se dobraram. Evitou um soluo quando entregou a criana 
a uma pessoa que lhe era totalmente estranha. Sabia que estava a correr um risco. Mas, assim, as possibilidades de Jaimie eram mais do que se o levasse de volta 
para o carro.
- Obrigado.
A mulher mais velha acenou afirmativamente com a cabea enquanto aconchegava a si o beb. Ps a parka por cima do brao para esconder Jaimie. - Como  que se chama, 
querida? - sussurrou. Depois, nunca tirando os olhos de Maggie, disse em voz alta. - Eia, minha senhora! Tem papel desse lado? O rolo daqui est vazio.
Uma das mulheres mais novas saiu, perante aquela pergunta, do seu aparente transe e abriu uma porta para fazer outra descarga. - Sim, espere um minuto. J lhe passo 
algum aqui por baixo! - respondeu.
Com o barulho, Jaimie comeou a agitar-se. A mulher que o tinha ao colo comeou a embal-lo. Maggie olhou para o filho, rezando a deus e a todos os anjos para que 
ele no comeasse a chorar quando a mulher sasse da casa de banho.
- O meu nome  Maggie Kendrick - sussurrou ela.
- Eia, senhora - disse a mulher mais jovem, que estava  porta da casa de banho, em voz alta. - Quer o papel ou no?
A mulher mais velha disse: - Oh, obrigada. No vi. Desculpe.
- No faz mal - disse a mulher mais jovem.
A terceira mulher aproximou-se para mexer nas torneiras de gua e nos toalheiros, com o olhar horrorizado fixo em Maggie. - Era de pensar que mantivessem estes lugares 
cheios de papel. Para onde  que vo, afinal, os dlares dos nossos impostos?
- Como  que se chama o homem? - sussurrou a mulher mais velha.
- Lonnie Boyle.
- Marca e modelo do carro?
Maggie passou uma mo pelo cabelo, tentando desesperadamente lembrar-se.
-  um Honda vermelho, acho eu. Um sedan de quatro portas. Modelo recente, provavelmente de 98. - Fechou os olhos e engoliu em seco. - Oh, s um menino muito bonito! 
- disse em voz alta.
- Lindo menino - comentou uma das mulheres mais jovens.
- Obrigada, tambm acho - respondeu Maggie.
- Empate-o - disse a mulher de cabelo grisalho a Maggie. - Tenho telemvel, vou chamar a polcia. Em poucos minutos esto aqui.
Dirigiu-se para a porta com Jaimie. As outras duas mulheres flanquearam-na, saindo uma ligeiramente  frente e parando depois para proteger Jaimie da vista com o 
corpo. Maggie acompanhou-as com o olhar, o corao a bater-lhe na garganta. A qualquer momento esperava ouvir Lonnie gritar.
A porta fechou-se. Ficou ali sozinha na casa de banho, to assustada que podia jurar ter ouvido o suor a sair-lhe dos poros.
Dois segundos, trs. Nada de grito do Lonnie. Inspirou arrastadamente e expirou lentamente, procurando manter-se calma. - Aqui vamos! - disse numa voz pouco firme. 
- Aposto que te sentes melhor, hein, rapago? Agora, porta-te bem enquanto a mam vai  sanita. Est bem?
Maggie abriu a porta de um dos compartimentos, a tremer to violentamente que no conseguia fazer mais nada para entrar. Virou-se e lutou desesperadamente para fechar 
o trinco. Os dedos tremiam-lhe, moles e sem reaco.
L fora, ouviu o motor de um carro arrancar. Depois de finalmente conseguir trancar a porta, encostou-se, fraca, a ela e fechou os olhos.
Por favor, meu Deus. Faz com que se vo embora em segurana.
- Vais passar a a noite inteira?
Ao ouvir a voz de Lonnie deu um salto. - Acabei de entrar - gritou.
- Bem, despacha-te!
- Tenho estado a despachar-me - respondeu. - Achas que  fcil, conseguir fazer isto com um beb ao colo? Pensa bem. S tenho duas mos.
Ouviu o som de carros a sair da rea de descanso. Mesmo assim, sabia que Jaimie no estava seguro. Se Lonnie se apercebesse de que ela o tinha entregado a um estranho, 
no ia dizer-lhe que fosse atrs dele. O homem no era estpido. Sem Jaimie, a sua mo estava mais fraca. No tinha nada com que a ameaar.
Lgrimas correram pelo rosto de Maggie. Estava ali de p, servindo-se da porta para a sustentar.
Daqui em diante, pensou ela com um alvio estonteante,  entre tu e eu, filho da me.


Captulo Vinte e quatro
- Temos uma pista!
Rafe virou-se da janela por onde estava a olhar para ver o sargento Hall entrar na zona de estar da cozinha, vindo do trio. - Que espcie de pista?


- Uma rapariga telefonou do telemvel para a polcia estadual. Diz que se cruzou com uma jovem numa rea de descanso perto de Jerico que afirmava ter sido raptada. 
Pediu a esta senhora que levasse o beb s escondidas da casa de banho e o entregasse na esquadra de polcia mais prxima. - Hall fez um crculo com o polegar e 
o indicador, tendo-se-lhe aberto a cara rotunda num sorriso. - O seu beb est em segurana e temos aquele filho da me encostado  parede. A localizao dele e 
uma descrio do carro alugado, no caso de arrancar antes de conseguirmos l chegar. No entanto, no  provvel. H polcias a dirigirem-se para ele vindos de todas 
as direces.
Rafe quis gritar. Mas mal a alegria o tinha invadido, j outra onda de medo quase paralisante se apoderava dele. Maggie ainda no estava em segurana, e quando Lonnie 
descobrisse que ela tinha conseguido afastar Jaimie dele, provavelmente ficaria louco.
- Que rea de descanso? - quis saber Rafe. A cidade vizinha de Jerico no era to longe como isso. Podia l chegar em vinte minutos. A mulher estava a norte ou a 
sul de Jerico quando telefonou?
O sargento Hall abanou a cabea. - No posso dar-lhe essa informao, Senhor Kendrick. Iria para l e s atrapalhava. Deixe a polcia fazer o seu trabalho.
Rafe atirou-se ao homem num abrir e fechar de olhos. Agarrou pelo peito da camisa do uniforme e atirou-o contra a porta de correr de vidro. - Oua, seu filho da 
me! Aquela mulher  minha mulher. No  voc nem outra pessoa qualquer que me vai impedir de ir ter com ela. Percebeu?
- Rafe! - Ryan interveio, agarrando os braos do irmo. - Jesus Cristo, perdeste o juzo? No podes andar por a a medir foras com um agente da polcia.
O bom senso voltou. Rafe libertou o homem e ajeitou-lhe a frente da camisa do uniforme.
- Eu... Eu peo desculpa. Eu... perdi a cabea por um segundo.
O sargento Hall deu uma sacudidela ao colarinho da camisa e afastou-se do vidro. 
- Podia met-lo na cadeia. Sabe disso?
Rafe cerrou os dentes, lutando para se controlar.
Hall meteu a camisa para dentro e endireitou o distintivo. 
- Se no fosse o facto de tambm eu ter mulher e filhos em casa e provavelmente reagir da mesma maneira numa situao semelhante, talvez o fizesse!
- Ele pediu desculpa. Est bem? - atalhou Ryan. - Neste momento, est perturbado. No est a pensar com clareza. Seguramente, o senhor consegue entender isso.
Hall disse que sim com a cabea. - Eu percebo que est perturbado. Qualquer pessoa estaria. Mas no posso dizer-lhe em que rea de descanso eles esto.  contra 
os regulamentos. Se ele l fosse e provocasse uma desordem, e as coisas acabassem com ele morto ou com a morte de algum, seria eu a pagar.
- Ns entendemos - assegurou-lhe Ryan. - Eu, pelo menos. E mais tarde, quando o meu irmo se acalmar, tambm ele entender.
Hall esfregou o cachao. - Vou-lhe dizer o que vou fazer por si, Senhor Kendrick. Vou l para fora e fico ao p dos veculos da polcia. Olhou Rafe directamente 
nos olhos brilhantes. - Aqueles diabos daqueles rdios falam to alto que se pode ouvir tudo o que vem pelo ar a vrios metros de distncia. - Sorriu ligeiramente 
e arqueou uma sobrancelha. - Fico de ouvido  escuta e mantenho-o informado...
Rafe passou por ele, empurrando-o. - Obrigado, Hall. Fico em dvida para consigo, companheiro.
O sargento inclinou-se de fora da porta de correr de vidro. - Eu no disse nem uma palavra acerca daqueles rdios. Entendido?
Rafe nunca parou. - Entendido.
Menos de trs minutos depois, Rafe j tinha ouvido o quilmetro em que se localizava a rea de descanso e estava ao volante da pickup de Ryan. Era tal a sua pressa 
de chegar  estrada que deixou borracha agarrada  gravilha e projectou pedrinhas contra os carros da polcia.
- No nos mates para l chegarmos - avisou Ryan, com uma mo agarrada ao tablier. - Estaremos l em quinze minutos se no tiveres antes disso um desastre.
Rafe carregou nos traves. - Cinco minutos, no mximo. Se no ests para isso, sai j, Ryan.
- Cinco? Santo Deus. - Ryan agarrou-se com ambas as mos ao tablier. - Vou contigo. Fora nisso.
Foi o que Rafe fez, fazendo gemer as mudanas e largando borracha no cho quando engrenou em quarta e depois carregou a fundo no acelerador. - Pe o cinto de segurana 
e agarra-te.



Lonnie deu um pontap na porta de metal, fazendo abanar toda a casa de banho com a fora do impacto. Encolhida no compartimento, Maggie viu as botas dele, afastadas, 
por debaixo da divisria, lembrando-se de como ele a tinha agredido com aquelas biqueiras com protectores de ao na manh em que lhe batera. O suor escorria-lhe 
em bica pela cara, passava da para a garganta e juntava-se no rego dos seios. Tinha sido aterrorizada por aquele homem centenas de vezes nos ltimos sete anos, 
mas nunca tanto como agora.
- Lonnie, por amor de Deus - disse ela, mal conseguindo manter a voz firme. - Estou pronta num minuto. Espera por ns l fora.
- Abre essa porta j e sai da para fora - ordenou ele. Maggie resmungou.
- Ainda no acabei. No posso.
- No me digas o que podes ou no podes...
- Oh! - ouviu-se dizer uma voz profunda de mulher. - Desculpe. Pensava que estava na... Estou na casa de banho das senhoras.
- Desculpe - disse Lonnie. -  a minha mulher. Est maldisposta. No estava mais ningum aqui dentro e resolvi vir ver como ela estava.
Maggie voltou a resmungar. Quase conseguia sentir a ira de Lonnie a irradiar atravs da porta de metal. No conseguiria mant-lo afastado por muito mais tempo. S 
podia rezar para que a polcia chegasse depressa.
- Oh - ouviu ela a mulher dizer. - Quer que eu espere l fora um segundo?
- Ests bem, querida? - perguntou Lonnie.
- Estou - respondeu Maggie. - Saio logo que possa. Desculpa fazer-te esperar assim, mas no posso evitar.
Viu as botas de Lonnie afastarem-se. Quando aquele detestado calado desapareceu da vista, ficou sem foras, de alvio, e deixou cair a cabea.
A porta do compartimento a seguir abriu-se e fechou-se. Inclinou-se e olhou para os tnis manchados da outra mulher. Pensou em no dizer nada, com receio de que 
Lonnie pudesse andar perto da porta e conseguisse ouvi-la. Mas no queria pr mais ningum em perigo.
Num sussurro, disse: - Aquele homem que acabou de sair  louco e perigoso. Por favor, no fique aqui na casa de banho. V-se embora daqui. Se ele perder as estribeiras 
e ainda aqui estiver, receio que se magoe.
A mulher suspirou. Um segundo depois, Maggie ouviu a urina a correr. - Alguma vez perguntou a si mesma por que razo os homens ficam to desagradveis quando esto 
em viagem? So piores do que crianas.
Embaraada, Maggie olhou para o sapato da mulher. Em viagem? - No! - sussurrou com ar aflito. - No est a entender. Ele...
- Oh, eu entendo. - A mulher ria-se baixinho. - Pensa que estou junta com o Prncipe Encantado? Se o Pete voltar a gritar comigo por ter que parar para urinar, meto-lhe 
o isqueiro quente pelo cu acima. Constantemente a fumar. Acredita? Mal consigo respirar sem a janela aberta e est um frio de gelo. Acredita que ele conta os carros 
que j ultrapassou enquanto eu estou na casa de banho? Esto todos outra vez  frente dele, diz-me. Como se estivssemos nalguma corrida.
Maggie sentia-se como se estivesse presa num sonho amalucado. 
- No, no est a entender, minha senhora. Ele raptou-me! Tem uma arma. A polcia talvez esteja a caminho. Se ouvir sirenes ou vir carros da polcia, passa-se. Receio 
que me mate.
Longo silncio. Depois: - Est a falar a srio?
Maggie resmungou em voz alta, para o caso de Lonnie estar a ouvir.
- Raptou-me  mo armada.. J alvejou uma mulher esta noite. Claro que estou a falar a srio. Saia daqui, por favor.
Ouviu a mulher pr-se em p. - Oh, meu Deus - sussurrou ela. - Acabei de fazer chichi na perna das calas. - Maggie ouviu-a correr o fecho clair. - Oh, Me Santssima. 
Ele tem uma arma? H seis anos que no cumpro os meus deveres pascais.
Maggie olhava para o charco que alastrava no cho do compartimento contguo. Resmungou outra vez, a pensar em Lonnie. 
- Ele  louco! No quero que mais ningum se magoe. Quer sair daqui?
A mulher fez um pequeno rudo estranho. No instante seguinte, ouviram abrir-se outra vez a porta da casa de banho. Receosas de que fosse Lonnie a voltar, ambas pararam 
de falar e puseram-se  escuta.
Oh, meu Deus, oh, meu Deus. Maggie susteve a respirao, rezando inconscientemente. Lonnie alvejaria aquela mulher se ela se lhe atravessasse no caminho, como tinha 
feito  Becca.


A porta do compartimento  direita de Maggie abriu-se e fechou-se. Viu uma mulher de botas de marcha com renda vermelha. No era Lonnie. Depois de recuperar o suficiente 
para voltar a ter voz, inclinou-se e disse:
- Minha senhora, no use a casa de banho. D meia-volta e saia daqui. Est l fora um homem. Tem uma arma. A sua vida pode estar em perigo.
- Isto  uma brincadeira, no ? - sussurrou a recm-chegada. Estou nos Apanhados, ou coisa parecida?
Apanhados? Maggie aceitou naquele momento que a situao era to bizarra que se tornava inacreditvel. Nenhuma daquelas mulheres estava a lev-la a srio, uma dela 
preocupada com os seus deveres pascais e a outra a pensar que havia uma cmara oculta no seu compartimento da casa de banho.
No adiantava. A rea de descanso atraa uma corrente contnua de visitantes. Independentemente do que fizesse, algum teria de estar ali com ela quando Lonnie percebesse 
que tinha sido ludibriado. Melhor que fossem aquelas duas mulheres do que
algum com crianas pequenas.
Maggie ps-se em p, abriu o trinco e saiu do compartimento. Tinha de fazer alguma coisa. Mas o qu? Olhou para a porta. No tinha trinco. Se ao menos conseguisse 
pensar nalgum modo de impedir Lonnie de entrar at a polcia chegar... Sabia que no era suficientemente forte para manter a porta fechada sozinha se Lonnie se decidisse 
a entrar, e no havia nada na casa de banho para se barricarem. O receptculo do lixo virava-se logo.
Aproximou-se dos compartimentos. - Depressa. Vocs as duas. Se alguma de ns tem que passar por isto, vou precisar da vossa ajuda e  melhor apressarem-se antes 
que seja tarde de mais.
Ambas as mulheres saram dos respectivos compartimentos quase ao mesmo tempo; a mulher da voz profunda e de tnis era uma pessoa corpulenta, de ombros largos; a 
dona das botas de marcha era uma loura magra e de face plida. Maggie olhou ambas nos olhos.
- Aquele homem que ali est fora j assassinou esta noite uma mulher e ns trs seremos as prximas a menos que vocs me ajudem. Entendem? Isto no  uma brincadeira. 
Ele tem uma arma. Temos que manter a porta fechada para o manter l fora porque ele no hesitar em alvejar-nos a todas.  to louco como isso.
- A minha me e as crianas esto  minha espera l fora! - chorou-se a loura.
Maggie ouviu traves a chiar. Embora no conseguisse ver l para fora, todos os seus instintos lhe diziam que um carro normal de passageiros no entrava no parque 
de estacionamento de uma rea de descanso a uma velocidade to alta. Rodopiou, com o corao a bater. Com trs passos de corrida, chegou  porta e atirou o seu peso 
contra ela. Olhando para trs, para as outras mulheres, gritou: - Provavelmente,  a polcia! Ajudem-me, que diabo! No...
- Minha cabra - gritou Lonnie de l de fora. No instante seguinte, tentou abrir a porta.
Maggie fez fora mas os tnis escorregavam nos azulejos. 
- Ajudem-me! - gritou. - No fiquem a a olhar. Ele mata-nos!
O som de pneus a chiar repetiu-se. Maggie ouviu tiros e gritos de alarme.
- Pra, Boyle! - gritou um homem.
Uma mulher deu um grito. Ouviu-se um som alto de embate, como se algum tivesse colidido com uma lata do lixo. As outras duas mulheres correram em auxlio de Maggie, 
a loura a chorar-se: - Oh, meu Deus!
No instante seguinte, o som ensurdecedor de um tiroteio irrompeu na noite. Maggie ouviu pessoas a correr, a falar alto, e gritaria. A detonao de uma das pistolas 
era to alta que sabia que era a de Lonnie.
A tremer, encostou-se  porta com toda a fora, grata por ter a mulher corpulenta ao seu lado. A loura era de constituio to fraca e estava to assustada que no 
foi grande ajuda.
A qualquer momento, Maggie esperava que Lonnie abrisse fogo contra a porta. As balas penetrariam na madeira. Ela ou uma das suas companheiras podiam ser mortas. 
A cada detonao de uma arma, encolhia-se,  espera de que lhe entrasse chumbo no corpo.
Rafe parou a pickup fazendo chiar os traves e desligou o motor; depois, abriu a porta e saltou do carro. Maggie. Era um cenrio sado do seu pior pesadelo, com 
a rea de descanso cheia de gente que fugia para salvar a vida. Lonnie Boyle estava agachado atrs de um bebedouro de pedra em frente do edifcio das casas de banho, 
disparando contra os agentes da polcia. Nenhum dos homens da Lei conseguia uma linha de tiro suficientemente boa para abater o homem.
Maggie. Onde, diabo, estaria ela? Rafe perscrutou a multido, procurando-a freneticamente. No a viu em parte nenhuma. Baixando-se, correu para o carro da polcia 
mais prximo, usando veculos estacionados ao longo do passeio como cobertura.
- Sou Rafe Kendrick - disse ele quando contornou o pra-choques traseiro do carro. - Foi a minha mulher que Boyle raptou. Onde est ela? Est em segurana? No a 
vejo!
Agachado atrs da porta aberta do carro, o polcia olhou para trs por cima do ombro. 
- Voc  doido, homem? Ponha-se atrs do carro.
- Onde est a minha mulher?
O agente praguejou em surdina. - Na casa de banho das mulheres, julgamos ns.
- Est bem?
- No sabemos!
Uma bala atingiu o pra-choques da frente do carro da polcia, que estava estacionado ligeiramente na diagonal para proporcionar a mxima cobertura. O polcia estadual 
encolheu-se e baixou-se. - Que diabo. Temos que o fazer sair. Ainda mata algum.
Agachado, Rafe voltou pelo mesmo caminho para a pickup de Ryan. O irmo estava agachado no lado mais distante do veculo, a ver o que se passava e, ao mesmo tempo, 
a proteger-se do tiroteio o melhor que podia. - Onde est ela? - perguntou quando viu Rafe.
- Na casa de banho, acham eles. - Rafe agachou-se junto ao irmo para fazer o reconhecimento do que os rodeava. Tal como a maioria das reas de descanso do Oregon, 
os relvados eram orlados de rvores e mato. - Vou dar a volta e aparecer por trs dele.  s uma questo de tempo at ele decidir assaltar a casa de banho.
- Vais o qu? - Ryan agarrou o brao de Rafe. - No podes fazer isso. Ests doido? O filho de me atira sobre ti. - Deu uma gargalhada trmula. - De maneira nenhuma, 
mano. Nem sequer tens uma pistola.
- Eu vou. Se ela ainda estiver viva, no ser por muito tempo, se ele l entrar. Se alguma coisa lhe acontecer... - Rafe interrompeu-se e engoliu em seco. Olhou 
o irmo nos olhos.  luz que vinha do posto de iluminao pblica, Ryan parecia plido e abatido, os olhos a brilhar com um misto de ira e medo. - Tenho que fazer 
isto.
- Ento, vou contigo.
- No. - Rafe soltou o brao da mo do irmo. - H o Jaimie e a Heidi, Ryan. Se acontecer alguma coisa, conto contigo.
Ryan olhou para ele durante um longo momento. Depois, finalmente, disse que sim com a cabea. No eram necessrias mais palavras. Usando os veculos estacionados 
como cobertura, Rafe saiu da carrinha e correu agachado para a entrada sul da rea de descanso. Dali, seria capaz de entrar no bosque sem ser visto, contornar por 
trs e aproximar-se do edifcio das casas de banho por trs. 
Com um pouco de sorte, Lonnie estaria to preocupado a responder ao fogo dos polcias que Rafe poderia apanh-lo de surpresa. Com um pouco de sorte. As palavras 
tornaram-se uma litania na mente de Rafe quando atravessou os bosques a correr, grato a cada passo que dava por conseguir ver melhor do que a maioria das pessoas 
no escuro. Nuns stios, caiu na neve alta e escorregou para a frente no gelo. Mal deu pelo impacto. Maggie. Continuava a ver o seu doce rosto e os seus olhos expressivos, 
o modo como a boca curvava quando sorria. Amava-a. Muito.
No podia deixar que lhe acontecesse fosse o que fosse. Pura e simplesmente, no podia. Sem ela, no valeria a pena viver a sua prpria vida.
Quando Rafe chegou s traseiras da casa de banho, encostou-se aos blocos de cimento e ps-se a escutar o tiroteio. Merda. Quando sasse dali, as balas de Lonnie 
no seriam o nico factor de risco. E se um dos polcias o alvejasse acidentalmente?
Por uma fraco de segundo, Rafe esteve ali, a medir as probabilidades, que no eram boas. Depois, decidiu que no se importava. Tinha perdido uma famlia. Sabia 
o que se sentia depois... a dor que era to profunda que ns prprios queramos morrer, a sensao de desespero, sem fim  vista. No podia passar por isso outra 
vez. Era melhor morrer a tentar salv-la do que viver sem ela.
Rafe saiu de junto da parede, deu a volta  esquina e correu agachado ao longo do edifcio. O som do tiroteio pareceu, de repente, ter ficado em surdina, como se 
viesse de uma grande distncia. O bater do corao tamborilava-lhe nas tmporas.
Quando chegou  esquina da frente do edifcio, em vez de abrandar, acelerou, dirigindo-se directamente para o bebedouro de pedra quando entrou em campo aberto. Correr, 
correr. Era como se estivesse a lutar contra o vento de frente: cada segundo era uma eternidade. Uma ira em ebulio limitava a viso de Rafe. Concentrou-se na figura 
miservel e cobarde de Boyle, agachado atrs da base larga e afunilada do bebedouro de pedra e argamassa que utilizava como escudo contra as balas.
Imediatamente antes de Rafe o alcanar, o outro homem tentou engan-lo, os olhos abertos de terror. Rafe viu-o levantar a pistola. Ficou tenso,  espera de que a 
bala o atingisse quando saltasse. No instante seguinte, o seu corpo caiu em cima do de Boyle e os dois rolaram no cimento.
Normalmente, Rafe teria tentado sair por cima. Mas desta vez, no. Boyle podia ter essa honra. Quando pararam de rolar, Rafe empurrou com fora os ombros do outro 
homem, levantando-o e afastando-o do seu corpo, na esperana de dar um bom alvo  polcia.
A ira contorceu as feies de Boyle. - Filho da me! - gritou.
Rafe sentiu a boca da arma de Boyle encostada s costelas. Ficou tenso,  espera que o homem puxasse o gatilho. Antes que Boyle conseguisse, a detonao ensurdecedora 
de uma espingarda de alta potncia rasgou o ar.
Boyle deu um salto e, mesmo  luz fantasmagrica, Rafe viu a expresso atnita e incrdula que lhe cruzou o rosto imediatamente antes de se relaxar. Rafe empurrou 
o peso morto e rolou na direco oposta, tentando desenvencilhar as pernas das do morto. Quando finalmente conseguiu libertar-se, s ali ficou deitado ao lado dele 
um momento, sentindo-se estranhamente fora da realidade.
Acabou-se. Acabou-se, pensou Rafe. Tinha cumprido a sua promessa. Lonnie Boyle no voltaria a pr uma mo em cima de Maggie. Rezou a Deus para que no fosse tarde 
de mais.
Essa ideia acordou Rafe do seu transe que quase parecia pasmo. Mexeu-se, apoiou-se num cotovelo e virou-se para se pr de joelhos, dirigindo o olhar para a porta 
da casa de banho das senhoras. Apenas vagamente consciente dos polcias que enxameavam a relva e vinham em direco a ele, Rafe ps-se em p com uma ideia a repetir-se-lhe 
na mente: No permitas que esteja morta. Por favor, no permitas que esteja morta.
No sentia os ps quando se encaminhou para a porta, nem conseguiu sentir a madeira quando a empurrou com a palma da mo. - Maggie?
Quando Rafe empurrou, a porta no se abriu. Empurrou com um pouco mais de fora e a voz rouca de medo quando voltou a chamar.
- Maggie!
Ainda com o seu peso contra a porta, Maggie no reconheceu imediatamente a voz de Rafe. Lonnie, pensou ela. Depois, percebeu. No era Lonnie.
Soluou e deitou a mo ao manpulo da porta. Mas as duas mulheres que tinha ao seu lado continuavam a empurrar com toda a fora para manter a porta fechada.
- Est tudo bem - gritou ela. - Est tudo bem!  o meu marido. A mulher maior pareceu finalmente registar o que Maggie estava a dizer. Recuou. A loura soluou e 
tambm parou de empurrar. Maggie abriu a porta, viu cambraia azul e ganga e atirou-se para a mancha, confiante de que braos fortes haviam de a agarrar.
Rafe saltou de alegria quando a agarrou num intenso abrao. Maggie. Oh, meu Deus, Maggie.
Estava a tremer. A tremer horrivelmente. Ou era ela? Maggie no tinha a certeza. No interessava. Era a sensao mais maravilhosa, t-lo a abra-la. Sentia-o to 
grande, slido e seguro...
- Joguei no time dele. No o deixei fanfarronar comigo. Levei o Jaimie comigo para a casa de banho. - Maggie percebeu que estava a falar de mais e tentou parar de 
falar, mas parecia que no conseguia abafar as palavras. - Uma senhora cobriu-o com o casaco dela e levou-o daqui s escondidas. Eu fiz isso, Rafe. Enfrentei-o e 
funcionou.
Ps-lhe uma grande mo atrs da cabea e encostou-lhe a face ao espao do ombro. Maggie ouviu um homem dizer com uma voz furiosa: - O senhor  louco? Quase lhe dei 
um tiro! Tem vontade de morrer, ou qualquer coisa assim?
Maggie tentou afastar-se de Rafe, mas ele retesou os braos para lhe manter o rosto encostado ao ombro. - No, querida. No olhes.
Quando Rafe comeou a encaminh-la, Maggie disse: - No olho para qu?
- Lonnie. Deram-lhe um tiro. Est morto.
Maggie riu-se, com uma gargalhada sonora que at a ela pareceu um pouco histrica. Morto? Claro que estava morto. De outro modo, o tiroteio no teria parado.
Quando Rafe a levou atravs da relva para a rea de estacionamento, um agente da polcia fardado correu em direco a eles. Rafe parou.
- Ol, Sargento Hall. Gosto de o ver aqui.
- Aquilo foi uma proeza completamente louca. Tem sorte por nenhum atirador especial o ter matado!
Rafe relaxou o brao que tinha  volta da cintura de Maggie, permitindo-lhe que se afastasse um pouco dele. - Tudo est bem quando acaba bem.
Pela primeira vez, Maggie olhou realmente para Rafe.  luz branco-azulada, viu-lhe manchas na camisa. O corao apertou-se-lhe quando percebeu que estava coberto 
de sangue. - Oh, meu Deus. Ests ferido!
Rafe olhou para baixo, tocou numa das manchas e depois abanou a cabea. - No, querida. No sou eu. O sangue  do Lonnie. - Disparou um daqueles sorrisos marotos 
de que ela tanto gostava, cruzando o olhar com o do agente da polcia. - Tal como disse l em casa, Hall, estou em dvida para consigo. Obrigado.
- Quase o matei - disse o polcia. - No  nada menos do que um milagre o facto de no estar morto.
- Sim, bem - disse Rafe baixinho -, mais ou menos por esta altura estava  espera de um milagre.
Contornou o polcia com Maggie, apertando-a contra si, a sua coxa a bater na anca dela. Ela inclinou-se ligeiramente para a frente para lhe espreitar para o rosto 
moreno.
- Rafe, como  que ficaste com a camisa cheia de sangue do Lonnie?
- No interessa. O que interessa  que tu ests em segurana. Concedeu-lhe outro daqueles sorrisos fantsticos que sempre a aqueciam por dentro e por fora. - Portanto, 
jogaste no bluff dele, no foi? Conta-me l.
Maggie procurou o olhar dele. - O que  que fizeste?
- Nada de especial. - Empurrou-a com o brao. - Estou to orgulhoso de ti, Maggie. Tirar o Jaimie dali. Manter a cabea fria. s realmente especial, sabes?
Maggie tinha a sensao de que ele  que era especial mas, como era normal nele, no falava.
- Tu salvaste-me - disse ela de modo acusador. - Eu sei que sim. Fizeste uma loucura qualquer. Qual?
Ele riu-se.
- No fiz loucura nenhuma, juro. - Inclinou-se para a beijar na face. - O filho da me magoou-te?
Maggie abanou a cabea. - Entrei aqui antes que ele tivesse oportunidade para isso.
Ryan veio ter com eles a correr atravessando a relva. Quando chegou ao p deles, disse: - Meu Deus, Rafe. Foi bom!
Maggie fincou os calcanhares para parar. - A est! Quero ouvir isso. O que  que ele fez, Ryan?
Ryan lanou-se num relato do que ocorrera enquanto Maggie estava a segurar a porta da casa de banho e no podia ver o que se passava. Quando soube como o marido 
tinha corrido pela linha de fogo para atacar Lonnie por trs, sentiu-se como se fosse desmaiar.
- Nada de especial, disseste tu.  a isso que chamas nada de especial? Podias ter sido morto. Como  que pudeste fazer uma coisa to estpida?
Rafe largou quando chegaram ao p da carrinha. Quando desabotoou a camisa, a despiu e atirou para trs, Maggie percorreu-o com o olhar, pensando que nunca tinha 
visto ningum to bonito. Quase se assustava de morte ao pensar em como tinha estado perto de o perder. Tambm a fazia sentir-se como se o corao estivesse a partir-se, 
pois o que ele fizera testemunhava o muito que a amava.
Tanto que daria a vida por ela.
Quando se virou para ela, a parte superior do corpo de bronze brilhava como teca laada  luz fraca, o jogo de msculos dos seus ombros e peito a tentarem-na a tocar-lhe. 
O olhar subiu lentamente para o rosto moreno.
O cabelo caa-lhe sobre a testa alta em ondas desgrenhadas e rebeldes de bano cintilante. O brilho prateado dos seus olhos parecia queimar dentro dos dela, fazendo-lhe 
lembrar a noite em que o conhecera. O seu olhar azul-metlico tinha-a prendido tambm nessa altura, mas agora a sua intensidade escaldante envolvia-a com calor.
Lembrou-se de que outrora desejara que ele fosse um sapo que se transformasse magicamente num belo prncipe que a salvaria a ela e ao Jaimie. Muitas vezes, desde 
ento, perguntara a si mesma se ele no seria um anjo vingador, enviado por Deus em resposta s suas preces.
No era nada disso, embora ele acreditasse para sempre que Deus o guiara at ela. No era um prncipe, nem um anjo vingador. Rafe Kendrick era apenas um homem de 
carne e osso - um vaqueiro do vago com jeans "Wrangler" e botas de montar.
Quando caiu no abrao que a esperava, Maggie beijou-lhe o ombro, provou o sal da sua pele e exultou com o seu corpo rijo e robusto todo encostado a ela. Sentia-o 
to real, to slido e to resistente como a terra aquecida pelo sol.
Ainda melhor, era todo seu.
Como poderia haver alguma coisa mais mgica do que aquilo?

Eplogo
A luz do Sol reflectia-se na gua, fazendo o calmo lago parecer uma manta escura de veludo salpicada de diamantes. Inclinando a cabea para trs, Maggie inspirou 
o ar fresco da montanha, com o olhar fixado nos picos cobertos de neve que circundavam a pequena bacia. Tinha acabado por amar aquele local, tal como Rafe lhe tinha 
prometido uma vez. Agora, era a sua casa, um mundo perfeito onde estavam todos aqueles que mais amava... o marido e o filho... a me e a irm... e tambm toda a 
famlia de Rafe.
Como  que algum podia ser to feliz? Maggie no sabia, mas finalmente tinha acabado por acreditar que esta ia ser a sua realidade dali em diante. Alguma magia 
no desaparecia num rolo de fumo... Era slida e resistente... e dela.
Um grito distante chamou-lhe a ateno. Olhou e viu Heidi e Rafe emergindo das rvores, a cavalo. A irmzinha vinha a rir-se alegremente, montada num alazo delicado 
e bem treinado, escolhido por Rafe para garantir a segurana da criana enquanto aprendia a montar. Heidi estava claramente no seu elemento, sendo a sua postura 
erecta mas graciosa na sela uma promessa da ptima cavaleira que estava destinada a ser.
Maggie sorriu e concentrou-se no marido. Ele levantou a mo e acenou.
Mesmo  distncia, conseguia ver o amor brilhar-lhe nos olhos e isso envolvia-a em calor. Oh, como o adorava...
Lgrimas de alegria fizeram-lhe arder os olhos quando o viu cavalgar em direco a ela. Vinha montado no Flash Dancer, o magnfico garanho que outrora odiara com 
tanta virulncia que tinha ameaado mat-lo, e sentado  frente dele na sela vinha Jaimie, que acabava de fazer nove meses.
Naquele momento, Maggie recordou-se do retrato de Rafe e Keefer que tinha visto no hangar do avio naquele dia distante em que chegara ao rancho. O tempo e muito 
amor tinham feito voltar o marido ao que era dantes, pensou ela. J no existia o homem desolado, torturado que tinha conhecido num vago. Tinha ganho peso, cada 
grama bem musculado.
Mesmo quando estava a olhar para ele, o vento encrespava-lhe o cabelo e o seu riso era-lhe trazido pela brisa. Parecia outra vez jovem e muito feliz. Maravilhava-a 
saber que a sua presena na vida dele tinha provocado a transformao.
Quando se aproximou, Maggie notou o modo cuidadoso como segurava Jaimie, uma grande mo aberta sobre a barriga rechonchuda do beb para o impedir de cair. Ela sorriu 
outra vez, recordando-se de como outrora se preocupara por Jaimie andar perto de cavalos. No h problemas. Rafe daria a vida antes de permitir que alguma coisa 
acontecesse ao filho.
-  a tua vez, meu anjo - chamou ele.
Maggie rolou os olhos. - De maneira nenhuma! No partilho a vossa loucura. Estou perfeitamente contente aqui no cho, muito obrigada.
- Ora, anda l, Maggie! - pediu Heidi. - Consegues montar  frente do Rafe. Ele no te deixa cair. Eu fico aqui e ajudo a tomar conta do beb!
- Ajudas quem a tomar conta dele? Sou a nica pessoa que aqui est. No obrigada, meus docinhos. Fico quietinha e deixo o divertimento todo para vocs os trs.
- Eu tomo conta dele por um bocado! - disse uma voz atrs dela.
Maggie olhou por cima do ombro e viu Becca a descer tranquilamente a encosta. Trazia um cesto de verga e Maggie gostou de ver que carregava o peso com o brao direito, 
mais um sinal de que estava quase completamente recuperada do tiro que levara no ombro.


Helen, a me de Maggie, vinha atrs da governanta, o cabelo moreno a cair em madeixas de seda ao vento e o vestido azul justo a moldar o corpo esbelto. - Eu tambm 
posso ajudar a tomar conta dele! - disse ela. - Vai l montar, Maggie. O Rafe no deixa que te acontea nada. - Dirigiu um olhar de adorao ao genro. - Pois no, 
Rafe?
Rafe piscou o olho. - Nunca. Amo-a demasiado para a deixar magoar-se. - Voltou a olhar para Maggie. -  uma questo de confiana. Toda a gente tem f em mim. Tu, 
no?
- O que  isto? Uma conspirao contra mim? - disse Maggie, com uma gargalhada.
Becca sorriu. - Pode crer. Uma pessoa no pode viver neste rancho em paz enquanto no montar um cavalo. Onde  que est a sua coragem?
- Deixei-a em casa.
Becca pousou o cesto e foi buscar o beb a Rafe. O Flash Dancer resfolegou quando ela se aproximou mas, apesar da sua evidente ateno ao avental branco da governanta 
que se agitava, o garanho manteve-se firme. Maggie suspeitava de que o animal sentia que transportava um cavaleiro que no estava  vontade, pois normalmente o 
cavalo fazia jus ao nome, empinando-se orgulhosamente e avanando a cabea para toda a gente como se soubesse como era belo e quisesse mostrar-se.
Claro que no instante em que Becca ficou com Jaimie em segurana nos braos, o garanho deu um passo para o lado, de cauda erguida, o corpo magnfico a agitar-se 
como cereja envernizada ao sol.
- Nada de desculpas - disse Ryan, acompanhando facilmente os movimentos da montada enquanto lhe estendia uma grande mo aberta. - Anda montar comigo, Maggie.
O brilho quente dos seus olhos dizia a Maggie que ele tinha mais do que uma pequena volta em mente. O bater do corao acelerou-se. Seguramente, no tencionava fazer 
amor com ela no meio dos bosques em plena luz do dia! Tencionava. A sua boca firme abriu-se num sorriso provocante e o olhar deslocou-se lentamente em cima dela 
com uma intensidade escaldante.
Como uma marioneta controlada por cordis invisveis, Maggie sentiu-se levantar-se da manta e encaminhar-se para ele. Por mais que tivesse medo de cavalos, por uma 
viagem ao cu valia a pena morrer...
Pegou na mo do marido e depois, seguindo as suas instrues, ps o p esquerdo no estribo vago. Ele fez o resto, iando-a com a fora brutal que se tinha tornado 
sua proteco e sensao constante de segurana.
Aps alguns movimentos e encontres de fazer parar a respirao, Maggie conseguiu sentar-se na sela  frente do marido.
- Oh, meu Deus! - O cho parecia a quilmetros de distncia e o Flash Dancer estava a projectar a cabea, os olhos castanhos orlados de branco quando olhava para 
ela. - Ele odeia-me!
Rafe riu-se, com um som que parecia um trovo a ribombar baixinho e vibrava no corpo dela quando ele lhe passou um brao musculoso  volta da cintura e a encostou 
a ele. 
- Est assustado, Maggie. Ele cheira o teu medo e est a perguntar a si mesmo onde est a ameaa,  tudo.
- Quero sair - gritou Maggie, agarrando-se  crina do garanho com os punhos cerrados. - Eu sabia que isto no era para mim. Oh, meu Deus, vou morrer. Ele vai cair 
e aterrar em cima de ns.
Rafe puxou as rdeas com fora, virando o cavalo para o bosque. Ests perfeitamente segura. Confia em mim.
- Eu confio em ti.  com o cavalo que tenho problemas... Oh, meu Deus! No vs depressa.
Se Rafe ouviu as insistentes objeces dela, no deu indicao disso.
Inclinando-se ligeiramente para a frente, o peito duro encostado s costas dela como uma parede imvel de tijolo, estalou a lngua, bateu nos flancos do Flash Dancer 
e incitou o cavalo a aumentar a velocidade.
- Oh, meu Deus! - Maggie fechou os olhos. - O meu rabo. Estou a magoar-me.
Rafe agarrou-a com mais fora. - Pe os ps em cima das minhas botas e apoia-te um bocadinho para no saltares.
Maggie fez o que ele disse e, no instante seguinte, sentiu-se como se estivesse a flutuar. Rafe seguiu pela margem do lago durante algum tempo, abrandando o cavalo 
de um passo de corrida para um trote quando viraram para a floresta.
- Aonde  que vais? - perguntou Maggie.
- A um local privado.
Ela riu-se, j no sentindo medo. O Flash Dancer movia-se com fora fluida e a graa de um passo seguro. - Ests com pouca sorte. A minha rata nunca mais vai ser 
a mesma. Durante uma semana no vais poder tocar-me!
- Isso dizes tu. Com os meus beijos passam as dores todas.
- Isso  uma ameaa ou uma promessa?

A nica resposta de Rafe foi uma gargalhada maliciosa. Abrandou o cavalo para um passo de passeio e comeou a mordiscar-lhe a orelha. Como sempre que pensava em 
seduzi-la, o sangue de Maggie comeou a aquecer. Quando sentiu a mo dele a deslocar-se da cintura para o peito, parou a respirao e encostou-se mais a ele. Isso 
trouxe uma perspectiva completamente nova ao montar a cavalo.
- No podemos fazer isto - protestou sem grande veemncia. Estamos em pleno dia.
- Magia, querida. Anda comigo e prometo-te que ser pura magia. Rendendo-se  sensao de ser incendiada pelo toque dele, Maggie limitou-se a gemer.
Ele parou o cavalo numa mata  sombra, longe de olhos indiscretos. Quando desmontou e tirou Maggie da sela para os seus fortes braos, ela foi de boa vontade, as 
suas reservas anuladas pela embriaguez dos beijos dele.
Afinal, tinha-lhe prometido magia.
E Rafe Kendrick era um homem de palavra...

Fim
